Sábado, 25 de Abril de 2015
 
PÁROCOS - 1900...

 

IV DOMINGO DA PÁSCOA - Ano B

 

«O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas»

 

 

EVANGELHO –  Jo 10,11-18

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus.
«Eu sou o Bom Pastor.
O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas.
O mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas,
logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge,
enquanto o lobo as arrebata e dispersa.
O mercenário não se preocupa com as ovelhas.
Eu sou o Bom Pastor:
conheço as minhas ovelhas
e as minhas ovelhas conhecem-Me,
do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai;
Eu dou a minha vida pelas minhas ovelhas.
Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil
e preciso de as reunir;
elas ouvirão a minha voz
e haverá um só rebanho e um só Pastor.
Por isso o Pai Me ama:
porque dou a minha vida, para poder retomá-la.
Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente.
Tenho o poder de a dar e de a retomar:
foi este o mandamento que recebi de meu Pai».

Palavra da salvação

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

 

• Todos nós temos as nossas figuras de referência, os nossos heróis, os nossos mestres, os nossos modelos. É a uma figura desse tipo que, utilizando a imagem do Evangelho do 4º Domingo da Páscoa, poderíamos chamar o nosso “pastor”… É Ele que nos aponta caminhos, que nos dá segurança, que está ao nosso lado nos momentos de fragilidade, que condiciona as nossas opções, que é para nós uma espécie de modelo de vida. O Evangelho deste domingo diz-nos que, para o cristão, o “Pastor” por excelência é Cristo. É n’Ele que devemos confiar, é à volta d’Ele que nos devemos juntar, são as suas indicações e propostas que devemos seguir. O nosso “Pastor” é, de facto, Cristo, ou temos outros “pastores” que nos arrastam e que são as referências fundamentais à volta das quais construimos a nossa existência? O que é que nos conduz e condiciona as nossas opções: Jesus Cristo? As directrizes do chefe do departamento? A conta bancária? A voz da opinião pública? A perspectiva do presidente do partido? O comodismo e a instalação? O êxito e o triunfo profissional a qualquer custo? O herói mais giro da telenovela? O programa de maior audiência da estação televisiva de maior audiência?


• Reparemos na forma como Cristo desempenha a sua missão de 
“Pastor”: Ele não actua por interesse (como acontece com outros pastores, que apenas procuram explorar o rebanho e usá-lo em benefício próprio), mas por amor; Ele não foge quando as ovelhas estão em perigo, mas defende-as, preocupa-Se com elas e até é capaz de dar a vida por elas; Ele mantém com cada uma das ovelhas uma relação única, especial, pessoal, conhece os seus sofrimentos, dramas, sonhos e esperanças. As “qualidades” de Cristo, o Bom Pastor, aqui enumeradas, devem fazer-nos perceber que podemos confiar integral e incondicionalmente n’Ele e entregar, sem receio, a nossa vida nas suas mãos. Por outro lado, este “jeito” de actuar de Cristo deve ser uma referência para aqueles que têm responsabilidades na condução e animação do Povo de Deus: aqueles que receberam de Deus a missão de presidir a um grupo, de animar uma comunidade, exercem a sua missão no dom total, no amor incondicional, no serviço desinteressado, a exemplo de Cristo?


• No “rebanho” de Jesus, não se entra por convite especial, nem 
há um número restrito de vagas a partir do qual mais ninguém pode entrar… A proposta de salvação que Jesus faz destina-se a todos os homens e mulheres, sem excepção. O que é decisivo para entrar a fazer parte do rebanho de Deus é “escutar a voz” de Cristo, aceitar as suas indicações, tornar-se seu discípulo… Isso significa, concretamente, seguir Jesus, aderir ao projecto de salvação que Ele veio apresentar, percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu, na entrega total aos projectos de Deus e na doação total aos irmãos. Atrevemo-nos a seguir o nosso “Pastor” (Cristo) no caminho exigente do dom da vida, ou estamos convencidos que esse caminho é apenas um caminho de derrota e de fracasso, que não leva aonde nós pretendemos ir?


• O nosso texto acentua a identificação total de Jesus com a 
vontade do Pai e a sua disponibilidade para colocar toda a sua vida ao serviço do projecto de Deus. Garante-nos também que é dessa entrega livre, consciente, assumida, que resulta vida eterna, verdadeira e definitiva. O exemplo de Cristo convida-nos a aderir, com a mesma liberdade mas também com a mesma disponibilidade, às propostas de Deus e ao cumprimento do projecto de Deus para nós e para o mundo. Esse caminho é, garantidamente, um caminho de vida eterna e de realização plena do homem.


• Nas nossas comunidades cristãs, temos pessoas que presidem e 
que animam. Podemos aceitar, sem problemas, que elas receberam essa missão de Cristo e da Igreja, apesar dos seus limites e imperfeições; mas convém igualmente ter presente que o nosso único “Pastor”, aquele que somos convidados a escutar e a seguir sem condições, é Cristo. Os outros “pastores” têm uma missão válida, se a receberam de Cristo; e a sua actuação nunca pode ser diferente do jeito de actuar de Cristo.


• Para que distingamos a “voz” de Jesus de outros apelos, de 
propostas enganadoras, de “cantos de sereia” que não conduzem à vida plena, é preciso um permanente diálogo íntimo com “o Pastor”, um confronto permanente com a sua Palavra e a participação activa nos sacramentos onde se nos comunica essa vida que “o Pastor” nos oferece. 

 

 

 

 

III DOMINGO DA PÁSCOA - Ano B

 

«Assim está escrito que o Messias havia de sofrer

e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia»

 

 

EVANGELHO –  Lc 24,35-48

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

 

Naquele tempo, 

os discípulos de Emaús 

contaram o que tinha acontecido no caminho 

e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão. Enquanto

diziam isto, 

Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja

convosco». 

Espantados e cheios de medo, julgavam ver um espírito.

Disse-lhes Jesus: 

«Porque estais perturbados 

e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações?

Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; 

tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, 

Como vedes que Eu tenho». 

Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como eles, na sua

alegria e admiração, 

não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes: 

«Tendes aí alguma coisa para comer?» Deram-Lhe uma posta de

peixe assado, 

que Ele tomou e começou a comer diante deles. Depois 

disse-lhes: 

«Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava

convosco: 

'Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei

de Moisés, nos Profetas e nos Salmos'». 

Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as

Escrituras e disse-lhes: 

«Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar

dos mortos ao terceiro dia, 

e que havia de ser pregado em seu nome 

o arrependimento e o perdão dos pecados 

a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as

testemunhas de todas estas coisas».

 

Palavra da salvação

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• Jesus ressuscitou verdadeiramente, ou a ressurreição é fruto da imaginação dos discípulos? Como é possível ter a certeza da ressurreição? Como encontrar Jesus ressuscitado? É a estas e a outras questões semelhantes que o Evangelho deste domingo procura responder. Com a sua catequese, Lucas diz-nos que nós, como os primeiros discípulos, temos de percorrer o nem sempre claro caminho da fé, até chegarmos à certeza da ressurreição. Não se chega lá através de deduções lógicas ou através de construções de carácter intelectual; mas chega-se ao encontro com o Senhor ressuscitado inserindo-nos nesse contexto em que Jesus Se revela - no encontro comunitário, no diálogo com os irmãos que partilham a mesma fé, na escuta comunitária da Palavra de Deus, no amor partilhado em gestos de fraternidade e de serviço É nesse "caminho" que vamos encontrando Cristo vivo, actuante, presente na nossa vida e na vida do mundo. 

• É que Cristo continua presente no meio da sua comunidade em marcha pela história. Quando a comunidade se reúne para escutar a Palavra, Ele está presente e explica aos seus discípulos o sentido das Escrituras. Não sentimos, tantas vezes, a presença de Cristo a indicar-nos caminhos de vida nova e a encher o nosso coração de esperança quando lemos e meditamos a Palavra de Deus? Não sentimos o coração cheio de paz - a paz que Jesus ressuscitado oferece aos seus - quando escutamos e acolhemos as propostas de Deus, quando procuramos conduzir a nossa vida de acordo com o plano de Deus? 

• Jesus ressuscitado reentrou no mundo de Deus; mas não desapareceu da nossa vida e não se alheou da vida da sua comunidade. Através da imagem do "comer em conjunto" (que, para o Povo bíblico, significa estabelecer laços estreitos, laços de comunhão, de familiaridade, de fraternidade), Lucas garante-nos que o Ressuscitado continua a "sentar-se à mesa" com os seus discípulos, a estabelecer laços com eles, a partilhar as suas inquietações, anseios, dificuldades e esperanças, sempre solidário com a sua comunidade. Podemos descobrir este Jesus ressuscitado que se senta à mesa com os homens sempre que a comunidade se reúne à mesa da Eucaristia, para partilhar esse pão que Jesus deixou e que nos faz tomar consciência da nossa comunhão com Ele e com os irmãos. 

• Jesus lembra aos discípulos: "vós sois as testemunhas de todas estas coisas". Isto significa, apenas, que os cristãos devem ir contar a todos os homens, com lindas palavras, com raciocínios lógicos e inatacáveis que Jesus ressuscitou e está vivo? O testemunho que Cristo nos pede passa, mais do que pelas palavras, pelos nossos gestos. Jesus vem, hoje, ao encontro dos homens e oferece-lhes a salvação através dos nossos gestos de acolhimento, de partilha, de serviço, de amor sem limites. São esses gestos que testemunham, diante dos nossos irmãos, que Cristo está vivo e que Ele continua a sua obra de libertação dos homens e do mundo. 

• Na catequese que Lucas apresenta, Jesus ressuscitado confia aos discípulos a missão de anunciar "em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém". Continuando a obra de Jesus, a missão dos discípulos é eliminar da vida dos homens tudo aquilo que é "o pecado" (o egoísmo, o orgulho, o ódio, a violência e propor aos homens uma dinâmica de vida nova.

 

 

 

 

 

II DOMINGO DA PÁSCOA - Ano B

 

«Oito dias depois, veio Jesus...»

 

 

EVANGELHO –  Jo 20, 19-31

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

 

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,

estando fechadas as portas da casa

onde os discípulos se encontravam,

com medo dos judeus,

veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes:

«A paz esteja convosco».

Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado.

Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.

Jesus disse-lhes de novo:

«A paz esteja convosco.

Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».

Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:

«Recebei o Espírito Santo:

àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados;

e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo,

não estava com eles quando veio Jesus.

Disseram-lhe os outros discípulos:

«Vimos o Senhor».

Mas ele respondeu-lhes:

«Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos,

se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado,

não acreditarei».

Oito dias depois,

estavam os discípulos outra vez em casa,

e Tomé com eles.

Veio Jesus, estando as portas fechadas,

apresentou-Se no meio deles e disse:

«A paz esteja convosco».

Depois disse a Tomé:

«Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos;

aproxima a tua mão e mete-a no meu lado;

e não sejas incrédulo, mas crente».

Tomé respondeu-Lhe:

«Meu Senhor e meu Deus!»

Disse-lhe Jesus:

«Porque Me viste acreditaste:

felizes os que acreditam sem terem visto».

Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos,

que não estão escritos neste livro.

Estes, porém, foram escritos

para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus,

e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

 

Palavra da salvação

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• Antes de mais, a catequese que João nos apresenta garante-nos a presença de Cristo no meio da sua comunidade em marcha pela história. Os discípulos de Jesus vivem no mundo, numa situação de fragilidade e de debilidade; experimentam, como os outros homens e mulheres, o sofrimento, o desalento, a frustração, o desânimo; têm medo quando o mundo escolhe caminhos de guerra e de violência; sofrem quando são atingidos pela injustiça, pela opressão, pelo ódio do mundo; conhecem a perseguição, a incompreensão e a morte… Mas são sempre animados pela esperança, pois sabem que Jesus está presente, oferecendo-lhes a sua paz e apontando-lhes o horizonte da vida definitiva. O cristão é sempre animado pela esperança que brota da presença a seu lado de Cristo ressuscitado. Não devemos, nunca, esquecer esta realidade.

• A presença de Cristo ao lado dos seus discípulos é sempre uma presença renovadora e transformadora. É esse Espírito que Jesus oferece continuamente aos seus, que faz deles homens e mulheres novos, capazes de amar até ao fim, ao jeito de Jesus; é esse Espírito que Jesus oferece aos seus, que faz deles testemunhas do amor de Deus e que lhes dá a coragem e a generosidade para continuarem no mundo a obra de Jesus.

• A comunidade cristã gira em torno de Jesus é construída à volta de Jesus e é de Jesus que recebe vida, amor e paz. Sem Jesus, estaremos secos e estéreis, incapazes de encontrar a vida em plenitude; sem Ele, seremos um rebanho de gente assustada, incapaz de enfrentar o mundo e de ter uma atitude construtiva e transformadora; sem Ele, estaremos divididos, em conflito, e não seremos uma comunidade de irmãos… Na nossa comunidade, Cristo é verdadeiramente o centro? É para Ele que tudo tende e é d’Ele que tudo parte? 

• A comunidade tem de ser o lugar onde fazemos, verdadeiramente, a experiência do encontro com Jesus ressuscitado. É nos gestos de amor, de partilha, de serviço, de encontro, de fraternidade (no “lado trespassado” e nas chagas de Jesus, expressões do seu amor), que encontramos Jesus vivo, a transformar e a renovar o mundo. É isso que a nossa comunidade testemunha? Quem procura Cristo ressuscitado, encontra-O em nós? O amor de Jesus – amor total, universal e sem medida – transparece nos nossos gestos?

• Não é em experiências pessoais, íntimas, fechadas, egoístas, que encontramos Jesus ressuscitado; mas encontramo-l’O no diálogo comunitário, na Palavra partilhada, no pão repartido, no amor que une os irmãos em comunidade de vida. O que é que significa, para mim, a Eucaristia?

 

 

 

 

 

DOMINGO DE PÁSCOA

DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR - Ano B

 

«Ele tinha de ressuscitar dos mortos»

 

 

EVANGELHO –  Jo 20, 1-9

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

 

No primeiro dia da semana,

Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro

e viu a pedra retirada do sepulcro.

Correu então e foi ter com Simão Pedro

e com o discípulo predilecto de Jesus

e disse-lhes:

«Levaram o Senhor do sepulcro

e não sabemos onde O puseram».

Pedro partiu com o outro discípulo

e foram ambos ao sepulcro.

Corriam os dois juntos,

mas o outro discípulo antecipou-se,

correndo mais depressa do que Pedro,

e chegou primeiro ao sepulcro.

Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.

Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira.

Entrou no sepulcro

e viu as ligaduras no chão

e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus,

não com as ligaduras, mas enrolado à parte.

Entrou também o outro discípulo

que chegara primeiro ao sepulcro:

viu e acreditou.

Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura,

segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

Palavra da salvação

 

 

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• Também aqui – como em várias outras passagens do Evangelho – Pedro desempenha um papel estranho e infeliz: é o papel de um discípulo que continua a não sintonizar com Jesus e com a sua lógica. No entanto, não podemos ser demasiado duros com Pedro: ele é, apenas, o paradigma de uma figura de discípulo que conhecemos bem: o discípulo que tem dificuldade em perceber Jesus e os seus valores, pois está habituado a funcionar de acordo com outros valores e padrões – os valores e padrões dos homens. A lógica humana ensina-nos que o amor partilhado até à morte, o serviço simples e sem pretensões, a doação e a entrega da vida, só conduzem ao fracasso e não são um caminho sólido e consistente para chegar ao êxito, ao triunfo, à glória; da cruz, do amor radical, da doação de si, não pode resultar realização, felicidade, vida plena, êxito profissional ou social. Como nos situamos face a esta lógica?


• O “discípulo predilecto” de que fala o texto é o discípulo que vive em comunhão com Jesus, que se identifica com Jesus e com os seus valores, que interiorizou e absorveu a lógica da entrega incondicional, do dom da vida, do amor total. Modelo do verdadeiro discípulo, ele convida-nos à identificação com Jesus, à escuta atenta e comprometida dos valores de Jesus, ao seguimento de Jesus. Propõe-nos uma renúncia firme a esquemas de egoísmo, de injustiça, de orgulho, de prepotência e a realizar gestos que sejam sinais do amor, da bondade, da misericórdia e da ternura de Deus.

