Segunda-Feira, 21 de Abril de 2014
 
PÁROCOS - 1900...

Domingo da Ressurreição – Ano A

 

 

Breve comentário

            O evangelista João escreve para um grupo de pessoas que, na sua maior parte, não teve qualquer contacto pessoal com a figura do Jesus histórico. A sua relação com Jesus ressuscitado baseava-se no contacto íntimo que a fé proporciona. Por isso, S. João começa por acentuar alguns aspectos de encontro físico com a realidade do túmulo vazio, apresentando experiências concretas.

            Maria Madalena vai ao túmulo «de madrugada», quando já começa a haver alguma luz, o que não se parece conciliar com a referência «quando ainda estava escuro». Ela dirige-se ao túmulo ainda possuída pela ideia da morte, em «trevas», e não dá conta que o «dia» já começou. É o primeiro dia: começou uma nova criação!

Maria Madalena fica consternada perante a pedra removida. A palavra usada por João significa sobretudo um mausoléu. Isso indica que o túmulo de Jesus era especial. Havia duas classes de sepulcros a que podemos chamar covas ou cavernas: as mais comuns eram poços de tipo vertical. Sobre a cavidade, como tampa do poço, havia uma pedra ou lousa que cobria o buraco impedindo que as feras de chegarem ao cadáver. Já as covas de tipo horizontal eram sepulcros escavados ao nível do chão com uma abertura de aproximadamente um metro de diâmetro de modo que um adulto tinha de baixar-se para conseguir entrar. Uma pedra, que naguns casos era uma roda deslizante sobre um carril escavado, tapava a entrada. Este parece ser o túmulo que quase todos os evangelistas chamam sepulcro novo, escavado na rocha, no qual José de Arimateia colocou o corpo de Jesus.

Conclui, imediatamente, que o Senhor não se encontra no túmulo! Alguém o deve ter levado. É isto que ela vai comunicar a Pedro e ao «outro discípulo que Jesus amava». Sente-se perdida sem Jesus. Há uma atitude de procura, mas busca um Senhor morto.

O evangelista refere a pressa com que os dois discípulos se dirigem ao sepulcro: vão a correr, mas o outro discípulo chega em primeiro lugar. Apesar disso, deixa que Pedro entre em primeiro lugar, mantendo a precedência habitual em relação aos outros discípulos.

            Pedro analisa o estado das coisas: «vê os panos de linho por terra e o sudário que cobrira a cabeça de Jesus. O sudário não estava com os panos de linho no chão, mas enrolado num lugar à parte». Isto é sinal evidente que o cadáver não foi roubado, pois quem o roubasse não se daria ao trabalho de deixar tudo em ordem.

Mas Pedro não manifesta qualquer reacção. Será o discípulo que chegou em primeiro lugar ao túmulo que, entrando e vendo, acredita. Aquele discípulo, que está em sintonia com Jesus, a Vida, compreende os sinais da morte e do amor de Jesus. Parte dos sinais para chegar à fé no encontro pessoal com o Ressuscitado. Reconhece o mistério da presença por meio da ausência.

            A experiência do ressuscitado tem dois aspectos: negativo e positivo. É, em primeiro lugar, a experiência da ausência que, todavia, se descobre como sinal de vida. Em segundo lugar, reconhece e experimenta a vida anunciada. Jesus morreu, mas não é cadáver e está vivo e presente. É inútil buscá-lo no sepulcro, ele não está ali. O sepulcro é passado que remete para o presente. Será a reflexão posterior dos acontecimentos vistos à luz das Escrituras que irá ajudar a compreender o sentido da Ressurreição.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

Domingo de Ramos e da Paixão – Ano A

 

Breve comentário

Com esta narração estamos na parte central e certamente mais antiga do anúncio primitivo, que podemos definir como o cume do drama da redenção.

A narração, descritivamente pobre, é, no entanto, densa de conteúdo doutrinal. Verificam-se duas tendências dominantes: a histórica, que procura confirmar a veracidade dos factos, e a teológica, empenhada em apresentar a morte de Cristo, não como simples facto de crónica, mas como recapitulação de toda a preparação profética do passado e como projecção da humanidade num futuro de esperança e de amor. Em linhas gerais, os evangelistas procedem conforme um esquema comum, o que não exclui diversidade de pormenores e inserções de elementos próprios.

A figura central da narração é a pessoa do Mestre que, embora imerso numa atmosfera hostil, aparece como o dominador dos acontecimentos e das pessoas. O grito de fé do centurião, unido às reacções cósmicas manifestadas na morte de Cristo, abre uma espiral de luz a confirmar que, apesar do aparente e momentâneo sucesso das forças adversas, o verdadeiro vencedor é ele, o Messias e Filho de Deus, Salvador da humanidade.

A exposição de Mateus é essencialmente uma narração eclesial (o centurião não está isolado no seu acto de fé), onde o presente é visto como maturação do passado (citações da Escritura), que assegura aos crentes a fidelidade divina e leva-os ao acto de adoração plena, enquanto a conclusão da perícopa, em visual cósmico, coloca em relevo o aspecto escatológico da morte do Redentor.

Centrados no facto de Cristo que morre na cruz, podemos distinguir dois grupos de pequenos quadros que completam e clarificam a cena central: os últimos momentos de Jesus e a sua morte (Mt 27,45-50) e os fenómenos cósmicos na morte de Jesus (Mt 27,51-56).

Os últimos momentos de Jesus e a sua morte (Mt 27,45-50)

Mateus, mais do que nos aspectos clínicos dos últimos instantes de Jesus, fixa-se no aspecto doutrinal sublinhando a incidência da morte de Cristo no âmbito da história da Salvação. Um acontecimento tão grande não podia ser reduzido a termos comuns; era necessário recorrer a uma linguagem adaptada que envolvesse toda a realidade, o céu e a terra; por isso, a partida do Salvador é acompanhada de fenómenos excepcionais, entre os quais o primeiro, recordado por toda a tradição sinóptica, é o do aparecimento das trevas.

No momento em que a Luz do mundo se apaga sobre a cruz, as trevas envolvem a terra. Tal escuridão é considerada uma intervenção extraordinária de Deus, estreitamente ligada às circunstâncias dos últimos instantes da vida do Redentor, no qual os cristãos veriam o cumprimento das trevas anunciadas para o Dia de Yahweh. É suficiente pensar numa intervenção extraordinária de Deus em fenómenos naturais mais intensos como uma aglomeração misteriosa de espessas e densas nuvens ou, melhor ainda, um escurecer do sol provocado por vapores ou pelo pó trazido pelo vento siroco, fenómeno frequente na Palestina nesta estação e que, provavelmente, naquele ano teve uma intensidade excepcional.

Mais que no facto sensível em si, é para o seu valor simbólico que o evangelista quer chamar a atenção dos leitores. Apoiando-se em passagens do Antigo Testamento de tipo apocalíptico-profético, Mateus quer apresentar nas trevas que envolvem a terra o símbolo das forças do mal que procuram desesperadamente prender a obra redentora de Jesus e a aproximação do supremo juízo divino, do Dia de Yahweh. De resto, o tema das trevas, como concretização das forças do mal, encontra-se um pouco por toda a parte nas narrações evangélicas, sobretudo nas da Paixão. Aqui, na morte de Jesus, torna-se uma prova sensível do mar de ódio que está a submergir Cristo. Além disso, no Antigo Testamento, a obscuridade é símbolo de desgraça e de maldição por parte de Deus, pelo que se torna também sinal da ira punitiva do Senhor que se abate sobre os algozes do Messias e Filho de Deus.

No meio destas trevas, a tradição de Marcos-Mateus recorda o grito de Jesus entoado no início do Salmo 22, quase como confirmação dos oráculos proféticos e também como reflexo do drama íntimo que o atormenta pelo lado humano: Elî, Eli, lema sabachtánî, acrescentando imediatamente o esclarecimento da tradução (27,46b). A citação literal do salmo convida a considerar o espírito que o percorre de princípio ao fim e que não é certamente nem de amargura nem sequer de desconforto, mas exprime o confiante abandono do Messias nas mãos de Deus para que os inimigos, que quiseram a sua morte, não venham a prevalecer.

Pronunciando estas palavras do salmo, Jesus coloca-se na posição espiritual do salmista. Em ambos os casos, o do Mestre e o do salmista, o abandono não é nem a rejeição nem a reprovação, mas sim a expressão do peso que a prova deixa na natureza humana, unido porém à oração confiante dirigida a Deus, embora no meio duma opressão exterior e miséria moral; mais: o facto de invocar a Deus como «seu Deus» dá exactamente ao lamento o acento da confidência mais do que de reprovação. Deus, por um desígnio misterioso, abandona-o nas mãos dos inimigos, mas a aparente derrota muda-se, no salmo, em sentido messiânico, com o triunfo do Messias.

Jesus repetiu em voz alta a invocação do salmista e o termo ’Elî foi interpretado como invocação do profeta Elias. A confusão não parece ser um equívoco da parte dos hebreus que estavam junto à cruz, mas sim intencional jogo de palavras para escarnecer uma vez mais do agonizante. De facto é difícil pensar que os escribas e os fariseus presentes não tenham reconhecido nas palavras de Cristo o início do Salmo 22.

Segundo a opinião popular corrente, Elias era o grande socorrista das necessidades e, particularmente, levava a salvação na angústia máxima aos homens piedosos; além disso, sempre segundo a crença do povo, devia descer à terra para preparar a vinda do Messias (cf. Mt 17,10ss) para ungi-lo como tal e dá-lo a conhecer ao mundo. Os hebreus, presentes na agonia de Cristo, jogando com a homofonia material dos termos, fingiram entender que o moribundo invocava a ajuda do profeta e desejava tê-lo ao lado como socorro; por isso, com complacência sarcástica, colocam em relevo que o Salvador invoca o precursor do Messias, já certos que Jesus não se moveria mais da cruz e que certamente ninguém o ajudaria.

Logo a seguir a este mal entendido sobre Elias, Mateus insere no seu quadro narrativo o facto de um soldado (só os soldados se podiam aproximar) que procura tirar a sede a Jesus oferecendo-lhe vinagre, sem o mínimo aceno ao que determinou esta acção. A oferta do vinagre com um acenar ao Sl 69,22 poderia aparecer como uma ofensa a aumentar o tormento; na realidade, é entendida como um alívio (cf. 19,28), mesmo prolongando um pouco mais o sofrimento do moribundo.

Não faltaram críticos que duvidaram do valor deste facto, dizendo-o fruto da reflexão dos evangelistas sobre o Sl 69,22. Um exame atento ao conjunto sugere antes a formulação inversa: realmente Cristo na cruz experimentou uma grande sede, coisa normal nos crucificados, e este elemento histórico levou à reflexão teológica que o viu já preanunciado pelo salmista.

Todavia, embora admitindo que o vocábulo «vinagre» tenha sido escolhido pelos evangelistas por causa do Sl 69,22, no nosso caso a palavra tem uma acepção mais ampla e, segundo a opinião comum dos exegetas, designa a chamada «posca», uma bebida ácida e refrescante, mistura de água com vinagre, muito usada pelos soldados que a preferiam à água pura.

Atingido pelo espectáculo de tanta majestade no sofrimento, e movido por um sentido de humanidade, o soldado, tendo metido uma esponja numa cana, ofereceu-lhe de beber. Mas também aqui a maldade dos presentes se faz notar: «Deixa, vejamos se Elias vem salvá-lo»; o ódio cega completamente os hebreus que até ao fim atacam a própria vitima.

O forte grito com que Jesus morre demonstra que Cristo até ao último momento teve uma clara consciência e que a sua vida não se apagou docemente mas violentamente como verdadeira vítima sacrificial para o bem da humanidade.

Uma coisa nos fere: todos os trágicos acontecimentos que se sucederam com ritmo alucinante, de noite e manhã, encontram o seu epílogo na simples constatação dos evangelistas na sua função de historiadores: «expirou». É um verbo demasiado breve para exprimir uma realidade tão grande, mas em casos semelhantes a discrição e o silêncio são preferíveis. Os evangelistas enunciam, sem romantismo, a conclusão da obra, em que Jesus realizou definitivamente a salvação dos homens.

Os fenómenos cósmicos na morte de Jesus (Mt 27,51-56)

A ideia que preside a esta cena final nos sinópticos, em que Marcos e Lucas são mais breves, aparece evidente: às injúrias e humilhações precedentes opõem-se aqui as provas de testemunho e veneração. Mateus é mais desenvolvido e, enquanto noutros lados tende a abreviar elementos maravilhosos, aqui, pelo contrário, multiplicou-os, acrescentando outros sinais, como o terramoto, o fender da rocha, a abertura dos sepulcros e a ressurreição dos mortos, o que, opondo-se às precedentes descrições que apresentavam o Mestre na sua realeza natural e humana, faz realçar a sua misteriosa personalidade de Filho de Deus.

Os fenómenos com que os sinópticos, Mateus em particular, apresentam a morte de Jesus, fazem realçar, juntamente com as trevas, a dimensão excepcional do acontecimento e o unem estreitamente a profundos visuais simbólico-doutrinais, quer cultuais (o véu do templo que se rasga), quer cósmicos (o terramoto e o fender da rocha), quer escatológicos (a ressurreição dos mortos). Para entender estes dados e a sua inserção na perícopa é necessário ter em conta o género literário destas narrações. Não se trata de instantâneos fotográficos, nem de serviço imediato de informação, mas duma narração de sabor bíblico e intenção teológica.

Sem negar à partida os acontecimentos maravilhosos, temos no entanto o direito de nos interrogarmos porque é que eles são expostos desta maneira e se os autores não teriam a intenção de evocar temas bíblicos que se realizaram agora.

            A hora sexta é o meio dia; a hora nona são as três horas da tarde. Esta é a hora das trevas em pleno dia, como foi profetizado por Amós: «Naquele dia – oráculo do Senhor meu Deus – farei com que o Sol se ponha ao meio-dia, e em pleno dia cobrirei a terra de trevas» (Am 8,9; no mesmo contexto fala do «luto por um filho único). O dia do Senhor tão esperado revela-se como «trevas e não luz» (Am 5,20). Estamos como no fim do mundo: «Logo após a aflição daqueles dias,o Sol irá escurecer-se, a Lua não dará a sua luz… Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem…» (Mt 24,29ss), isto é, o sinal da cruz. Esta é a hora profetizada por Jesus Jesus quando estava perante o Sinédrio: «De agora em diante vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu» (Mt 26,64).

            Nesta hora, hora da sua morte na cruz, Jesus deixa de ser definido como vivente neste mundo, ou melhor deixa de ser definido como um condenado à morte, e assume uma nova modalidade como presença na história, como juiz sentado à direita do Pai. Devemos ainda esperar o anúncio da ressurreição, mas tudo já se decide nesta hora suprema, a qual se apresenta como uma dupla hora de trevas em vez da luz esperada, mas também hora de salvação precisamente no meio da trevas mais densas. Hora duma salvação que se realiza paradoxalmente, no momento do extremo abandono.

É provável que a morte de Cristo tenha sido acompanhada de acontecimentos extraordinários (Mt 27,51-53). Porém, vê-se que o evangelista os apresenta com uma intenção de fundo. Encontramo-nos diante dum género literário utilizado pelos escritos sagrados para anunciar as profundas transformações que o início da era messiânica teria produzido. De resto, demonstram-no muito bem as expressões evangélicas usadas pelo primeiro evangelista ao apresentar estes fenómenos cósmicos, expressões onde a referência profético-apocalíptica aparece evidente. Podemos recordar orasgar do véu que, na literatura apocalíptica, significa «suprimir o segredo, tirar a exclusividade», ou ainda o tremor de terra e o partir das pedras, figura do juízo divino, ou também a ressurreição dos corpos como apresentação do início duma nova fase e dum novo modo de viver.

O primeiro fenómeno, comum aos três sinópticos, é o do véu do templo rasgado, colocado aqui pelo seu significado simbólico. Mais do que procurar saber de que véu se trata, o acento é posto sobre o «rasgar» ou destruição do véu, figurando a revogação do judaísmo a favor do cristianismo. Com a morte de Cristo termina a antiga economia judaica com todas as suas instituições cultuais e o seu âmbito nacionalista para dar início ao universalismo da salvação; as figuras e as promessas dão lugar à realidade, enquanto ao ritualismo judaico, ligado a um só templo e celebrado com a oferta de vítimas irracionais, se substitui o culto universal em espírito e verdade de que Cristo é o altar, a vítima e o Sacerdote. Realizava-se, assim, a dupla profecia de Jesus que o templo ficaria deserto (Mt 23,38), enquanto era erigido o novo templo não feito por mão de homem.

Ao véu que se rasga, comum à tradição sinóptica, Mateus acrescenta outros três fenómenos (o terramoto, o quebrar das rochas e a ressurreição dos mortos), a entender-se sempre em âmbito simbólico; mais: dir-se-ia que, avançando na sua descrição, o primeiro evangelista se afasta mais da possibilidade duma interpretação histórico-narrativa para sublinhar de modo primário as apresentações profético-apocalípticas de valor claramente teológico.

Antes de mais, temos o terramoto e o fender das rochas (Mt 27,51b). Entramos aqui em plena expressão bíblico-apocalíptica para a descrição do dia de Yahweh de que Mateus mostra depender estreitamente.  Não se nega a possibilidade de que à morte de Jesus tenha havido um terramoto com um fender das rochas; porém, do conjunto aparece mais evidente que o nosso evangelista se refira ao Antigo Testamento,  na recordação de abalos telúricos como manifestação da ira divina (cf. Am 8,9; Jr 15,9), para fazer compreender que, com a morte de Cristo, se cumpriram as profecias escatológicas e teve verdadeiramente início a era messiânica da transformação e da salvação.

Mais difícil se apresenta a interpretação do outro fenómeno recordado por Mateus, a ressurreição de alguns mortos que se teriam feito ver em Jerusalém depois da ressurreição de Cristo (Mt 27,52-53). Tomada à letra, este texto torna-se pouco verosímil. De facto, como se pode pensar em mortos que ressuscitam no momento em que Jesus expira e que esperam no sepulcro a ressurreição de Jesus para aparecer na cidade santa? E, a ser assim, como é que o redentor poderia ainda ser considerado o primogénito dos mortos? (cf. 1Co 15,20)

O texto é entendido à luz das apresentações apocalípticas da época admitindo que aqui Mateus queira falar da ressurreição escatológica, já anunciada pelos profetas para o fim dos tempos. Os justos de que se fala seriam os personagens do Antigo Testamento que esperavam a libertação de Cristo para entrar na beatitude celeste. Mateus quer ensinar que estes justos obtiveram a entrada na era escatológica, associados à ressurreição de Cristo e por força da sua precedente morte salvífica na Cruz; eles entraram assim com as suas almas no céu, apareceram na Jerusalém Celeste, enquanto o seu corpo espera ainda a ressurreição final. Esta palavra de Mateus é mais teológica que histórica; com ela, sobretudo, o evangelista, ligando-a aos acontecimentos apocalípticos precedentes (tremor de terra, escurecimento do sol, quebrar das rochas), quis apresentar aos cristãos a morte de Cristo no seu significado universal, como o início do fim dos tempos, o início duma nova era escatológica, que em parte já chegou, enquanto pela graça e pela fé estamos unidos a Cristo ressuscitado, mas que, ao mesmo tempo, não chegou definitivamente, pois ainda estamos neste mundo de pecado à espera de nos unirmos para sempre com Cristo glorificado.

O conjunto de todos estes fenómenos assume assim o valor de uma verdadeira revolução cósmica que, partindo do alto, o véu do templo, se propaga para a terra, com o terramoto, transmitindo-se àquilo que nela é mais sólido, as pedras, e de mais sagrado, os túmulos.

O centurião romano, encarregado da execução e da guarda ao corpo do Crucificado, permanecendo ao lado da cruz, tinha notado em Jesus factos extraordinários: o suportar sereno da dor, a profunda calma diante das injúrias e sarcasmos, o perdão concedido aos que o crucificaram, o forte grito antes de morrer; tudo coisas que o atingiram fortemente. Certamente o centurião já tinha visto morrer muita gente condenada, mas nenhum tinha tido uma atitude resignada e nobre como a de Jesus; um semelhante espectáculo tinha-o abalado e colocado a ele, pagão, frente ao extraordinário, ao divino.

No pretório e no Calvário o centurião tinha ouvido acusar aquele condenado de se ter feito Filho de Deus. Ora ele mesmo, por todas as circunstâncias, podia constatar que aquela afirmação era bem fundada e que Jesus se tinha comportado de modo sobre-humano. O centurião, perante tudo isto, sente brotar-lhe de modo espontâneo a afirmação: «Verdadeiramente este homem era Filho de Deus», uma profissão de fé que proclama publicamente a inocência de Jesus e a sua grandeza mais que humana e o fundamento de todas as suas pretensões, a prefigurar concretamente a entrada no reino dos céus da multidão dos gentios, ingresso predito por Jesus quando louvou a fé dum outro centurião durante a sua vida pública (Mt 8,10-11).

Juntamente com o centurião são recordadas, como testemunhas mudas e doridas, algumas mulheres piedosas, quase todas galileias, do grupo que há muito seguia Jesus (cf. Lc 8,2ss). Temos aqui um outro contraste muito forte: a ausência dos discípulos, que fugiram à excepção de João (Jo 19,26ss), e estas mulheres débeis corajosamente presentes na tragédia do Calvário. Em parte, são as mesmas que estarão presentes na sepultura e que na manhã de Páscoa se dirigirão ao túmulo. Mateus conservou o nome delas: Maria de Magdala, Maria mãe de Tiago e José e a mãe dos filhos de Zebedeu.

A presença destas mulheres piedosas e da Mãe de Jesus ao lado da cruz a testemunhar a sua fidelidade e o seu amor, fecha com um flash humano e piedoso a cena do Gólgota. Na realidade, o enquadramento de Mateus, de narração fúnebre transforma-se em apoteose para recordar que a morte é a condição da vitória, mas também o início da mesma. Embora Jesus esteja ainda na cruz, ele já triunfa e as piedosas mulheres, que observam de longe, já preanunciam a sua ressurreição.

Este enquadramento último do Calvário adquire assim um valor teológico e recorda-nos uma vez mais que a participação na paixão de Cristo é o único caminho para entrar e fazer parte da sua glória.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

Administrador Diocesano

 

Monsenhor João Gonçalves Gaspar

Aos 07 dias de mês de Abril de 2014, em obediência ao preceituado no Código de Direito Canónico ( cc. 419 e ss.), reuniu o Colégio de Consultores da Diocese de Aveiro. Como único ponto da Agenda constava a eleição do Administrador Diocesano uma vez que, na tarde do passado dia 5, iniciara o múnus pastoral de Bispo da Diocese do Porto, sua Ex.cia Rev.ma o Senhor D. António Francisco dos Santos.

Assim, e dando cumprimento à Agenda proposta, após votação secreta, foi eleito para Administrador Diocesano o Rev.do padre Mons. João Gonçalves Gaspar que aceitou a eleição e exercerá esta função até à vinda do novo Bispo Diocesano.
Depois de tecer algumas palavras de circunstância, manifestou a sua surpresa, mas também a disponibilidade para o cargo que agora lhe tinha sido pedido. Da parte dos Consultores, todo o Colégio foi unânime na certeza da sua colaboração sempre que lhe fosse solicitada.