• A ressurreição de Jesus prova, precisamente, que a vida plena, a vida total, a transfiguração total da nossa realidade finita e das nossas capacidades limitadas, passa pelo amor que se dá, com radicalidade, até às últimas consequências. Garante-nos que a vida gasta a amar não é perdida nem fracassada, mas é o caminho para a vida plena e verdadeira, para a felicidade sem fim. Temos consciência disso? É nessa direcção que conduzimos a caminhada da nossa vida?

• Pela fé, pela esperança, pelo seguimento de Cristo e pelos sacramentos, a semente da ressurreição (o próprio Jesus) é depositada na realidade do homem/corpo. Revestidos de Cristo, somos nova criatura: estamos, portanto, a ressuscitar, até atingirmos a plenitude, a maturação plena, a vida total (quando ultrapassarmos a barreira da morte física). Aqui começa, pois, a nova humanidade.

• A figura de Pedro pode também representar, aqui, essa velha prudência dos responsáveis institucionais da Igreja, que os impede de ir à frente da caminhada do Povo de Deus, de arriscar, de aceitar os desafios, de aderir ao novo, ao desconcertante, ao incompreensível. O Evangelho de hoje sugere que é, precisamente nesse novo, desconcertante, incompreensível à luz da lógica humana que, tantas vezes, se revela o mistério de Deus e se encontram ecos de ressurreição e de vida nova.
 

 


 

 

 

 

 

Vº Domingo da Quaresma - Ano B

 

«Se o grão de trigo, lançado à terra, morrer, dará muito fruto»

 

 

EVANGELHO –  Jo 12, 20-33

 

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

 

Naquele tempo,

alguns gregos que tinha vindo a Jerusalém

para adorar nos dias da festa,

foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia,

e fizeram-lhe este pedido:

«Senhor, nós queríamos ver Jesus».

Filipe foi dizê-lo a André;

e então André e Filipe foram dizê-lo a Jesus.

Jesus respondeu-lhes:

«Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado.

Em verdade, em verdade vos digo:

Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só;

mas se morrer, dará muito fruto.

Quem ama a sua vida, perdê-la-á,

e quem despreza a sua vida neste mundo

conservá-la-á para a vida eterna.

Se alguém Me quiser servir, que Me siga,

e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo.

E se alguém Me servir, meu Pai o honrará.

Agora a minha alma está perturbada.

E que hei-de dizer? Pai, salva-Me desta hora?

Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora.

Pai, glorifica o teu nome».

Palavra da salvação

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• A primeira leitura mostrava-nos a preocupação de Deus no sentido de propor aos homens uma nova Aliança, capaz de gerar um Homem Novo. Como é que chegamos a essa realidade do Homem Novo, de coração transformado (isto é, com um coração que pensa, que decide e que age segundo os esquemas e a lógica de Deus)? O Evangelho responde: é olhando para Jesus, aprendendo com Ele, seguindo-O no caminho do amor, acolhendo essa vida que Ele nos propõe. Jesus tem de ser o modelo, a referência, o exemplo de quem quer aceitar o desafio de Deus e viver na comunidade da nova Aliança. Na verdade, o que é que Jesus representa, para nós? Uma pequena nota no rodapé da história humana? Um idealista com boas intenções que fracassou no seu sonho de um mundo melhor? Um pensador original, mas cujas ideias e perspectivas parecem desfasadas face às novas realidades do mundo? Ou é o Deus que veio ao encontro dos homens com um projecto de vida nova, capaz de dar um novo sentido à nossa vida e de nos encaminhar para a vida plena, para a felicidade sem fim?


• O caminho que Jesus aponta aos homens é o caminho do amor radical, do dom da vida, da entrega total a Deus e aos irmãos. Este caminho pode parecer, por vezes, um caminho de fracasso, de cruz; pode ser um caminho que nos coloca à margem desses valores que o mundo admira e consagra; pode parecer um caminho de perdedores e de fracos, reservado a quem não tem a coragem de se impor, de vencer a todo o custo, de conquistar o mundo… No entanto, Jesus garante-nos: a vida plena e definitiva nasce do dom de si mesmo, do serviço simples e humilde prestado aos irmãos (sobretudo aos pequenos e aos pobres), da disponibilidade para nos esquecermos de nós próprios e para irmos ao encontro das necessidades dos outros, da capacidade para nos solidarizarmos com os irmãos que sofrem, da coragem com que enfrentamos tudo aquilo que gera sofrimento e morte. Estamos dispostos a seguir a proposta de Jesus?

• Jesus rejeita absolutamente o caminho da auto-suficiência, do fechamento em si próprio, do egoísmo estéril, dos valores efémeros. Na lógica de Deus, trata-se de um caminho de perdedores, que produz vidas vazias e sem sentido, sofrimento e frustração, medo e desilusão. Quem vive exclusivamente para si próprio, quem se preocupa apenas em defender os seus interesses e perspectivas, quem se apega excessivamente a uma realização pessoal cumprida em circuitos fechados, “compra” uma existência infecunda e que não vale a pena ser vivida. Perde a oportunidade de chegar ao Homem Novo, à realização plena, à vida verdadeira, à salvação. Talvez nesta Quaresma Jesus nos peça que dispamos o nosso egoísmo e que nos convertamos ao amor…

• É através da comunidade dos discípulos que os homens “vêem Jesus”, descobrem o seu projecto, encontram esse caminho de amor e de doação que conduz à vida nova do Homem Novo, à salvação. Isto recorda-nos a nossa responsabilidade de testemunhas de Jesus e da sua salvação no meio dos homens do nosso tempo… Aqueles irmãos que se cruzam connosco nos caminhos da vida descobrem no nosso testemunho o rosto de Jesus? Todos aqueles que vêm ao encontro de Jesus à procura da vida plena encontram na forma como nos doamos, como servimos e como amamos a proposta libertadora que, através de nós, Jesus quer passar a todos os homens?


Santo Agostinho

 

 

IVº Domingo da Quaresma - Ano B

 

«Deus enviou o seu Filho, para que o mundo seja salvo por Ele»

 

EVANGELHO –  Jo 3, 14-21

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

 

Naquele tempo,

disse Jesus a Nicodemos:

«Assim como Moisés elevou a serpente no deserto,

também o Filho do homem será elevado,

para que todo aquele que acredita n’Ele

não pereça, mas tenha a vida eterna.

Porque Deus não enviou o Filho ao mundo

para condenar o mundo,

mas para que o mundo seja salvo por Ele.

Quem acredita n’Ele não é condenado,

mas quem não acredita já está condenado,

porque não acreditou em nome do Filho Unigénito de Deus.

E a causa da condenação é esta:

a luz veio ao mundo

e os homens amaram mais as trevas do que a luz,

porque eram más as suas obras.

Todo aquele que pratica más acções

odeia a luz e não se aproxima dela,

para que as suas obras não sejam denunciadas.

Mas quem pratica a verdade aproxima-se da luz,

para que as suas obras sejam manifestas,

pois são feitas em Deus.

Palavra da salvação

 

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• João é o evangelista abismado na contemplação do amor de um Deus que não hesitou em enviar ao mundo o seu Filho, o seu único Filho, para apresentar aos homens uma proposta de felicidade plena, de vida definitiva; e Jesus, o Filho, cumprindo o mandato do Pai, fez da sua vida um dom, até à morte na cruz, para mostrar aos homens o “caminho” da vida eterna… O Evangelho deste domingo convida-nos a contemplar, com João, esta incrível história de amor e a espantar-nos com o peso que nós – seres limitados e finitos, pequenos grãos de pó na imensidão das galáxias – adquirimos nos esquemas, nos projectos e no coração de Deus.

• O amor de Deus traduz-se na oferta ao homem de vida plena e definitiva. É uma oferta gratuita, incondicional, absoluta, válida para sempre e que não discrimina ninguém. Aos homens – dotados de liberdade e de capacidade de opção – compete decidir se aceitam ou se rejeitam o dom de Deus. Às vezes, os homens acusam Deus pelas guerras, pelas injustiças, pelas arbitrariedades que trazem sofrimento e morte que pintam as paredes do mundo com a cor do desespero… O nosso texto, contudo, é claro: Deus ama o homem e oferece-lhe a vida. O sofrimento e a morte não vêm de Deus, mas são o resultado das escolhas erradas feitas pelo homem que se obstina na auto-suficiência e que prescinde dos dons de Deus.

• Neste texto, João define claramente o caminho que todo o homem deve seguir para chegar à vida eterna: trata-se de “acreditar” em Jesus. “Acreditar” em Jesus não é uma mera adesão intelectual ou teórica a certas verdades da fé; mas é escutar Jesus, acolher a sua mensagem e os seus valores, segui-l’O nesse caminho do amor e da entrega ao Pai e aos irmãos. Passa pelo ser capaz de ultrapassar a indiferença, o comodismo, os projectos pessoais e pelo empenho em concretizar, no dia a dia da vida, os apelos e os desafios de Deus; passa por despir o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, os preconceitos, para realizar gestos concretos de dom, de entrega, de serviço que tragam alegria, vida e esperança aos irmãos que caminham lado a lado connosco. Neste tempo de caminhada para a Páscoa, somos convidados a converter-nos a Jesus e a percorrer o mesmo caminho de amor total que Ele percorreu.

• Alguns cristãos vivem obcecados e assustados com esse momento final em que Deus vai julgar o homem, depois de pesar na balança as suas acções boas e as suas acções más… João garante-nos que Deus não é um contabilista, a somar os débitos e os créditos do homem para lhes pagar em conformidade… O cristão não vive no medo, pois ele sabe que Deus é esse Pai cheio de amor que oferece a todos os seus filhos a vida eterna. Não é Deus que nos condena; somos nós que escolhemos entre a vida eterna que Deus nos oferece ou a eterna infelicidade.

 

 

 

 

IIIº Domingo da Quaresma - Ano B

 

«Destruí este templo e em três dias o levantarei»

 

 

EVANGELHO –  Jo 2, 13-25

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

 

Estava próxima a Páscoa dos judeus

e Jesus subiu a Jerusalém.

Encontrou no templo

os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas

e os cambistas sentados às bancas.

Fez então um chicote de cordas

e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois;

deitou por terra o dinheiro dos cambistas

e derrubou-lhes as mesas;

e disse aos que vendiam pombas:

«Tirai tudo isto daqui;

não façais da casa de meu Pai casa de comércio».

Os discípulos recordaram-se do que estava escrito:

«Devora-me o zelo pela tua casa».

Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe:

«Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?»

Jesus respondeu-lhes:

«Destruí este templo e em três dias o levantarei».

Disseram os judeus:

«Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo

e Tu vais levantá-lo em três dias?»

Jesus, porém, falava do templo do seu corpo.

Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos,

os discípulos lembraram-se do que tinha dito

e acreditaram na Escritura e nas palavras que Jesus dissera.

Enquanto Jesus permaneceu em Jerusalém pela festa da Páscoa,

muitos, ao verem os milagres que fazia,

acreditaram no seu nome.

Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos

e não precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém:

Ele bem sabia o que há no homem.

Palavra da salvação

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• Como é que podemos encontrar Deus e chegar até Ele? Como podemos perceber as propostas de Deus e descobrir os seus caminhos? O Evangelho deste domingo responde: é olhando para Jesus. Nas palavras e nos gestos de Jesus, Deus revela-Se aos homens e manifesta-lhes o seu amor, oferece aos homens a vida plena, faz-Se companheiro de caminhada dos homens e aponta-lhes caminhos de salvação. Neste tempo de Quaresma – tempo de caminhada para a vida nova do Homem Novo – somos convidados a olhar para Jesus e a descobrir nas suas indicações, no seu anúncio, no seu “Evangelho” essa proposta de vida nova que Deus nos quer apresentar.

• Os cristãos são aqueles que aderiram a Cristo, que aceitaram integrar a sua comunidade, que comeram a sua carne e beberam o seu sangue, que se identificaram com Ele. Membros do Corpo de Cristo, os cristãos são pedras vivas desse novo Templo onde Deus Se manifesta ao mundo e vem ao encontro dos homens para lhes oferecer a vida e a salvação. Esta realidade supõe naturalmente, para os crentes, uma grande responsabilidade… Os homens do nosso tempo têm de ver no rosto dos cristãos o rosto bondoso e terno de Deus; têm de experimentar, nos gestos de partilha, de solidariedade, de serviço, de perdão dos cristãos, a vida nova de Deus; têm de encontrar, na preocupação dos cristãos com a justiça e com a paz, o anúncio desse mundo novo que Deus quer oferecer a todos os homens. Talvez o facto de Deus parecer tão ausente da vida, das preocupações e dos valores dos homens do nosso tempo tenha a ver com o facto de os discípulos de Jesus se demitirem da sua missão e da sua responsabilidade… O nosso testemunho pessoal é um sinal de Deus para os irmãos que caminham ao nosso lado? A vida das nossas comunidades dá testemunho da vida de Deus? A Igreja é essa “casa de Deus” onde qualquer homem ou qualquer mulher pode encontrar essa proposta de libertação e de salvação que Deus oferece a todos?

• Qual é o verdadeiro culto que Deus espera? Evidentemente, não são os ritos solenes e pomposos, mas vazios, estéreis e balofos. O culto que Deus aprecia é uma vida vivida na escuta das suas propostas e traduzida em gestos concretos de doação, de entrega, de serviço simples e humilde aos irmãos. Quando somos capazes de sair do nosso comodismo e da nossa auto-suficiência para ir ao encontro do pobre, do marginalizado, do estrangeiro, do doente, estamos a dar a resposta “litúrgica” adequada ao amor e à generosidade de Deus para connosco.

• Ao gesto profético de Jesus, os líderes judaicos respondem com incompreensão e arrogância. Consideram-se os donos da verdade e os únicos intérpretes autênticos da vontade divina. Instalados nas suas certezas e preconceitos, nem sequer admitem que a denúncia que Jesus faz esteja correcta. A sua auto-suficiência impede-os de ver para além dos seus projectos pessoais e de descobrir os projectos de Deus. Trata-se de uma atitude que, mais uma vez, nos questiona… Quando nos barricamos atrás de certezas absolutas e de atitudes intransigentes, podemos estar a fechar o nosso coração aos desafios e à novidade de Deus.

 

Vaticano: Papa critica quem finge santidade

 

   Cidade do Vaticano, 03 mar 2015 (Ecclesia) – O Papa Francisco afirmou hoje no Vaticano que Deus “perdoa generosamente” todos os pecados a quem aprende a “praticar o bem” mas não perdoa a hipocrisia de quem “finge a santidade”.

   "Todos somos astutos e encontramos sempre um caminho que não é o certo, para parecer mais justos do que somos: é o caminho da hipocrisia", disse, na homilia da Missa a que presidiu esta manhã na capela da Casa de Santa Marta.

  Segundo Francisco, os que fingem converter-se “são mentirosos” e o seu coração “não pertence a Deus” mas ao pai de todas as mentiras, “Satanás”.

  “Esta é a falsa santidade. Mil vezes Jesus preferiu pecadores a estes, porque os pecadores diziam a verdade sobre si mesmos: ‘Fica longe de mim, Senhor, que eu sou um pecador!’”, recordou.

    O Papa apresentou três palavras para refletir, o “convite à conversão”; o dom que o Senhor dá, isto é, “um perdão grande”, e “a armadilha” de fingir a conversão mas “tomar o caminho da hipocrisia”.

  A intervenção falou num “imperativo” e um "convite" diretamente de Deus a aprender a “fazer o bem”, em particular junto daqueles que “ninguém recorda “,os "idosos abandonados”, as crianças que “não vão à escola” e aqueles “que não sabem fazer o sinal da cruz”.

   “Atrás do imperativo e do convite há substancialmente o convite de sempre à conversão”, observou, explicando que a “sujidade do coração” não se remove como “uma mancha” que sai na lavandaria, mas na opção por um “caminho, uma estrada diferente da do mal”.

   “O Senhor perdoa sempre tudo, mas se alguém quer ser perdoado tem de iniciar o caminho do fazer o bem. Este é o dom”, frisou Francisco.

 

 

RV/CB/OC

 

 

II Domingo da Quaresma - Ano B

 

«Este é o meu Filho muito amado»

 

 

EVANGELHO –  Mc 9, 2-10

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

 

Naquele tempo,

Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João

e subiu só com eles

para um lugar retirado num alto monte

e transfigurou-Se diante deles.

As suas vestes tornaram-se resplandecentes,

de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra

as poderia assim branquear.

Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus.

Pedro tomou a palavra e disse a Jesus:

«Mestre, como é bom estarmos aqui!

Façamos três tendas:

uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias».

Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados.

Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra

e da nuvem fez-se ouvir uma voz:

«Este é o meu Filho muito amado: escutai-O».

De repente, olhando em redor,

não viram mais ninguém,

a não ser Jesus, sozinho com eles.

Ao descerem do monte,

Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém

o que tinham visto,

enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos.

Eles guardaram a recomendação,

mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos.

Palavra da salvação

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

 

• A questão fundamental expressa no episódio da transfiguração está na revelação de Jesus como o Filho amado de Deus, que vai concretizar o projecto salvador e libertador do Pai em favor dos homens através do dom da vida, da entrega total de Si próprio por amor. Pela transfiguração de Jesus, Deus demonstra aos crentes de todas as épocas e lugares que uma existência feita dom não é fracassada – mesmo se termina na cruz. A vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que, como Jesus, forem capazes de pôr a sua vida ao serviço dos irmãos.


• Na verdade, os homens do nosso tempo têm alguma dificuldade em perceber esta lógica… Para muitos dos nossos irmãos, a vida plena não está no amor levado até às últimas consequências (até ao dom total da vida), mas sim na preocupação egoísta com os seus interesses pessoais, com o seu orgulho, com o seu pequeno mundo privado; não está no serviço simples e humilde em favor dos irmãos (sobretudo dos mais débeis, dos mais marginalizados, dos mais infelizes), mas no assegurar para si próprio uma dose generosa de poder, de influência, de autoridade, de domínio, que dê a sensação de pertencer à categoria dos vencedores; não está numa vida vivida como dom, com humildade e simplicidade, mas numa vida feita um jogo complicado de conquista de honras, de glórias, de êxitos. Na verdade, onde é que está a realização plena do homem? Quem tem razão: Deus, ou os esquemas humanos que hoje dominam o mundo e que nos impõem uma lógica diferente da lógica do Evangelho?

• Por vezes somos tentados pelo desânimo, porque não percebemos o alcance dos esquemas de Deus; ou então, parece que, seguindo a lógica de Deus, seremos sempre perdedores e fracassados, que nunca integraremos a elite dos senhores do mundo e que nunca chegaremos a conquistar o reconhecimento daqueles que caminham ao nosso lado… A transfiguração de Jesus grita-nos, do alto daquele monte: não desanimeis, pois a lógica de Deus não conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida definitiva, à felicidade sem fim.

• Os três discípulos, testemunhas da transfiguração, parecem não ter muita vontade de “descer à terra” e enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Representam todos aqueles que vivem de olhos postos no céu, alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. No entanto, ser seguidor de Jesus obriga a “regressar ao mundo” para testemunhar aos homens – mesmo contra a corrente – que a realização autêntica está no dom da vida; obriga a atolarmo-nos no mundo, nos seus problemas e dramas, a fim de dar o nosso contributo para o aparecimento de um mundo mais justo e mais feliz. A religião não é um ópio que nos adormece, mas um compromisso com Deus, que se faz compromisso de amor com o mundo e com os homens.

 

 

 

I Domingo da Quaresma - Ano B

 

«Era tentado por Satanás e os Anjos serviam-n’O»

 


 

EVANGELHO –  Mc 1, 12-15

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

 

Naquele tempo,

o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto.

Jesus esteve no deserto quarenta dias

e era tentado por Satanás.

Vivia com os animais selvagens

e os Anjos serviam-n’O.

Depois de João ter sido preso,

Jesus partiu para a Galileia

e começou a pregar o Evangelho, dizendo:

«Cumpriu-se o tempo

e está próximo o reino de Deus.

Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

Palavra da salvação

 

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• O quadro da “tentação no deserto” diz-nos que Jesus, ao longo do caminho que percorreu no meio dos homens, foi confrontado com opções. Ele teve de escolher entre viver na fidelidade aos projectos do Pai e fazer da sua vida um dom de amor, ou frustrar os planos de Deus e enveredar por um caminho de egoísmo, de poder, de auto-suficiência. Jesus escolheu viver – de forma total, absoluta, até ao dom da vida – na obediência às propostas do Pai. Os discípulos de Jesus são confrontados a todos os instantes com as mesmas opções. Seguir Jesus é perceber os projectos de Deus e cumpri-los fielmente, fazendo da própria vida uma entrega de amor e um serviço aos irmãos. Estou disposto a percorrer este caminho?

• Ao dispor-se a cumprir integralmente o projecto de salvação que o Pai tinha para os homens, Jesus começou a construir um mundo novo, de harmonia, de justiça, de reconciliação, de amor e de paz. A esse mundo novo, Jesus chamava “Reino de Deus”. Nós aderimos a esse projecto e comprometemo-nos com ele, no dia em que escolhemos ser seguidores de Jesus. O nosso empenho na construção do “Reino de Deus” tem sido coerente e consequente? Mesmo contra a corrente, temos procurado ser profetas do amor, testemunhas da justiça, servidores da reconciliação, construtores da paz?

• Para que o “Reino de Deus” se torne uma realidade, o que é necessário fazer? Na perspectiva de Jesus, o “Reino de Deus” exige, antes de mais, a “conversão”. “Converter-se” é, antes de mais, renunciar a caminhos de egoísmo e de auto-suficiência e recentrar a própria vida em Deus, de forma a que Deus e os seus projectos sejam sempre a nossa prioridade máxima. Implica, naturalmente, modificar a nossa mentalidade, os nossos valores, as nossas atitudes, a nossa forma de encarar Deus, o mundo e os outros. Exige que sejamos capazes de renunciar ao egoísmo, ao orgulho, à auto-suficiência, ao comodismo e que voltemos a escutar Deus e as suas propostas. O que é que temos de “converter” – quer em termos pessoais, quer em termos institucionais – para que se manifeste, realmente, esse Reino de Deus tão esperado?

• De acordo com a Palavra de Deus que nos é proposta, o “Reino de Deus” exige, também, o “acreditar” no Evangelho. “Acreditar” não é, na linguagem neo-testamentária, a aceitação de certas afirmações teóricas ou a concordância com um conjunto de definições a propósito de Deus, de Jesus ou da Igreja; mas é, sobretudo, uma adesão total à pessoa de Jesus e ao seu projecto de vida. Com a sua pessoa, com as suas palavras, com os seus gestos e atitudes, Jesus propôs aos homens – a todos os homens – uma vida de amor total, de doação incondicional, de serviço simples e humilde, de perdão sem limites. O “discípulo” é alguém que está disposto a escutar o chamamento de Jesus, a acolher esse chamamento no coração e a seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. Estou disposto acolher o chamamento de Jesus e a percorrer o caminho do “discípulo”?

• O chamamento a integrar a comunidade do “Reino” não é algo reservado a um grupo especial de pessoas, com uma missão especial no mundo e na Igreja; mas é algo que Deus dirige a cada homem e a cada mulher, sem excepção. Todos os baptizados são chamados a ser discípulos de Jesus, a “converter-se”, a “acreditar no Evangelho”, a seguir Jesus nesse caminho de amor e de dom da vida. Esse chamamento é radical e incondicional: exige que o “Reino” se torne o valor fundamental, a prioridade, o principal objectivo do discípulo.

• O “Reino” é uma realidade que Jesus começou e que já está, decisivamente, implantada na nossa história. Não tem fronteiras materiais e definidas; mas está a acontecer e a concretizar-se através dos gestos de bondade, de serviço, de doação, de amor gratuito que acontecem à nossa volta (muitas vezes, até fora das fronteiras institucionais da “Igreja”) e que são um sinal visível do amor de Deus nas nossas vidas. Não é uma realidade que construímos de uma vez, mas é uma realidade sempre em construção, sempre a fazer-se, até à sua realização final, no fim dos tempos, quando o egoísmo e o pecado desaparecerem para sempre. Em cada dia que passa, temos de renovar o compromisso com o “Reino” e empenharmo-nos na sua edificação.

 

Início da Quaresma

 

 

 Estamos a começar a semana que dá início ao tempo da Quaresma, na Quarta-feira de Cinzas. Esta celebração, nos dias de hoje, parece ter perdido o seu sentido, porque lembra alguns aspectos que pensamos serem “fora de moda” e antiquados. Falar de conversão, penitência, arrependimento são palavras e conceitos estranhos para muitos de nós. Mas porque é que a Igreja começa um tempo tão importante, de preparação para a Páscoa de Jesus, com estas palavras? Aquilo que nos é proposto é um convite à nossa verdade e à nossa humildade. Por muito que queiramos, não conseguimos fazer todo o bem a que nos comprometemos, falhamos, pensamos mais em nós do que nos outros. O arrependimento, a penitência e a conversão não são fins em si mesmos, mas são portas que nos abrem a uma vida melhor, mais marcada pelo amor. Para aderir a algo melhor, teremos que deixar algo menos bom para trás. Isto é a conversão.

 

 

RR

 

VI Domingo do Tempo Comum - Ano B

 

«A lepra deixou-o e ele ficou limpo»

 

 

 

EVANGELHO –  Mc 1, 40-45

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

 

Naquele tempo,

veio ter com Jesus um leproso.

Prostrou-se de joelhos e suplicou-Lhe:

«Se quiseres, podes curar-me».

Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse:

«Quero: fica limpo».

No mesmo instante o deixou a lepra

e ele ficou limpo.

Advertindo-o severamente, despediu-o com esta ordem:

«Não digas nada a ninguém,

mas vai mostrar-te ao sacerdote

e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou,

para lhes servir de testemunho».

Ele, porém, logo que partiu,

começou a apregoar e a divulgar o que acontecera,

e assim, Jesus já não podia entrar abertamente

em nenhuma cidade.

Ficava fora, em lugares desertos,

e vinham ter com Ele de toda a parte.

Palavra da salvação

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• O nosso texto fala-nos de um Deus cheio de amor, de bondade e de ternura, que Se faz pessoa e que desce ao encontro dos seus filhos, que lhes apresenta propostas de vida nova e que os convida a viver em comunhão com Ele e a integrar a sua família. É um Deus que não exclui ninguém e que não aceita que, em seu nome, se inventem sistemas de discriminação ou de marginalização dos irmãos. Às vezes há pessoas (quase sempre bem intencionadas) que inventam mecanismos de exclusão, de segregação, de sofrimento, em nome de um Deus severo, intolerante, distante, incapaz de compreender os limites e as fragilidades do homem. Trata-se de um atentado contra Deus. O Deus que somos convidados a descobrir, a amar, a testemunhar no mundo, é o Deus de Jesus Cristo – isto é, esse Deus que vem ao encontro de cada homem, que Se compadece do seu sofrimento, que lhe estende a mão com ternura, que o purifica, que lhe oferece uma nova vida e que o integra na comunidade do “Reino” (nessa família onde todos têm lugar e onde todos são filhos amados de Deus).


• A atitude de Jesus em relação ao leproso (bem como aos outros excluídos da sociedade do seu tempo) é uma atitude de proximidade, de solidariedade, de aceitação. Jesus não está preocupado com o que é política ou religiosamente correcto, ou com a indignidade da pessoa, ou com o perigo que ela representa para uma certa ordem social… Ele apenas vê em cada pessoa um irmão que Deus ama e a quem é preciso estender a mão e amar, também. Como é que lidamos com os excluídos da sociedade ou da Igreja? Procuramos integrar e acolher (os estrangeiros, os marginais, os pecadores, os “diferentes”) ou ajudamos a perpetuar os mecanismos de exclusão e de discriminação?

• O gesto de Jesus de estender a mão e tocar o leproso é um gesto provocador, que denuncia uma Lei iníqua, geradora de discriminação, de exclusão e de sofrimento. Com a autoridade de Deus, Ele retira qualquer valor a essa Lei e sugere que, do ponto de vista de Deus, essa Lei não tem qualquer significado. Hoje temos leis (umas escritas nos nossos códigos legais civis ou religiosos, outras que não estão escritas mas que são consagradas pela moda e pelo politicamente correcto) que são geradoras de marginalização e de sofrimento. Como Jesus, não podemos conformarmo-nos com essas leis e muito menos pautar por elas os nossos comportamentos para com os nossos irmãos.

• Mais uma vez, o Evangelho deste domingo propõe à nossa consideração a atitude dos líderes judaicos. Comodamente instalados no alto das suas certezas e preconceitos, eles perpetuam, em nome de Deus, um sistema religioso que gera sofrimento e miséria e não se deixam questionar nem desafiar pela novidade de Deus. Estão tão seguros e convictos das suas verdades particulares que fecham totalmente o coração a Jesus e não se revêem nas suas propostas. O sem sentido desta atitude deve alertar-nos para a necessidade de nos desinstalarmos e de abrirmos o coração aos desafios de Deus.

• O leproso, apesar da proibição de Jesus, “começou a apregoar e a divulgar o que acontecera”. Marcos sugere, desta forma, que o encontro com Jesus transforma de tal forma a vida do homem que ele não pode calar a alegria pela novidade que Cristo introduziu na sua vida e tem de dar testemunho. Somos capazes de testemunhar, no meio dos nossos irmãos, a libertação que Cristo nos trouxe?

 

 

 

 

V Domingo do Tempo Comum - Ano B

 

«Curou muitas pessoas, atormentadas por várias doenças»

 

 

EVANGELHO –  Mc 1, 29-39

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

 

Naquele tempo,

Jesus saiu da sinagoga

e foi, com Tiago e João, a casa de Simão e André.

A sogra de Simão estava de cama com febre

e logo Lhe falaram dela.

Jesus aproximou-Se, tomou-a pela mão e levantou-a.

A febre deixou-a e ela começou a servi-los.

Ao cair da tarde, já depois do sol-posto,

trouxeram-Lhe todos os doentes e possessos

e a cidade inteira ficou reunida diante da porta.

Jesus curou muitas pessoas,

que eram atormentadas por várias doenças,

e expulsou muitos demónios.

Mas não deixava que os demónios falassem,

porque sabiam qual Ele era.

De manhã, muito cedo, levantou-Se e saiu.

Retirou-Se para um sítio ermo

e aí começou a orar.

Simão e os companheiros foram à procura d’Ele

e, quando O encontraram, disseram-Lhe:

«Todos Te procuram».

Ele respondeu-lhes:

«Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas,

a fim de pregar aí também,

porque foi para isso que Eu vim».

E foi por toda a Galileia,

pregando nas sinagogas e expulsando os demónios.

Palavra da salvação

 

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

 

• As acções de Jesus em favor dos homens que o Evangelho deste domingo nos apresenta mostram a eterna preocupação de Deus com a vida e a felicidade dos seus filhos. O projecto de Deus para os homens e para o mundo não é um projecto de morte, mas de vida; o objectivo de Deus é conduzir os homens ao encontro desse mundo novo (o “Reino de Deus”) de onde estão ausentes o sofrimento, a maldição e a exclusão, e onde cada pessoa tem acesso à vida verdadeira, à felicidade definitiva, à salvação. Talvez nem sempre entendamos o sentido do sofrimento que nos espera em cada esquina da vida; talvez nem sempre sejam claros, para nós, os caminhos por onde se desenrolam os projectos de Deus… Mas Jesus veio garantir-nos absolutamente o empenho de Deus na felicidade e na libertação do homem. Resta-nos confiar em Deus e entregarmo-nos ao seu amor.