Tendo feito a profissão de fé, canonicamente ordenada, o Administrador Diocesano deu início ao cargo para que foi eleito.

O secretário do colégio de Consultores
P. Manuel Joaquim Rocha

 

Perdoar...

 

"Sabemos verdadeiramente o que é perdoar?

Podemos talvez ter a impressão que perdoar é esquecer algo que nos fizeram,

como se passássemos um pano sobre uma situação que nos magoou e fazemos de conta que não existiu.

Mas vemos na nossa vida que isto é tão difícil.

Queremos perdoar alguém, mas a mágoa impede que a relação fique como antes.

E a mágoa é um peso que trazemos e que gostaríamos tanto de não trazer connosco.

O perdão, mais do que esquecer é acreditar no outro e no bem que pode realizar na sua vida.

Tal como Jesus, não perdoa como se esquecesse aquilo que aconteceu, mas perdoa dando uma nova oportunidade.

E essa experiência faz-nos verdadeiramente livres e felizes."

 

V Domingo da Quaresma – Ano A

 

 

Breve comentário

O evangelho deste domingo é mais uma das catequeses que o evangelista João apresenta na primeira parte do seu evangelho, o «Livro dos Sinais».

Apesar de ser um texto bastante longo, chamado vulgarmente «a ressurreição de Lázaro», dedica apenas dois versículos a este episódio. O resto do texto procura ajudar o leitor ou o ouvinte a entrar na profundidade da mensagem que o «sinal» quer transmitir.

O termo «ressurreição» referido a Lázaro é equívoco. Será melhor falar de «reanimação», um regresso a este mundo para retomar a vida material, reservando a palavra «ressurreição» para significar a entrada para a vida inaugurada por Jesus na Páscoa, deixando esta vida material para entrar no mundo de Deus.

Logo no início da narração é apresentada uma família composta apenas por três elementos, não havendo referência a outros membros, com a nota de que são «irmãos». Pelo facto de as duas irmãs, Marta e Maria, terem o controlo da casa, podemos pensar que Lázaro (forma grega do nome Eleazar, que significa «Deus ajudou») seria menor ou solteiro. Por outro lado, é com a palavra «irmão» que Jesus ressuscitado se refere à comunidade dos discípulos (Jo 20,17) e é assim que os membros da primeira comunidade cristã se tratam. A relação entre Jesus e esta família é apresentada em termos de amizade e de amor recíproco.

As irmãs de Lázaro enviam-lhe um recado: «Senhor, aquele de quem és amigo        está doente», em que está implícito um pedido de ajuda. Porém, Jesus não vai imediatamente ter com o amigo doente, mas deixa que ele morra. Não tem a intenção de impedir a morte física, prolongando-a indefinidamente, mas quer dar uma lição acerca da sua missão e do plano do Pai: dar a vida eterna, apresentando um sentido diferente, novo, para a morte física.

Jesus manifesta aos discípulos a sua intenção de ir para a Judeia porque o impele o amor para com o seu amigo e por todos os homens. Este é o motivo do seu peregrinar: o amor generoso e fiel por todos. Mas os discípulos que estão com ele só pensam no perigo que poderá representar tal atitude. Com a frase «Não são doze as horas do dia?», provavelmente citando um provérbio, Jesus compara a sua vida a um dia de caminhada. Enquanto não tiver terminado o que Deus lhe confiou, a sua vida não chegou ainda ao seu termo e a sua missão continua. Só quando tudo estiver realizado terá chegado a sua hora, virá a noite, o «poder das trevas», em que os seus inimigos poderão matá-lo.

Com o atraso deliberado de Jesus, para quem a morte é um «sono», o amigo Lázaro acaba por morrer e é sepultado logo no mesmo dia, conforme o costume judaico. Há quatro dias que tal aconteceu. Já não há nada a fazer pois, para a mentalidade judaica, tudo está consumado a partir do terceiro dia, tornando a morte irreversível.

As irmãs de Lázaro, uma após outra, chamam a atenção de Jesus para o seu atraso: «Senhor, se Tu estivesses aqui, o meu irmão não teria morrido».Mas Marta continua a confiar, acredita que Jesus é o Messias e pode fazer tudo, podendo fazer ressuscitar o irmão. Ela crê na ressurreição final, mas espera que Jesus actue agora. No Antigo Testamento Elias tinha ressuscitado o filho da viúva de Sarepta (1Rs 17,21) e Eliseu o filho da mulher sunamita (2Rs 4,14). O próprio Jesus tinha ressuscitado a filha de Jairo e o filho da viúva de Naim. Mas em todos estes casos nem sequer estavam sepultados, quanto mais tendo morrido há quatro dias e a cheirar mal!

A afirmação fundamental do texto é descrita em poucas palavras: «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em mim jamais morrerá para sempre». A catequese é evidente: aqueles que aderem a Jesus já possuem a vida definitiva. A morte física é inevitável, mas não é definitiva, é apenas um sono, uma passagem para a vida definitiva.

Jesus não é indiferente ao sofrimento e à dor dos seus amigos. Chora perante a separação, embora  apenas por algum tempo. Mas o evangelista faz notar que o choro de Jesus é diferente. Enquanto usa o verbo grego klaiein para Maria, Marta e os outros judeus, que tem o sentido dum choro acompanhado com gestos de desespero, para Jesus usa o verbo edákrusen que significa: «as lágrimas começaram a correr-lhe dos olhos». Trata-se dum choro sereno.

A pedra que encerra o sepulcro representa uma barreira entre a vida e a morte, tornando-se símbolo de separação definitiva. É esta «pedra» que Jesus manda retirar, tal como removeu a pedra do seu sepulcro para vencer a barreira da morte, pois a morte não é um fim.

Jesus reza ao Pai, não para pedir um milagre mas para que os que o rodeiam entendam o significado profundo do «sinal» que está para realizar. E bradou com voz forte: «Lázaro, vem para fora». Concretiza-se assim o que ele já tinha dito: «Chega a hora – e é já – em que os mortos hão-se ouvir a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. Todos os que estão dos túmulos hão-se ouvir a sua voz e sairão» (Jo 5,25-29).

A ordem final de Jesus – «Desligai-o e deixai-o ir» – parece não ter sentido naquele momento. Mas o evangelista está a pensar na futura comunidade dos «irmãos» que choram a perda dum «irmão». É importante deixar que o irmão viva a sua condição duma vida nova e plena. Esta vida é um novo nascimento, como o entenderam os cristãos logo no início, assinalando o dia da morte como o dia festivo da comemoração de cada santo.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

Senhor...

"Ao cair da noite vêm as lágrimas 

E ao amanhecer volta a alegria.

Quantas vezes, Senhor, me deito cansado, desanimado com as dificuldades do dia que passou.

Quantas vezes não me apetece acordar, mas ficar ali, deitado, isolado dos meus problemas.

Mas quem confia em Ti, sabe que o medo e o desânimo não têm a última palavra.

A Quaresma, como tempo de preparação para a Páscoa,

lembra-nos que a Ressurreição é sempre o lado luminoso da cruz.

Não a evita, mas transforma-a.

Hoje, Senhor, peço-te que em cada manhã sinta a promessa de um novo dia.

Que eu me sinta movido a buscar a alegria, aquela que só Tu podes dar."


IV Domingo da Quaresma – Ano A

 

Breve comentário

            O episódio da cura cego de nascença, inserido na primeira parte do Evangelho de S. João, o Livro do Sinais, deve ser abordado não apenas como uma cura miraculosa mas como um «sinal» que aponta para uma realidade mais profunda.

            O contexto anterior traz uma certa luz para entendermos o texto de hoje. O episódio está no prolongamento da festa das Tendas que, durante uma semana, se caracterizava pela liturgia da água e da luz. No segundo dia da festa, celebrava-se o rito da «alegria do poço», organizando-se uma solene procissão para ir buscar água à piscina de Siloé, o único reservatório da cidade. Jesus, de pé, proclamou: «Se alguém tem sede, venha a mim; e quem crê em mim sacie a sua sede» (Jo 7,37), o que faz recordar o diálogo com a samaritana. Durante a festa da luz proclama: «Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8,12), frase que irá encontrar um eco no episódio deste domingo.

            O homem do relato é cego de nascença, mas a sua cegueira não provém do pecado. O seu estado simboliza outra escuridão, aquela em que todo o homem se encontra antes de ser iluminado. Por isso, ele não pede nada, pois não pode pedir aquilo que não conhece. Ele não vai recuperar algo que já teve: simplesmente vai nascer para uma nova existência.

A cura do cego só se realiza depois de ele se ter ido lavar à piscina de Siloé (palavra que significa «Enviado»), com uma referência clara a Jesus, o enviado do Pai. Jesus é a água viva que cura a cegueira do homem, de todo o homem.

            Quem é iluminado por Jesus, quem recebe a sua luz, passando a ser uma pessoa nova, iluminada, o que naturalmente leva os outros a duvidarem se é o mesmo indivíduo. Ele tornou-se diferente!

            Da parte das autoridades religiosas, que estão convencidos de possuírem a verdade, de serem iluminados, há uma rejeição do sinal operado. Estão convencidos de que vêem e, por isso, negam-se a ver a Luz: «as trevas não o receberam», como anuncia o evangelista no início do evangelho.

            Porém, para aquele que foi cego, e agora começa a ver, existe todo um caminho a percorrer até chegar a «ver» plenamente. Um caminho em que é rejeitado, abandonado à sua sorte mesmo pelos mais próximos (os pais que se põem longe da situação), um caminho de procura da verdade, consciente da sua limitação e da sua ignorância: «Onde está, não sei»; «Se é pecador, não sei»; «Quem é?».

Mas algo de novo se operou e, por isso, não tem medo de enfrentar aqueles que o querem aconselhar a continuar «cego», que o ameaçam. Torna-se corajoso, até um pouco atrevido e irónico perante aqueles que se recusam a ver a evidência, pelo que o insultam e expulsam do seu círculo. O que era cego estava proibido de entrar no templo; agora, que vê, é expulso da sinagoga…

            Este homem, apesar de ter sido iluminado, de ter recebido a Luz que o modificou e levou a tomar atitudes firmes face aos que permanecem nas trevas, julgando ver, ainda não conhece plenamente Jesus. Fez todo um percurso de fé. Falta-lhe o reconhecimento de Jesus e a confissão de fé. «Tu crês no Filho do Homem?».Ele respondeu e disse: «E quem é, Senhor, para eu crer nele?».Disse-lhe Jesus:«Já O viste. Quem fala contigo é Ele».Ele disse: «Eu creio, Senhor!».

            Aquele que era cego fisicamente, sem culpa da sua parte, agora vê plenamente, está agora completamente iluminado. Aqueles que não eram cegos fisicamente apresentam uma maior cegueira, permanecem nas trevas e recusam-se a ver. Por sua culpa são cegos!

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

A vida é bela...

 

"Já pensou hoje em como a vida é bela?

Já fez alguma coisa para mudar a sua vida?

Já disse as pessoas de sua família o quanto as ama?

Já agradeceu a Deus pelas coisas belas que você tem?

O que está esperando!

Vá viver a sua vida, pois a felicidade não pode esperar..."

 

 

III Domingo da Quaresma – Ano A

 

 

Breve comentário 

Para uma compreensão do evangelho deste domingo e dos dois domingos seguintes, devemos ter em conta que os textos são tirados do Evangelho segundo S. João que apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. Sendo, por um lado, o evangelho que apresenta mais pormenores geográficos e cronológicos sobre a pessoa e obra de Jesus, por outro lado é aquele que se apresenta como o mais simbólico. O leitor ou ouvinte deve interrogar-se sempre sobre o que S. João pretende dizer para além daquilo que apresenta.

            A primeira parte da obra (4,1–11,56) é chamada «Livro dos Sinais» pois o autor, por detrás dos textos, tratados de forma simbólica, apresenta um conjunto de catequeses sobre a acção de Jesus Messias, utilizando os «sinais» da água (4,1–5,47), do pão (6,1-7,53), da luz (8,12-9,41), do pastor (10,1-42) e da vida (11,1-56). O texto deste domingo é a primeira catequese do «Livro dos Sinais»: através do «sinal» da água, o autor vai descrever a acção criadora e vivificadora de Jesus.

A cena passa-se à volta do «poço de Jacob», não longe da cidade samaritana de Siquém (em aramaico, Sicara – a actual Askar). Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária, e cuja profundidade ultrapassa os 30 metros, que, segundo a tradição, teria sido aberto pelo patriarca Jacob. A Samaria era a região central da Palestina que, depois da invasão dos assírios em 721 a.C., passou a ser habitada por outros povos que se misturaram com a população local que aí continuou após a deportação duma parte dela para a Assíria. Com o decorrer dos tempos esta gente começou a paganizar-se (cf. 2Rs 17,29).

Na época do Novo Testamento, existia uma animosidade muito viva entre samaritanos e judeus. A relação entre as duas comunidades deteriorou-se ainda mais quando, após o regresso do Exílio, os judeus recusaram a ajuda dos samaritanos (cf. Esd 4,1-5) para reconstruir o Templo de Jerusalém (437 a.C.) e denunciaram os casamentos mistos. Tiveram, então, de enfrentar a oposição dos samaritanos na reconstrução da cidade (cf. Ne 3,33-4,17). Como reacção, no ano 333 a.C. os samaritanos construíram um Templo no monte Garizim; no entanto, esse Templo foi destruído em 128 a.C. por João Hircano. Já em vida de Jesus, no ano 6 d.C., os problemas avolumaram-se quando os samaritanos profanaram o Templo de Jerusalém durante a festa da Páscoa, espalhando ossos humanos nos átrios. Por isso, mais do que um mal-estar, entre judeus e samaritanos havia um sentimento de ódio e desprezo recíprocos.

Aquele «poço» aparece, na tradição samaritana, judaica e dos essénios de Qumran, com um forte sentido simbólico. Faz recordar todos os poços abertos pelos patriarcas e a água que Moisés fez brotar do rochedo no deserto; mas, de modo particular, torna-se figura da Lei de Moisés.

Situando o diálogo junto dum poço, o evangelista apresenta-nos um tema da literatura bíblica. O poço era lugar privilegiado de encontro, de conflito e de reconciliação. Por exemplo, foi junto de um poço que se prepararam os casamentos de Isaac e Jacob; foi também junto de um poço que Moisés encontrou as filhas de Raguel.

Também Jesus, tal como Moisés, senta-se junto dum poço, cansado, por volta da hora sexta (meio-dia). É aqui que se dá o encontro com uma mulher samaritana.

A mulher é um símbolo da Samaria, que procura a água capaz de matar a sua sede de vida plena. Jesus, na linha da profecia de Oseias que pregou nesta região séculos antes, é o Deus/esposo que vai ao encontro do povo/esposa infiel para lhe fazer descobrir o amor verdadeiro. O «poço» representa a Lei e todo o sistema religioso. Era «nesse poço» que os samaritanos procuravam a água da vida plena sem se poderem saciar. Por isso, entregaram-se ao culto de outros deuses/«maridos» (precisamente cinco), conforme nos relata 2Rs 17,29-41. Mas continuaram sem saciar a sua sede de vida plena.

Jesus senta-se «junto do poço» e propõe à mulher/Samaria uma «água viva» que matará definitivamente a sua sede de vida eterna. Jesus passa a ser o «novo poço», onde todos os que têm sede de vida plena encontrarão resposta para a sua sede. Ele mesmo tem sede e pede água, mas a sede dele é a sede de matar a sede. O pedido «Dá-me de beber» vai encontrar um paralelo na exclamação «Tenho sede» que Jesus faz do alto da cruz, sem que tenha bebido a água que lhe fizeram chegar…

O evangelista desenvolve todo o diálogo num crescendo que parte da reacção negativa («Tu és judeu e pedes de beber a mim que sou uma mulher samaritana?»), da confusão e do equívoco («não tens balde»), pela descoberta da presença de Deus em Jesus («vejo que tu és profeta»), pela iniciativa de ir anunciar aos outros («Não será ele o Messias?»), até à confissão de fé («Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo») de muitos que, através da mulher, se encontraram com Jesus.

 

P. Franclim Pacheco

 

Diocese de Aveiro

 

 

Senhor,

Neste dia quero rezar-te pelos pais 

Todos necessitamos de um pai

Dos seus braços fortes e acolhedores

Das suas palavras rectas e orientadoras

Da sua ternura e afecto.

E hoje os pais são tão esquecidos!

Senhor, rezo-Te pelos pais

Que nunca percam o sentido da paternidade

Que se sintam gratificados pelo dom de serem pais

Que amem os seus filhos e lhes indiquem caminhos e metas

Que construam lares com sonhos e esperança

Lares onde o amor seja verdade!

E que aprendam com São José a cuidar dos seus filhos

A procurarem os seus filhos

A acompanharem os seus filhos

A amarem os seus filhos.

Senhor, obrigado pelos pais!

Pe.Manuel dos Santos

 

 

Pensamento...

 

 

“ A vida não é fácil, e viver exige muita dedicação

de cada um de nós, a felicidade anseia sempre

pelo nosso melhor, por isso a ajuda de Deus

para nos conduzir é fundamental e indispensável”

Anónimo


 

II Domingo da Quaresma – Ano A

 

 

Breve comentário

Para melhor entendermos o texto deste domingo, que nos apresenta a transfiguração de Jesus, devemos situá-lo no seu contexto. Antes da transfiguração é referida a confissão de Pedro (16,13-20) com a inserção do dito de Jesus sobre o primado, seguindo-se a predição da paixão e ressurreição (16,21-23), à qual Pedro reage, sendo chamado «Satanás», o convite à renúncia de si mesmo, a tomar a sua cruz e a seguir Jesus no seu caminho de amor e de entrega da vida (Mt 16,24-28). O que se segue, até Mt 20,34, continua a ser uma catequese sobre o discipulado, apresentando mais dois anúncios da paixão.

A transfiguração aparece colocada pouco depois do primeiro anúncio e é seguida quase a seguir do segundo. Nela o tema da glória prevalece; mas também está aqui presente o tema da dor: o pressentimento da morte serve de fundo à perícopa. Nos anúncios da paixão o tema do sofrimento e da morte prevalece mas não está só, pois todos os anúncios terminam sempre com uma referência à ressurreição.

            O Pai confirma os actos realizados por Jesus antes de subir ao monte: ele é o Cristo e o Filho de Deus (16,16), é o servo sofredor que Pedro não aceita (16,21-23), aquele que chama a segui-lo no seu caminho (16,24) e se declara como juiz do mundo (16,27). Diante de três homens, o Filho do Homem é proclamado pelo Pai como Filho de Deus. É o final da discussão sobre quem é Jesus, é o início da viagem para Jerusalém, com a sua morte e glorificação.

            Com a transfiguração, Pedro, Tiago e João têm uma antecipação da glória que Jesus terá depois da sua ressurreição. Também nós seremos transfigurados como ele, se o escutarmos e cumprirmos a sua palavra.

Literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania, isto é, uma manifestação de Deus, apresentada com os elementos típicos que encontramos no Antigo Testamento para apresentar as manifestações de Deus: o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino.

            Antes deste episódio, Jesus tinha exclamado: «Há aqui alguns presentes que não experimentarão a morte antes de verem o Filho do Homem vir no seu reino» (16,28). No contexto do evangelho de Mateus este versículo refere-se à transfiguração a seguir narrada como um saborear antecipado da glória do Filho do Homem.

A indicação de «seis dias», no pensamento de Mateus pode referir-se ao testemunho de Pedro e à discussão que se lhe seguiu, sobretudo a oposição de Jesus a Pedro, mas também à recordação da manifestação de Deus no monte Sinai (Ex 24,16). De facto, seis dias é o tempo exacto que a glória do Senhor, isto é, a nuvem, cobriu o monte Sinai. No sétimo dia o Senhor chamou Moisés do meio da nuvem. O monte alto é identificado pela tradição com o monte Tabor, na planície de Jezrael. Jesus leva consigo apenas três discípulos. Também isto nos recorda o Sinai, pois Moisés subiu ao monte juntamente com Aarão e os seus dois filhos, Nadab e Abiú.

Para Mateus, o monte é lugar de revelação: Jesus sobe a um monte para apresentar a sua Lei (Mt 5–7); sobre um monte fará a sua manifestação como Ressuscitado (Mt 28,16-20).

O verbo usado por Mateus para apresentar a transfiguração é metamorphòthe (mudou de aspecto). O evangelista sublinha este efeito sobretudo no rosto de Jesus. Aqui há uma referência a Moisés que, ao descer do monte Sinai não se tinha dado conta que a pela do seu rosto resplandecia depois de ter falado com Deus» (Ex 34,29). O judaísmo esperava para a era escatológica uma transformação dos justos (cf. também Paulo, 1Co 15,35-54). As suas vestes tornaram-se brancas como a luz: uma expressão quase idêntica descreve o anjo da ressurreição (28,3).

            Ao lado de Jesus surgem duas figuras: Moisés e Elias. Estes dois personagens são extremamente significativos. Não são apenas os dois personagens mais importantes do Antigo Testamento, mas ambos estiveram no monte Sinai e tiveram uma visão de Deus. Além disso, a sua morte foi particular: Moisés morreu antes de entrar na terra prometida, mas o seu túmulo nunca foi encontrado (Dt 34,5-6); Elias foi arrebatado num carro de fogo (2Rs 2). Eles falam com Jesus precisamente da sua morte, como especifica o texto paralelo de Lucas (Lc 9,31). A função de Moisés e Elias parece ser a de quem presta homenagem a Jesus e dá testemunho da voz do céu.

            A proposta de Pedro em fazer três tendas é um serviço oferecido; é também uma manifestação de alegria e de assombro. Talvez ele queira prolongar este momento de glorificação, pois revolta-se contra a ideia do sofrimento messiânico.

Agora Jesus tem o aspecto daqueles que Deus já glorificou com a vida imortal (luz e brancura das vestes). Paixão e ressurreição, humilhação e glória estão entrelaçadas. Deste modo, a transfiguração torna-se ela mesma um anúncio, uma profecia dos factos. O que por agora domina sobre o monte, diante dos olhos estupefactos de Pedro, Tiago e João é sobretudo a glória. Por um breve momento, Jesus oferece aos seus discípulos mais próximos uma iluminação sobre o seu futuro e o deles, um presságio do além. O sofrimento, para o qual ele está a caminhar com lúcida consciência e para o qual caminharão os seus discípulos, é um presságio, não é definitivo. O seu desembocar natural, inevitável, será a glória; a qual então manifesta o secreto valor do presente sofrimento: «Porque quem quiser salvar a própria vida, há-de perdê-la; mas, quem perder a própria vida por minha causa, salvá-la-á».

            A nuvem luminosa interrompe o discurso de Pedro. Trata-se dum contrassenso que se encontra somente em Mateus (como pode uma nuvem fazer luz?). Neste elemento encontramos ainda o influxo do Êxodo: a nuvem da glória do Senhor «aparecia como fogo devorador aos olhos dos filhos de Israel no cimo da montanha» (Ex 24,17). Também a nuvem cobria a Tenda da Reunião em Ex 40,34-35. Agora já não há necessidade de fazer tendas, pois a revelação da glória do Senhor foi agora encerrada no coração dos discípulos!

Este é o meu Filho Predilecto, em quem me comprazo – A frase é a mesma que se ouviu na narração do baptismo e que condensa, aprofundando-as, diversas expressões do Antigo Testamento. O Pai apresenta agora o Filho predilecto, o seu unigénito, aos três discípulos: «Este é o meu Filho». Como Yahweh no Sinai tinha falado ao povo por meio de Moisés, oferecendo-lhe o poder tornar-se sua nação predilecta, sua propriedade santa, assim agora o próprio Deus fala aos três discípulos, apresentando-lhes o seu Filho predilecto.

Escutai-O! Todas as palavras de Jesus são autenticadas, aprovadas e defendidas por Deus. No pensamento de Mateus, a voz do céu pede que seja escutada sobretudo e em particular a palavra de Jesus sobre a sua própria paixão, morte e ressurreição, objecto já da repulsa por parte do mais importante discípulo, e destinada a permanecer pelos séculos futuros como motivo de escândalo.

O texto fala do grande temor dos três discípulos, mas a descrição que dá é, uma vez mais, convencional. O temor e a perturbação dos discípulos são a reacção natural de qualquer homem ou mulher diante da manifestação da grandeza, da omnipotência e da majestade de Deus.

Jesus toca os discípulos, com um gesto que lhe é habitual e que traz a salvação aos doentes. Encoraja-os, dizendo: «Levantai-vos e não tenhais medo». Também esta dupla ordem é habitual em Jesus. Jesus é familiar, amigo; ao mesmo tempo ele é o Senhor, cuja palavra traz a tranquilidade e segurança.

O retorno de Jesus à condição habitual da sua existência terrena é enunciado sem ênfase, como a constatação dum facto de que foram testemunhas, mas de que não se saberia dizer nada mais. Como aconteceu? Como comentá-lo? Eles viram Jesus sem glória, no fim, isto é, só Jesus. O acontecimento conclui-se com a mesma simplicidade e falta de preparação com que tinha começado.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


Pensamento...

 

Deus traçou o caminho de cada um: o voo do

falcão não é igual ao do cisne, mas isso

pouco importa, desde que cada um sirva a

verdade e a justiça.

(Tolstoi)

 

 

"Sempre comigo e em mim"

 

Senhor, 
disse um autor espiritual que 
“com a Tua Cruz não vens abolir a morte e o sofrimento, 
nem mesmo explicá-lo, mas enchê-lo da Tua presença”. 
E assim é de facto! 
No meu sofrimento ninguém me pode acompanhar, 
ninguém pode sentir a minha dor senão eu só, 
ninguém pode conhecer o seu tamanho, 
a sua ordem de grandeza. 
Mas Tu, Senhor, podes tudo isto 
e sentes comigo e em mim 
o que eu sinto e sofro. 
Conheces tudo o que sinto 
a partir de dentro de mim. 
Acompanhas-me, Senhor 
e o saber-me acompanhado e compreendido 
é o melhor bálsamo para as minhas dores físicas e morais. 
Tu e Tua Mãe estão sempre comigo e em mim! 
Ofereço-Tas para a salvação dos meus irmãos!

Uma monja carmelita


I Domingo da Quaresma – Ano A

 

 


Breve comentário

No 1º Domingo da Quaresma a liturgia propõe-nos o texto das tentações de Jesus segundo o evangelho de Mateus. Trata-se duma composição sugestiva e rica de aspectos teológicos e espirituais. O quadro cenográfico é constituído pela sucessão de três sequências: o deserto, o templo de Jerusalém, um monte altíssimo. Sobre este fundo enfrentam-se os dois protagonistas num diálogo, ou melhor, numa disputa escriturística: Jesus e o diabo.

Na cena introdutória Jesus está no deserto, onde foi conduzido pelo Espírito. O narrador apresenta imediatamente também o outro protagonista, o diabo, que tem o papel de tentador. Uma anotação circunstancial e de tempo precisa a condição de Jesus no deserto: sente fome depois dum jejum total de 40 dias. Este é o cenário do primeiro diálogo, introduzido pelo diabo tentador com uma proposta que se liga à condição de Jesus faminto pelo jejum no deserto. De cada vez o diabo, para formular a sua sugestão tentadora, serve-se do cenário que ele mesmo vai mudando oportunamente. Por fim, à ordem decisiva de Jesus «vai-te Satanás…», o diabo retira-se e anjos aproximam-se para assistirem Jesus.

                        Do confronto das três sequências e dos respectivos diálogos pode verificar-se um crescendo para a terceira cena, na qual o drama se resolve. Jesus desmascara o «tentador» identificando-o com o adversário de Deus, Satanás. Com uma ordem peremptória, motivada por uma fórmula bíblica, que recorda a confissão de fé em Deus, único Senhor, ele encerra o debate.

As duas primeiras sugestões diabólicas baseiam-se no título «Filho de Deus», revelado na cena baptismal. Na terceira, a proposta do tentador assenta numa condição que muda completamente o estatuto de Filho de Deus. Aqui não há lugar para alternativas. Por isso, a resposta de Jesus não pode deixar de ser uma recusa total e a ruptura completa com as sugestões diabólicas. Até este momento, a iniciativa era deixada ao diabo; agora Jesus muda os papéis e afirma a sua escolha irreversível.

As três frases bíblicas, tomadas do livro do Deuteronómio, estão dispostas em ordem decrescente: Dt 8,3 – Dt 6,16 – Dt 6,13. Considerando os episódios bíblicos evocados, tem-se a ordem de sucessão da história bíblica: o maná no deserto (Ex 16); a água da rocha (Ex 17,2-7), o dom da terra (Dt 34,1-4). Portanto, para a organização do texto de Mateus contribuiu, para além dos elementos supra mencionados, também uma preocupação temática conexa com a utilização dos textos bíblicos e as situações que eles evocam em relação ao caminho de Israel e às provas no deserto.

A perícopa evangélica das tentações assemelha-se mais a uma controvérsia escriturística que a uma narração biográfica. Mas, ao contrário das outras controvérsias evangélicas, aqui o fio narrativo tem traços que encontram paralelo nos textos de estilo apocalíptico. Entre estes pode salientar-se a apresentação do «diabo» tentador, chamado «Satanás», que conduz Jesus à cidade santa, sobre o pináculo do templo, ou à montanha altíssima, donde se vêem os reinos do mundo com a sua glória, e, finalmente, a aparição dos anjos.

A chave de interpretação das tentações pode ser sugerida pelas referências explícitas ou implícitas aos textos e situações bíblicas.

O quadro introdutório – Jesus conduzido pelo Espírito para ser tentado – tem evidentes ligações com Dt 8,2 em que se diz que Deus «conduziu Israel durante quarenta anos pelo deserto para pô-lo à prova» (pôr à prova = tentar). A prova, explicitamente mencionada, é a da fome, a que corresponde o maná doado por Deus para fazer entender que o homem não vive só de pão mas «vive de quanto sai da boca de Deus» (Dt 8,3). O evangelista retocou este cliché bíblico para o fazer enquadrar com a sua perspectiva espiritual e teológica. O agente da tentação já não é Deus, mas «Satanás», mais conforme à evolução das concepções bíblicas e judaicas do post-exílio.

Além disso, Jesus é guiado para o deserto pelo Espírito descido sobre ele por ocasião do baptismo, como Israel é guiado pelo Espírito do Senhor, segundo Is 63,14. Mateus indica que Jesus jejua no deserto «quarenta dias e quarenta noites», segundo um formulário que se liga à figura bíblica de Moisés que, no encontro com o Senhor no Sinai, permanece com o Senhor «quarenta dias e quarenta noites sem comer pão e beber água» (Ex 34,28; Dt 9,9.18; cf. o caminho de Elias no deserto: 1Rs 19,8).

A referência a Moisés está subjacente provavelmente também na cenografia da terceira tentação. O «monte altíssimo» do qual se podem ver todos os reinos do mundo e a sua glória recorda o episódio de Moisés que sobe ao Monte Nebo, do qual o Senhor lhe mostra toda a terra prometida e lhe diz: «Este é o país pelo qual eu jurei a Abraão… eu o darei à tua descendência» (Dt 34,1-4).

Os dois textos do Deuteronómio a que Jesus se liga para recusar as propostas diabólicas, apelam às três situações de prova vividas por Israel no caminho do deserto: o maná (Dt 8,3); a água da rocha (Massá – Dt 6,16), e finalmente a posse da terra que pode fazer esquecer Deus para seguir outros deuses, (Dt 6,13; cf. 8,19). Numa palavra, as três tentações de Jesus, segundo o evangelho de Mateus, percorrem as etapas de Israel, chamado a viver a fidelidade com Deus nas situações de crise. Com uma diferença: onde Israel falhou na relação filial por causa duma falsa procura de segurança, Jesus confirma o seu estatuto de Filho único de Deus numa relação de absoluta fidelidade a Deus.

            A tentação dos pães – A fome de Jesus no fim de quarenta dias de jejum é só uma ocasião imediata para a sugestão do tentador. Neste fundo projecta-se a tentação de Israel que tem medo de morrer de fome no deserto (Ex 16,3). Numa correcta visão de fé, o dom do maná era só um sinal da fidelidade de Deus para que o povo compreendesse que a palavra de Deus «conserva aqueles que crêem nele» (Sb 16,26). A resposta de Jesus, recusando-se a realizar o papel messiânico num contexto espectacular e prodigioso, liga-se a esta perspectiva de fé, acentuando a linha da humilde e confiante adesão à palavra de Deus que é fonte de vida para o crente (Dt 8,3).

            A tentação do templo – A segunda tentação assume ainda uma conotação messiânica pelo cenário em que desenvolve: sobre o pináculo do templo de Jerusalém. De facto, espera-se a manifestação do Messias num contexto de prodígios, exactamente sobre o monte Sião, onde se ergue o templo de Deus. A nova proposta do tentador desta vez tem uma cobertura religiosa, porque, em sintonia com a primeira resposta de Jesus, apela para a «palavra» de Deus, que promete protecção ao justo que se encontra em perigo (Sl 91,11-12). Mas Jesus desmascara esta pseudo-religião que pretende servir-se de Deus. Apela à palavra de Deus que traça o caminho de fidelidade contestando toda a intenção humana de desafiar e instrumentalizar Deus (Dt 6,16).

            A tentação do poder – Na última tentação diabólica para desviar o Messias do seu projecto de fidelidade a Deus estão presentes as esperanças messiânicas que alimentaram os movimentos de insurreição da Palestina.

Ao Messias davídico, entronizado sobre o monte Sião, ao lado do santuário de Deus, são prometidos os reinos da terra (Sl 2,6.8; 110,1-2). Porém, a condição posta pelo tentador é a adoração idolátrica que representa a infidelidade radical a Deus, único Senhor. De facto, Israel na posse da terra esqueceu e traiu a sua relação com o único Deus, prestando culto a outras divindades e sacrificando aos demónios (Dt 32,15-18). Não é aquele o caminho de fidelidade traçado pelo princípio fundamental que o crente hebreu recita em cada manhã: «Escuta Israel: o Senhor é o nosso Deus; o Senhor é único» (Dt 6,5). A conquista e a instauração dum poder imperialista em nome de Deus é uma perversão diabólica da verdadeira relação de fé que reconhece a única senhoria de Deus.

O cenário das três tentações encerra com um quadro ideal que é prelúdio da vitória definitiva de Jesus. Ao seu serviço estão agora os anjos que acompanharão a sua vinda como juiz e Senhor universal (Mt 16,27; 24,31; 25,31). Aquele pão que ele recusou obter de maneira taumatúrgica usufruindo do seu estatuto de Messias, recebe-o agora como sinal da fidelidade de Deus. Aquela assistência divina que não reivindicou como privilégio messiânico na cena do templo, obtém-na no fim do seu caminho humano de fidelidade.


P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

VIII domingo do tempo comum – Ano A

 

 

Breve comentário

                O texto deste domingo, na continuação do Sermão da Montanha, apresenta uma série de exortações acompanhadas de comparações, tiradas da observação da vida comum ou da natureza.

            A primeira exortação encerra-se com a alternativa radical: Deus ou dinheiro, baseando-se na ideia de que um servo não pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. A imagem de «servir», unida ao vocabulário afectivo (odiar, amar) tem uma carga de conotações religiosas. O serviço ao único Deus é definido como «amá-lo com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças» (Dt 6,4-5.10-12). Em nome desta dedicação total ao único Deus e Senhor contesta-se toda a idolatria, isto é, servir a outros deuses e senhores. Neste fundo religioso compreende-se o rigor da escolha evangélica que se opõe ao ídolo contrário a Deus: o dinheiro, quando considerado como única fonte de confiança.

            A segunda exortação refere-se à não preocupação com as necessidades elementares, como são a comida e a roupa. A motivação do discurso evangélico assenta na hierarquia de valores, com uma referência à acção criadora de Deus. Quem deu a vida e o corpo não proverá também ao que lhes é necessário?

            Os exemplos que se seguem partem precisamente desta ideia de Deus criador e providente. Deus provê comida a todos os animais, mesmo aos mais simples. O mesmo argumento serve para os lírios do campo, que se apresentam com beleza e esplendor, e para a erva, imagem do aspecto efémero e mortal da existência humana. Por isso os discípulos que se preocupam demasiado com a comida e com a roupa revelam uma fé débil que desconfia da generosidade e poder de Deus Pai: são «homens de pouca fé» (cf. Mt 8,26; 14,31; 16,8).

            A partir destes exemplos, o discurso continua com uma exortação directa aos discípulos, definindo como prioridade a procura do Reino que se traduz na «justiça» do Pai celeste, isto é, a procura da vontade de Deus, numa atitude de confiança absoluta no Pai celeste que «bem sabe que tendes necessidade de tudo isso».

            A justiça do reino é um tema caro a Mateus, entendido aqui como uma procura activa de tal justiça como é revelada pelo ensino de Jesus, isto é, a procura da vontade de Deus. A preocupação principal do crente deve ser o reino de Deus e a sua justiça, bem supremo. Este desejo de fundo torna-se uma regra geral válida em todas as circunstâncias. Todas as outras coisas devem ser esperadas de Deus e pedir-lhe com a confiança de filhos ao Pai providente e carinhoso que de certeza não nos fará faltar quanto é necessário para a nossa vida. A adesão a Deus orienta as nossas escolhas nos campos da vida quotidiana e liberta-as não só do egoísmo, mas também duma visão demasiado curta que não nos permite viver verdadeiramente.

            Uma ânsia excessiva em relação às pequenas ou grandes necessidades quotidianas pode ofuscar o interesse e a recordação do objectivo e tirar o sentido da existências, inclusive anular a nossa relação com Deus, que é fundamental para que a vida tenha significado: a plena comunhão com Deus, o nosso Pai celeste.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

Mensagem para a Quaresma 2014

 

Amados diocesanos

[1] A Missão Jubilar que vivemos, na celebração dos setenta e cinco anos da restauração da nossa diocese, foi um belo e bom caminho percorrido pela Igreja de Aveiro. Cumprimos, de forma criativa, múltiplas e abençoadas etapas ao serviço da evangelização. Sabemo-nos discípulos de Jesus Cristo e portadores da alegria do evangelho. Sentimo-nos chamados, através de um novo dinamismo pastoral, a ser fermento, sal e luz, como presença da Igreja nesta casa comum da humanidade que é o mundo.

Ancorados em Cristo, tivemos a ousadia evangélica de nos lançarmos ao largo sem receios nem preconceitos. Quisemos ver os outros e olhar o mundo com os olhos de Deus. E, a partir daí, descobrimos com alegria que éramos muitos mais do que imaginávamos a levar a boa nova das bem-aventuranças do reino a todos os lugares da diocese.

Discípulos missionários e mensageiros de Jesus e por Ele enviados em missão, cruzamo-nos, neste tempo jubilar, nos caminhos da diocese e encontrámo-nos no seio das realidades diárias.

A tarefa não terminou! Apenas uma etapa se cumpriu! A Missão Jubilar revelou-nos, com maior clareza, este amor primeiro de Deus por nós e abriu caminhos novos à missão da Igreja de Aveiro. Esta é a hora de continuar e de prosseguir este caminho!

 

[2] Neste espírito da Missão Jubilar, proponho-vos nova caminhada para o tempo forte da Quaresma e do Tríduo Pascal com o lema: “Nesta Quaresma, atreve-te…”.

Na sua mensagem para esta Quaresma, o Papa Francisco inspira-se no texto de São Paulo: “Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza” (2 Cor 8, 9).

Esta Quaresma, vivida com o dinamismo apostólico e a pedagogia pastoral que a Missão Jubilar nos deu, encontra a Igreja de Aveiro “pronta e solícita para testemunhar a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo cada pessoa” (Papa Francisco, Mensagem para a Quaresma 2014).

A caminhada de Quaresma, para a qual vos convoco, quer ajudar-nos a viver, a fortalecer e a desenvolver esta feliz experiência do amor de Deus e de comunhão entre pessoas, famílias, comunidades e movimentos. Vamos colocar, em cada semana, a Palavra de Deus no coração do caminho para a Páscoa e fazer da Quaresma tempo de descoberta da alegria do evangelho.

Centremo-nos na liturgia de cada domingo da Quaresma. Aí se inspira o desafio semanal, a aclamação ao evangelho e o compromisso de acção. Aí encontraremos a imagem inspiradora para a semana e a oração pessoal de cada dia, que facilmente transformaremos em oração familiar e comunitária.

 

[3] Escuta  |  Liberta-te | Transforma-te | Orienta-te  | Renova-te | Manifesta-te | Vive, são desafios que a caminhada de Quaresma nos apresenta e compromissos a que a Quaresma nos convoca.

São apelos de renovação espiritual ao alcance de todos: sacerdotes, diáconos, consagrados e leigos.

São imperativos de conversão, que queremos assumir como pessoas e como comunidades, e caminhos de transformação humana e social, que vamos percorrer, para que o mundo sinta a ternura do amor de Deus e a força da esperança para vencer a “miséria material, moral e espiritual” (Papa Francisco, MQ 2014).

Coloco esta mensagem no coração de todos os diocesanos, crianças, jovens, famílias, doentes, idosos e emigrantes, para que em todos se retome e reavive a bela experiência jubilar, que nos leva, em cada momento da nossa vivência eclesial, ao encontro de quantos habitam esta nossa casa, que é a diocese de Aveiro.

 

“Que Deus sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e a solicitude para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos asseguro-vos a minha oração e peço-vos que rezeis por mim.

Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde”  (Papa Francisco, MQ 2014).

 

Aveiro, 10 de Fevereiro de 2014

António Francisco dos Santos, bispo de Aveiro

 

 

 

Mensagem de D. António Francisco à diocese de Aveiro

 

Mensagem à Diocese de Aveiro

 

Caros Diocesanos

Nesta hora, não encontro outras palavras senão estas ditas, por Deus quando chamou Abraão: “Deixa a tua terra, a tua família e vai para a terra que eu te indicar” (Gén 12, 1).

Foi à voz de Deus e seguindo o Seu chamamento que sempre parti. Desde a minha primeira missão, como jovem diácono, nos confins do Alto Douro.

Em todos os lugares permaneci e trabalhei, por pouco ou muito tempo, com alegria. Sempre me senti livre para daí partir no dia seguinte, se necessário fosse. Sempre, de igual modo, me senti disponível para aí permanecer.

De todos os lugares fiz minha terra até ao fim. De todas as pessoas sempre me senti irmão. Em todos os lugares onde vivi e nos diferentes múnus que a Igreja me confiou eram previsíveis as mudanças. Menos aqui!

Aveiro era para mim lugar, desígnio e missão até ao fim. Nunca aqui fui estranho nem me senti estrangeiro. Mas, hoje, compreendo, melhor do que nunca, que também aqui era simplesmente peregrino. Só Deus basta e só Cristo permanece.

Pedi a muitos dos nossos sacerdotes em cada ano que, por imperativo de missão, deixassem terras e comunidades e partissem, com alegria e coragem, para outras terras e novas comunidades. Agora tenho eu mesmo de ser coerente e consequente com o que pedi aos outros.

Aveiro era a minha casa e a minha família, pensava eu! Aqui encontrei barco e remos à minha medida. Sempre senti que Cristo ia ao leme. Nunca me faltaram colaboradores dedicados, dispostos a remar ao meu lado e disponíveis para a missão.

A Missão Jubilar ajudou-nos a ser uma Igreja una e unida. Percorremos “um belo e bom caminho” como Igreja feliz, decidida e mobilizada para acolher e anunciar a “alegria do Evangelho”.

Agora é tempo de partir. Sem vos deixar. Parto de amarras soltas, agradecido por esta Igreja de Aveiro que sirvo e tanto amo. Sei que vou acompanhado pela amizade, oração e dedicação de todos os aveirenses.

À voz de Deus e ao mandato da Igreja eu só posso dizer “Sim” por entre desafios, temores e surpresas. Sempre me senti sereno quando obedeci. Sempre reencontrei a liberdade interior quando, depois de dúvidas e receios, venci o temor e disse sim a Deus e à Igreja.

De coração livre e disponível para a Missão, quero, ajoelhado diante de Deus e de olhar voltado para a Mãe de Deus e para Santa Joana, Nossa Padroeira, dizer sim à Igreja que agora me chama a servir a Diocese do Porto.

Acompanhai-me com a vossa amizade e oração, como sempre fizestes ao longo destes oito anos e abençoai-me nesta nova e difícil missão a que Deus me chama. Vivei esta hora comigo.

Com a bênção do vosso bispo e vosso irmão.

 

Aveiro, 20 de Fevereiro de 2014


 

 

Mensagem para refletir...

 

Li um dia destes dias que os pais cometem pelo menos 6 erros na educação dos filhos, por excessiva protecção: ao ler a descrição dos erros: percebi que os cometo todos os dias, várias vezes por dia… porque os amo, porque não quero que fiquem tristes, porque não quero que passem por dificuldades, porque não quero que ninguém os magoe…

Mas, se calhar também não os deixo crescer, não aprendem a ser grandes, não são capazes de resolver os seus próprios problemas.
Senhor, ensina-me a amar os meus filhos, como Tu nos amas. Quando caímos, estendes a tua mão, quando nos sentimos sós, sabemos que estás presente, quando erramos, temos certo o teu perdão, perante o nosso arrependimento! Assim crescemos como teus filhos, aprendemos a ser tuas testemunhas.
Senhor ensina-me a amar os outros, como Tu me Amas! 

Anónimo

 

VII Domingo do Tempo Comum – Ano A

Breve comentário

                Este texto, com dois comentários de Jesus acerca de dois princípios da Lei, é a continuação do Domingo passado.

            «Olho por olho, dente por dente» faz referência à lei mais ampla de Ex 21,23-25: «vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé,queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão». Este princípio, que já se encontra no velho código de Hammurabi do séc. XVIII a.C., conhecido como «lei de talião», apesar de parecer uma lei dura, estabelece a proporcionalidade da justiça em relação ao direito lesado, para limitar e controlar a vingança.

O princípio alternativo, formulado por Jesus, tem um valor programático: «Não vos oponhais ao mal». A exemplificação que se segue não é exaustiva, mas puramente indicativa, elencando algumas situações de injustiça e de afronta, típicas do ambiente palestinense antigo.