• O encontro com Jesus e com o “Reino” é sempre uma experiência libertadora. Aceitar o convite de Jesus para O seguir e para se tornar “discípulo” significa a ruptura com as cadeias de egoísmo, de orgulho, de comodismo, de auto-suficiência, de injustiça, de pecado que impedem a nossa felicidade e que geram sofrimento, opressão e morte nas nossas vidas e nas vidas dos nossos irmãos. Quem se encontra com Jesus, escuta e acolhe a sua mensagem e adere ao “Reino”, assume o compromisso de conduzir a sua vida pelos valores do Evangelho e passa a viver no amor, no perdão, na tolerância, no serviço aos irmãos. É – na perspectiva da catequese que o Evangelho de hoje nos apresenta – um “levantar-se”, um ressuscitar para a vida nova e eterna. O meu encontro com Jesus constituiu, verdadeiramente, uma experiência de libertação e levou-me a optar pelos valores do Evangelho?

• A história da sogra de Pedro que, depois do encontro com Jesus, “começou a servir” os que estavam na casa, lembra-nos que do encontro libertador com Jesus deve resultar o compromisso com a libertação dos nossos irmãos. Quem encontra Jesus e aceita inserir-se na dinâmica do “Reino”, compromete-se com a transformação do mundo… Compromete-se a realizar, em favor dos irmãos, os mesmos “milagres” de Jesus e a levar vida, paz e esperança aos doentes, aos marginalizados, aos oprimidos, aos injustiçados, aos perseguidos, aos que sofrem. Os meus gestos são sinais da vida de Deus (“milagres”) para os irmãos que caminham ao meu lado?

• Na multidão que se concentra à porta da “casa de Pedro” podemos ver essa humanidade que anseia pela sua libertação e que grita, dia a dia, a sua frustração pela guerra, pela violência, pela injustiça, pela miséria, pela exclusão, pela marginalização, pela falta de amor… A Igreja de Jesus Cristo (a “casa de Pedro”) tem uma proposta libertadora que vem do próprio Jesus e que deve ser oferecida a todos estes irmãos que vivem prisioneiros do sofrimento… O que é que nós, discípulos de Jesus, temos feito no sentido de oferecer a proposta libertadora de Jesus aos nossos irmãos oprimidos? Ao olhar para a Igreja de Jesus, eles encontram solidariedade, ajuda, fraternidade, preocupação real com os seus dramas e misérias, ou apenas discursos teológicos abstractos e virados para o céu? Os nossos irmãos idosos, doentes, marginalizados, esquecidos encontram nos nossos gestos o amor libertador de Jesus que dá esperança e que aponta no sentido de um mundo novo, ou encontram egoísmo, indiferença, marginalização?

• O exemplo de Jesus mostra que o aparecimento do “Reino de Deus” está ligado a uma vida de comunhão e de diálogo com Deus. Rezar não é fugir do mundo ou alienar-se dos problemas do mundo e dos dramas dos homens… Mas é uma tomada de consciência dos projectos de Deus para o mundo e um ponto de partida para o compromisso com o “Reino”. Só na comunhão e no diálogo íntimo com Deus percebemos os seus projectos e recebemos a força de Deus para nos empenharmos na transformação do mundo. É preciso, portanto, que o discípulo encontre espaço, na sua vida, para a oração, para o diálogo com Deus.

 

 

 

 

IV Domingo do Tempo Comum - Ano B

 

«Ensinava-os como quem tem autoridade»

 

EVANGELHO –  Mc 1, 21-28

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

 

Jesus chegou a Cafarnaum

e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga

e começou a ensinar,

todos se maravilhavam com a sua doutrina,

porque os ensinava com autoridade

e não como os escribas.

Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro,

que começou a gritar:

«Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno?

Vieste para nos perder?

Sei quem Tu és: o Santo de Deus».

Jesus repreendeu-o, dizendo:

«Cala-te e sai desse homem».

O espírito impuro, agitando-o violentamente,

soltou um forte grito e saiu dele.

Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros:

«Que vem a ser isto?

Uma nova doutrina, com tal autoridade,

que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!»

E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte,

em toda a região da Galileia.

Palavra da salvação

 

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

  O “homem com um espírito impuro” representa todos os homens e mulheres, de todas as épocas, cujas vidas são controladas por esquemas de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de medo, de exploração, de exclusão, de injustiça, de ódio, de violência, de pecado. É essa humanidade prisioneira de uma cultura de morte, que percorre um caminho à margem de Deus e das suas propostas, que aposta em valores efémeros e escravizantes ou que procura a vida em propostas falíveis ou efémeras. O Evangelho de hoje garante-nos, porém, que Deus não desistiu da humanidade, que Ele não Se conforma com o facto de os homens trilharem caminhos de escravidão, e que insiste em oferecer a todos a vida plena.

  Para Marcos, a proposta de Deus torna-se realidade viva e actuante em Jesus. Ele é o Messias libertador que, com a sua vida, com a sua palavra, com os seus gestos, com as suas acções, vem propor aos homens um projecto de liberdade e de vida. Ao egoísmo, Ele contrapõe a doação e a partilha; ao orgulho e à auto-suficiência, Ele contrapõe o serviço simples e humilde a Deus e aos irmãos; à exclusão, Ele propõe a tolerância e a misericórdia; à injustiça, ao ódio, à violência, Ele contrapõe o amor sem limites; ao medo, Ele contrapõe a liberdade; à morte, Ele contrapõe a vida. O projecto de Deus, apresentado e oferecido aos homens nas palavras e acções de Jesus, é verdadeiramente um projecto transformador, capaz de renovar o mundo e de construir, desde já, uma nova terra de felicidade e de paz. É essa a Boa Nova que deve chegar a todos os homens e mulheres da terra.

  Os discípulos de Jesus são as testemunhas da sua proposta libertadora. Eles têm de continuar a missão de Jesus e de assumir a mesma luta de Jesus contra os “demónios” que roubam a vida e a liberdade do homem, que introduzem no mundo dinâmicas criadoras de sofrimento e de morte. Ser discípulo de Jesus é percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu e lutar, se necessário até ao dom total da vida, por um mundo mais humano, mais livre, mais solidário, mais justo, mais fraterno. Os seguidores de Jesus não podem ficar de braços cruzados, a olhar para o céu, enquanto o mundo é construído e dirigido por aqueles que propõem uma lógica de egoísmo e de morte; mas têm a grave responsabilidade de lutar, objectivamente, contra tudo aquilo que rouba a vida e a liberdade ao homem.

  O texto refere o incómodo do “homem com um espírito impuro”, diante da presença libertadora de Jesus. O pormenor faz-nos pensar nas reacções agressivas e intolerantes – por parte daqueles que pretendem perpetuar situações de injustiça e de escravidão – diante do testemunho e do anúncio dos valores do Evangelho. Apesar da incompreensão e da intolerância de que são, por vezes, vítimas, os discípulos de Jesus não devem deixar-se encerrar nas sacristias, mas devem assumir corajosamente e de forma bem visível o seu empenho na transformação das realidades políticas, económicas, sociais, laborais, familiares.

  A luta contra os “demónios” que desfeiam o mundo e que escravizam os homens nossos irmãos é sempre um processo doloroso, que gera conflitos, divisões, sofrimento; mas é, também, uma aventura que vale a pena ser vivida e uma luta que vale a pena travar. Embarcar nessa aventura é tornar-se cúmplice de Deus na construção de um mundo de homens livres.

 

 

 

 

O dia mais belo? hoje; A coisa mais fácil? errar;

O maior obstáculo? o medo; O maior erro?; o abandono;

A raiz de todos os males? o egoísmo; A distração mais

bela? o trabalho; A pior derrota? o desânimo; Os

melhores professores? as crianças; A primeira

necessidade? comunicar-se; O que traz felicidade? ser

útil aos demais; O maior mistério? a morte; O pior

defeito? o mau humor; A pessoa mais perigosa? a

mentirosa; O sentimento mais ruim? o rancor; O

presente mais belo? o perdão; O mais imprescindível? o

lar; A rota mais rápida? o caminho certo; A sensação

mais agradável? a paz interior; A proteção efetiva? o

sorriso; O melhor remédio? o otimismo; A maior

satisfação? o dever cumprido; A força mais potente do

mundo? a fé; As pessoas mais necessárias? os pais;

A mais bela de todas as coisas? O AMOR...

 

Madre Teresa de Calcutá

 

 

 

III Domingo do Tempo Comum - Ano B

 

«Arrependei-vos e acreditai no Evangelho»

 

 

EVANGELHO –  Mc 1,14-20

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

 

Depois de João ter sido preso,

Jesus partiu para a Galileia

e começou a proclamar o Evangelho de Deus, dizendo:

«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus.

Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

Caminhando junto ao mar da Galileia,

viu Simão e seu irmão André,

que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores.

Disse-lhes Jesus:

«Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens».

Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O.

Um pouco mais adiante,

viu Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,

que estavam no barco a consertar as redes;

e chamou-os.

Eles deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados

e seguiram Jesus.

Palavra da salvação

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• Quando contemplamos a realidade que nos rodeia, notamos a existência de sombras que desfeiam o mundo e criam, tantas vezes, angústia, desilusão, desespero e sofrimento na vida dos homens. Esse quadro não é, no entanto, uma realidade irremediável a que estamos para sempre condenados. Nos projectos de Deus, está um mundo diferente – um mundo de harmonia, de justiça, de reconciliação, de amor e de paz. A esse mundo novo, Jesus chamava o “Reino de Deus”. É esse projecto que Jesus nos apresenta e ao qual nos convida a aderir. Somos chamados a construir, com Jesus, um mundo onde Deus esteja presente e que se edifique de acordo com os projectos e os critérios de Deus. Estamos disponíveis para entrar nessa aventura?

• Para que o “Reino de Deus” se torne uma realidade, o que é necessário fazer? Na perspectiva de Jesus, o “Reino de Deus” exige, antes de mais, a “conversão”. Temos de modificar a nossa mentalidade, os nossos valores, as nossas atitudes, a nossa forma de encarar Deus, o mundo e os outros para que se torne possível o nascimento de uma realidade diferente. Temos de alterar as nossas atitudes de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de comodismo e de voltar a escutar Deus e as suas propostas, para que aconteça, na nossa vida e à nossa volta, uma transformação radical – uma transformação no sentido do amor, da justiça e da paz. O que é que temos de “converter” – quer em termos pessoais, quer em termos institucionais – para que se manifeste, realmente, esse Reino de Deus tão esperado?

• De acordo com a Palavra de Deus que nos é proposta, o “Reino de Deus” exige também o “acreditar” no Evangelho. “Acreditar” não é, na linguagem neo-testamentária, a aceitação de certas afirmações teóricas ou a concordância com um conjunto de definições a propósito de Deus, de Jesus ou da Igreja; mas é, sobretudo, uma adesão total à pessoa de Jesus e ao seu projecto de vida. Com a sua pessoa, com as suas palavras, com os seus gestos e atitudes, Jesus propôs aos homens – a todos os homens – uma vida de amor total, de doação incondicional, de serviço simples e humilde, de perdão sem limites. O “discípulo” é alguém que está disposto a escutar o chamamento de Jesus, a acolher esse chamamento no coração e a seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. Estou disposto acolher o chamamento de Jesus e a percorrer o caminho do “discípulo”?

• O chamamento a integrar a comunidade do “Reino” não é algo reservado a um grupo especial de pessoas, com uma missão especial no mundo e na Igreja; mas é algo que Deus dirige a cada homem e a cada mulher, sem excepção. Todos os baptizados são chamados a ser discípulos de Jesus, a “converter-se”, a “acreditar no Evangelho”, a seguir Jesus nesse caminho de amor e de dom da vida. Esse chamamento é radical e incondicional: exige que o “Reino” se torne o valor fundamental, a prioridade, o principal objectivo do discípulo.

• O “Reino” é uma realidade que Jesus começou e que já está decisivamente implantada na nossa história. Não tem fronteiras materiais e definidas; mas está a acontecer e a concretizar-se através dos gestos de bondade, de serviço, de doação, de amor gratuito que acontecem à nossa volta (muitas vezes, até fora das fronteiras institucionais da “Igreja”) e que são um sinal visível do amor de Deus nas nossas vidas. Não é uma realidade que construímos de uma vez, mas é uma realidade sempre em construção, sempre a fazer-se, até à sua realização final, no fim dos tempos, quando o egoísmo e o pecado desaparecerem para sempre. Em cada dia que passa, temos de renovar o compromisso com o “Reino” e empenharmo-nos na sua edificação.

 

Quantas vezes…

 

 

Quantas vezes nós pensamos em desistir, deixar de lado, o ideal e os sonhos.

Quantas vezes batemos em retirada, com o coração amargurado pela injustiça.

Quantas vezes sentimos o peso da responsabilidade, sem ter com quem dividir.

Quantas vezes sentimos solidão, mesmo cercados de pessoas.

Quantas vezes falamos, sem sermos notados.

Quantas vezes lutamos por uma causa perdida.

Quantas vezes voltamos para casa com a sensação de derrota.

Quantas vezes aquela lágrima, teima em cair, justamente na hora que precisamos parecer fortes.

Quantas vezes pedimos a Deus um pouco de força, um pouco de luz.

 E a resposta vem, seja lá como for, um sorriso, um olhar cúmplice, um cartãozinho, um bilhete, um gesto de amor.

E a gente insiste, Insiste em prosseguir, em acreditar, em transformar, em dividir, em estar, em ser.

E Deus insiste em nos abençoar, Em nos mostrar o caminho: Aquele mais difícil, mais complicado, mais bonito.

E a gente insiste em seguir, por que tem uma missão…

Ser feliz!

 

 

II Domingo do Tempo Comum - Ano B

 

«Foram ver onde morava e ficaram com Ele»

 

 

EVANGELHO –  Jo 1,35-42

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

 

Naquele tempo,

estava João Baptista com dois dos seus discípulos

e, vendo Jesus que passava, disse:

«Eis o Cordeiro de Deus».

Os dois discípulos ouviram-no dizer aquelas palavras

e seguiram Jesus.

Entretanto, Jesus voltou-Se;

e, ao ver que O seguiam, disse-lhes:

«Que procurais?»

Eles responderam:

«Rabi – que quer dizer ‘Mestre’ – onde moras?»

Disse-lhes Jesus: «Vinde ver».

Eles foram ver onde morava

e ficaram com Ele nesse dia.

Era por volta das quatro horas da tarde.

André, irmão de Simão Pedro,

foi um dos que ouviram João e seguiram Jesus.

Foi procurar primeiro seu irmão Simão e disse-lhe:

«Encontrámos o Messias» - que quer dizer ‘Cristo’ –;

e levou-o a Jesus.

Fitando os olhos nele, Jesus disse-lhe:

«Tu és Simão, filho de João.

Chamar-te-ás Cefas» – que quer dizer ‘Pedro’.

Palavra de salvação

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• O Evangelho deste domingo diz-nos, antes de mais, o que é ser cristão… A identidade cristã não está na simples pertença jurídica a uma instituição chamada “Igreja”, nem na recepção de determinados sacramentos, nem na militância em certos movimentos eclesiais, nem na observância de certas regras de comportamento dito “cristão”… O cristão é, simplesmente, aquele que acolheu o chamamento de Deus para seguir Jesus Cristo.

• O que é, em concreto, seguir Jesus? É ver n’Ele o Messias libertador com uma proposta de vida verdadeira e eterna, aceitar tornar-se seu discípulo, segui-l’O no caminho do amor, da entrega, da doação da vida, aceitar o desafio de entrar na sua casa e de viver em comunhão com Ele.

• O nosso texto sugere também que essa adesão só pode ser radical e absoluta, sem meias tintas nem hesitações. Os dois primeiros discípulos não discutiram o “ordenado” que iam ganhar, se a aventura tinha futuro ou se estava condenada ao fracasso, se o abandono de um mestre para seguir outro representava uma promoção ou uma despromoção, se o que deixavam para trás era importante ou não era importante; simplesmente “seguiram Jesus”, sem garantias, sem condições, sem explicações supérfluas, sem “seguros de vida”, sem se preocuparem em salvaguardar o futuro se a aventura não desse certo. A aventura da vocação é sempre um salto, decidido e sereno, para os braços de Deus.

• A história da vocação de André e do outro discípulo (despertos por João Baptista para a presença do Messias) mostra, ainda, a importância do papel dos irmãos da nossa comunidade na nossa própria descoberta de Jesus. A comunidade ajuda-nos a tomar consciência desse Jesus que passa e aponta-nos o caminho do seguimento. Os desafios de Deus ecoam, tantas vezes, na nossa vida através dos irmãos que nos rodeiam, das suas indicações, da partilha que eles fazem connosco e que dispõe o nosso coração para reconhecer Jesus e para O seguir. É na escuta dos nossos irmãos que encontramos, tantas vezes, as propostas que o próprio Deus nos apresenta.

• O encontro com Jesus nunca é um caminho fechado, pessoal e sem consequências comunitárias… Mas é um caminho que tem de me levar ao encontro dos irmãos e que deve tornar-se, em qualquer tempo e em qualquer circunstância, anúncio e testemunho. Quem experimenta a vida e a liberdade que Cristo oferece, não pode calar essa descoberta; mas deve sentir a necessidade de a partilhar com os outros, a fim de que também eles possam encontrar o verdadeiro sentido para a sua existência. “Encontrámos o Messias” deve ser o anúncio jubiloso de quem fez uma verdadeira experiência de vida nova e verdadeira e anseia por levar os irmãos a uma descoberta semelhante.

• João Baptista nunca procurou apontar os holofotes para a sua própria pessoa e criar um grupo de adeptos ou seguidores que satisfizessem a sua vaidade ou a sua ânsia de protagonismo… A sua preocupação foi apenas preparar o coração dos seus concidadãos para acolher Jesus. Depois, retirou-se discretamente para a sombra, deixando que os projectos de Deus seguissem o seu curso. Ele ensina-nos a nunca nos tornarmos protagonistas ou a atrair sobre nós as atenções; ele ensina-nos a sermos testemunhas de Jesus, não de nós próprios.

 

(Benjamin Franklin)

 

Festa do Baptismo do Senhor - Ano B

 

«Tu és o meu Filho muito amado: em Ti pus a minha complacência»

 

 

 

EVANGELHO –  Mc 1, 7-11

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

 

Naquele tempo,

João começou a pregar, dizendo:

«Vai chegar depois de mim

quem é mais forte do que eu,

diante do qual eu não sou digno de me inclinar

para desatar as correias das suas sandálias.

Eu baptizo na água,

mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo».

Sucedeu que, naqueles dias,

Jesus veio de Nazaré da Galileia

e foi baptizado por João no rio Jordão.

Ao subir da água, viu os céus rasgarem-se

e o Espírito, como uma pomba, descer sobre ele.

E dos céus ouviu-se uma voz:

«Tu és o meu Filho muito amado,

em Ti pus toda a minha complacência».

Palavra de salvação

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• No episódio do baptismo, Jesus aparece como o Filho amado, que o Pai enviou ao encontro dos homens para os libertar e para os inserir numa dinâmica de comunhão e de vida nova. Nessa cena revela-se, portanto, a preocupação de Deus e o imenso amor que Ele nos dedica… É bonita esta história de um Deus que envia o próprio Filho ao mundo, que pede a esse Filho que Se solidarize com as dores e limitações dos homens e que, através da acção do Filho, reconcilia os homens consigo e fá-los chegar à vida em plenitude. Aquilo que nos é pedido é que correspondamos ao amor do Pai, acolhendo a sua oferta de salvação e seguindo Jesus no amor, na entrega, no dom da vida. Ora, no dia do nosso baptismo, comprometemo-nos com esse projecto… Temos, depois disso, renovado diariamente o nosso compromisso e percorrido, com coerência, esse caminho que Jesus veio propor-nos?

• A celebração do baptismo do Senhor leva-nos até um Jesus que assume plenamente a sua condição de “Filho” e que se faz obediente ao Pai, cumprindo integralmente o projecto do Pai de dar vida ao homem. É esta mesma atitude de obediência radical, de entrega incondicional, de confiança absoluta que eu assumo na minha relação com Deus? O projecto de Deus é, para mim, mais importante de que os meus projectos pessoais ou do que os desafios que o mundo me faz?

• O episódio do baptismo de Jesus coloca-nos frente a frente com um Deus que aceitou identificar-Se com o homem, partilhar a sua humanidade e fragilidade, a fim de oferecer ao homem um caminho de liberdade e de vida plena. Eu, filho deste Deus, aceito ir ao encontro dos meus irmãos mais desfavorecidos e estender-lhes a mão? Partilho a sorte dos pobres, dos sofredores, dos injustiçados, sofro na alma as suas dores, aceito identificar-me com eles e participar dos seus sofrimentos, a fim de melhor os ajudar a conquistar a liberdade e a vida plena? Não tenho medo de me sujar ao lado dos pecadores, dos marginalizados, se isso contribuir para os promover e para lhes dar mais dignidade e mais esperança?

• No baptismo, Jesus tomou consciência da sua missão (essa missão que o Pai Lhe confiou), recebeu o Espírito e partiu em viagem pelos caminhos poeirentos da Palestina, a testemunhar o projecto libertador do Pai. Eu, que no baptismo aderi a Jesus e recebi o Espírito que me capacitou para a missão, tenho sido uma testemunha séria e comprometida desse programa em que Jesus Se empenhou e pelo qual Ele deu a vida?

 

 

 

A razão de toda obra da criação

de Deus,resume-se no

amor e na vida!


 

 

Solenidade da Epifania do Senhor - Ano B

 

«Viemos do Oriente adorar o Rei»


 

EVANGELHO –  Mt 2, 1-12

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia,

nos dias do rei Herodes,

quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.

«Onde está – perguntaram eles –

o rei dos judeus que acaba de nascer?

Nós vimos a sua estrela no Oriente

e viemos adorá-l’O».

Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado

e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.

Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo

e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.

Eles responderam: «Em Belém da Judeia,

porque assim está escrito pelo profeta:

‘Tu, Belém, terra de Jusá,

não és de modo nenhum a menor

entre as principais cidades de Judá,

pois de ti sairá um chefe,

que será o Pastor de Israel, meu povo’».

Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos

e pediu-lhes informações precisas

sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.

Depois enviou-os a Belém e disse-lhes:

«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino;

e, quando O encontrardes, avisai-me,

para que também eu vá adorá-l’O».

Ouvido o rei, puseram-se a caminho.

E eis que a estrela que tinham visto no Oriente

seguia à sua frente

e parou sobre o lugar onde estava o Menino.

Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.

Entraram na casa,

viram o Menino com Maria, sua Mãe,

e, prostrando-se diante d’Ele,

adoraram-n’O.

Depois, abrindo os seus tesouros,

ofereceram-Lhe presentes:

ouro, incenso e mirra.

E, avisados em sonhos

para não voltarem à presença de Herodes,

regressaram à sua terra por outro caminho.

Palavra de salvação

 

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• Em primeiro lugar, meditemos nas atitudes das várias personagens que Mateus nos apresenta em confronto com Jesus: os “magos”, Herodes, os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo… Diante de Jesus, o libertador enviado por Deus, estes distintos personagens assumem atitudes diversas, que vão desde a adoração (os “magos”), até à rejeição total (Herodes), passando pela indiferença (os sacerdotes e os escribas: nenhum deles se preocupou em ir ao encontro desse Messias que eles conheciam bem dos textos sagrados). Identificamo-nos com algum destes grupos? Não é fácil “conhecer as Escrituras”, como profissionais da religião e, depois, deixar que as propostas e os valores de Jesus nos passem ao lado?

• Os “magos” são apresentados como os “homens dos sinais”, que sabem ver na “estrela” o sinal da chegada da libertação… Somos pessoas atentas aos “sinais” – isto é, somos capazes de ler os acontecimentos da nossa história e da nossa vida à luz de Deus? Procuramos perceber nos “sinais” que aparecem no nosso caminho a vontade de Deus?

• Impressiona também, no relato de Mateus, a “desinstalação” dos “magos”: viram a “estrela”, deixaram tudo, arriscaram tudo e vieram procurar Jesus. Somos capazes da mesma atitude de desinstalação, ou estamos demasiado agarrados ao nosso sofá, ao nosso colchão especial, à nossa televisão, à nossa aparelhagem, ao nosso computador? Somos capazes de deixar tudo para responder aos apelos que Jesus nos faz através dos irmãos?

• Os “magos” representam os homens de todo o mundo que vão ao encontro de Cristo, que acolhem a proposta libertadora que Ele traz e que se prostram diante d’Ele. É a imagem da Igreja – essa família de irmãos, constituída por gente de muitas cores e raças, que aderem a Jesus e que O reconhecem como o seu Senhor.

 

 

 

É Natal, Jesus está connosco

Mensagem de Natal

 

É Natal, Jesus está connosco. Desde a Sua conceção, Ele é verdadeiro homem e verdadeiro Deus: homem como nós, nascido numa família humana, mas concebido pelo Espírito Santo. Ele é o verdadeiro «Emanuel», o Deus connosco (Mt 1, 23).

Este Jesus é a razão do verdadeiro Natal. Celebramos o Seu nascimento. A narração da natividade, tal como a descrevem os Evangelhos, é muito simples: tudo ocorre na solidão e no silêncio. Maria e José são as únicas testemunhas. A grandiosidade de um Imperador que ordena um recenseamento em todo o mundo conflui num humilde presépio, no qual está deitado o Menino.

Assim valoriza Deus o que somos e temos. Quando falamos em “oferecer o melhor que temos ao Senhor”, deveríamos examinar se a nossa escala de valores se ajusta a esta que Deus Pai estabeleceu, preparando o acolhimento ao Seu querido Filho, que nasceu para cada um de nós. O que é verdadeiramente extraordinário é que Deus se fez homem.

A verdade fundamental do nascimento de Jesus é esta: nascido numa aldeia desconhecida, em absoluta pobreza, no seio de uma família humilde, expressa-se a exaltação das coisas pequenas. É nesta pequenez, nesta humildade, que devemos crescer para o acolhimento de Deus e para a entrega de nós próprios ao seu serviço, traduzido no amor generoso e gratuito aos outros. Mas só à luz da Ressurreição podemos avaliar esta pequenez como grão de mostarda que se converterá em árvore frondosa (Mt 13, 32).

No início do meu ministério como bispo de Aveiro, no passado mês de setembro, centrei a atenção nas famílias e nos desafios que se lhes deparam na realização da sua missão. Apelei a que não se fechassem em si mesmas, mas que se abrissem à vida como um dom que vem de Deus. Também a Mensagem do Sínodo dos Bispos sobre a família refere que o amor do homem e da mulher nos ensina que cada um dos cônjuges precisa do outro para ser ele mesmo, mantendo-se diferente do outro na sua identidade, que se abre e se revela no dom recíproco. É o que exprime de uma forma sugestiva a mulher do Cântico dos Cânticos: «O meu amado é meu e eu sou dele… Eu sou do meu amado e o meu amado é meu» (Ct 2,16; 6,3). Nesta reciprocidade, temos de concluir que só partilhando o Natal alguém pode viver a sério o seu Natal.

A família cristã, como verdadeira Igreja doméstica, deve ser a primeira e principal educadora dos seus filhos. Enquanto pais cristãos, estão obrigados, antes que quaisquer outros, a formar os seus filhos na fé e na prática da vida cristã, através da palavra e do exemplo. Apesar das dificuldades que se deparam hoje à família cristã, ela continua a ser uma estrutura básica na iniciação cristã e inclusive um desafio pastoral: a família cristã não pode renunciar à sua missão de educar na fé os seus membros e ser modelo para as gerações mais jovens. Em tempo de Natal, a manifestação do amor de Deus deve chegar ao seio das famílias com a mesma ternura e ardor que nos é transmitido pela família deste Menino que em cada ano festejamos o Seu nascimento, para que a Sua luz irradie para os que caminham longe da luz.

O modelo da família de Nazaré – Jesus, Maria e José – deve inspirar todas as famílias, porque o amor faz parte da nossa identidade cristã: «Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 34-35). Devemos amar-nos uns aos outros porque Deus nos ama, e nos amou primeiro, e mostra esse amor enviando o seu filho Jesus, que por amor deu a vida por nós. Aprendamos o amor para sairmos de nós mesmos e irmos ao encontro da grande família humana.

Neste Natal, procuremos estreitar laços, fazer com que o amor de Deus renasça em nós e no coração daqueles que vivem à nossa volta. Que ninguém sem lar, sem pão ou sem trabalho, sem horizontes de vida… nos seja indiferente. Procuremos ajudar a construir, naquilo que estiver ao nosso alcance, um mundo mais belo e mais justo, onde a paz anunciada pelos anjos na noite de Natal se estenda a toda a terra.

Desejo que o nascimento de Jesus seja um desafio a uma vida nova, na esperança de que nos empenhemos para que o ano 2015 seja de graças e bênçãos para todos os diocesanos de Aveiro.

A todos desejo a melhor prenda do Natal!

 

O vosso amigo,

 António Moiteiro, bispo de Aveiro

 

 

IV Domingo do Advento – Ano B

 

«Conceberás e darás à luz um Filho»

 

 

EVANGELHO –  Lc 1, 26-38

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

 

Naquele tempo,

o Anjo Gabriel foi enviado por Deus

a uma cidade da Galileia chamada Nazaré,

a uma Virgem desposada com um homem chamado José.

O nome da Virgem era Maria.

Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo:

«Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo;

bendita és tu entre as mulheres».

Ela ficou perturbada com estas palavras

e pensava que saudação seria aquela.

Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria,

porque encontraste graça diante de Deus.

Conceberás e darás à luz um Filho,

a quem porás o nome de Jesus.

Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo.

O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David;

e o seu reinado não terá fim».

Maria disse ao Anjo:

«Como será isto, se eu não conheço homem?»

O Anjo respondeu-lhe:

«O Espírito Santo virá sobre ti

e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra.

Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus.

E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice

porque a Deus nada é impossível».

Maria disse então

«Eis a escrava do Senhor

faca-se em mim segundo a tua palavra».

Palavra de salvação

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• Também o Evangelho deste domingo (na linha das outras duas leituras) afirma, de forma clara e insofismável, que Deus ama os homens e tem um projecto de vida plena para lhes oferecer. Como é que esse Deus cheio de amor pelos seus filhos intervém na história humana e concretiza, dia a dia, essa oferta de salvação? A história de Maria de Nazaré (bem como a de tantos outros “chamados”) responde, de forma clara, a esta questão: é através de homens e mulheres atentos aos projectos de Deus e de coração disponível para o serviço dos irmãos, que Deus actua no mundo, que Ele manifesta aos homens o seu amor, que Ele convida cada pessoa a percorrer os caminhos da felicidade e da realização plena. Já pensámos que é através dos nossos gestos de amor, de partilha e de serviço que Deus Se torna presente no mundo e transforma o mundo?

• Neste domingo que precede o Natal de Jesus, a história de Maria mostra como é possível fazer Jesus nascer no mundo: através de um “sim” incondicional aos projectos de Deus. É preciso que, através dos nossos “sins” de cada instante, da nossa disponibilidade e entrega, Jesus possa vir ao mundo e oferecer aos nossos irmãos – particularmente aos pobres, aos humildes, aos infelizes, aos marginalizados – a salvação e a vida de Deus.