O primeiro é o caso de insulto. A bofetada com as costas da mão na face direita era considerada particularmente injuriosa, estando prevista uma pena pecuniária mais grave do que para um murro ou uma simples bofetada. A atitude sugerida neste caso inspira-se no modelo do Servo de Yahweh de Is 50,6: «Não ocultei o rosto às injúrias e aos escarros».

O segundo exemplo adquire a sua eficácia paradoxal sobre o fundo da norma bíblica a propósito dos penhores: Se tomares como penhor o manto do teu próximo, restitui-o ao pôr do sol, porque é a sua única coberta..» (Ex 22,25-26). No caso de processo por hipoteca sobre as vestes do devedor, o princípio evangélico contra a represália propõe uma conduta que vai além dos direitos essenciais tutelados pela lei bíblica: «Deixa-lhe tembém o manto».

A terceira forma de injustiça ou abuso de poder é o da requisição para uma corveia, isto é, para um trabalho gratuito obrigatório, por parte da autoridade militar ou dos funcionários públicos, que implique uma caminhada.

Ainda num contexto jurídico se coloca o último exemplo, o do empréstimo, para o qual a lei bíblica recomenda a gratuidade sobretudo se é destinado a um indigente (Ex 21,24). Neste caso, trata-se da renúncia espontânea do direito próprio a favor daquele que se encontra em estado de necessidade.

A ideia fundamental subjacente a este princípio não é apenas estabelecer princípio da não-violência mas evitar o recurso à legítima defesa, à reivindicação cega dos direitos pessoais, o que seria uma forma velada de uso da lei de talião.

«Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo». Este princípio, que surge como lei, não está escrito em parte alguma mas é a formulação duma prática antiga. O amor do próximo estava bem estabelecido entre o povo hebreu pela lei de Lv 19,18 mas era limitado apenas aos membros do povo, traduzindo-se numa hostilidade para com os estrangeiros e os inimigos religiosos, como lemos expressamente no Salmo 139,21-22: «Não hei-de eu, Senhor, odiar os que te odeiam? Não hei-de aborrecer os que se voltam contra ti? Odeio-os com toda a minha alma. Considero-os como meus inimigos».

A esta mentalidade contrapõe-se nitidamente o imperativo evangélico que estende o princípio do amor aos inimigos. A motivação e a fonte deste modo de agir apenas se pode encontrar no estilo do Pai Celeste que ama e beneficia, de modo desinteressado, justos e injustos. O amor para com os inimigos sem descriminações religiosas e morais é também a verificação e realização daquele estatuto de filhos de Deus que foi prometido aos discípulos na proclamação das bem aventuranças. Outra forma de agir torna dos discípulos de Jesus iguais a todos os outros, inclusive àqueles que eles mesmos criticam pelo seu estilo de vida.

Para o judaísmo em geral, a perfeição estava na escrupulosa observância dum código de leis. Os discípulos são chamados a ser perfeitos, imitando os traços característicos do amor benigno e misericordioso de Deus. A perfeição está na dedicação total a Deus, realizada por meio daquele amor activo e universal que é revelado e tornado possível no encontro com Jesus, o Cristo.

P. Franclim Pacheco

 

Diocese de Aveiro

 

 

"Para percebermos e saborearmos que vale a pena viver,

não obstante todas as dificuldades e surpresas que a vida nos vai trazendo,

é fundamental a aceitação, o calor humano, o carinho dos que nos rodeiam.

Nem sempre reconhecemos esse dado elementar;

nem sempre valorizamos suficientemente 

o que outros fazem ou significam para nós;

e também, com frequência, não somos capazes de ajudar 

a que os outros façam essa experiência 

e acolham o valor da vida como o grande dom de Deus.

Afinal, o segredo da vida que vale a pena viver 

está, muitas vezes, bem perto de nós.

Mas, por distracção, indiferença, egoísmo, incapacidade de doação, 

não sabemos descobrir e agarrar esse tesouro."

Anónimo

“Todas as vezes que a palavra impossível aparece no meu caminho, Jesus Cristo vem e apaga o im.”

 

Novo Conselho Económico da Paróquia

 

 

VI Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

 

Breve comentário

            A primeira parte do texto (vv. 17-20) apresenta alguns aspectos que merecem a nossa atenção e que, no fundo, são a chave de leitura para o que se segue. No início fala-se de «Lei ou profetas», mas depois restringe-se o discurso à «Lei» e aos «preceitos mínimos» e, finalmente, requer-se uma «justiça» superior à dos representantes do judaísmo para entrar no «reino dos céus».

            A fórmula «Lei ou (e) Profetas», que ocorre quatro vezes no evangelho de Mateus, começa por exprimir o conjunto da revelação bíblica no seu valor normativo e profético. Mas parece que Mateus apresenta a dimensão profética o critério para interpretar a Lei (Pentateuco) do Antigo Testamento. Nesta perspectiva se deve entender a afirmação final «dar cumprimento». Na missão histórica de Jesus, nas suas palavras e gestos, está a plena revelação e realização da Lei nas suas intenções proféticas.

            O iota (i) é a mais pequena letra do alfabeto grego; o ápice é um sinal gráfico pequeníssimo. A ideia é que nada da Lei é eliminado. Por outras palavras, a Lei, tal como a profecia bíblica, cumpre-se agora em Jesus, intérprete e promulgador definitivo da vontade de Deus. Por isso, a sua reinterpretação autorizada dos mandamentos não tem o objectivo de abolir ou revogar nada da Lei, mas manifestar e realizar plenamente as suas intenções originais e profundas.

            Tendo isto em conta, segue-se a recomendação aos cristãos e aos mestres responsáveis em particular, não dum mero cumprimento mecânico e exterior da lei e dos preceitos, mas dum empenho e uma fidelidade e coerência total à vontade de Deus como é reproposta e interpretada por Jesus.

            É nesta perspectiva que se deve entender o confronto entre a «justiça» dos escribas e fariseus e a «justiça» dos discípulos. Esta nova «justiça» está na linha do «cumprimento» profético da lei em Jesus e da sua íntegra e coerente actuação por parte dos discípulos. Mais do que uma execução perfeita, exterior, exige-se a conformidade com a vontade profunda de Deus, ao nível do interior e do coração.

            A segunda parte do texto (vv. 18-37) mostra quatro exemplos concretos desta nova maneira de entender a Lei: homicídio, adultério, divórcio e juramentos.

            Colocando a Lei no interior do coração, o mandamento «não matarás!» adquire uma dimensão mais profunda. O outro não é apenas «outro», mas um irmão. Os três casos que são comparados ao homicídio, ira e palavras injuriosas, representam um novo modo de entender e praticar o mandamento antigo e, por isso, merecem castigo severo. A relação com o irmão tem uma tal seriedade que decide o próprio destino definitivo diante de Deus.

            Esta interpretação religiosa é confirmada pelas duas parábolas da reconciliação. A primeira coloca em relação o dever da reconciliação com o culto. Como pano de fundo, está a frase de Oseias citada duas vezes ao longo do Evangelho (9,13; 12,7): «Eu quero misericórdia e não sacrifício». A misericórdia vale mais que o sacrifício, isto é, o culto como relação com Deus não pode prescindir da justa relação com os homens.

            A segunda parábola exprime de modo eficaz a necessidade de entendimento e de reconciliação no seio da comunidade que, não acontecendo, leva necessariamente à condenação irreversível, aqui expressa pela palavra Geena, o vale de Hinnôm a sul de Jerusalém, cuja recordação está ligada ao uso abominável dos sacrifícios de crianças ao deus Molok e, por isso, transformada em lixeira. Ser lançado na Geena é ser considerado lixo.

            Em relação à segunda lei (vv. 27-30): «Não cometerás adultério» (Ex 20,14; Dt 5,18), a proposta evangélica inspira-se no último mandamento: «Não desejarás a mulher do teu próximo…» (Ex 20,17), mas vai além do plano jurídico para se colocar no plano das relações interpessoais profundas. No olhar do homem exprime-se o desejo de posse, transformando a outra pessoa em objecto ao serviço do seu «eu». Esta concupiscência mobiliza todo a acção a partir das intenções e decisões interiores: «no coração». As duas frases paralelas que se seguem («arranca-a… corta-a e lança-a fora») sublinham a extrema decisão que é pedida ao discípulo diante duma escolha em que está em jogo o seu destino salvífico: ele deve saber sacrificar uma parte de si, mesmo preciosa, para salvar-se.

            A terceira lei (vv. 31-32) analisada é um apêndice à lei anterior. A antiga lei de Moisés que permitia a separação dos esposos, mediante a carta de repúdio, é rejeitada e condenada como adultério. Este assunto será retomado e ampliado mais adiante (cap. 19). A excepção («excepto em caso de fornicação» – porneia, em grego), que só se encontra no evangelho de Mateus, tem a ver com a situação de cristãos que vieram do paganismo, por vezes  casados com consanguíneos, isto é, numa relação incestuosa que devia ser excluída (cf. Lv 18,6-18; Mt 19,3-9).

            A quarta lei antiga (vv. 33-37) recomendava que se mantivesse com fidelidade os juramentos e os votos feitos a Deus (Nm 30,3; Dt 23,22; Sl 50,14), proibindo o juramento falso em nome de Deus (Lv 19,12; Ex 20,7). Porém, com o decorrer dos tempos, tornou-se uma prática habitual entre os judeus o uso do juramento e da imprecação para fundamentar qualquer afirmação. Mas, para não usar directamente o nome de Deus, usavam símbolos (céu, terra, Jerusalém, templo, a própria cabeça). A proposta evangélica exclui qualquer forma de juramento na sua dupla valência religiosa e social. Sob o ponto de vista religioso, o juramento é um abuso da autoridade de Deus, invocado para cobrir a deficiência de veracidade das palavras e dos compromissos humanos. A grande recomendação feita por Jesus é em relação à verdade das palavras e dos comportamentos: «Sim, sim; não, não».

 P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

"Olhares que vão mais longe"

Jesus, 

Numas destas noites, ao chegar a casa, fiquei parada a olhar para dois carros estacionadas à nossa porta. De repente percebi que eram os mesmos há dias… um dos meus filhos, disse tranquilamente que estava enganada, os carros estavam ali há muitas semanas. Senti uma irritação a crescer. “Não é possível, estas atitudes são sinais evidentes de falta de respeito pelo próximo…numa rua com falta de estacionamentos”… interiormente pensei de imediato em recados desagradáveis e públicos, ou até na possibilidade de esvaziar uns pneus. E mastiguei ruidosamente, juízos de opinião.
Dias mais tarde, encontrei um vizinho, a quem fiz a pergunta desejada – “ sabe de quem são estes carros?” a resposta veio lenta: “ sim, são do vizinho do primeiro andar. Está desempregado e precisa de vender os carros.” Lá justifiquei a minha indignação, mas subi em silêncio no elevador. 
Não está em causa a falta de civismo que representa a ocupação abusiva de um espaço público, mas sim como fui capaz de verbalizar um juízo sobre terceiros, sem mesmo me interrogar, se haveria alguma justificação. 

Ajuda-me Jesus, a ser capaz de ter olhares que vão mais longe do que as aparências… a ser capaz de calar palavras desagradáveis … ajuda-me Jesus, a ser mais atenta ao próximo. 

Isabel Figueiredo

 

Festas das Cinco Chagas do Senhor

Do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João:

“Naquele tempo, Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: “Vimos o Senhor”. Mas ele respondeu-lhes: “Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei”. Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. Depois disse a Tomé: “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente”. Tomé respondeu-Lhe: “Meu Senhor e meu Deus!” Disse-lhe Jesus: “Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto”.

 

É Tempo...

 

 

É tempo de ser firme, de ganhar consciência, de ter objectivos e propósitos na vida.

É altura de deixar de viver apenas porque os dias se seguem uns aos outros. 

É tempo de ter ânimo, resolução e cabeça levantada.

É tempo de perceber que sem ti, Senhor, não é possível caminhar, seguro, em frente.


V Domingo do tempo comum – ano A

 

              Breve comentário

            Os quatro versículos do texto deste domingo (5,13-16) fazem a ponte entre as bem-aventuranças e o discurso programático sobre a interpretação da Lei que se segue (5,17-20). Os discípulos são interpelados directamente na segunda pessoa do plural («vós»), como na última bem-aventurança dirigida aos perseguidos. A estrutura do pequeno texto gira à volta da dupla declaração solene tem um valor ao mesmo tempo programático e exortativo: «Vós sois o sal da terra» – «Vós sois a luz do mundo».

            Os destinatários da dupla exortação são os discípulos que se aproximam de Jesus que sentado sobre a montanha (5,2), aos quais se dirige a sua instrução.

            «Vós sois o sal da terra». À partida, a expressão é enigmática porque não se vê imediatamente a relação entre o sal e a terra, aqui entendida como mundo, humanidade. No contexto bíblico e na tradição judaica o sal, que dá sabor aos alimentos, purifica-os e conserva-os, é símbolo de sabedoria (Cl 4,5-6). Em alguns textos é sinal de aliança ou de paz (Nm 18,19; 2Cr 13,5).

            A ideia do sal que perde o sabor não é possível, é um paradoxo, tal como a imagem do camelo a passar pelo fundo duma agulha. Se os discípulos não realizam a sua tarefa em relação ao mundo não servem para nada, mais ainda, arriscam-se a ser lançados fora e ser pisados pelos homens.

            «Vós sois a luz do mundo». Na tradição bíblica e judaica, a imagem da luz é antes de mais referida a Deus, à sua palavra, à lei, à sabedoria e ao povo de Israel, ao templo e à cidade de Jerusalém. Na tradição profética de Isaías, a Jerusalém futura, símbolo da comunidade, é interpelada com estas palavras: «Levanta-te, reveste-te de luz… a glória do Senhor brilha sobre ti… os povos caminharão à tua luz» (Is 60,1-3). A imagem da lâmpada colocada sobre o candelabro exprime a mesma ideia, mesmo se em termos mais familiares.

            É um absurdo pensar em esconder uma cidade, que normalmente era construída sobre um monte, por uma questão de defesa natural. Igualmente é absurdo imaginar acender-se uma lâmpada para a esconder. Acende-se a lâmpada à noite para iluminar os habitantes da «casa», isto é, os membros da «casa de Israel». O evangelista Mateus está aqui a pensar na sua comunidade de judeus convertidos ao cristianismo que vivem no meio dos outros judeus.

            A aplicação final é coerente com as preocupações pastorais práticas de Mateus. A luz, que não pode ser escondida como uma cidade situada sobre um monte ou ser colocada debaixo dum alqueire, são as «boas obras» dos discípulos. Com esta expressão indica-se toda a existência dos discípulos que se torna transparente à vontade de Deus, acolhida e realizada com fidelidade. Trata-se daquelas obras que tornam visível a justiça, a misericórdia, o empenho pela paz dos discípulos por meio das quais eles se revelam autênticos filhos de Deus. De facto, este empenho coerente e prático dos discípulos é uma irradiação da luz que deve conduzir os homens a reconhecer a fonte luminosa, Pai que está nos céus. Neste testemunho límpido e desinteressado a favor do Pai celeste realiza-se o serviço que os discípulos devem fazer à humanidade.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

                              Meditando

Custa perdoar? Custa… e  muito! Mas talvez ganhemos coragem para perdoar, se nos lembrarmos do que diz o Pe. Manuel Morujão:
“O capítulo mais difícil do livro do amor é o do perdão. É fácil amar quem nos ama. Basta fazer de espelho. (…) Mas amar quem nos ofendeu, quem se mostrou inimigo, ingrato, grosseiro, desleal... isso exige algo de grande e mesmo de heróico. É preciso saber saltar o obstáculo da ofensa (…). 
O perdão é um desafio maravilhoso (...) O perdão tem a magia de transformar uma dívida em prémio: uma bofetada em beijo, um espinho em rosa, uma ofensa em misericórdia. Não é preciso possuir dotes especiais para realizar prodígios. Simplesmente, basta amar até ao fim, sem pôr fronteiras e condições. A obra-prima do amor é o perdão” 

 

PARAR

    Estamos a chegar ao final do primeiro mês do novo ano. Parece que já vai longe a noite da passagem de ano e quase nem nos lembramos dos desejos que tínhamos nesse dia. Algumas coisas já as teremos concretizado, outras estarão a caminho. A correria do dia-a-dia pode fazer-nos esquecer as boas promessas, por isso é importante parar de vez em quando para ver como estamos a caminhar. Mas parar não significa apenas um exercício de introspecção. Parar significa estar connosco próprios e com os outros, sem agendas a cumprir e sem estar a olhar constantemente para o relógio. Parar significa dar valor ao que acontece no momento em que decidimos perceber que, à nossa volta, existem mais motivos para agradecer do que ameaças ao nosso bem-estar.  Se não paramos, a vida vai correndo sem nos dizer nada de importante, ou pior, sem que nós possamos dizer algo importante a quem merece ouvir de nós palavras que os poderão fazer mais felizes. 

António Valério, sj

 

Festa da Apresentação do Senhor – Ano A

 

 

 

 

Breve comentário

            Neste domingo, 2 de Fevereiro, a Igreja celebra a Festa da Apresentação do Senhor, meditando um texto do evangelho segundo Lucas. José e Maria são apresentados como dois israelitas observantes da Lei do Senhor, que depois do rito da circuncisão e da imposição do nome, no cumprimento normal da Lei, levam o menino ao templo quarenta dias depois do seu nascimento, a fim de ser resgatado como qualquer primogénito. Ora, esta prática não estava difundida entre os judeus ao tempo de Jesus, e não era necessário levar o menino ao Templo. Esta apresentação no Templo assume um significado teológico: o Senhor entra no seu Templo, purifica-o com a sua presença.

            Jesus veio trazer uma novidade, mas não completamente separada e distante dos costumes e expectativas do seu povo.

            Segundo a lei de Moisés (Lv 12,1-8) a mulher que deu à luz um filho era considerada impura durante 7 dias e ainda devia permanecer em casa durante outros 33 dias (no caso de ter uma menina o período era alargado até aos 80 dias). No fim deste período, a mulher devia apresentar-se no tempo e oferecer um cordeiro em holocausto uma rola ou uma pombinha em sacrifício de expiação. Se não tinha condições para oferecer um cordeiro, bastavam duas rolas ou duas pombinhas.

            A purificação dizia respeito apenas à mãe, mas Lucas fala da «purificação deles», incluindo também José. Qual o motivo? Talvez Lucas seguisse uma convicção de tipo grego, segundo a qual a impureza incluía a mãe, o filho e também todos aqueles que tinham assistido ao arto. Mais provável é que Lucas, não conhecesse bem os costumes hebraicos e se limitasse a recordá-los de modo genérico. De facto o acento está posto na apresentação do menino ao Senhor.

            O primogénito de qualquer família humana (e também dos animais) era consagrado ao Senhor (Ex 13,11ss). Num segundo momento a Lei prevê o seu resgate, através do pagamento de cinco siclos de prata (o salário de 20 dias; Nm 8,14-16). Mas, no tempo de Jesus, já não se fazia a apresentação do primogénito e, por isso, na sua narração Lucas não fala de resgate do primogénito.

            Além disso, para realizar este resgate não era necessário levar o menino ao Templo: o pai podia pagar a importância requerida a um sacerdote da aldeia. Lucas cita Ex 13,12, adaptando-o ao anúncio que o anjo Gabriel tinha feito a Maria: «o menino será chamado santo». Portanto, Jesus pertence a Deus desde o seu nascimento e não somente no momento da sua apresentação.

A purificação seria, portanto, apenas o pretexto para levar Jesus ao Templo. Enquanto descreve esta cena, Lucas está a pensar que Jesus, filho primogénito de Maria, é primogénito de Deus e, por isso sublinha que ele é apresentado ao Pai. O sentido mais profundo só se compreende à luz do Calvário, onde Jesus é a vítima sacrificada que se «entrega» ao Pai.

            Entra em cena Simeão, homem justo e piedoso, obediente à vontade de Deus, fiel ao culto no templo, confiante nas promessas de Yahweh. Também ele é um pobre de Yahweh que espera «a consolação de Israel». Não é sacerdote e aproxima-se mais da categoria dos profetas que falam e agem pela força do Espírito Santo, várias vezes referido no texto. Assim, Lucas sugere que a Lei e os profetas são as referências indispensáveis para acolher Jesus e proclamar a sua messianidade.

A promessa feita pelo Espírito Santo é que Simeão não veria a morte sem ver o Ungido do Senhor. Os pais que vieram ao templo trouxeram o menino Jesus; Simeão tomou-o nos seus braços. E é por este menino de nome Jesus que ele louva o Senhor. A Salvação de Deus que Simeão  é uma pessoa, é Jesus. Aquele que foi anunciado como Salvador é a própria Salvação incarnada.

A salvação prometida a Simeão não é reservada apenas ao seu povo, é destinada a todos os povos, às nações tal como a Israel. Em Jesus, o Deus que se tinha revelado a um povo particular, será manifestado a todos. A glória de Israel estará no facto de ser caminho pelo qual a salvação chegou aos confins da terra, de ter dado ao mundo o Salvador de todos os homens.

As palavras do cântico de Simeão sintetizam a perspectiva que o evangelista expressa em toda a obra: Jesus está no centro da história da salvação, ponto de chegada das promessas do Antigo Testamento e ponto de partida duma salvação destinada a estender-se a todas as nações chamadas a formar o único povo de Deus e que vai ser o tema central do livro dos Actos já antecipado no Evangelho.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

PENSAMENTO SEMANAL

III Domingo do Tempo Comum – Ano A

              Breve comentário,

            O texto do evangelho deste domingo desenvolve-se em duas partes: o início da actividade de Jesus e o chamamento dos primeiros discípulos.

A primeira parte é uma composição literária típica do evangelista Mateus, com uma nota temporal e outra geográfica comentada por uma citação bíblica, terminando com a pregação programática de Jesus.

            A prisão de João é para Jesus um sinal divino para dar início à sua actividade pública. A escolha de Cafarnaum, segundo o evangelista, entra num projecto divino na linha das promessas messiânicas de Isaías. Historicamente, o anúncio do profeta referia-se à libertação das tribos que viviam naquela zona; estavam em trevas, dominadas pelos assírios, mas iriam ver a luz da liberdade. Agora a Luz vem para aqueles galileus que os judeus residentes em Jerusalém desprezavam porque os consideravam pouco instruídos, ignorantes da lei e pouco observantes dos preceitos, além de serem fruto duma mistura de vários povos.

Com a confirmação profética de Isaías que agora se realiza completamente na pessoa e missão de Jesus, está a ser antecipado o tema da salvação dos gentios, além das «ovelhas perdidas da casa de Israel». Esta perspectiva salvífica conjuga-se com o motivo da «luz» que caracteriza a missão universal do servo de Yahweh, chamado a ser a luz dos povos (Is 42,6; 49,6).

Sobre este amplo fundo teológico adquire significado mais profundo a pequena frase que condensa a actividade de pregação de Jesus: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus». Já sabemos que o evangelista Mateus, que escreve para cristãos de origem e mentalidade judaicas, usa várias formas para, de algum modo, «camuflar» o nome de Deus, devido ao respeito que os judeus têm pelo seu Nome. Por isso, devemos considerar a expressão «Reino dos céus» como equivalente a «Reino de Deus».

Literariamente, esta frase é igual à pregação de João Baptista; mas o seu conteúdo é agora muito mais profundo. O convite à conversão implica uma revolução espiritual que abraça a mente e o coração como adesão integral a Deus, empenhando-se em fazer a sua vontade. A urgência e a seriedade deste convite derivam da proclamação: «O reino dos céus está próximo». Esta proximidade não consiste numa questão de tempo mas na concentração cristológica do anúncio: o reino dos céus fez-se próximo na pessoa de Jesus, nas suas palavras e gestos de salvação.

            A narração do chamamento dos primeiros discípulos apresenta-se de modo simétrico, em díptico, compreendendo três momentos: o encontro de Jesus com dois irmãos (designados pelos nomes e apresentados nas suas tarefas quotidianas e no contexto das suas relações familiares); a palavra-convite a seguir Jesus; pronta adesão dos chamados (que deixam a situação anteriormente descrita e seguem Jesus).

            Esta narração de chamamento reproduz, de forma estereotipada e estilizada, um processo histórico mais complexo que levou quatro pescadores a seguir Jesus, abandonando os seus vínculos familiares e a sua actividade. Na origem desta narração está a relação original e irreversível que se estabeleceu entre Jesus e alguns pescadores do «mar da Galileia».

O ponto focal das duas cenas paralelas é a palavra de Jesus. O seu convite soa como proposta duma nova tarefa e como promessa: «farei de vós pescadores de homens». É um convite que comporta uma partilha da sua própria missão e destino messiânico como anunciador do reino de Deus.

             Existe uma semelhança profunda com o chamamento de Deus aos profetas, pois é Jesus que toma a iniciativa, apresentando-se como um mestre diferente dos outros. Este Mestre escolhe os discípulos e não vice-versa; a sua palavra é mais actuada que explicada ou memorizada; o seguimento comporta solidariedade com o seu destino pessoal, mesmo na situação crítica da ameaça de morte. Ao longo da narração do evangelho, torna-se claro que na palavra de Jesus que chama os homens se manifesta a palavra decisiva de Deus.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

Nesta semana de oração pela unidade dos cristãos, sem cessar Te pedimos, Senhor, que nos ensines a ousar todos os gestos de encontro e todos os gestos de paz para podermos ser o sal da terra, neste nosso mundo partido e sofredor.

Reacende em nós a alegria do nosso comum batismo e de juntos confessarmos o Teu nome de Irmão e único Pastor na certeza de que Tu, Cristo Jesus, não estás nunca dividido.

A esta hora em que o dia termina, e em todos as horas dos dias que hão-de vir, guia, Senhor,  os nossos passos, nos caminhos do serviço.

E deixa que com humildade ousemos pedir, que não olhes aos nossos pecados, mas à fé da Tua Igreja e que lhe dês a união e a paz, como é da Tua vontade.

Que esta noite seja de serenidade e encontro, e nos traga o dia novo em que todos seremos um.

Anónimo

Tomada de posse do novo pároco de Ancas

19-01-2013 às 15 Hrs

PARA O SERVIÇO DO POVO DE DEUS

 

1. INTRODUÇÃO

 A morte inesperada do Padre Fernando Manuel Teixeira Pinto e o regresso a Benguela, sua Diocese de origem, do Padre Tiago Kassoma exigem que sejam dados às paróquias, que generosamente serviram, novos párocos que as possam servir pastoralmente.

Agradeço a Deus a dedicação sentida e a generosidade encontrada nos presbíteros e diáconos que asseguraram este tempo de transição e nos que assumem, a partir de agora, este acrescido serviço pastoral, sabendo que o fazem sem em nada aliviar tantos outros múnus pastorais que lhes estão confiados.

Esta permanente disponibilidade para a missão constitui um sentir fraterno de comunhão e corresponsabilidade dos diáconos e presbíteros com o bispo diocesano e revelam que para lá do imperativo duma consistente organização eclesial está presente e actuante em cada um de nós “o sonho missionário de chegar a todos” porque aí “opera a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica”, como nos lembra o Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (EG 30 e 31).

A Missão Jubilar que vivemos e os dinamismos pastorais que em nós despertou veio revelar-nos que há entre nós, na vida da Igreja e na sua acção pastoral, um manancial extraordinário de graça que urge descobrir e de generosidade que importa valorizar e me incumbe agradecer.

 Neste espírito de corresponsabilidade e de gratidão;

 

HEI POR BEM NOMEAR:

1.     P.e Querubim José Pereira da Silva, Pároco de S. Miguel de Soza, no Arciprestado de Vagos.

2.     P.e Manuel António Carvalhais, Pároco de Santo António de Vagos, no Arciprestado de Vagos.

3.     P.e Manuel Martins Simões de Melo, Pároco de S. Tomé de Paredes do Bairro, no Arciprestado de Anadia.

4.     P.e João Carlos de Almeida Carvalho, Pároco de Nossa Senhora da Assunção de Ancas, no Arciprestado de Anadia.

5.     P.e Leonardo António Pawlak, Pároco de Nossa Senhora das Neves de Angeja, no Arciprestado de Albergaria-a-Velha.

6.     Diácono Manuel Benjamim de Oliveira Simões, Colaborador do Pároco de S. Miguel de Soza, no Arciprestado de Vagos.

7.     Diácono Dario da Rocha Martins, Colaborador do Pároco de Santo António de Vagos, no Arciprestado de Vagos.

8.     Diácono Afonso Dinis Dias, Colaborador do Pároco de Nossa Senhora da Assunção de Ancas, no Arciprestado de Anadia.

 

 Aveiro, 3 de Janeiro de 2014.

António Francisco dos Santos, Bispo de Aveiro


 

 

Cada dia uma novidade

 

“…um dia igual a muitos outros. Talvez hoje encontremos em nós alguma resistência a encarar alguém ou alguma situação. Mas experimentemos um olhar diferente. Aquilo que nos vai acontecer hoje tanto nos pode fazer ter medo, ou dar apenas a impressão que não vamos encontrar nenhuma novidade. Mas pode ser também a oportunidade de colocar algo diferente onde habitualmente não está: um sorriso, um bom-dia, uma ajuda… Em cada dia vamos trazer uma novidade diferente, uma surpresa de bondade na vida de alguém. E chegaremos ao fim desta semana a perceber que, afinal, a sensação de rotina é própria de quem se deixa levar pelos acontecimentos e não por quem é capaz de agarrar a vida e faze-la sua.
Senhor Jesus, peço-te que possa trazer a bondade em cada um dos meus gestos e criatividade para a pôr em prática.”

Autor desconhecido

 

 

Festa do Baptismo do Senhor – Ano A

Breve comentário

A cena do baptismo de Jesus segue-se à apresentação da figura e pregação de João que baptizava com água para levar ao arrependimento, porque o Reino dos Céus estava próximo. Já é evidente para o leitor que aquele que é «mais forte» que o Baptista e dará um baptismo «com o Espírito Santo» é Jesus Cristo, Filho de Deus.

Quem se aproximava de João para ser baptizado, descendo às águas do Jordão, «confessava os próprios pecados» em voz alta (Mt 1,6). Desta forma, submeter-se àquele rito equivalia a declarar-se necessitado de conversão e de perdão. É muito normal que um antigo ouvinte ou leitor de Mateus, vindo a saber que Jesus Cristo, o Filho de Deus, foi ter com João a pedir aquele baptismo de conversão, se tenha sentido incomodado. Como é que Jesus se submeteu a um rito «para a remissão dos pecados»? Que pecados podia ele ter? Havia aqui um problema de fé que o evangelista procura resolver no texto.

         Mateus começa por sublinhar que Jesus se dirigiu ao Jordão precisamente para ser baptizado por João: «Então, veio Jesus da Galileia ao Jordão ter com João para ser baptizado por ele» (3,13). Mas o evangelista insere imediatamente o diálogo entre João e Jesus, pormenor ausente nos outros evangelistas. A imensa superioridade de Jesus face a João que, no entanto, Mateus reconhece como «profeta e mais do que profeta» e «o maior entre os filhos de mulher» (Mt 11,9.11), não poderia ser professada mais vigorosamente, posta como está nos lábios de João: ele sabia quem era Jesus. Então, porque é que Jesus vai receber um baptismo de conversão pelas mãos de João? O evangelista apela para a misteriosa vontade de Deus: «Deixa por agora, pois convém que assim nós cumpramos toda a justiça» (3,15). Aceitar a humilhação é «justiça»; trata-se, por outro lado, duma humilhação por breve tempo («por agora»).

Justiça é um termo característico de Mateus (5,6.10.20; 6,1.33; 21,32). Termo tipicamente judeo-palestinense, a justiça significa a fiel submissão à vontade de Deus. Essa vontade que Jesus é chamado a cumprir e que João desconhecia. De momento, é pedida a Jesus a humilhação. É um momento de Cruz. No entanto, Mateus diz: «Uma vez baptizado, Jesus saiu logo da água», talvez para fazer entender ao leitor que Jesus, ao contrário dos outros, não ficou na água a confessar os seus pecados.

E eis que se abriram os céus. Entre as diversas passagens do Antigo Testamento, algo próximo do nosso texto é o texto de Ezequiel: «Abriram-se os céus e vi visões divinas» (Ez 1,1). É a visão que consagra Ezequiel como profeta de Yahweh. Como Ezequiel, e bastante mais do que ele, Jesus é admitido à visão dos segredos de Deus; é-lhe revelada a predilecção que tem por ele o Omnipotente, predilecção do Pai pelo filho único; e recebe uma pessoalíssima comunicação do Espírito. Por esta razão ele é investido do carisma profético de modo extraordinário, que não tem paralelo em nenhum profeta do Antigo Testamento.

E viu o Espírito descendo como uma pomba e vindo sobre ele. É algo visto apenas por Jesus. O autor não sugere a hipótese de outros terem visto, nem sequer João. A atenção de Mateus está fixa apenas sobre Jesus, para o qual é reservada a visão, assim como para ele é enviado o Espírito.

O que entende Mateus acerca da aparição do Espírito em forma de pomba? A resposta é difícil, já que não existem verdadeiros paralelismos no Antigo Testamento. Talvez a primeira ideia que podia surgir, num judeu habituado a escutar a Bíblia, fosse a da familiaridade, da amizade. «Pomba» é o termo que ocorre no Cântico dos Cânticos, como forma carinhosa de tratamento. A conhecida narração do dilúvio falava da pomba como de um animal familiar a Noé (Gn 8,8-12). Provavelmente a cena levava o pensamento também a uma outra recordação bíblica: Gn 1,2: «E o espírito de Deus pairava sobre as águas». O Espírito de Deus pairava sobre as águas primordiais para dar início à criação e à vida: um início novo, uma nova criação se realizava também no Jordão.

Sobre Jesus desce o Espírito de Deus, aquele Espírito que se encontrava junto de Deus no início da criação, que tinha estado nos reis e profetas, prometido ao Servo de Yahweh e ao Messias. Desce sobre Jesus como de maneira familiar, amiga.

Todas estas ideias parecem presentes, embora de modo vago no texto de Mateus. A importância do termo «Espírito de Deus» e o seu uso frequentíssimo no Antigo Testamento, por um lado, e a ausência de coincidências verbais por outro, não parecem permitir uma delimitação demasiado rígida de passos a que fazer referência.

Ao contrário de Marcos, a voz do Pai não se dirige directamente a Jesus mas a terceiras pessoas: «Este é o meu filho amado…». A quem se dirige a voz do céu? Mateus parece ter o pensamento na Igreja, aqueles para quem escreve. Ao recordar o facto passado que ele lia em Marcos, prevalece a preocupação do presente. A narração não é impessoal, é pregação, apelo, convite, pedido de adesão de fé. Na voz do Pai, o crente acolhe uma mensagem dirigida a ele.

Este é o meu filho amado. Na versão grega do Antigo Testamento, o adjectivo «amado» equivale muitas vezes a unigénito, único, traduzindo o hebraico y?hîd. Se Mateus tem no pensamento um texto, este é provavelmente Gn 22, onde o apelativo amado/unigénito é dito repetidamente de Isaac. É evidente que o termo exprime antes de mais a ideia dum amor paterno, terno, sem rival.

Em quem me comprazo. A referência aos cantos do Servo de Yahweh, apenas acenada no adjectivo «amado», torna-se agora explícita. Do Servo sofredor o Deutero Isaías dizia: «Eis o meu servo que eu sustenho, o meu eleito em quem pus as minhas complacências. Eu pus o meu espírito sobre ele» (Is 42,1). Na passagem profética, Deus garantia ao Servo o seu sustento e o dom do Espírito; proclamava-o seu eleito e declarava comprazer-se nele. Descendo nas águas para o rito do perdão, Jesus tomou sobre os ombros a parte do Servo; o Pai confirma-o solenemente.

Mateus é mais teólogo, catequista, do que histórico. O diálogo entre o Baptista e Jesus parece ter significado só num plano de catequese. Sempre faminto e sedento de justiça, Jesus foi o modelo de adesão a Deus; por esta razão ele quis ser baptizado, aceitando a humilhação que o juntava aos pecadores: porque o Pai assim queria. E ele procurava a justiça, a vontade de Deus.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

 

 

Um ano cheio de sonhos pequenos...

Os inícios de um novo ano são tempos entusiasmados, cheios de sonhos e promessas. Queremos começar o novo ano dispostos a novas atitudes, compromissos maiores e queremos, acima de tudo, acertar com aquelas coisas que deixamos por resolver no ano que passou. Um novo ano tem esta extraordinária capacidade de nos fazer sonhar. Mas é importante não esquecer que, ao lado das grandes decisões, existem as pequenas coisas de sempre, que continuam a pedir de nós a mesma atenção. Talvez mais do que uma parte da nossa atenção, possamos antes dar uma parte ainda maior do nosso coração. Porque as coisas grandes ganham a sua consistência nas pequenas. Se não, poderemos estar a construir sobre as nuvens. Comecemos este novo ano cheio de sonhos pequenos, e os grandes, acontecerão certamente.

“Pe. António Valério”

 

Solenidade da Epifania do Senhor – Ano A

 

Breve comentário

A solenidade da Epifania encerra o ciclo da celebração natalícia, na data em que a Igreja Ortodoxa celebra o Natal; o domingo do Baptismo do Senhor abre um novo ciclo dos domingos comuns (domingos de cor verde). O textos da Epifania ajudam-nos a compreender esta celebração como a manifestação (= epifania) de Jesus Messias a todos os povos.

            Todo o capítulo II do evangelho de Mateus é composto por quatro episódios que formam uma unidade: a visita dos magos, a matança das crianças de Belém e consequente fuga para o Egipto de José com Maria e Jesus; o quarto episódio é o seu regresso depois da morte de Herodes, texto que já foi lido este ano na festa da Sagrada Família.

            Trata-se duma pequena recolha de textos bíblicos, com muitas referências a Antigo Testamento, uma narração de tipo «midrashico» que apresenta a catequese primitiva acerca do chamamento à fé dos povos pagãos, em que se misturam história, poesia, teologia, apologética e polémica.

            O Evangelho de Mateus, escrito originariamente para uma comunidade judeo-cristã e em polémica com a sinagoga, põe a claro logo desde o início que o acolhimento de Jesus por parte dos seus não foi nada triunfal, pelo contrário, encontrou hostilidade ou indiferença (S. João escreverá mais tarde: «Veio para o que era seu e os seus não O receberam»). A nota negativa inicial acentua-se no decurso do evangelho, anunciando-se que «os filhos do reino serão lançados fora nas trevas» (Mt 8,12); filhos degenerados, presentes simbolicamente na parábola dos vinhateiros homicidas (cf. Mt 21,33-44) e realisticamente quando «todos eles responderam: seja crucificado» (Mt 27,22).

            Os magos são personagens misteriosos, talvez peritos em astrologia ou uma casta sacerdotal e funcionários reais; vêm do Oriente, indicação demasiado vaga, que poderia indicar a Pérsia ou a Mesopotâmia, ou até a Arábia ou o deserto sírio.

            Admira, à primeira vista, a presença de magos, referidos com toda a naturalidade, quando em toda a Sagrada Escritura eles são condenados. A nossa narração não tem nada de condenação: é sobretudo um delicadíssimo canto à Providência que guia os Magos ao encontro de Cristo. São as primícias da futura profecia de Jesus: «Eu digo-vos que muitos virão do oriente e do ocidente e se sentarão à mesa com Abraão, Isaac e Jacob no reino dos céus» (Mt 8,11) e penhor da futura missão da Igreja: «Ide e ensinai todas as nações, baptizando-as…» (Mt 28,19). A sua viagem, os seus dons, a sua atitude, são expressões daquela prostração-adoração que, como trama unificadora, serve à teologia de Mateus para mostrar como Cristo deve ser procurado e por quem ele se deixa encontrar.

            A estrela que guia os magos é muito peculiar: aparece, desaparece, anda, pára, move-se de norte para sul e não de este para oeste como as outras. É na Sagrada Escritura que vamos encontrar este astro preanunciado pelo profeta Balaão (Nm 24,17.19) referindo-se à «estrela que se ergue de Jacob e ao ceptro que se ergue de Israel». Jesus é a Estrela que conduz até Ele, a verdadeira Luz que ilumina todos e cada um dos homens.

            O texto tem o seu centro ideal e teológico em Cristo. Ele é apresentado como o verdadeiro Rei que merece ser procurado e adorado. A Ele vêm pessoas de longe, guiadas pela luz da estrela e pelas Escrituras. Jesus é uma criança, não diz uma palavra e, no entanto, a sua existência divide os homens. Sinistros indícios atravessam a perícopa, seja na intenção persecutória de Herodes que acabará em tragédia, seja na irresponsável atitude das pessoas de Jerusalém, a começar pelos sumos-sacerdotes e escribas do povo. A morte do Messias, com a qual culminará a rejeição de Jerusalém, lança a sua sombra nesta recusa inicial. Maldade e irresponsabilidade invocam renovação e redenção. O menino está ali para isso. É necessário sabê-lo reconhecer.

            Com este objectivo Mateus ajuda o leitor com a citação bíblica (Mq 5,1) e com a figura dos Magos. Com a citação preanuncia-se a vinda do mais ilustre descendente de David que cuidará do seu povo, fazendo sua a actividade própria de Deus (cf. Ez 34). A adoração dos Magos remete o leitor para a grandeza de Cristo, filho de David, Filho de Deus e Emanuel. Assim o texto serve o interesse cristológico de todo o Mt 1–2.

            A homenagem dos Magos ao rei menino é a correcta resposta humana ao Emanuel, Deus connosco. O c. 1, apresentando a genealogia e o nascimento, ficava no mundo judaico. Com o texto que abre o c. 2, o mundo passa a englobar todos os povos. O episódio dos Magos pode ser lido como uma grande profecia: oferece indícios dum futuro inaugurado, enquanto se declara já iniciada a peregrinação dos povos anunciada por Is 60 e pelo Salmo 72. A nova comunidade é a Igreja sem fronteiras que se deixa guiar pelos sinais e pelas palavras proféticas ao encontro do seu Senhor.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

Oração

Preciso apenas de um carreiro

 

Escreveu São João da Cruz:

“ Pondo todo o cuidado em coisa mais alta
Que é buscar o reino de Deus(…)”

Senhor Deus,
Guia-me por um carreiro de silêncio e de paz,
Um carreiro que me leve a Ti,
Até ao interior do mistério.
Preciso apenas de um carreiro
Iluminado pela serenidade da Eucaristia.
Quero não me cansar de Te amar,
Como Tu jamais paras de me chamar e procurar.
Apodera-te, Senhor, do meu coração, da minha vontade, da minha memória.
Como um rio que entra no mar
Que deixe de ser eu,
Para que Tu em mim
Sejas mais e que a todos
Todo o meu ser fale de Ti.

"Uma Monja Carmelita"

 

Festa da Sagrada Família – Ano A

Breve comentário

Esta página do evangelho segundo Mateus, muito além duma crónica ou fábula, merece ser olhada na sua profundidade. Olhando com atenção o desenrolar do texto, vemos que Mateus, usando o modo dizer e estilo próprio da sua cultura e do povo judeu, está a apresentar a figura e a missão de Jesus, embora em jeito de história. A página do evangelho deste domingo passa à frente o episódio da matança dos inocentes (2,16-18) para se fixar no duplo movimento de Israel-Egipto e Egipto-Israel.

            O Egipto, para o povo judeu, tinha uma dupla valência: por um lado, ao longo dos últimos séculos, tinha sido o refúgio para os perseguidos e, por outro, foi o ponto de partida para o acontecimento do êxodo.

A ordem do anjo dada a José está recalcada na história de todos perseguidos e fugitivos da prepotência política que gera violência e morte. Nesta perspectiva, Herodes é uma figura do faraó perseguidor e de todos os que agem como ele. Mas por detrás da narração podemos vislumbrar a figura de Moisés e a história da libertação do povo de Deus. É no êxodo ? saída do Egipto ? que se realiza a relação de Israel como filho primogénito de Deus. Por isso, no profeta Oseias, Israel é chamado «meu filho».

Ao longo do seu evangelho, Mateus várias vezes estabelece um confronto entre a figura de Moisés e Jesus para apresentar este como superior. Jesus é apresentado como o verdadeiro libertador e aquele que apresenta a sua Lei sobre o monte e estabelece uma Nova Aliança. Mas, no presente texto, toda a atenção está centrada no termo «filho». A relação filial realiza-se de modo eminente em Jesus, já antes apresentado como descendente de David, no qual se cumpre a promessa da aliança messiânica: «Eu serei para ele um ai e ele será para mim um filho» (2Sm 7,14). Com a sua vida Jesus não só percorre as etapas da história de Israel mas reproduz de modo único o estatuto de Filho.

A segunda parte do texto apresenta-se em duas sequências: o regresso do Egipto e a procura dum lugar seguro no território da Galileia. O modo literário como é apresentado o regresso faz lembrar o texto de Ex 4,19b que relata a ordem dada por Deus a Moisés para fugir da ameaça do faraó. Porém, toda a atenção converge para Nazaré, terminando com uma citação-comentário.

Uma série de circunstâncias políticas desaconselha morar no território da Judeia. A isto acrescenta-se a advertência divina que impele José para a zona norte, a Galileia, mais propriamente para a pequena aldeia de Nazaré. A escolha de Nazaré não é casual mas é apresentada como fazendo parte do plano de Deus, o que é confirmado com o título dado a Jesus: «Nazareu». Este título, apresentado como se fosse uma citação do Antigo Testamento ? «o que foi anunciado pelos profetas» ? de facto é um comentário de Mateus ao facto de Jesus ter vivido em Nazaré. O evangelista faz um jogo de palavras entre «nazareno», habitante de Nazaré, e o termo «nazir» que significa «consagrado», isto é, consagrado a Deus. Jesus de Nazaré, não obstante a sua origem histórica irrelevante e a humilde condição social, corresponde ao plano messiânico e salvífico de Deus.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

Natal Jubilar

 

Tem rosto pequenino, olho vivo, cabelo preto e farto, como todas as crianças da sua etnia, aquele menino, que uma funcionária da Instituição aconchegava ternamente ao seu regaço de mãe.

Foi a última criança a chegar nesta noite para a oração inicial que fizemos, antes da ceia de convívio, à volta da mesa recheada e decorada a gosto para a festa antecipada de Natal.