• Outra questão é a dos instrumentos de que Deus se serve para realizar os seus planos… Maria era uma jovem mulher de uma aldeia obscura dessa “Galileia dos pagãos” de onde não podia “vir nada de bom”. Não consta que tivesse uma significativa preparação intelectual, extraordinários conhecimentos teológicos, ou amigos poderosos nos círculos de poder e de influência da Palestina de então… Apesar disso, foi escolhida por Deus para desempenhar um papel primordial na etapa mais significativa na história da salvação. A história vocacional de Maria deixa claro que, na perspectiva de Deus, não são o poder, a riqueza, a importância ou a visibilidade social que determinam a capacidade para levar a cabo uma missão. Deus age através de homens e mulheres, independentemente das suas qualidades humanas. O que é decisivo é a disponibilidade e o amor com que se acolhem e testemunham as propostas de Deus.

• Diante dos apelos de Deus ao compromisso, qual deve ser a resposta do homem? É aí que somos colocados diante do exemplo de Maria… Confrontada com os planos de Deus, Maria responde com um “sim” total e incondicional. Naturalmente, ela tinha o seu programa de vida e os seus projectos pessoais; mas, diante do apelo de Deus, esses projectos pessoais passaram naturalmente e sem dramas a um plano secundário. Na atitude de Maria não há qualquer sinal de egoísmo, de comodismo, de orgulho, mas há uma entrega total nas mãos de Deus e um acolhimento radical dos caminhos de Deus. O testemunho de Maria é um testemunho questionante, que nos interpela fortemente… Que atitude assumimos diante dos projectos de Deus: acolhemo-los sem reservas, com amor e disponibilidade, numa atitude de entrega total a Deus, ou assumimos uma atitude egoísta de defesa intransigente dos nossos projectos pessoais e dos nossos interesses egoístas?

 

• É possível alguém entregar-se tão cegamente a Deus, sem reservas, sem medir os prós e os contras? Como é que se chega a esta confiança incondicional em Deus e nos seus projectos? Naturalmente, não se chega a esta confiança cega em Deus e nos seus planos sem uma vida de diálogo, de comunhão, de intimidade com Deus. Maria de Nazaré foi, certamente, uma mulher para quem Deus ocupava o primeiro lugar e era a prioridade fundamental. Maria de Nazaré foi, certamente, uma pessoa de oração e de fé, que fez a experiência do encontro com Deus e aprendeu a confiar totalmente n’Ele. No meio da agitação de todos os dias, encontro tempo e disponibilidade para ouvir Deus, para viver em comunhão com Ele, para tentar perceber os seus sinais nas indicações que Ele me dá dia a dia?

 

Jesus é o «melhor amigo»

diz Papa Francisco a grupo de crianças

 

Papa recebeu votos de Bom Natal dos meninos e meninas da Ação Católica Italiana

Cidade do Vaticano, 18 dez 2014 (Ecclesia) - O Papa recebeu hoje as crianças da Ação Católica Italiana, para o tradicional encontro de Natal, e disse-lhes que Jesus é o “melhor amigo”, com o qual “tudo, tudo é possível”.

“A oração, falar com Jesus, o melhor amigo, que nunca nos abandona: confiem-lhe as vossas alegrias e as vossas tristezas. Corram para Ele sempre que errem e façam alguma coisa mal, na certeza de que Ele vos perdoa”, declarou Francisco.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Papa convidou os participantes na audiência a falar a todos do “amor, da misericórdia, da ternura” de Jesus.

“Aquilo que Jesus pensou para o vosso caminho é tudo para se construir em conjunto: juntamente com os vossos pais, os irmãos, os amigos, os companheiros de escola”, acrescentou.

Francisco destacou a importância de estar atentos “às necessidades dos mais pobres, dos que mais sofrem e dos mais sós”, bem como de “amar a Igreja”.

“Agora, com a graça do seu Natal, Jesus quer ajudar-vos a dar um passo ainda mais decidido, mais convicto, mais alegre para vos tornardes seus discípulos”, prosseguiu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OC    

 

                                                      Anónimo

 

 

III Domingo do Advento – Ano B

 

«No meio de vós está Alguém que não conheceis»

 

 

EVANGELHO –  Jo 1,6-8.19-28

 

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João


 

Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João.

Veio como testemunha, para dar testemunho da luz,

a fim de que todos acreditassem por meio dele.

Ele não era a luz,

mas veio para dar testemunho da luz.

Foi este o testemunho de João,

quando os judeus lhe enviaram, de Jerusalém,

sacerdotes e levitas, para lhe perguntarem:

«Quem és tu?»

Ele confessou a verdade e não negou;

ele confessou:

«Eu não sou o Messias».

Eles perguntaram-lhe: «Então, quem és tu? És Elias?»

«Não sou», respondeu ele.

«És o Profeta?». Ele respondeu: «Não».

Disseram-lhe então: «Quem és tu?

Para podermos dar uma resposta àqueles que nos enviaram,

que dizes de ti mesmo?»

Ele declarou: «Eu sou a voz do que clama no deserto:

‘Endireitai o caminho do Senhor’,

como disse o profeta Isaías».

Entre os enviados havia fariseus que lhe perguntaram:

«Então, porque baptizas,

se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?»

João respondeu-lhes:

«Eu baptizo em água,

mas no meio de vós está Alguém que não conheceis:

Aquele que vem depois de mim,

a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias».

Tudo isto se passou em Betânia, além Jordão,

onde João estava a baptizar.

 

Palavra da salvação.

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

 

• A “voz”, através da qual Deus fala, convida-nos a endireitar “o caminho do Senhor”. É, na linguagem do Evangelho segundo João, um convite a deixar “as trevas” e a nascer para “a luz”. Implica abandonar a mentira, os comportamentos egoístas, as atitudes injustas, os gestos de violência, os preconceitos, a instalação, o comodismo, a auto-suficiência, tudo o que desfeia a nossa vida, nos torna escravos e nos impede de chegar à verdadeira felicidade. Em termos pessoais, quais são as mudanças que eu tenho de operar na minha existência para passar das “trevas” para a “luz”? O que é que me escraviza e me impede de ser plenamente feliz? O que é que na minha vida gera desilusão, frustração, desencanto, sofrimento?

• A “voz”, através da qual Deus fala, convida-nos a olhar para Jesus, pois só Ele é “a luz” e só Ele tem uma proposta de vida verdadeira para apresentar aos homens. À nossa volta abundam os “vendedores de sonhos”, com propostas de felicidade “absolutamente garantida”. Atraem-nos, seduzem-nos, manipulam-nos, escravizam-nos e, quase sempre, deixam-nos decepcionados e infelizes, mais angustiados, mais perdidos, mais frustrados. João garante-nos: só Jesus é “a luz” que liberta os homens da escravidão e das trevas e lhes oferece a vida verdadeira e definitiva. A quem dou ouvidos: às propostas de Jesus, ou às propostas da moda, do politicamente correcto, das pessoas “in” que aparecem dia a dia nas colunas sociais e que ditam o que está certo e está errado à luz dos critérios do mundo? Que significado é que Jesus e a sua proposta assumem no meu dia a dia?

• Jesus marca, realmente, a minha existência? Os valores que Ele veio propor têm peso e impacto nas minhas decisões e opções? Quando celebro o nascimento de Jesus, celebro um acontecimento do passado que deixou a sua marca na história, ou celebro o encontro com alguém que é “a luz” que ilumina a minha existência e que enche a minha vida de paz, de alegria, de liberdade?

• O “homem chamado João”, enviado por Deus “para dar testemunho da luz”, convida-nos a pensar sobre a forma de Deus actuar na história humana e sobre as responsabilidades que Deus nos atribui na recriação do mundo… Deus não utiliza métodos espectaculares e assombrosos para intervir na nossa história e para recriar o mundo; mas Ele vem ao encontro dos homens e do mundo para os envolver no seu amor através de pessoas concretas, com um nome e uma história, pessoas “normais” a quem Deus chama e a quem confia determinada missão. A todos nós, seus filhos, Deus confia uma missão no mundo – a missão de dar testemunho da “luz” e de tornar presente, para os nossos irmãos, a proposta libertadora de Jesus. Tenho consciência de que Deus me chama e me envia ao mundo? Como é que eu respondo ao chamamento de Deus: com disponibilidade e entrega, ou com preguiça, comodismo e instalação?

• A atitude simples e discreta com que João se apresenta é muito sugestiva: ele não procura atrair sobre si as atenções, não usa a missão para a sua glória ou promoção pessoal, não busca a satisfação de interesses egoístas; ele é apenas uma “voz” anónima e discreta que recorda, na sombra, as realidades importantes. João é uma tremenda interpelação para todos aqueles a quem Deus chama e envia… Com ele, o profeta (isto é, todo aquele a quem Deus chama e a quem confia uma missão) deve aprender a ficar na sombra, a ser discreto e simples, de forma a que as pessoas não o vejam a ele mas às realidades importantes que ele propõe.

• A atitude dos fariseus e dos líderes judaicos, cheios de preconceitos, preocupados em manter os seus esquemas de poder e instalação, instalados no seu comodismo e nos seus privilégios, impede-os de “conhecer” “a luz” que está a chegar. Trata-se de um aviso, para nós: quando nos instalamos no nosso comodismo, no nosso bem-estar, na nossa auto-suficiência, fechamos o coração à novidade e aos desafios que Deus nos faz… Dessa forma, não reconhecemos Jesus quando Ele vem ao nosso encontro e não O deixamos entrar na nossa vida. A liturgia convida-nos, neste Advento, à desinstalação, a fim de que o Senhor que vem possa nascer na nossa vida.

 

 

 

 

II Domingo do Advento – Ano B

 

«Endireitai os caminhos do Senhor»

 

 

EVANGELHO –  Mc 1,1-8

 

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos


 

Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.

Está escrito no profeta Isaías:

«Vou enviar à tua frente o meu mensageiro,

que preparará o teu caminho.

Uma voz clama no deserto:

‘Preparai o caminho do Senhor,

endireitai as suas veredas’».

Apareceu João Baptista no deserto

a proclamar um baptismo de penitência

para remissão dos pecados.

Acorria a ele toda a gente da região da Judeia

e todos os habitantes de Jerusalém

e eram baptizados por ele no rio Jordão,

confessando os seus pecados.

João vestia-se de pêlos de camelo,

com um cinto de cabedal em volta dos rins,

e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.

E, na sua pregação, dizia:

«Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu,

diante do qual eu não sou digno de me inclinar

para desatar as correias das suas sandálias.

Eu baptizo-vos na água,

mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo».

 

Palavra da salvação.

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

 

• Antes de mais, temos de considerar a mensagem principal do nosso texto… João, o Baptista, afirma claramente que preparar a vinda do Messias passa pela “metanoia” – isto é, por uma transformação total do homem, por uma nova atitude de base, por uma outra escala de valores, por uma radical mudança de pensamento, por uma postura vital inteiramente nova, por um movimento radical que leve o homem a reequacionar a sua vida e a colocar Deus no centro da sua existência e dos seus interesses. Neste tempo de Advento, de preparação para a celebração do Natal do Senhor, trata-se de uma proposta com sentido: preparar a vinda de Jesus exige de nós uma transformação radical da nossa vida, dos nossos valores, da nossa mentalidade… Em concreto, o que é que nos meus pensamentos, nos meus comportamentos, na minha mentalidade, nos valores que dirigem a minha vida, é egoísmo, orgulho e auto-suficiência e impede o nascimento de Jesus no meu coração e na minha vida?

• Deus convida o homem à transformação e à mudança através desses profetas a quem Ele chama e a quem confia a missão de questionar o mundo e os homens. Estamos suficientemente atentos aos profetas que questionam o nosso estilo de vida e os nossos valores? Damos crédito às suas interpelações, ou consideramo-los figuras incomodativas, ultrapassadas e dispensáveis? E nós, constituídos profetas desde o nosso baptismo, sentimo-nos enviados por Deus a interpelar e a questionar o mundo e os nossos irmãos?

• O “estilo de vida” de João constitui uma interpelação pelo menos tão forte como as suas palavras. É o testemunho vivo de um homem que está consciente das prioridades e não dá importância aos aspectos secundários da vida – como sejam a roupa “de marca” ou a alimentação cuidada. A nossa vida também está marcada por valores, nos quais apostamos e à volta dos quais construímos toda a nossa existência… Quais são os valores fundamentais para mim, os valores que marcam as minhas decisões e opções? São valores importantes, decisivos, eternos, capazes de me dar vida e felicidade, ou são valores efémeros, particulares, egoístas e geradores de dependência e escravidão? Como nos situamos frente a valores e a um estilo de vida que contradiz, claramente, os valores do Evangelho?

• Ao acentuar o carácter decisivo e determinante do apelo de João, Marcos convida-nos a uma resposta objectiva, franca, clara e decidida. Não podem existir meias tintas ou tentativas de protelar a decisão… Estamos ou não dispostos a dizer “sim” aos apelos de Deus? Estamos ou não dispostos a aceitar a sua proposta de “metanoia”? Não chega dizer “talvez” ou “sim, mas…”. Deus espera uma resposta total, radical, decidida, inequívoca à oferta de salvação que Ele faz. Isso significa uma renúncia decidida ao nosso comodismo, à nossa preguiça, ao nosso egoísmo, à nossa auto-suficiência e um embarcar decidido na aventura do Reino que Jesus, há mais de dois mil anos, veio propor aos homens…     

 

 

I Domingo do Advento – Ano B

 

«Vigiai, porque não sabeis quando virá o dono da casa»

 

EVANGELHO –  Mc 13,33-37

 

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos


 

Naquele tempo,

disse Jesus aos seus discípulos:

"Acautelai-vos e vigiai,

porque não sabeis quando chegará o momento.

Será como um homem que partiu de viagem:

ao deixar a sua casa, deu plenos poderes aos seus servos,

atribuindo a cada um a sua tarefa,

e mandou ao porteiro que vigiasse.

Vigiai, portanto,

visto que não sabeis quando virá o dono da casa:

se à tarde, se à meia-noite,

se ao cantar do galo, se de manhãzinha;

não se dê o caso que, vindo inesperadamente,

vos encontre a dormir.

O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!"

 

Palavra da salvação.

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• Antes de mais, o Evangelho deste domingo coloca-nos diante de uma certeza fundamental: “o Senhor vem”. A nossa caminhada humana não é um avançar sem sentido ao encontro do nada, mas uma caminhada feita na alegria ao encontro do Senhor que vem. Não se trata de uma vaga esperança, mas de uma certeza baseada na palavra infalível de Jesus. O tempo de Advento recorda-nos a realidade de um Senhor que vem ao encontro dos homens e que, no final da nossa caminhada por esta terra, nos oferecerá a vida definitiva, a felicidade sem fim.

 

• O tempo do Advento é, também, o tempo da espera do Senhor. O Evangelho deste domingo diz-nos como deve ser essa espera… A palavra mágica é “vigilância”: o verdadeiro discípulo deve estar sempre “vigilante”, cumprindo com coragem e determinação a missão que Deus lhe confiou. Estar “vigilante” não significa, contudo, preocupar-se em ter sempre a “alminha” limpa para que a morte não o apanhe com pecados por perdoar; mas significa viver sempre activo, empenhado, comprometido na construção de um mundo de vida, de amor e de paz. Significa cumprir, com coerência e sem meias tintas, os compromissos assumidos no dia do baptismo e ser um sinal vivo do amor e da bondade de Deus no mundo. É dessa forma que eu tenho procurado viver?

 

• Em concreto, estar “vigilante” significa não viver de braços cruzados, fechado num mundo de alienação e de egoísmo, deixando que sejam os outros a tomar as decisões e a escolher os valores que devem governar a humanidade; significa não me demitir das minhas responsabilidades e da missão que Deus me confiou quando me chamou à existência… Estar “vigilante” é ser uma voz activa e questionante no meio dos homens, levando-os a confrontarem-se com os valores do Evangelho; é lutar de forma decidida e corajosa contra a mentira, o egoísmo, a injustiça, tudo aquilo que rouba a vida e a felicidade a qualquer irmão que caminhe ao meu lado… Como me situo face a isto?

 

• O nosso Evangelho recomenda especialmente a “vigilância” aos “porteiros” da comunidade – isto é, a todos aqueles a quem é confiado o serviço de proteger a comunidade de invasões estranhas. Todos nós a quem foi confiado esse serviço, sentimos o imperativo de cuidar com amor dos irmãos que Deus nos confiou, ou demitimo-nos das nossas responsabilidades e deixamos que o comodismo e a preguiça nos dominem? Quais são os nossos critérios, na filtragem dos valores: os nossos interesses e perspectivas pessoais, ou o Evangelho de Jesus?

 
 

 

Novo Ano Litúrgico 

 

 

 

Uma monja carmelita

 

XXXIV Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei e Senhor do Universo

 

«Sentar-Se-á no seu trono glorioso

e separará uns dos outros»

 

 

EVANGELHO –  Mt 25,31-46

 

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus


 

Naquele tempo,

disse Jesus aos seus discípulos:

«Quando o Filho do homem vier na sua glória

com todos os seus Anjos,

sentar-Se-á no seu trono glorioso.

Todas as nações se reunirão na sua presença

e Ele separará uns dos outros,

como o pastor separa as ovelhas dos cabritos;

e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.

Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita:

‘Vinde, bem ditos de meu Pai;

recebei como herança o reino

que vos está preparado desde a criação do mundo.

Porque tive fome e destes-Me de comer;

tive sede e destes-me de beber;

era peregrino e Me recolhestes;

não tinha roupa e Me vestistes;

estive doente e viestes visitar-Me;

estava na prisão e fostes ver-Me’.

Então os justos Lhe dirão:

‘Senhor, quando é que Te vimos com fome

e Te demos de comer,

ou com sede e Te demos de beber?

Quando é que Te vimos peregrino e te recolhemos,

ou sem roupa e Te vestimos?

Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’

E o Rei lhes responderá:

‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes

a um dos meus irmãos mais pequeninos,

a Mim o fizestes’.

Dirá então aos que estiverem à sua esquerda:

‘Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno,

preparado para o demónio e os seus anjos.

Porque tive fome e não Me destes de comer;

tive sede e não Me destes de beber;

era peregrino e não Me recolhestes;

estava sem roupa e não Me vestistes;

estive doente e na prisão e não Me fostes visitar’.

Então também eles Lhe hão-de perguntar:

‘Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede,

peregrino ou sem roupa, doente ou na prisão,

e não Te prestámos assistência?’

E Ele lhes responderá:

‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o deixastes de fazer

a um dos meus irmãos mais pequeninos,

também a Mim o deixastes de fazer’.

Estes irão para o suplício eterno

e os justos para a vida eterna».

 

Palavra da salvação.

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:


• Quem é que a nossa sociedade considera uma “pessoa de sucesso”? Qual o perfil do homem “importante”? Quais são os padrões usados pela nossa cultura para aferir a realização ou a não realização de alguém? No geral, o “homem de sucesso”, que todos reconhecem como importante e realizado, é aquele que tem dinheiro suficiente para concretizar todos os sonhos e fantasias, que tem poder suficiente para ser temido, que tem êxito suficiente para juntar à sua volta multidões de aduladores, que tem fama suficiente para ser invejado, que tem talento suficiente para ser admirado, que tem a pouca vergonha suficiente para dizer ou fazer o que lhe apetece, que tem a vaidade suficiente para se apresentar aos outros como modelo de vida… No entanto, de acordo com a parábola que o Evangelho propõe, o critério fundamental usado por Jesus para definir quem é uma “pessoa de sucesso” é a capacidade de amar o irmão, sobretudo o mais pobre e desprotegido. Para mim, o que é que faz mais sentido: o critério do mundo ou o critério de Deus? Na minha perspectiva, qual é mais útil e necessário: o “homem de sucesso” do mundo ou o “homem de sucesso” de Deus?

• O amor ao irmão é, portanto, uma condição essencial para fazer parte do Reino. Nós cristãos, cidadãos do Reino, temos consciência disso e sentimo-nos responsáveis por todos os irmãos que sofrem? Os que não têm trabalho, nem pão, nem casa, podem contar com a nossa solidariedade activa? Os imigrantes, perdidos numa realidade cultural e social estranha, vítimas de injustiças e violências, condenados a um trabalho escravo e que, tantas vezes, não respeita a sua dignidade, podem contar com a nossa solidariedade activa? Os pobres, vítimas de injustiças, que nem sequer têm a possibilidade de recorrer aos tribunais para que lhes seja feita justiça, podem contar com a nossa solidariedade activa? Os que sobrevivem com pensões de miséria, sem possibilidades de comprar os medicamentos necessários para aliviar os seus padecimentos, podem contar com a nossa solidariedade activa? Os que estão sozinhos, abandonados por todos, sem amor nem amizade, podem contar com a nossa solidariedade activa? Os que estão presos a um leito de hospital ou a uma cela de prisão, marginalizados e condenados em vida, podem contar com a nossa solidariedade activa?

• O Reino de Deus – isto é, esse mundo novo onde reinam os critérios de Deus e que se constrói de acordo com os valores de Deus – é uma semente que Jesus semeou, que os discípulos são chamados a edificar na história (através do amor) e que terá o seu tempo definitivo no mundo que há-de vir. Não esqueçamos, no entanto, este facto essencial: o Reino de Deus está no meio de nós; a nossa missão é fazer com que ele seja uma realidade bem viva e bem presente no nosso mundo. Depende de nós fazer com que o Reino deixe de ser uma miragem, para passar a ser uma realidade a crescer e a transformar o mundo e a vida dos homens.

• Alguém acusou a religião cristã de ser o “ópio do povo”, por pôr as pessoas a sonhar com o mundo que há-de vir, em lugar de as levar a um compromisso efectivo com a transformação do mundo, aqui e agora. Na verdade, nós os cristãos caminhamos ao encontro do mundo que há-de vir, mas de pés bem assentes na terra, atentos à realidade que nos rodeia e preocupados em construir, desde já, um mundo de justiça, de fraternidade, de liberdade e de paz. A experiência religiosa não pode, nunca, servir-nos de pretexto para a evasão, para a fuga às responsabilidades, para a demissão das nossas obrigações para com o mundo e para com os irmãos.

 

 

 

XXXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Foste fiel em coisas pequenas:

vem tomar parte na alegria do teu senhor»

 

 

EVANGELHO –  Mt 25,14-30

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

Naquele tempo,

Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:

«Um homem, ao partir de viagem,

chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens.

A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um,

conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu.

O que tinha recebido cinco talentos

fê-los render e ganhou outros cinco.

Do mesmo modo,

o que recebera dois talentos ganhou outros dois.

Mas, o que recebera dois talentos ganhou outros dois.

Mas, o que recebera um só talento

foi escavar na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.

Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servos

e foi ajustar contas com eles.

O que recebera cinco talentos aproximou-se

e apresentou outros cinco, dizendo:

‘Senhor, confiaste-me cinco talentos:

aqui estão outros cinco que eu ganhei’.

Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel.

Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.

Vem tomar parte na alegria do teu senhor’.

Aproximou-se também o que recebera dois talentos e disse:

‘Senhor, confiaste-me dois talentos:

aqui estão outros dois que eu ganhei’.

Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel.

Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.

Vem tomar parte na alegria do teu senhor’.

Aproximou-se também o que recebera um só talento e disse:

‘Senhor, eu sabia que és um homem severo,

que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste.

Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra.

Aqui tens o que te pertence’.

O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso,

sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei;

devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro

e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu.

Tirai-lhe então o talento e dai-o àquele que tem dez.

Porque, a todo aquele que tem,

dar-se-á mais e terá em abundância;

mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.

Quanto ao servo inútil, lançai-o às trevas exteriores.

Aí haverá choro e ranger de dentes’».


Palavra da salvação.

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• Antes de mais, é preciso ter presente que nós, os cristãos, somos agora no mundo as testemunhas de Cristo e do projecto de salvação/libertação que o Pai tem para os homens. É com o nosso coração que Jesus continua a amar os publicanos e os pecadores do nosso tempo; é com as nossas palavras que Jesus continua a consolar os que estão tristes e desanimados; é com os nossos braços abertos que Jesus continua a acolher os imigrantes que fogem da miséria e da degradação; é com as nossas mãos que Jesus continua a quebrar as cadeias que prendem os escravizados e oprimidos; é com os nossos pés que Jesus continua a ir ao encontro de cada irmão que está sozinho e abandonado; é com a nossa solidariedade que Jesus continua a alimentar as multidões famintas do mundo e a dar medicamentos e cultura àqueles que nada têm… Nós, cristãos, membros do “corpo de Cristo”, que nos identificamos com Cristo, temos a grave responsabilidade de O testemunhar e de deixar que, através de nós, Ele continue a amar os homens e as mulheres que caminham ao nosso lado pelos caminhos do mundo.

• Os dois “servos” da parábola que, talvez correndo riscos, fizeram frutificar os “bens” que o “senhor” lhes deixou, mostram como devemos proceder, enquanto caminhamos pelo mundo à espera da segunda vinda de Jesus. Eles tiveram a ousadia de não se contentar com o que já tinham; não se deixaram dominar pelo comodismo e pela apatia… Lutaram, esforçaram-se, arriscaram, ganharam. Todos os dias, há cristãos que têm a coragem de arriscar. Não aceitam a injustiça e lutam contra ela; não pactuam com o egoísmo, o orgulho, a prepotência e propõem, em troca, os valores do Evangelho; não aceitam que os grandes e poderosos decidam os destinos do mundo e têm a coragem de lutar objectivamente contra os projectos desumanos que desfeiam esta terra; não aceitam que a Igreja se identifique com a riqueza, com o poder, com os grandes e esforçam-se por torná-la mais pobre, mais simples, mais humana, mais evangélica; não aceitam que a liturgia tenha de ser sempre tão solene que assuste os mais simples, nem tão etérea que não tenha nada a ver com a vida do dia a dia… Muitas vezes, são perseguidos, condenados, desautorizados, reduzidos ao silêncio, incompreendidos; muitas vezes, no seu excesso de zelo, cometem erros de avaliação, fazem opções erradas… Apesar de tudo, Jesus diz-lhes: “muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu Senhor”.

• O servo que escondeu os “bens” que o Senhor lhe confiou mostra como não devemos proceder, enquanto caminhamos pelo mundo à espera da segunda vinda de Jesus. Esse servo contentou-se com o que já tinha e não teve a ousadia de querer mais; entregou-se sem luta, deixou-se dominar pelo comodismo e pela apatia… Não lutou, não se esforçou, não arriscou, não ganhou. Todos os dias há cristãos que desistem por medo e cobardia e se demitem do seu papel na construção de um mundo melhor. Limitam-se a cumprir as regras, ou a refugiar-se no seu cantinho cómodo, sem força, sem vontade, sem coragem de ir mais além. Não falham, não cometem “pecados graves”, não fazem mal a ninguém, não correm riscos; limitam-se a repetir sempre os mesmos gestos, sem inovar, sem purificar, sem nada transformar; não fazem, nem deixam fazer e limitam-se a criticar asperamente aqueles que se esforçam por mudar as coisas… Não põem a render os “bens” que Deus lhes confiou e deixam-nos secar sem dar frutos. Jesus diz-lhes: “servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde não lancei; devias, portanto, depositar o meu dinheiro no banco e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu”.

 

 

Semana dos Seminários 2014 – 9 a 16 Novembro

 

   Nesta Semana dos Seminários de 2014, reafirmamos a nossa certeza de que o caminho da Igreja é o caminho da alegria do Evangelho, ou seja, o caminho de Cristo, que transforma as dores da humanidade, a tristeza, o desespero e a morte, em nova aurora de vida, de esperança e de alegria. Reafirmamos que o caminho da evangelização do mundo passa pelo testemunho de vida de muitas pessoas, famílias e comunidades, que se sentem felizes por estar fundadas em Cristo. Do mesmo modo, assumimos que a via mais segura para o cultivo das vocações sacerdotais entre os jovens, exige que todos nós, cristãos, vivamos e testemunhemos a alegria do encontro com o Evangelho.

   Rezamos pelos nossos Seminários, para que sejam escolas de formação dos futuros padres, servidores da alegria do Evangelho.


 

 

São Francisco de Assis

 

 

XXXII Domingo do Tempo Comum – Ano A

«Falava do templo do seu Corpo»

 

 

Dedicação da Basílica de Latrão

 

EVANGELHO –  Jo 2,12-22

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

 

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Estava próxima a Páscoa dos judeus

e Jesus subiu a Jerusalém.

Encontrou no templo

os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas

e os cambistas sentados às bancas.

Fez então um chicote de cordas

e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois;

deitou por terra o dinheiro dos cambistas

e derrubou-lhes as mesas;

e disse aos que vendiam pombas:

«Tirai tudo isto daqui;

não façais da casa de meu Pai casa de comércio».

Os discípulos recordaram-se do que estava escrito:

«Devora-me o zelo pela tua casa».

Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe:

«Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?».

Jesus respondeu-lhes:

«Destruí este templo e em três dias o levantarei».

Disseram os judeus:

«Foram precisos quarenta e seis anos para construir este templo

e Tu vais levantá-lo em três dias?».

Jesus, porém, falava do templo do seu Corpo.

Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos,

os discípulos lembraram-se do que tinha dito

e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus.

 

Palavra da salvação.

 

Breve comentário

A introdução do texto faz menção da Páscoa dos judeus, expressão típica de João, procura pôr uma nítida separação entre a festa hebraica e a páscoa cristã. Para Jesus, a festa hebraica tinha perdido o seu significado, passando da recordação da libertação a uma ocasião de comércio.

Ao tempo de Jesus, a cidade de Jerusalém, que habitualmente teria 50 000 habitantes, em alturas de Páscoa albergava à volta de 150 000 para a celebração da grande festividade. Chegava gente de toda a região da Palestina mas também de todos os pontos do Império Romano, alguns deles provavelmente para fazerem a sua única peregrinação à Cidade Santa.

Todos precisavam de adquirir um cordeiro para a ceia pascal, todos compravam ovelhas ou bois ou pombas para oferecerem em holocausto no altar do Senhor. Os que vinham de fora precisavam de trocar as suas moedas romanas, impuras perante a Lei judaica, por outras de cobre que ofereciam ao Templo. Tratava-se, portanto, duma ocasião que os comerciantes e cambistas não podiam perder para, por um lado, prestar um serviço aos que chegavam e, por outro, obter um bom lucro. E todo este negócio era controlado pelas grandes famílias sacerdotais, na altura a família de Anás e Caifás. Neste ambiente, o evangelista João apresenta um episódio dando, ao mesmo tempo, o significado profundo da acção de Jesus.

A insistência nos animais, cujo nome é repetido duas vezes, poderia aludir à substituição dos sacrifícios antigos com o sacrifício definitivo do «cordeiro de Deus» e sugerir a passagem da ordem cultual à ordem pessoal no culto a Deus que Jesus está para inaugurar.

Jesus tinha entrado no templo outras vezes. Recordemos a narração de Lucas, quando Jesus aos doze anos se encontra de tal modo na «Casa do Pai» que até se esquece de regressar para Nazaré. Por isso, não era novidade para ele o que se passava naquele lugar santo. Mas chegou a hora de realizar, como em Caná, um novo sinal. O templo tornou-se um lugar de comércio. Em vez de encontrar pessoas enamoradas por Deus, Jesus vê gente ávida de lucro, não querendo saber do lugar onde se encontravam.

            Jesus cumpre o acto profético anunciado pelo profeta Zacarias (14,21): «Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio», ao proclamar a presença do «dia do Senhor». Jesus é o Filho que vem no dia do Senhor à casa de seu Pai.

            Uma interpretação surge na forma de entender por parte dos discípulos: «O zelo da tua casa me devorará», passagem do Salmo 69,10 – salmo dos justos que sofrem – que também se irá realizar na pessoa de Jesus que purificará verdadeiramente o templo à custa da sua vida.