O Abraão, assim se chama este menino lindo, frágil e pequenino, tem 16 dias apenas, tantos quantos este advento. O Abraão é a criança mais nova daquela instituição da Igreja onde, semana a semana ou mês a mês, chegam crianças, que não tiveram lugar em berços de família ou casa em hospedarias da cidade.

 Sabemos que a mãe do Abraão teve de recorrer a uma instituição porque foi abandonada pelo marido e não consegue sozinha cuidar do filho mais velho, que é deficiente, e do mais pequenino, que agora nasceu. Por isso desprendeu-se do mais saudável para cuidar do mais doente. São assim as nossas mães! Sempre mais próximas dos filhos que mais precisam!

Abraão é nome bíblico de pai dos crentes, de homem de amarras soltas, de arameu errante, de peregrino decidido a seguir o sonho de Deus e a fazer caminhada rumo à terra por Deus prometida. Abraão é raiz de um povo escolhido, primeiro habitante de uma terra abençoada e tronco fecundo onde se enxertam muitas gerações de gente feliz.

Num tempo de povos sem pátria, de nações sem paz, de pessoas sem-abrigo, de lares sem amor, de famílias sem trabalho, de bocas famintas, de emigrantes dispersos pelo mundo e tantas vezes rejeitados e excluídos, de suicídios a aumentar, de violência a crescer e de desalento a bater à porta de tanta gente precisamos ainda mais do Natal de Jesus.

Temos necessidade do Natal para que haja, ao jeito de Maria de Nazaré, regaços fecundos de mães onde a vida se receba, famílias onde a ternura, a bondade e a alegria se fortaleçam e comunidades cristãs onde as bem-aventuranças do evangelho se vivam em cada passo do caminho.

O melhor presépio de Jesus será sempre o coração dos pobres em espírito, dos puros, dos misericordiosos, dos pacíficos, dos que fazem das bem-aventuranças critério de vida e se sentem tocados de perto pelo amor do nosso bom Deus.

O advento tem este ano para a Igreja de Aveiro um sentido novo, porque iniciado em tempo de Missão Jubilar e vivido em plena Caminhada das bem-aventuranças. Este advento quer ser caminho iluminado pela luz da fé, pela força da esperança e pela presença do amor de Deus que se faz quotidiano da vida para milhares de pessoas e de famílias das cento e uma paróquias da nossa Diocese que se sentem mais próximas, mais unidas e mais felizes e se decidem a sonhar uma Igreja renovada e a edificar um mundo melhor.

Por isso, este advento do Natal é, para a Igreja, advento do tempo futuro, que desde já queremos antecipar e construir. No culminar da caminhada das bem-aventuranças, o Natal deve fazer-nos sentir, depois deste belo e bom caminho percorrido ao longo da Missão Jubilar, que são felizes os que acreditam que Jesus está connosco para fazer de cada um de nós presente de Deus para os outros.

A Igreja tem na mão essa grande missão: fazer do mundo a sua casa, do amor a sua arma, do tempo a sua hora, do chão da nossa terra a pátria das bem-aventuranças para ser presépio onde Jesus se acolhe e daí partir para anunciar a alegria do evangelho.

E tudo isto só se consegue se fizermos dos presépios humanos berços deste dom divino, que é Jesus, e se no rosto frágil do menino nascido na gruta de Belém descobrirmos o rosto de Deus que nos ama, nos envia o Seu Filho e nos chama a ser discípulos, missionários e mensageiros em Seu nome.

Nesse sentido e com esse espírito partilharei a Ceia de Consoada com os sem-abrigo da Cidade e de junto deles partirei para a Eucaristia de Natal na Sé.

A Igreja aprendeu com Francisco de Assis a fazer presépios para Jesus e reaprende com o Papa Francisco a ser casa de bênção e de ternura para os que sofrem e a abrir a mesa de família e de refeição aos pobres.

Celebrar o Natal é, assim, para cada um de nós, para cada família e para cada comunidade certeza de vida nova recebida de Deus, anúncio da alegria do evangelho e apelo feliz a viver as bem-aventuranças do reino.

Votos de santo Natal e de abençoado Ano de 2014.

Aveiro, 16 de Dezembro de 2013

António Francisco dos Santos, bispo de Aveiro

 

Domingo IV do Advento – Ano A

                         Breve comentário

 

                        A longa lista genealógica com que começa o evangelho segundo Mateus termina com a figura de «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo». A intenção é inserir Jesus, mais do que como um personagem da História da Salvação, como aquele para quem tudo se encaminha. Porém, Jesus, conhecido como «filho de José, esposo de Maria», não é apenas «o Cristo» (Messias), o «filho de David». Um dado de fé tradicional da comunidade primitiva proclama-o como «filho de Deus» e é esta verdade que o texto procura explicar.

                        Muitos judeus não cristãos não aceitavam que Jesus fosse verdadeiramente descendente de David. Por outro lado, o aspecto da «concepção virginal» de Jesus pelo poder do Espírito, algo difícil de aceitar na época e ainda hoje, surge também como um elemento tradicional da comunidade primitiva. O texto de Mateus procura conciliar todos estes dados para fazer uma apresentação da verdadeira identidade de Jesus.

                        O texto começa por apresentar a concepção de Jesus «pelo poder do Espírito Santo» durante o tempo que medeia entre o noivado hebraico (’erûsìn ou qiddushîn), já por si verdadeiro casamento, e a convivência matrimonial inaugurada com a introdução da esposa em casa (nissû’în). Este facto cria o pressuposto para a revelação divina que explica a «origem» verdadeira de Jesus e define o papel de José.

                        A situação de conflito que José experimenta é expressa pelas duas qualificações: esposo de Maria e «justo». Como esposo e justo, isto é, fiel à lei e tradições dos antepassados, não pode conviver com uma mulher suspeita de adultério. Por outro lado, não tendo provas da sua infidelidade, como pessoa justa, não quer expô-la à condenação com uma denúncia pública de adultério. Daqui a decisão de se separar sem processo público, fazendo uso do chamado libelo de divórcio antigo.

                        O antigo libelo de divórcio era o documento com o qual o homem deixava livre para futuro matrimónio a mulher que até esse momento era sua esposa. Era escrito e assinado por duas testemunhas, contendo a fórmula principal: «tu ficas livre para te casares com qualquer homem». Devia estar escrita em hebraico com 12 linhas, além das duas meias linhas onde assinavam as testemunhas. Este escrito devia ser entregue a sós à mulher, sem testemunhas. Deve ser a este libelo que se refere Mateus quando afirma que quis repudiá-la  secretamente, ou seja, sem testemunhas.

            Apesar de esta decisão ter algumas incongruências, toda a atenção de Mateus se volta para o sentido de «justo» que deixa de ser considerado numa dimensão ético-legal para a profunda dimensão de «justo» como aquele que cumpre plenamente a revelação da vontade de Deus.

                        Nesta situação, Deus envia-lhe uma mensagem através dum sonho e dum anjo (que significa precisamente mensageiro, quer no hebraico mala’k quer no grego angelos) do Senhor: no Antigo Testamento era deste modo que Deus falava aos patriarcas e intervinha para dar a conhecer os seus planos de salvação. Assim, tudo o que o mensageiro refere tem o esquema clássico do anúncio do nascimento dum filho, começando pelo termo eis e com a indicação da criança e de algum pormenor sobre a sua identidade (Ismael: Gn 16,11-12, Isaac: Gn 17,19, Salomão: 1Cr 22,9-10, Josias: 1Rs 13,2 e o texto de Is 7,14-17 que Mateus cita no v. 22, proposto neste domingo como primeira leitura, para o jovem príncipe filho de Acaz.

            Segundo as palavras da revelação divina, José tem um papel duplo: acolher Maria como sua esposa e dar a paternidade legal ao filho que nascerá. No primeiro caso, a justificação da ordem-convite é dada pela revelação da origem divina do filho de Maria: «o que nela de gerou é (obra) do Espírito Santo». No caso da paternidade legal – dar o nome ao filho – a motivação vem da revelação do nome «Jesus», em que se resume a sua missão salvífica: «pois ele salvará o povo dos seus pecados». A origem divina de Jesus e a sua missão salvífica são condensados no nome «Jesus», do termo hebraico Yeshûa que significa «Yahweh salva» ou «Yahweh é salvação».

            Agora se compreende porque é que José é interpelado pelo anjo como «filho de David». Acolhendo Maria como sua esposa, que espera um filho de origem divina, ele deve dar-lhe aquela paternidade legal que lhe garante o estatuto histórico de descendência davídica, na linha das esperanças messiânicas de alguns ambientes judaicos. Assim, a revelação divina não é para resolver um drama espiritual dos esposos, mas uma mensagem comunicada aos leitores para que reconheçam a verdadeira identidade de Jesus: o salvador de origem divina que cumpre as esperanças messiânicas.

            Para acentuar o significado cristológico desta revelação divina o autor acrescenta um texto bíblico que tem o valor de reflexão teológica, introduzido por uma fórmula que ocorre mais quinze vezes ao longo do evangelho: «Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta». A citação de Isaías 7,14 vem interpretar o nome «Jesus», o Senhor salvador, mediante o título profético e messiânico de «Emanuel», Deus connosco, ao mesmo tempo que acentua a concepção virginal de Jesus como sinal para a fé cristã que reconhece em Jesus, o filho de Maria, a manifestação definitiva salvífica de Deus, conforme as palavras do Senhor ressuscitado: «Eis que eu estou convosco todos os dias até ao fim dos tempos» (Mt 28,20).

            O texto conclui-se com a fiel execução da ordem divina por parte de José que realiza a sua dupla tarefa no projecto de salvação: acolher Maria como sua esposa e reconhecer o filho por ela gerado, dando-lhe o nome que lhe foi revelado pelo anjo.

   

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

"A falta de amor é a maior de todas as pobrezas."

Madre Teresa de Calcutá

 

"Em muitas sociedades, sentimos uma profunda

pobreza relacional, devido à carência

de sólidas relações familiares  comunitárias.(...) 

Uma tal pobreza só pode ser superada através da

redescoberta e valorização de relações

fraternas no seio das famílias e das comunidades,

através da partilha das alegrias e tristezas,

das dificuldades e sucessos

presentes na vida das pessoas.” 


Papa Francisco

 
 

Tema do 3º Domingo do Advento

 

A liturgia deste domingo lembra a proximidade da intervenção libertadora de Deus e acende a esperança no coração dos crentes. Diz-nos: “não vos inquieteis; alegrai-vos, pois a libertação está a chegar”.
A primeira leitura anuncia a chegada de Deus, para dar vida nova ao seu Povo, para o libertar e para o conduzir – num cenário de alegria e de festa – para a terra da liberdade.
O Evangelho descreve-nos, de forma bem sugestiva, a acção de Jesus, o Messias (esse mesmo que esperamos neste Advento): Ele irá dar vista aos cegos, fazer com que os coxos recuperem o movimento, curar os leprosos, fazer com que os surdos ouçam, ressuscitar os mortos, anunciar aos pobres que o “Reino” da justiça e da paz chegou. É este quadro de vida nova e de esperança que Jesus nos vai oferecer.
A segunda leitura convida-nos a não deixar que o desespero nos envolva enquanto esperamos e aguardarmos a vinda do Senhor com paciência e confiança.


EVANGELHO – Mt 11,2-11

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
João Baptista ouviu falar, na prisão, das obras de Cristo
e mandou-Lhe dizer pelos discípulos:
«És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?»
Jesus respondeu-lhes:
«Ide contar a João o que vedes e ouvis:
os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados,
os surdos ouvem, os mortos ressuscitam
e a boa nova é anunciada aos pobres.
E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim
motivo de escândalo».
Quando os mensageiros partiram,
Jesus começou a falar de João às multidões:
«Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento?
Então que fostes ver? Um homem vestido com roupas delicadas?
Mas aqueles que usam roupas delicadas
encontram-se nos palácios dos reis.
Que fostes ver então? Um profeta?
Sim – Eu vo-lo digo – e mais que profeta.
É dele que está escrito:
‘Vou enviar à tua frente o meu mensageiro,
para te preparar o caminho’.
Em verdade vos digo:
Entre os filhos de mulher,
não apareceu ninguém maior do que João Baptista.
Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele».

 

"Deus não escuta a voz, mas o coração"

(São Cipriano)

 

A alegria do coração

A alegria do coração

devia ser como o Ovo de Colombo:

uma evidência, uma descoberta simples

uma prática do quotidiano

um rosto limpo de angústia

um permanente encontro contigo

mesmo que os tempos sejam difíceis

a saúde  fraca, os meios escassos

e até o cansaço

ou a vizinhança da morte.

Tu nos ensinaste o lugar certo

de guardar a alegria de forma a que 

nada e ninguém no-la possa roubar:

o coração.

É mesmo o Ovo de Colombo.

Ajuda-nos a encontrá-la,

defendê-la e amá-la profundamente.

E que possa transparecer sempre no nosso rosto

para além de se conservar firme

no santuário do coração.


Pe. António Rego

 

 

Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

 

 

 
 
 

               Breve comentário

             O texto deste domingo, embora seja apresentado em estilo de narrativa ao gosto dos mestres judeus, é essencialmente uma catequese destinada a anunciar quem é Jesus, salientando sobretudo a sua divindade. Por isso, mais do que tentar procurar o que aconteceu, o evangelista convida-nos a perceber o que o texto catequético nos ensina.

A cena situa-nos numa aldeia da Galileia, chamada Nazaré. Quer a região da Galileia em geral, quer a aldeia de Nazaré em particular, aparentemente nada tinham de bom. A Galileia era olhada de soslaio pelos chefes religiosos de Jerusalém pelo facto de aí viver há séculos uma mistura de judeus e outros povos. A pequena aldeia de Nazaré, encravada nas montanhas da baixa Galileia, nunca referida no Antigo Testamento, não era destino para ninguém. Por isso, facilmente se entende a afirmação «de Nazaré pode vir alguma coisa de bom?» (cf. Jo 1,46).

Além de solene, o início é insólito, porque normalmente é o inferior que vai ter com o superior, o que não acontece aqui. O anjo é apresentado como uma pessoa que entra numa casa, sendo clara a intenção do evangelista em apresentar o acontecimento de modo concreto. Deus torna-se presente onde vivem os homens, no quotidiano da vida.

A destinatária é primeiro apresentada com a qualificação «virgem» (v. 27), sem dúvida digna de valor, repetida duas vezes no mesmo versículo. De facto, tal qualificação antecipa por parte do evangelista aquilo que a interessada dirá de si mesma no v. 34. Seguem-se outros pormenores, como a condição social de mulher que cumpriu a primeira fase do matrimónio, a descendência davídica do marido, o nome do marido e, por fim, não sem solenidade, o seu nome: Maria. A abundância de pormenores e o cuidado na escolha dos mesmos são um primeiro indício do papel importante que Maria tem na missão que Deus lhe quer confiar.

É importante recordar aqui que, entre os judeus, o matrimónio desenvolvia-se em duas partes: a promessa de casamento, ou «esponsais», e o compromisso definitivo em que o noivo ia buscar a noiva para sua casa. O compromisso dos «esponsais», em que os noivos não viviam em comum, era de tal forma sério que se considerava equivalente ao casamento, de maneira que, se surgia um filho, este era considerado filho legítimo de ambos. A Lei de Moisés considerava a infidelidade da «prometida» semelhante à infidelidade da esposa e o compromisso dos esponsais só podia dissolver-se com a fórmula jurídica do divórcio.

A saudação é fora do comum, quer porque em nenhum caso uma mulher até então tinha sido saudada daquela maneira, quer porque o seu conteúdo sai fora dos esquemas habituais. A saudação é tripartida: «Alegra-te, tu que Deus cumulou com os seus favores, o Senhor está contigo». A expressão «cheia de graça» significa que Maria é objecto da predilecção e do amor de Deus. «O Senhor está contigo»: a ideia da missão está implícita. Quando Deus está com Israel ou com um seu eleito (Jacob, Moisés, Gedeão), isto significa não apenas protecção mas já uma ajuda para a missão. Assim, Maria é colocada na linha das grandes figuras que receberam de Deus um particular sustento em vista da tarefa a cumprir.

Esta saudação inesperada causa a perturbação de Maria (v. 29). Não se trata duma perturbação descontrolada, porque Maria não perde a concentração e a capacidade de reflectir nas palavras da mensagem.

O anjo retoma a linha da saudação. «Não temas, Maria», mais propriamente, segundo o grego: «Não temas mais», isto é, «deixa todo o temor». É um convite à serenidade e à esperança. Depois de ter tranquilizado Maria, retoma o termo «graça». «Encontrar graça» é um uso dos povos daquela zona para indicar o benévolo acolhimento dado a um subalterno (cf. 1Sm 1,18); mas apenas acerca de Noé e de Moisés se afirma que encontraram graça junto de Deus. Para Maria tal promessa chega de Deus através das palavras do anjo. O favor que Deus concede vale para a pessoa e, portanto, para a tarefa confiada a tal pessoa. Está tudo pronto para a mensagem propriamente dita.

O conteúdo da mensagem é um anúncio dum nascimento e da missão do que vai nascer (vv. 31-33). Aquele que vai nascer é apresentado não no seu fazer, mas no seu ser. São especificados os títulos, não a acção: ser grande, ser chamado Filho do Altíssimo, receber o trono de David, reinar para sempre, ser Filho de Deus.

O nome «Jesus/Yeshua’», dado do alto, como em todas as intervenções de Deus, é bastante vulgar – sobretudo na sua forma longa «Josué/Yehoshua’» – e não recebe interpretação, mesmo se um ouvido sensível ao hebraico podia facilmente entendê-lo como «Yahweh é salvação».

Com o v. 32 continua a apresentação do ilustre menino. É dito que será «grande», título que, sem mais precisões, era reservado ao próprio Deus. Gozará duma relação exclusiva com Deus, relação que o título «Filho do Altíssimo» torna mais manifesta. A íntima ligação com Deus torna-o o esperado, aquele que irá restaurar a decaída dinastia davídica, assegurando-lhe uma estabilidade eterna. Deus leva a cumprimento nele todas as promessas do Antigo Testamento.

Perante um anúncio tão extraordinário, Maria reage com uma pergunta: «Como será possível? Não conheço homem». É a segunda reacção de Maria, desta vez verbal, para melhor entender a mensagem. O «sou virgem» é a afirmação da situação actual de Maria; em tal estado deve cumprir-se a maternidade, daqui a não clara compreensão da combinação maternidade-virgindade.

Estamos no cume da narração: o que vai nascer é declarado «Filho de Deus», sendo acrescentado o modo como tudo vai acontecer: «O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra». Maria não é mãe dum homem que se torna Deus, mas dum ser humano cuja pessoa sempre foi divina. Encontramos aqui a maior originalidade do cristianismo: a profunda identidade de Cristo e o seu mistério.

O sinal oferecido (v. 36) é desconcertante: «Também Isabel…». Um nascimento virginal constitui algo estranho ao homem, a roçar o impossível e o absurdo. Maria não exige uma documentação nem requer uma prova, simplesmente recebe um sinal da bondade divina. A parente Isabel, já idosa, espera um menino e já está no sexto mês de gravidez. A possibilidade efectiva de realizar o humanamente impossível é confiada à intervenção de Deus, para o qual não existem limitações: «para Deus nada é impossível» (v. 37), citação de Gn 18,14 a relançar o presente com a melhor tradição bíblica: Isaac, o filho da promessa, nasce pela surpreendente presença de Deus no surgir da vida. O contraste não está entre Deus e a natureza, mas entre o Deus poderoso e o homem fraco.

A terceira reacção de Maria é completa e definitiva: «Eis a serva do Senhor…». A mesma autodefinição vai ser encontrada mais tarde no Magnificat, o cântico de Maria (1,48). É o assentimento, a participação da vontade e do coração que escuta, confiando só na palavra divina.

Encontramos aqui o único caso em histórias semelhantes: o destinatário exprime a sua adesão. Maria fá-lo com a fórmula «serva do Senhor» que, sendo única na Bíblia para uma mulher, liga-se a toda uma história de chamados por Deus que tinham respondido com a própria vida ao serviço do Senhor. É o terceiro nome atribuído a Maria. O primeiro, «Maria», é dado pelos homens, o segundo, «cheia de graça», por Deus e agora o terceiro, «serva do Senhor», dá-o a si mesma. Este nome exprime que Deus a escolheu para o seu serviço, a fim de lhe dar uma tarefa, uma missão.

Com tal resposta o anjo concluiu a sua missão e pode afastar-se. A mensagem foi comunicada, recebida e feita sua por Maria.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 
 
 
Concerto comemorativo dos 75 anos da publicação da
bula de restauração da diocese de Aveiro, do próximo dia 10 de dezembro na
Sé de Aveiro

O tempo do Advento

 

"Saímos de casa e somos logo encadeados pelas luzes do Natal, nas ruas e nos centros comerciais… E toda a gente corre, para comprar as prendas, para tratar de mil assuntos urgentes. 

 Mas o advento fala-nos de uma urgência muito diferente. A urgência de esperar. O que é mais próprio da espera é, precisamente, não correr, estar parados, suspensos até que algo aconteça.

Um tempo de espera traz consigo a paz, abre espaço dentro de nós, faz-nos respirar a outro ritmo e olhar para os pormenores do que acontece à nossa volta.

O Advento, como o tempo da espera por excelência, é um tempo de uma profundidade maior. Um convite para nos darmos conta que, mais do que presentes, esperamos presenças, dos familiares, dos amigos, dos mais pobres e do próprio Deus. 

Senho Jesus, ajuda-nos neste Advento a saber esperar pelo que é mais importante. "

António Valério sj

 

PARABÉNS AOS NOIVOS E MUITAS FELICIDADES

 

 

Breve comentário

            Com este domingo, 1º do Advento, começa um novo ano litúrgico, em que será o evangelho segundo S. Mateus a oferecer-nos a Palavra que guia o nosso caminho de fé. Uma das características deste evangelho são os cinco grandes discursos que recolhem ditos de Jesus à volta de temas fundamentais para a vida da Igreja. O texto de hoje é uma pequena parte do 5º discurso, que apresenta a vinda do Filho do Homem e a necessidade de estar atento e preparado para a sua vinda.

            Jesus tinha anunciado a destruição da cidade de Jerusalém (23,38) e do Templo (24,2). Ao tempo dos leitores do evangelho de Mateus, que escreveu à volta do ano 80 d.C., tudo isto já se tinha tornado realidade. Efectivamente, dez anos antes, no ano 70 d.C., as legiões romanas comandadas pelo general Tito, que se tornaria depois imperador de Roma, tomaram a cidade e incendiaram e destruíram completamente o Templo. Estes factos são, para os cristãos de origem judaica da comunidade de Mateus, uma confirmação de todas as palavras de Jesus.

            O texto deste Domingo insere-se no discurso que Jesus faz, respondendo à pergunta dos discípulos: «Quando vai ser isso, e qual o sinal da Tua Vinda e da consumação dos Tempos?».

            Jesus fala da vinda do «Filho do Homem», uma expressão que, embora lida ou ouvida muitas vezes, não é de compreensão imediata. No Antigo Testamento a expressão «filho do homem» tem habitualmente o significado e sentido apenas de ser humanohomem. No livro de Daniel, a expressão aramaica bar ’en?sh («filho do homem») aparece em 7,13 pela primeira vez para indicar «uma figura semelhante a um filho de homem» (uma figura humana) a quem é dado poder eterno, glória e um reino indestrutível e a quem todos os povos servirão. Não se trata dum título mas duma comparação para descrever um ser celeste com aspecto humano, que depois identifica com o povo dos «Santos do Altíssimo» aos quais foi conferido o reino e o império, apresentando-se assim com um significado colectivo.

            A literatura apocalíptica judaica não bíblica retomou e reelaborou a figura humano-divina do livro de Daniel, apresentando-a com traços pessoais, ligando-a a outras imagens da tradição de Israel, tendo assim adquirido novas funções. Progressivamente, a figura do Messias foi sendo identificada com a figura do Filho do Homem, ser preexistente, celestial e dotado do Espírito, adquirindo assim um colorido que ultrapassa a simples descendência de David para restaurar o reino de Israel. É neste ambiente que Jesus (e também os evangelistas) se situa e vive.

            Acerca da consumação dos tempos e da vinda do Filho do Homem, com quem Jesus se identifica, é indicada a certeza, mas não a data: «Daquele dia e daquela hora, ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, só o Pai» (24,36). Em vez de satisfazer a curiosidade dos discípulos, Jesus prefere chamar a atenção para a necessidade de estar vigilantes e preparados, usando três exemplos.

            O primeiro exemplo, tirado da Bíblia, aponta duas categorias diferentes de pessoas: as despreocupadas que apenas pensam nas futilidades da vida e as atentas aos sinais do dilúvio que, por isso, se salvaram.

            O segundo exemplo é um apelo a cada um viver a sua vida quotidiana, com as ocupações normais do dia-a-dia, mas deixando-se guiar pela luz de Deus e pela sabedoria do Evangelho. Quem assim faz é «tomado», isto é, entra na totalidade do Reino de Deus que o Filho do Homem virá oferecer na sua Vinda final. Os outros são «deixados», ficam de fora da nova realidade do Reino de Deus. Daí o apelo de Jesus: «Vigiai porque não sabeis o dia em que o vosso Senhor vem!».

            O terceiro exemplo reforça este apelo, com a imagem do ladrão que vem a qualquer hora, quando menos se espera. Parecendo um exemplo mais de ameaça do que de salvação, é um convite a estar sempre preparados, na atitude de quem está à espera duma pessoa querida, cuja chegada é fonte de alegria e de paz.

P. Franclim Pacheco

 

Diocese de Aveiro

 

 

Casa Sacerdotal – Nota Pastoral Novembro de 2013

 

 

 

Jesus é o centro dos nossos desejos de alegria

1.O Papa Francisco na homilia da solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, ao concluir o Ano da Fé, lembrou-nos que Jesus é o “centro dos nossos desejos de alegria” e é o “irmão à volta do qual se reúne a família e se constitui o povo”.

Inspiro-me nesta palavra do Papa Francisco para partilhar com a Diocese e com tantos amigos e benfeitores as mais recentes informações sobre a Casa Sacerdotal de Santa Joana Princesa.

Inaugurada no passado dia 7 de Junho, no dia da solenidade litúrgica do Sagrado Coração de Jesus, a Casa Sacerdotal abriu as suas portas aos primeiros residentes no mês de Setembro passado. Demos graças a Deus por isso.

No passado dia 18 deste mês de Novembro celebramos a dedicação da Capela, para que ela seja o coração vivo da Casa Sacerdotal. Quisemos reunir naquela celebração, à volta do altar dedicado a Deus e preparado para a Eucaristia, os sacerdotes residentes e sentir o presbitério diocesano na presença de vários sacerdotes, entre eles os três novos sacerdotes, ordenados no dia anterior numa bela e participada celebração, de que a Igreja de Aveiro guardará memória abençoada para sempre.

Ali estiveram também os seminaristas que nos fazem olhar o futuro com confiança e nos dizem que esta Casa é, também, sua. Ali rezaram connosco as Irmãs do Amor de Deus da Comunidade do Seminário assim como os funcionários e colaboradores que nos ajudam no trabalho e são membros por inteiro da família que queremos ali sentir.

A capela da Casa Sacerdotal, a que chamaremos Capela do Lava-Pés, reconduz-nos ao ambiente bíblico e sagrado da Eucaristia no Cenáculo e aproxima-nos do gesto de Jesus que se dispôs a lavar os pés aos discípulos. Esta é, também a vocação da Casa Sacerdotal.

Ajoelharemos ali, a partir de agora, diante do Senhor Jesus da Eucaristia e lavaremos os pés dos seus discípulos, cuidando com a necessária atenção e permanente dedicação dos sacerdotes da Igreja de Aveiro e das pessoas que dedicadamente os acompanharam durante a vida.

2.Há momentos que nos abrem  horizontes maiores e nos ajudam a compreender o alcance e o horizonte das intuições que Deus inspira. Uma Casa Sacerdotal é  «santuário de gratidão» não só pelo bem que faz mas também porque nos vai acordando o coração para que os sentimentos de gratidão pelos sacerdotes se traduzam em palavras e gestos verdadeiramente humanos e fraternos.

Permito-me trazer aqui um belo momento vivido no sábado passado. Os nomes são reais e as pessoas são concretas. Quero dar graças a Deus pelo bem que Ele realiza no coração dos irmãos e irmãs, simples, felizes e bons, como nos lembram as bem-aventuranças do evangelho.

A Comunidade cristã de Aguada de Cima quis celebrar a alegria e a bênção de ver um dos seus filhos, recém-ordenado presbítero, celebrar pela primeira vez na sua igreja matriz. Ali se reuniu toda a Comunidade para celebrar a Eucaristia com o Padre Leonel e continuar em convívio feliz e prolongado com a sua família e o seu pároco.

Foi esta mesma Comunidade que chamou a partilhar da alegria daquela hora a irmã de um anterior sacerdote, também ele natural daquela Comunidade, o Padre Alexandre Soares de Almeida, ordenado presbítero em 1932. Por feliz coincidência, esta irmã do Padre Alexandre, a D. Marquitas, assim Aguada de Cima trata carinhosamente a D. Maria de Jesus Soares de Almeida, celebrava naquele dia 95 anos, muito vivos, activos e lúcidos. A D. Marquitas deixara Aguada de Cima em 1932, com dezoito anos apenas, para acompanhar o seu irmão sacerdote recém-ordenado. Partira com ele para terras de Coimbra, a diocese a que Aguada de Cima pertencia naquele tempo.

Acompanhou o seu irmão sacerdote e com ele permaneceu sempre até à sua morte, em 1967, quando era pároco de Soure. Nesse momento regressou à sua terra natal e ali continuou, a partir daí, a servir a Igreja, confeccionando diariamente o pão da Eucaristia, e cuidando de nós sacerdotes com o seu carinho, testemunho e oração que a leva agora a dizer com autoridade e verdade: “nunca esqueci, senhor bispo, que sou irmã de sacerdote. E ouvi, continua a D. Marquitas, o senhor D. Manuel de Almeida Trindade dizer que foi o meu irmão, que era muito alegre e muito amigo do seu tio Padre, que lhe despertou o desejo de ser Padre”.

Agradeci-lhe esta bela confidência e este exemplar testemunho e guardarei para sempre na minha alma o brilho lindo daquele olhar que espelhava uma vida dada por inteiro a Deus e à Igreja.

Quero sublinhar a beleza deste gesto de alegria, homenagem e gratidão de uma Comunidade feliz que soube associar à ordenação presbiteral de um dos seus filhos mais jovens o reconhecimento à irmã de outro sacerdote, também ele ali recordado, apesar de ter partido ao encontro de Deus há já quarenta e seis anos.

A Casa Sacerdotal nasceu, também, para ser santuário de gratidão a pessoas como a D. Marquitas. A Casa Sacerdotal é sua também.

3. Casa construída e casa habitada não significam que os nossos compromissos financeiros assumidos para a construção estejam saldados e as nossas responsabilidades diante da sua sustentabilidade e do seu funcionamento estejam asseguradas. Estamos muito longe disso. E com o tempo que passa mais nos preocupa a urgência de cumprirmos atempadamente o pagamento dos empréstimos que contraímos perante pessoas e instituições.

Continuo, por isso, a apelar, com insistência, à generosidade das paróquias, das irmandades e confrarias da nossa Diocese e a todas as instituições e pessoas de boa vontade.

Os gestos significativos e tantas vezes discretos da generosidade dizem-nos que devemos continuar a confiar. Deus acompanha-nos com a sua bênção.

A generosidade cristã surpreende-nos sempre. Temos razões para continuar a “viver esta hora!”confiando no olhar generoso do coração de tanta gente habitada pelos critérios evangélicos das bem-aventuranças. Esta Casa Sacerdotal constitui um belo marco jubilar para a nossa Diocese a viver este“ bom e belo caminho”, no dizer do Papa Francisco, que a Missão Jubilar nos ensinou a percorrer.

A Casa Sacerdotal sonhada e construída para ser santuário de gratidão ampliou desde o passado dia 18, dia da dedicação do altar e da bênção da capela, o seu coração para envolver de graça e de gratidão a Igreja de Aveiro e de saúde e de bênção quantos ali vivem e trabalham.

A Casa Sacerdotal é, igualmente, a partir de agora, lugar onde diariamente se reza por quantos com a sua generosidade, afecto e dedicação a edificam e assim se tornam nossos benfeitores e beneméritos.

Aveiro, 25 de Novembro de 2013

 

António Francisco dos Santos, bispo de Aveiro

 

Oração

"Fico em silêncio"

 

Nesta manhã, Senhor, preferia ficar em silêncio diante de Ti.

Faltam-me as palavras para exprimir o que me vai na alma.

E sei que as palavras que eu disser

correm sempre o risco de serem pobres sinais

para transmitir com verdade todos os meus sentimentos.

Tu sabes: a vida, muitas vezes, traz-nos perplexidades,

desalento, tristezas.

Sentimo-nos incapazes de alterar o rumo dos acontecimentos,

de mudar a mentira em verdade,

de transformar a injustiça em respeito pelo outro,

de fazer de cada momento uma experiência de autêntica

humanidade.

Senhor, fico em silêncio:

Só assim posso ouvir o que hoje me poderás querer dizer

no meio dos aborrecimentos, das incapacidades, das dúvidas,

das questões que não consigo resolver ou esclarecer

definitivamente.

Senhor, olha com amor e misericórdia para o meu silêncio

e torna-o fecundo na escuta da tua Palavra.

"José Borges de Pinho"

 

 

Informamos que está disponível no menu Pastoral Litúrgica o calendário actualizado dos Ministros da Comunhão e Ministério de Leitor

 

 

 

Solenidade de Jesus Cristo, Rei e Senhor do Universo – Ano C

 

 

 

Breve comentário

 

Na celebração de Jesus Cristo, Rei e Senhor do universo, a Igreja propõe-nos a contemplação do mistério que S. Paulo chama «escândalo da Cruz». O texto do evangelho é tirado, pela última vez neste ano litúrgico que termina, da obra de Lucas. Todo o seu evangelho está orientado para a Salvação que é oferecida gratuitamente por Deus na pessoa de seu Filho Jesus.

Jesus acabou de ser crucificado. Hora de suprema entrega de Jesus ao Pai mas, ao mesmo tempo, hora da máxima tentação. Nesta hora decisiva o evangelista Lucas retoma, de maneira habilidosa, as três tentações no deserto (cf. 4,1-13). Já então era anunciado o regresso do diabo «para um tempo fixado» (4,13).

Lucas é o único a notar a presença do «povo» que lá estava a ver… Diante de Jesus, três categorias de espectadores terão o papel do tentador, apostrofando-o já não sobre a sua identidade de Filho de Deus, como nas tentações no deserto, mas sobre a sua missão, sobre a salvação que veio trazer aos homens.

Antes de mais, temos os chefes do povo. Eles troçam de Jesus, escarnecendo o «Cristo de Deus» que Pedro tinha confessado (9,20), o «Eleito»  assim proclamado na Transfiguração (9,35; cf. Is 42,1) e que Deus parecia ter abandonado. Depois intervêm os soldados que, ao verem a inscrição com a causa de condenação, troçam daquele «rei dos Judeus» reduzido à impotência. Na verdade, é ridícula a tábua com a causa da condenação: Jesus é culpado de ser o rei dos judeus, o que todos sabem ser mentira mas, o que é certo, é que está escrito. É uma realeza que atravessa os séculos. O homem tem necessidade de alguém que o governe e este só pode ser um homem crucificado por amor, um rei sem ceptros, capaz de ser considerado por todos como um malfeitor sem renegar o seu amor pelo homem.

Um dos dois malfeitores blasfema contra o «Cristo». Que Cristo / Messias é este que não consegue salvar-se a si mesmo e a eles?

Estas três frases dirigidas ao crucificado são um convite «salvar-se a si mesmo». Mas a salvação é objecto de graça e acontece apenas do modo como Deus a realiza, através do salvador que Ele enviou. Este é um momento de contradição: como pode um salvador salvar os outros, se ele mesmo vai morrer?

Da parte de Jesus não há qualquer resposta às provocações e tentações vinda daqueles por quem ele mesmo se está a entregar.

É um dos crucificados a assumir o papel de defensor, reconhecendo a sua própria culpa e fazendo eco da tripla proclamação de inocência já antes pronunciada por Pilatos: «Ele não fez nada de mal», e abrindo o seu coração ao Inocente, chamando-o pelo nome: «Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino!».

Perante esta súplica breve, a resposta de Jesus é clara. A oração do condenado é escutada, para além de qualquer medida: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso». Uma vez mais o Salvador, cujo nascimento foi anunciado para o «Hoje» de todos os tempos e de cada homem, o mesmo que entrou na casa e na vida de Zaqueu (Lc 19,1), torna-se a salvação para aquele homem num momento culminante da sua vida.

Quem lê o Evangelho segundo S. Lucas é convidado a entrar no Hoje de Deus, ou melhor, a não perder os encontros que o Senhor diariamente nos oferece. O «bom ladrão» tinha perdido muitos momentos na sua vida, mas não quer perder este momento que é decisivo! Jesus é um rei que nada pede para si, mas dá tudo e renuncia a salvar-se a si mesmo: «Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á (Lc 9,24).

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro                                   

 

 

        REFLEXÃO SEMANAL:

 

" Cristo não pediu muita coisa, não exigiu que 
as pessoas escalassem o Everest ou fizessem 
grandes sacrifícios. Ele só pediu que nos 
amássemos uns aos outros."

Chico Xavier

 

   "Papa abraçou-me sem saber se era contagioso"

 

 

A fotografia do Papa Francisco com Vinicio emocionou o mundo. O homem de 54 anos começou a ficar desfigurado aos 15 e os médicos diziam que não iria além dos 30.

O homem gravemente desfigurado que foi abraçado pelo Papa Francisco no início do mês deu uma entrevista em que recordou esse momento. 

Vinicio diz que, enquanto o Papa lhe acariciava o rosto, sentiu amor: “As mãos do Papa são tão suaves, macias e bonitas. E o seu sorriso é claro e aberto. Mas o que mais me impressionou é que não hesitou em abraçar-me. Eu não sou contagioso, mas ele não o sabia. Acariciou-me por toda a cara e enquanto o fazia, eu só senti amor”. 

Diagnosticado aos 15 anos com a doença de von Recklinghausen, Vincenzo não devia ter vivido para além dos 30 anos, segundo os médicos. Hoje conta com 54, mas a doença está de tal forma desenvolvida que todo o seu corpo está desfigurado por tumores benignos e chagas que lhe causam enorme desconforto e dor. 

O encontro entre o Papa e Vinicio deu-se no final da audiência geral das quartas-feiras, no dia 6 de Novembro. O Papa costuma passar muitos minutos, às vezes horas, a passear entre a multidão e a cumprimentar quem lá está, sobretudo os doentes. 

Em declarações ao jornal italiano "Panorama", Vinicio descreve o momento em que o Papa se aproximou dele: “Beijei-lhe a mão, enquanto com a outra ele me acariciava a cabeça e as feridas. Depois puxou-me para ele e abraçou-me e beijou-me. Foi muito emocionante. Durou pouco mais de um minuto, mas pareceu-me uma eternidade”. 

Vinicio vive com a irmã, que também sofre da doença, mas num grau mais leve, e conta com a ajuda de uma tia, que o acompanhou para a audiência geral com o Papa.

RR

 

 

 

Breve comentário

            Nas vésperas da sua prisão e morte, já em Jerusalém, Jesus vai uma vez mais ao Templo. O Templo de Jerusalém, símbolo maior da religião, era o orgulho de qualquer israelita. Há 46 anos que andava a sofrer grandes obras de ampliação e remodelação e já apresentava um aspecto grandioso e belo. A esplanada do Templo tinha sido aumentada, medindo 300 x 500 metros. Jesus, que está para cumprir a sua missão de entrega, pode neste momento anunciar a destruição do Templo, marcando assim o final do culto antigo para dar origem a um novo culto. De facto, o templo seria arrasado e as muralhas derrubadas, no ano 70. Daí a descrição pedra sobre pedra. A destruição foi completada com a destruição total nos tempos de Adriano que mandou construir no local um templo dedicado a Júpiter, após a rebelião de bar Kokhbah no ano 132 d.C..

            Quando acontecerá, qual o sinal? Jesus não responde a estas questões que têm em vista um fim, preferindo chamar a atenção dos discípulos para a sua própria história de construção do Reino.

            Em primeiro lugar (vv. 8-11) acautela os discípulos em relação aos falsos messias, sobretudo numa linha política, como nos refere o livro dos Actos no caso de Teudas (ano 47) que foi morto com cerca de 400 seguidores (Act 5,36); depois dele Judas, o Galileu, que arrastou o povo consigo, tendo morrido e o povo disperso (Act 5,37). Igualmente o movimento zelote e outros grupos rivais que levaram à destruição de Jerusalém. Não os sigais!

            Jesus alerta para o facto de em todos os tempos haver confusões, guerras e cataclismos de toda a ordem. Efectivamente, do ano 41 até ao ano 70 houve muita confusão no império romano: assassinato de Calígula (ano 41); assassinato de Messalina (ano 48); invasão dos partos (ano 52); envenenamento de Cláudio por Agripina (ano 54); guerra com os partos (ano 58); assassinato de Agripina, sua mãe, por ordem de Nero (ano 59); paz com os partos (ano 63); conjura de Pisão contra Nero (ano 65); início da guerra judaica contra Roma (ano 66); Vespasiano ocupa a Gália (ano 67); suicídio de Nero e luta civil entre os generais Galba, que foi assassinado; Otão morto em batalha; Vitélio, morto em batalha por Vespasiano com o resultado deste último como imperador (ano 68-69). Nem guerras nem conspirações violentas são os sinais esperados antes da destruição de Jerusalém, ou se queremos interpolar o texto, antes da manifestação de Jesus. Portanto, não vos aterrorizeis!

            Igualmente haverá fome como a que ocorreu em todo o império romano no ano 49-50, a começar pela Grécia. Em Jerusalém a fome foi agravada pela circunstância de o ano anterior ter sido sabático,ou seja, um ano de pousio das terras. Como exemplo de terramotos temos a narração de Actos 16,26 quando um deles libertou Paulo e Silas abrindo as portas do cárcere e arrancando as cadeias das paredes. A erupção do Vesúvio em 79 d.C. destacou-se como uma das mais devastadoras da história da humanidade. A catástrofe destruiu completamente as cidades romanas de Pompeia e Herculano.

            Jesus lembra também as pestes, como aquela que matou muita gente em Roma, inclusive o imperador Marco Aurélio.

            Para além disto, haverá sempre fenómenos celestes que, não sendo habituais, são naturais, como os eclipses do sol e da lua e as estrelas cadentes.

            Porém, a grande preocupação de Jesus está centrada na história concreta dos discípulos que irão continuar a sua obra, prolongando ao mesmo tempo a sua paixão: serão perseguidos, entregues às sinagogas, arrastados diante de reis e governadores, «por causa do meu nome», precisamente o que o livro dos Actos nos vai apresentar. É a ocasião de dar «testemunho», pela palavra (martyrion – testemunho) e pela vida (martyr – testemunha). Por causa do nome de Jesus, muitas vezes serão odiados e nem nos mais próximos encontrarão acolhimento.

            Toda esta experiência de ser odiado e rejeitado não deve fazer esmorecer nem desorientar o discípulo, certo da protecção divina, como recorda o provérbio: «nem um só cabelo da vossa cabeça se perderá» (cf. 1Sm 14,45, aplicado a Jónatas, filho de Saul) e da recompensa final que só acontecerá pela perseverança e constância, apesar das provações e dificuldades em ser discípulo de Jesus.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

Atenção 

Informam-se todas as pessoas interessadas, que a Missa do próximo Domingo (17-11-2013), excepcionalmente será realizada as 09:00hrs devido ao Sr. Prior ter a festa de S. Martinho ás 10:30hrs em Amoreira da Gândara

 

Oração

"Nos lugares onde não há amor"

Rasga, ó Deus, estas nuvens opacas

Que os nossos olhos fechados à verdade, acumulam diante de nós.

Faz, de novo, ressoar a Tua voz,

Ao longo deste dia, desta semana que agora começa.

Para que os nossos ouvidos nos recordem que somos servidores

E teu filhos bem amados.

Obriga as nossas mãos crispadas a estenderem-se em fraternidade

Para nos salvarmos e ajudarmos a que se salvem

Os que estão mergulhados no ódio e no desespero.

Se presente connosco, nos lugares onde não há amor,

Onde se conspira, onde se morre de silêncio.

Porque tu és nosso pai, e só tu Senhor.

Pe. Eloy Pinho


MAGUSTO DA CATEQUESE

 

No passado dia 10 de Novembro, realizou-se pelas 14h30, no Parque da Vila do Troviscal, o habitual magusto da catequese.

Com uma comissão de pais da catequese dinâmica e com a sempre indispensável colaboração dos catequistas, lá se foram assando as castanhas (10kg oferta da Junta da freguesia) e outras mais arranjadas à última da hora, pois não imaginávamos tanta afluência de participantes, as mães e catequistas lá foram decorando as mesas com os salgadinhos, bolinhos, papas de abóbora, tintinho, jeropiga…  Tudo estava apetitoso!

O catequista Manuel Reis lá assou as castanhas, a catequista Teresinha lá trouxe as saborosas papas de abóbora … e lá se foi comendo, cantando, divertindo, convivendo…

O Jorge Santos, mais conhecido pelo “Portuga”, lá colocou o Karaoke pelo seu “assessor” Nelson Marques, que cantou e encantou. O Sr. Prior deu o pontapé de saída, começando com uma palavra de saudação e boas vindas a todos os participantes. Depois começou por cantar o fado “Viseu, Senhora da Beira”, pois claro, é de Viseu!... e encantou também com a sua voz e simpatia todos os presentes. A seguir cantaram crianças, adolescentes, jovens e adultos tão afinadinhos que também encantaram todo o pessoal.

Parabéns aos catequistas, comissão de pais, Sr. Prior e toda a catequese, agradecendo também a presença do agrupamento de escuteiros da nossa paróquia, pelo magnífico convívio realizado.

Para o ano há mais. PARABÉNS!!!!


Um participante 

 

 

 

XXXII Domingo do Tempo Comum – Ano C

 

Breve comentário

            O evangelista Lucas apresenta-nos várias discussões que Jesus teve com diversos grupos, após a sua entrada na cidade de Jerusalém: questão sobre a autoridade do ensino de Jesus no Templo (20,1-7) colocada pelos chefes dos sacerdotes, escribas e anciãos; a pergunta acerca do imposto ao Imperador (20,20-26) posta por alguns espiões que se fingiam de justos; e, logo a seguir, vem o nosso texto sobre a ressurreição com uma questão colocada pelo grupo dos saduceus.

O próprio Lucas informa que «os saduceus afirmam que não há ressurreição, nem anjos, nem espíritos; os fariseus professam todas estas coisas» (Act 23,8). A doutrina duma ressurreição pessoal era bastante recente no judaísmo, tendo surgido à volta do séc. II a.C., ao tempo da revolta dos Macabeus com o movimento dos hassidim, nacionalistas e fervorosos defensores da Lei, que veio a dar origem ao grupo dos fariseus.

Os fariseus olhavam para a ressurreição duma maneira demasiado materialista, ou seja, a vida noutro mundo era uma continuação desta vida, em tudo igual mesmo na actividade sexual, só que infinitamente melhor (na mesma linha estão hoje os muçulmanos). Tratava-se dum prémio para os justos.

O grupo dos saduceus era constituído pelos membros das altas classes sacerdotais, os descendentes do sacerdote Sadoc. Naturalmente, eram ricos, colaboravam com os dominadores romanos, não sendo, por isso, bem aceites pelo povo. Sob o ponto de vista religioso, eram conservadores, apenas aceitando como Palavra de Deus a Torah de Moisés, isto é, os cinco primeiros livros da Bíblia. Porque nestes livros não se fala de ressurreição, esta era rejeitada. Além disso, não sentiam necessidade dum prémio da parte de Deus, porque viviam bem e sentiam-se já recompensados nesta vida.

Uma forma de os saduceus contradizerem a ressurreição face aos fariseus era apresentar-lhes a Lei do Levirato, prescrita em Dt 25,5-7. Esta lei tinha como objectivo fundamental a centralização dos bens, sobretudo terras, para evitar que os bens de família fossem parar às mãos de estranhos. É esta a questão posta agora a Jesus: «Havia sete irmãos: o primeiro depois de ter tomado mulher, morreu sem filhos;o segundo,depois o terceiro, tomaram-na; e assim todos os sete não deixaram filhos e morreram. Finalmente, também a mulher morreu. Ora a mulher, na ressurreição, de quem será esposa, pois todos os sete a tiveram por esposa?».

O caso proposto a Jesus pelos Saduceus recorda-nos a história de Tobias, filho de Tobit, que se casa com Sara, filha de Raguel, viúva de sete maridos, todos mortos por Asmodeu, o demónio da luxúria, no momento em que se uniam a ela. Tobias tem o direito de a desposar porque era da sua tribo (Tb 7-9).

A um caso de paternidade sete vezes incompleta e que desemboca oito vezes na morte, Jesus responde dando uma volta à mentalidade dos saduceus e dos fariseus acerca da ressurreição. Se não há ressurreição, não será tomando mulher ou marido que se evitará a morte nem será por um homem ter filhos que evitará desaparecer. Apenas viverão aqueles que põem toda a sua confiança em Deus, o único verdadeiro Vivente. Os que viverem como filhos, recebendo tudo de Deus, não poderão morrer, porque Deus é Deus da Vida.

Jesus confirma a realidade da ressurreição citando um texto tirado do livro do Êxodo, com a narração da revelação de Deus a Moisés na sarça ardente. Os Saduceus evidenciavam o seu ponto de vista citando Moisés. Jesus refuta-os do mesmo modo, citando também Moisés: «E que os mortos ressuscitam, até Moisés o indicou na sarça, quando diz: “o Senhor o Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob”» (Ex 3,6).

Negar a ressurreição, por outras palavras, negar a Vida, equivale a negar a própria existência de Deus. Se os antigos patriarcas Abraão, Isaac e Jacob estão vivos, não é por terem gerado mas pelo facto de terem sido gerados por Deus. Na ressurreição, na ordem de Deus, a única relação que existe entre as pessoas está na linha apenas da filiação divina: todos são filhos de Deus. Esta é a única relação que vem desde o princípio, que não se pode abolir, e é a mesma que define os anjos.

 

P. Franclim Pacheco

 

Diocese de Aveiro

 

 

 

 

 

 

Sementes de Reflexão - Segunda-feira da Semana XXXI do Tempo Comum

Do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas:

“Naquele tempo, disse Jesus a um dos principais fariseus, que O tinha convidado para uma refeição: “Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles por sua vez te convidem e assim serás retribuído. Mas quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.”

 

RR

XXXI Domingo do Tempo Comum – Ano C

 

 

Breve comentário

O evangelista Lucas lembra, uma vez mais, o caminho de Jesus para Jerusalém, ao dizer que ele, tendo entrado em Jericó, atravessava a cidade. Faltam apenas 25 km para o destino.

Jericó estava no caminho do norte em rota para Jerusalém. Era a segunda cidade da Judeia, sendo, em grande parte, residência de sacerdotes, pois dos 24 grupos de sacerdotes e levitas,  os rabinos falavam de 12 deles estacionados em Jericó. Daí que no exemplo da parábola do samaritano seja um sacerdote e um levita que aparecem em primeiro lugar (Lc 10, 31-32).

O encontro entre Jesus e Zaqueu, referido apenas por Lucas, é um episódio chave, solução do que está para trás e prelúdio do que se segue.

Zaqueu é um homem ferido: por amor ao dinheiro excluiu da sua comunidade, é odiado pelos seus; é natural que sofra pelo facto de ser de baixa estatura e tenha necessidade de se afirmar através da sua riqueza. Também se afastou do seu Deus, porque este amor ao dinheiro leva-o não só a colaborar com os romanos, mas inclusive a roubar. Zaqueu é rico, mas não é feliz, porque a felicidade encontra-se na comunhão com Deus e com os outros.

O centro da narração é o desejo que Zaqueu tem de ver e o olhar de Jesus sobre ele. É deste encontro de olhares que irrompe o «hoje» da salvação: O Salvador nasce no coração do homem para o qual está morto.

Zaqueu (Zakkai) pode significar «puro», «justo», mas também «Deus recorda», um nome muito comum. Na verdade é um chefe de publicanos, pecador público, rico e ladrão, como ele mesmo adiante reconhece. É assim um caso desesperado, um pecador da pior espécie que Deus, misericordiosamente,recorda!

O pecador Zaqueu procurava ver quem era Jesus. Dada a sua baixa estatura, é impedido pela multidão que o cerca, mas resolve o problema: sobe a uma árvore. É o tal feeling que existe entre Jesus e os pecadores.

Quando chegou àquele local, levantando os olhos, Jesus disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, porque hoje devo ficar em tua casa».

Zaqueu procurava ver Jesus mas é Jesus quem o , pois anda à sua procura. Os olhos de Jesus procuram precisamente aquele homem, Zaqueu. Olha-o de baixo, porque Jesus se rebaixou para a todos servir (cf. 9,48). Depois chama-o pelo nome (Zaqueu = puro), exprimindo afecto. Faz-se convidado, «hoje» (repetido também no v. 9), para a casa dele, com a urgência do «depressa» e do «eu preciso», que vem da vontade do Pai.

Zaqueu desceu imediatamente e acolheu-o cheio de alegria. Acolher é o gesto fundamental do amor. Nasce do coração de Zaqueu alguma coisa que ele antes não conhecia.

Toda a gente murmura e critica, como já era costume em circunstâncias semelhantes, porque Jesus vai contaminar-se na casa dum pecador (15,1-2). Jesus não responde. É Zaqueu que, sem ser interpelado, se levanta e diz: «Eis que eu dou metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, restituo-lhe o quatro vezes mais».

A justiça da lei previa esta restituição, mas Zaqueu começa com outra lei a que ninguém estava obrigado: dar metade dos seus bens aos pobres. É a lei do amor, daquele que se torna discípulo de Jesus. O amor misericordioso de Jesus, que não o criticou, pelo contrário olhou para ele sem o julgar e se fez convidar como um amigo para sua casa, provoca esta mudança de vida.

Uma vez mais a conversão é, na linha do evangelho de Lucas, fruto da misericórdia divina que delicadamente se faz presente em casa do pecador. Uma vez mais a alegria de Deus explode: «Hoje a salvação entrou nesta casa, porque ele também é um filho de Abraão».

Jesus é apresentado não apenas como um meio ou um portador de salvação, mas como a própria salvação. Já o velho Simeão, ao olhar para o bebé Jesus nos seus braços, dá graças a Deus porque os seus olhos viram a «salvação». É esta salvação encarnada na pessoa de Jesus que «entrou nesta casa».

HOJE! É a alegria do Natal que anuncia a presença do Salvador no coração do homem (cf. 2,11). É a salvação que acontece em qualquer momento, mesmo na eminência da morte: «Hoje estarás comigo no paraíso!» (23,43). É esta alegria que invade Zaqueu ao receber Jesus em sua casa.

Jesus é apresentado como o Bom pastor que procurou esta ovelha chamada Zaqueu, que estava perdido e foi encontrado. «De facto, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido».

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

Pensamento Semanal:

A compreensão é a recompensa da fé.

Portanto não procures compreender para crer,

mas antes crê para compreender.

(Santo Agostinho, In Io. Ev. tr. 29, 6)

 

 

 

 

XXX Domingo do Tempo Comum – Ano C

 

Breve comentário

            Novamente estamos perante uma parábola que só encontramos no evangelho de Lucas, o que significa que devemos entendê-la à luz da mensagem que este evangelista pretende transmitir. Naturalmente, Lucas quer dar uma lição aos leitores das comunidades para quem escreve, talvez por causa de atitudes que precisam de ser corrigidas.

            A parábola, bem ambientada ao tempo de Jesus, apresenta-nos dois personagens distintos: um homem que pertencia aos grupo dos fariseus, gente piedosa que se esforçava não só por cumprir escrupulosamente a Lei em todos os seus pormenores mas também por ensinar os outros, corrigindo e criticando, como tantas vezes fazem em relação às atitudes e palavras de Jesus.

            A palavra «fariseus» em hebraico é parishim, que significa separados, no sentido de escolhidos, ou melhor, os que não querem misturar-se com o povo para não se contaminarem com as suas  impurezas. Ao tempo de Jesus eram cerca de 20 mil mas muito influentes por causa do seu estilo de vida. Várias vezes Jesus denunciou a sua hipocrisia que os levava a fazer jejuns e orações apenas para serem vistos pelos outros, confiavam em si mesmos como cumpridores da Lei e desprezavam os outros. Pelo seu cumprimento da Lei de Deus, eram olhados e consideravam-se a si mesmos como «justos». Duma maneira geral, eram admirados e até estimados pelo povo que se sentia bem longe da sua «santidade de vida».

O outro personagem aparece como o oposto: é publicano, isto é, pertence à classe dos cobradores de impostos. Odiado pelo povo porque, no exercício da sua função, cobrava muito mais do que lhe era devido. Além disso, o facto de estar ao serviço dos dominadores romanos trazia-lhes uma carga de traidores do povo e, porque o Imperador romano queria ser tratado como deus, eram desprezados como hereges e pecadores, postos à margem da sociedade, sem quaisquer direitos. Ninguém devia falar ou conviver com eles e, muito menos, entrar na sua casa ou partilhar uma refeição. Precisamente o contrário da atitude de Jesus…

O início do texto dá a chave de leitura: dirige-se a alguns que presumiam serem justos e desprezavam os outros. E facilmente percebemos, ao longo da parábola, que está em causa a diferença de atitude diante de Deus.

O fariseu, modelo de «justo», está de pé, faz uma oração para si, com ele mesmo, uma oração dirigida a ele próprio. Não mente em tudo o que diz, porque até é verdade! Considera-se «justo» diante de Deus porque cumpre tudo à risca, merecendo, por isso, o prémio. Para ele, a salvação não é um dom de Deus mas um mérito conseguido com muito esforço pessoal. O que choca é o seu desprezo para com os outros e a sua comparação com o publicano. Aqui, até a tradição rabínica distingue entre um «justo» que é bom em relação a Deus e às suas criaturas e um «justo» que é bom em relação a Deus mas não é bom com as criaturas. É o caso do fariseu da nossa parábola.

            Bem diferente é a atitude e a oração do publicano. Dois gestos revelam a sua condição de grande pecador: não ousava levantar os olhos ao céu, atitude frequentemente posta em relação com a oração. No publicano denota um estado de vergonha, de confusão; batia no peito, quer como sinal de arrependimento, quer como gesto de desespero. A oração do publicano é muito concisa e recorda o início do salmo 50: ele entrega-se inteiramente à misericórdia de Deus pois nada tem para apresentar que mereça perdão.

            O publicano sabe que é pecador; nem se dá ao trabalho de fazer o elenco dos seus pecados. Não tem outra escolha senão reconhecer-se como tal e implorar a misericórdia divina. Mesmo que quisesse mudar de vida, não o podia fazer: onde ia arranjar dinheiro para restituir a 120 por cento tudo o que tinha desonestamente adquirido?

            O resultado final referido por Jesus representa o contrário das atitudes. Humilhar-se, rebaixar-se diante de Deus não é aviltamento ou frustração mas a condição para se ser levantado por Ele. Querer elevar-se diante de Deus, quase colocar-se ao mesmo nível, é a condição para ser deixado entregue a si mesmo e precipitado num vazio.

            Na sentença final «quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado», bem ao gosto de Lucas que a dirige aos seus leitores, como consequência da parábola, continuamos a ouvir o eco do Magnificat: «Porque olhou para humildade da sua serva… dispersou os homens de coração orgulhoso… derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes…» (Lc 1,48.51-52).

P. Franclim Pacheco

 

Diocese de Aveiro

 

Pensamento Semanal:

“NA BARCA DA IGREJA, EU SOU!”

 CAMINHADA DIOCESANA

 

 

A diocese de Aveiro está a viver, a propósito dos 75 anos da sua restauração como diocese, um projecto pastoral que denominou de “Missão Jubilar”. Este projeto aproxima-se de um dos seus momentos mais marcantes que decorrerá de 8 a 11 de Dezembro próximo.

Neste enquadramento surge a caminhada “Na barca da Igreja, eu sou!” a realizar de 10 de novembro a 25 de dezembro.

Procura-se na primeira semana despertar a todos para a consciência do sentido da vida e da vocação. Nas semanas seguintes, cada cristão, comunidade, serviço diocesano e movimento são convidados a viver o caminho de felicidade proposto por Jesus Cristo nas bem-aventuranças. Ao mesmo tempo pretende-se motivar à participação na celebração diocesana do dia 8 de dezembro, centrando-nos, por fim, na celebração do Natal.

Na primeira semana, dedicada especialmente à promoção vocacional serão propostas a toda a diocese um conjunto de catequeses e de aulas de EMRC, a dinamizar de acordo com as faixas etárias, e por fim a realização de uma vigília de oração pelas vocações. Em termos individuais será proposto às pessoas um calendário de bolso “O que Deus quer de mim?” onde diariamente se procura propor um caminho de reflexão sobre a palavra de Deus e de oração.

Nas semanas seguintes até ao Natal, desafia-se cada cristão a viver com ações concretas a proposta das bem-aventuranças, sendo misericordioso, irmão, ouvinte, luz, feliz e a tomar consciência da presença de Deus connosco em Jesus Cristo.

Na vivência desta caminhada assumimos como símbolo – a rede de pesca, enquadrado no símbolo da missão jubilar – um barco. Semana após semana, será colocado na rede um peixe que representará o compromisso individual semanal.

Esta expressão simbólica terá expressão comunitária nas igrejas e familiar em cada um dos lares da nossa diocese.

Assumimos esta caminhada tendo presente o desafio do Mestre que segue connosco na barca: “Faz-te ao largo; e vós, lançai as redes para a pesca” (Lc. 5, 4). Somos assim lançados na aventura de realizar um mundo melhor vivendo as bem-aventuranças.

CAMINHADA DAS BEM-AVENTURANÇAS - 2013

10 novembro | 25 dezembro

DIOCESE DE AVEIRO – MISSÃO JUBILAR

 

ATENÇÃO

Informamos que a local do debate foi alterado para:

A nova Igreja Matriz de Arcos / Anadia

 

 

 

 

PENSAMENTO DO DIA:

 

 

XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano C

 

 

Breve comentário

O texto deste domingo, que não se encontra em mais nenhum evangelista, vem na sequência dum discurso de Jesus sobre a vinda gloriosa do Filho do Homem (cf. Lc 17,20-37), e o final do texto de hoje: «Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?» volta a colocar-nos nesta perspectiva. É, pois, neste enquadramento que se deve entender o texto que Lucas apresenta aos seus leitores.

Na altura em que Lucas escreve, à volta do ano 80, as comunidades da Ásia Menor começam a sentir uma perseguição, de alguma forma subtil, com a obrigação de todos prestarem culto ao imperador Domiciano como a um deus. Todos aceitam esta «mania» do imperador, menos os cristãos. A situação torna-se intolerável. Tal como os hebreus no Egipto ou, mais tarde, no exílio da Babilónia, os cristãos dirigem a Deus, dia e noite, o seu «grito» de angústia. Quando virá o Senhor? Quando nos fará justiça?

O perigo do desânimo, de deixar de confiar em Deus que parece estar calado e ausente torna-se muito forte! Daí a advertência à necessidade de orar sempre, sem desfalecer na certeza duma intervenção de Deus.

Os dois personagens da parábola representam na literatura bíblica as figuras típicas do opressor e do oprimido. O juiz parece encarnar o tipo de categoria que se comporta injustamente (frequentemente criticado pelos profetas, cf. Am 5,12; Is 10,1-2; Jr 5, 28) e não respeita as leis de Ex 22,20-23 e Dt 14,28-29. Ele é caracterizado como «juiz de injustiça», ou seja, alguém que faz exactamente o contrário da sua função. A viúva encarna o pobre, o fraco, uma categoria predilecta de Lucas. Ela precisa do juiz para fazer valer os seus direitos. Porque não é escutada, recorre ao único meio à sua disposição: a insistência no pedido. A insistência da viúva devia ter causado uma irritação progressiva no juiz que resolve fazer justiça só para não a ouvir mais.

A actualização da parábola é feita pelo Senhor, termo que exprime toda a autoridade de Cristo Ressuscitado. O acento agora não é colocado na viúva mas no «juiz de injustiça». Não é estabelecido um paralelo entre Deus e o juiz, mas entre o comportamento do primeiro e do segundo. Se até o juiz de injustiça fez justiça, com muito mais razão Deus fará justiça aos seus eleitos que por Ele clamam.

Deus, mesmo aparentemente silencioso, irá fazer justiça prontamente aos que por Ele clamam e que continuam a confiar n’Ele. É esta atitude de fé perseverante e de confiança total que é necessário conservar até ao fim.


P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

Morreu D. António Marcelino

Funeral do prelado, de 83 anos, marcado para as 15h00

de sexta-feira, na Sé de Aveiro

Aveiro, 09 out 2013 (Ecclesia) – D. António Marcelino, bispo emérito de Aveiro, faleceu hoje aos 83 anos de idade, no Hospital Infante D. Pedro, da cidade, anunciou a diocese em comunicado enviado à Agência ECCLESIA.

O prelado foi recentemente hospitalizado, vindo a falecer esta tarde, pelas 17h30, refere o Gabinete de Imagem e Comunicação da Diocese de Aveiro (GICDA).

D. António Marcelino foi nomeado bispo coadjutor da Diocese de Aveiro em 1980, tendo sido bispo residencial de 20 de janeiro de 1988 a 21 de setembro de 2006, quando foi substituído por D. António Francisco dos Santos.

O seu funeral vai decorrer às 15h00 de sexta-feira, na Sé de Aveiro, seguindo depois o cortejo fúnebre para o cemitério central da cidade.

O corpo vai ser colocado esta quinta-feira na igreja do seminário de Aveiro, onde vai ser celebrada uma missa às 19h00, seguida de vigília de oração.

Para sexta-feira, às 09h00, está marcada a oração de laudes e transladação para a Sé de Aveiro, refere o GIDCA. 

A página da internet da Diocese de Aveiro informava hoje que o estado de saúde do bispo emérito era "muito delicado", após ter estado também no Hospital de Coimbra.

Natural de Castelo Branco, onde nasceu a 21 de setembro de 1930, D. António Marcelino foi ordenado padre em 1955, bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa em 1975 e coadjutor da Diocese de Aveiro em 1980, sucedendo a D. Manuel de Almeida Trindade no dia 20 de janeiro de 1988.

“Julgo que melhor herança à diocese não podia eu ter deixado. Aveiro bem merece pelo desenvolvimento que tem tido um bispo com a inteligência e a capacidade de trabalho de D. António Marcelino”, escrevia na altura D. Manuel de Almeida Trindade no jornal 'Correio do Vouga'.

D. António Francisco dos Santos, que sucedeu ao bispo agora falecido, disse no dia da tomada de posse que D. António Marcelino era um “construtor interpelativo e corajoso” de um “diálogo necessário e lúcido da Igreja com a sociedade”.

D. António Marcelino escrevia regularmente no Semanário ECCLESIA e no 'Correio do Vouga'.

O tema da renovação da Igreja mereceu recorrentes reflexões por parte de D. António Marcelino, em artigos de opinião publicados na Agência ECCLESIA.

O último artigo, publicado na edição de 12 de setembro do semanário digital, foi dedicado às mudanças em curso: "A vontade de não clarificar impede que se limpe o rosto da Igreja. Se as coisas não mudarem, com a pressa desejada, a Igreja irá perdendo a identidade e ficará mais à margem do Evangelho e da vida".

D. António Marcelino foi vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) entre 1999 e 2005, participando no Sínodo dos Bispos sobre a Europa em 1991 e em 1999; presidiu  à visita dos bispos de Portugal ao Vaticano, em 1999.

Na Diocese de Aveiro, criou o Instituto de Ciências Religiosas e promoveu um Sínodo ente 1990 e 1995, entre outras iniciativas.

O prelado foi presidente das comissões episcopais da CEP para as Comunicações Sociais - onde esteve na origem do programa «70x7» -, a Ação Social, a Família e o Apostolado dos Leigos.

Em 2000, quando completou 25 anos de bispo, D. António Marcelino foi agraciado pelo então presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito, uma das mais altas condecorações do Estado.

O falecido bispo assinou ainda os livros ‘Pedaços de vida que geram vida’ e ‘A vida também se lê’.

PR/OC

NA GALERIA DE FOTOS

IMAGENS DA PEREGRINAÇÃO A FÁTIMA

 

PEREGRINAÇÃO A FÁTIMA

Dia 21 de Setembro 2013

Com as paróquias do Troviscal e Amoreira da Gândara até ao Santuário de Fátima, com Missa presidida pelo pároco, na Capelinha das Aparições.

 

 
MISSÃO JUBILAR
(21 de outubro de 2012 a 11 de dezembro 2013)
 
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