            O desafio lançado por Jesus, como sinal da sua acção, irá constituir uma ofensa para os defensores da continuidade: «Destruí este Templo, e em três dias o farei ressurgir». Percebido à letra pelos seus opositores, apenas captado pelos discípulos após a ressurreição de Jesus, este sinal anuncia a grande substituição que se irá operar. Todo o verdadeiro culto deixará de estar ligado ao templo de Jerusalém para se deslocar para a pessoa de Jesus, verdadeiro Templo de Deus em que se realiza realmente o encontro de Deus e o homem. A afirmação «absurda» de Jesus será usada mais tarde no Sinédrio como acusação contra ele. Jesus é o templo que assegura a presença de Deus no mundo, a presença do seu amor. A morte na cruz fará dele um templo único e definitivo de Deus.

            «Os discípulos recordaram-se…e acreditaram». O evangelista usa duas vezes esta frase, estabelecendo um paralelo entre a função da Escritura e das palavras de Jesus. A palavra de Jesus, tal como a palavra da Escritura, é objeto de fé.

 

 P. Franclim Pacheco


 

 

Nunca nos deixes só…

Anónimo

 

 

Comemoração de todos Fiéis Defuntos – Ano A

 

«Vinde a Mim...Eu vos aliviarei»

 

 

EVANGELHO –  Mt 11,25-30

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus


 

Naquele tempo, Jesus exclamou:

«Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra,

porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes

e as revelaste aos pequeninos.

Sim, Pai, Eu Te bendigo,

porque assim foi do teu agrado.

Tudo Me foi dado por meu Pai.

Ninguém conhece o Filho senão o Pai

e ninguém conhece o Pai senão o Filho

e aquele a quem o Filho o quiser revelar.

Vinde a Mim,

todos os que andais cansados e oprimidos,

e Eu vos aliviarei.

Tomai sobre vós o meu jugo

e aprendei de Mim,

que sou manso e humilde de coração,

e encontrareis descanso para as vossas almas.

Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».

 

Palavra da Salvação

 

 

Breve comentário

            Para melhor entender o texto de hoje é bom situá-lo no seu contexto. No evangelho de Mateus, o discurso da Missão, em que Jesus dá instruções aos apóstolos enviados a anunciar o Reino, ocupa todo o cap. 10. Na parte narrativa que se segue aparecem as incompreensões e as resistências que Jesus deve enfrentar. João Baptista e o povo não o compreendem (Mt 11,1-15). As grandes cidades à volta do mar da Galileia não querem abrir-se à sua mensagem (Mt 11,20-24). Os escribas e doutores não são capazes de perceber a pregação de Jesus (Mt 11,25). Nem os parentes o entendem (Mt 12,46-50). Só os pequenos entendem e aceitam a Boa Nova do reino (Mt 11,25-30). Os outros querem holocaustos, isto é, os animais oferecidos em holocausto a Deus, mas Jesus quer misericórdia (Mt 12, 8).  A resistência contra Jesus leva os fariseus a procurar matá-lo (Mt 12, 9-14). Eles chamam-lhe Belzebu (Mt 12,22-32). Mas Jesus não volta atrás: continua a assumir a missão de Servo, descrito pelo profeta Isaías (Is 42,1-4) e citado por inteiro por Mateus (Mt 12, 15-21).

            Na linha deste contexto, Jesus é o Messias esperado, mas diferente do que a maioria esperava. Não é o Messias nacionalista, nem um juiz severo, nem um Messias rei poderoso. Mas é o Messias humilde e servo que não quebra a cana já fendida, nem apaga a torcida fumegante.

            Encontramos no texto de hoje uma das raras orações de bênção referidas pelos evangelhos sinópticos, mais ainda, a única, se excluirmos a invocação no Getsémani. À chegada dos seus discípulos que tinham sido enviados em missão, Jesus reconhece publicamente e proclama em louvor e acção de graças que o Pai, na sua livre iniciativa e benevolência escolheu «os pequeninos» como destinatários da revelação. Estes pequeninos são opostos aos «sábios e inteligentes» que, por sua vez, na tradição profética são opostos aos humildes e pobres.

            Perante o acolhimento da mensagem do Reino por parte dos pequeninos, Jesus experimenta uma enorme alegria e, espontaneamente, transforma a sua alegria em oração de júbilo e acção de graças ao Pai. Os sábios e doutores daquele tempo tinham criado uma série de leis relacionadas com a pureza legal que impunham ao povo em nome de Deus (Mt 15,1-9). Eles pensavam que Deus exigia todas estas observâncias para que o povo pudesse ter paz. Mas a lei do amor, revelada por Jesus, afirmava o contrário: o que importa não é o que fazemos a Deus, mas sobretudo o que Deus, no seu grande amor, faz por nós! Jesus, sendo o Filho, conhece o Pai e sabe que o que o Pai queria quando, no passado, tinha chamado Abraão e Sara para formar um povo ou quando entregou a Lei a Moisés para firmar a Aliança. A intimidade com o Pai oferecia-lhe um critério novo que o colocava em contacto directo com o autor da Bíblia.

            Jesus convida todos os que estão cansados e promete-lhes repouso. O povo daquele tempo vivia cansado com o duplo peso dos impostos mas também das observâncias exigidas pelas leis da pureza legal. «Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim que sou manso e humilde coração».

            No seu modo de anunciar a boa nova do Reino, Jesus revela uma grande paixão pelo Pai e pelo povo humilhado. Ao contrário dos doutores do seu tempo, ele anuncia a Boa Nova de Deus em qualquer lugar onde houver pessoas que o escutem: nas sinagogas, nas casas dos amigos, ao longo dos caminhos com os discípulos, nas praias do Mar da Galileia, na montanha, nas praças das aldeias e cidades e também no templo de Jerusalém.

O jugo da vontade de Deus deixou de ser um jugo opressivo e duro, mas gera agora a paz gloriosa prometida aos humildes e mansos, garantia da salvação definitiva. O jugo de Jesus é suave e o seu fardo é leve, não porque não seja exigente mas porque tirou carga legalista. Fazer a vontade de Deus deixou de ser um código ou um sistema moral a interpretar e a seguir, para ser simplesmente seguir Jesus, o Filho, que revela e realiza a vontade de Deus de modo definitivo e pleno.

Franclim Pacheco

 

 

Oscar Niemeyer

 

 

XXX Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Amarás o Senhor teu Deus e o próximo como a ti mesmo»

 

EVANGELHO –  Mt 22,34-40

 

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

Naquele tempo,

os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus,

reuniram-se em grupo,

e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar:

«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?».

Jesus respondeu:

«‘Amarás o Senhor, teu Deus,

com todo o teu coração, com toda a tua alma

e com todo o teu espírito’.

Este é o maior e o primeiro mandamento.

O segundo, porém, é semelhante a este:

‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’.

Nestes dois mandamentos se resumem

toda a Lei e os Profetas».

 

Palavra da Salvação

 

Na reflexão, considerar as seguintes questões:

 

• Mais de dois mil anos de cristianismo criaram uma pesada herança de mandamentos, de leis, de preceitos, de proibições, de exigências, de opiniões, de pecados e de virtudes, que arrastamos pesadamente pela história. Algures durante o caminho, deixámos que o inevitável pó dos séculos cobrisse o essencial e o acessório; depois, misturámos tudo, arrumámos tudo sem grande rigor de organização e de catalogação e perdemos a noção do que é verdadeiramente importante. Hoje, gastamos tempo e energias a discutir certas questões que são importantes (o casamento dos padres, o sacerdócio das mulheres, o uso dos meios anticonceptivos, as questões acerca do que é ou não litúrgico, aos problemas do poder e da autoridade, os pormenores legais da organização eclesial…) mas continuamos a ter dificuldade em discernir o essencial da proposta de Jesus. O Evangelho deste domingo põe as coisas de forma totalmente clara: o essencial é o amor a Deus e o amor aos irmãos. Nisto se resume toda a revelação de Deus e a sua proposta de vida plena e definitiva para os homens. Precisamos de rever tudo, de forma a que o lixo acumulado não nos impeça de compreender, de viver, de anunciar e de testemunhar o cerne da proposta de Jesus.

• O que é “amar a Deus”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor a Deus passa, antes de mais, pela escuta da sua Palavra, pelo acolhimento das suas propostas e pela obediência total aos seus projectos – para mim próprio, para a Igreja, para a minha comunidade e para o mundo. Esforço-me, verdadeiramente, por tentar escutar as propostas de Deus, mantendo um diálogo pessoal com Ele, procurando reflectir e interiorizar a sua Palavra, tentando interpretar os sinais com que Ele me interpela na vida de cada dia? Tenho o coração aberto às suas propostas, ou fecho-me no meu egoísmo, nos meus preconceitos e na minha auto-suficiência, procurando construir uma vida à margem de Deus ou contra Deus? Procuro ser, em nome de Deus e dos seus planos, uma testemunha profética que interpela o mundo, ou instalo-me no meu cantinho cómodo e renuncio ao compromisso com Deus e com o Reino?

 

• O que é “amar os irmãos”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor aos irmãos passa por prestar atenção a cada homem ou mulher com quem me cruzo pelos caminhos da vida (seja ele branco ou negro, rico ou pobre, nacional ou estrangeiro, amigo ou inimigo), por sentir-me solidário com as alegrias e sofrimentos de cada pessoa, por partilhar as desilusões e esperanças do meu próximo, por fazer da minha vida um dom total a todos. O mundo em que vivemos precisa de redescobrir o amor, a solidariedade, o serviço, a partilha, o dom da vida… Na realidade, a minha vida é posta ao serviço dos meus irmãos, sem distinção de raça, de cor, de estatuto social? Os pobres, os necessitados, os marginalizados, os que alguma vez me magoaram e ofenderam, encontram em mim um irmão que os ama, sem condições?

 

 

Pobres de espírito…

 

 

MENSAGEM - REGRESSO À ATIVIDADE PAROQUIAL 

 

Caros paroquianos:

Depois destes 20 dias de ausência das paróquias, por motivos de saúde, eis que venho retomar a minha atividade paroquial.
Sei que ainda estou muito limitado/debilitado, mas também me faz bem ir até junto de vós, para caminharmos juntos e nos ajudarmos mutuamente.
Desde já, agradeço a todos aqueles e aquelas que com a sua oração, preocupação e amizade, me tiveram sempre presente diante do Senhor e de Sua e nossa Mãe, Maria Santíssima. Obrigado a todos. Que Ele vos recompense.
Agradeço também ao senhor Padre Mário Nunes a sua amizade, colaboração e dedicação, bem como ao nosso colaborador, senhor Diácono Diniz. Obrigado.
Por fim, quero continuar a poder contar convosco, para que assumindo a nossa pobreza/fragilidade, dediquemo-nos alegremente ao serviço do Evangelho, como nos recorda o Papa Francisco na sua recente Exortação Apostólica "Evangelii Gaudium".
Até já e bom fim-de-semana.

O vosso Prior e amigo,
Padre João


XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus»

 

 

EVANGELHO – Mt 22,15-21

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

Naquele tempo,

os fariseus reuniram-se para deliberar

sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse.

Enviaram-Lhe alguns dos seus discípulos,

juntamente com os herodianos, e disseram-Lhe:

«Mestre, sabemos que és sincero

e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus,

sem Te deixares influenciar por ninguém,

pois não fazes acepção de pessoas.

Diz-nos o teu parecer:

É lícito ou não pagar tributo a César?».

Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu:

«Porque Me tentais, hipócritas?

Mostrai-me a moeda do tributo».

Eles apresentaram-Lhe um denário,

e Jesus perguntou:

«De quem é esta imagem e esta inscrição?».

Eles responderam: «De César».

Disse-lhes Jesus:

«Então, daí a César o que é de César

e a Deus o que é de Deus».

 

Palavra da Salvação

 

Na reflexão, considerar as seguintes questões:

• A questão essencial que o nosso texto aborda é esta: o homem pertence a Deus e deve considerar Deus o seu único senhor e a sua referência fundamental. No entanto, embriagados pelo turbilhão das liberdades e das novas descobertas, os homens do nosso tempo consideraram que eram capazes de descobrir, por si próprios, os caminhos da vida e da felicidade e que podiam prescindir de Deus… Instalaram-se no orgulho e na auto-suficiência e deixaram Deus de fora das suas vidas. É preciso voltarmos a Deus e redescobrirmos a sua centralidade na nossa existência. Deus não atenta contra a nossa identidade e a nossa liberdade. Fomos criados para a comunhão com Deus e só nos sentiremos felizes e realizados quando nos entregarmos confiadamente nas suas mãos e fizermos d’Ele o centro da nossa caminhada.

• Em muitos casos, Deus foi apenas substituído por outros “deuses”: o dinheiro, o poder, o êxito, a realização profissional, a ascensão social, o clube de futebol… tomaram o lugar de Deus e passaram a dirigir e a condicionar a vida de tantos dos nossos contemporâneos. Quase sempre, no entanto, essa troca trouxe, apenas, escravidão, alienação, frustração e sentimentos de solidão e de orfandade… Como me sinto face a isto? Há outros deuses a tomarem posse da minha vida, a condicionarem as minhas opções, a dirigirem os meus interesses, a dominarem os meus projectos? Quais são esses deuses? Eles asseguraram-me a felicidade e a plena realização, ou tornam-me cada vez mais escravo e dependente?

• O homem e a mulher foram criados à imagem de Deus. Eles não são, portanto, objectos que podem ser usados, explorados e alienados, mas seres revestidos de uma suprema dignidade, de uma dignidade divina. Apesar da Declaração Universal dos Direitos do Homem e de uma infinidade de organizações e de associações destinadas a proteger e a assegurar os direitos, liberdades e garantias, há milhões de homens, mulheres e crianças que continuam, todos os dias, a ser maltratados, humilhados, explorados, desprezados, diminuídos na sua dignidade. Destruir a imagem de Deus que existe em cada criança, mulher ou homem, é um grave crime contra Deus. Nós, os cristãos, não podemos permitir que tal aconteça. Devemos sentir-nos responsáveis sempre que algum irmão ou irmã, em qualquer canto do mundo, é privado dos seus direitos e da sua dignidade; e temos o dever grave de lutar, de forma objectiva, contra todos os sistemas que, na Igreja ou na sociedade, atentem contra a vida e a dignidade de qualquer pessoa.

• Para o cristão, Deus é a referência fundamental e está sempre em primeiro lugar; mas isso não significa que o cristão viva à margem do mundo e se demita das suas responsabilidades na construção do mundo. O cristão deve ser um cidadão exemplar, que cumpre as suas responsabilidades e que colabora activamente na construção da sociedade humana. Ele respeita as leis e cumpre pontualmente as suas obrigações tributárias, com coerência e lealdade. Não foge aos impostos, não aceita esquemas de corrupção, não infringe as regras legalmente definidas. Vive de olhos postos em Deus; mas não se escusa a lutar por um mundo melhor e por uma sociedade mais justa e mais fraterna.

• Como é que eu me situo face ao poder político e às instituições civis: com total indiferença, com sujeição cega, ou com lealdade crítica? Como é que eu contribuo para a construção da sociedade? À luz de que critérios e de que valores julgo os factos, as decisões, as leis políticas e sociais que regem a comunidade humana em que estou inserido? As minhas opções políticas são coerentes com os critérios do Evangelho e com os valores de Jesus?

 

 

 

 

 


 

 

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA FRANCISCO

PARA O DIA MUNDIAL DAS MISSÕES 2014

 

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Ainda hoje há tanta gente que não conhece Jesus Cristo. Por isso, continua a revestir-se de grande urgência a missão ad gentes, na qual são chamados a participar todos os membros da Igreja, pois esta é, por sua natureza, missionária: a Igreja nasceu «em saída». O Dia Mundial das Missões é um momento privilegiado para os fiéis dos vários Continentes se empenharem, com a oração e gestos concretos de solidariedade, no apoio às Igrejas jovens dos territórios de missão. Trata-se de uma ocorrência permeada de graça e alegria: de graça, porque o Espírito Santo, enviado pelo Pai, dá sabedoria e fortaleza a quantos são dóceis à sua acção; de alegria, porque Jesus Cristo, Filho do Pai, enviado a evangelizar o mundo, sustenta e acompanha a nossa obra missionária. E, justamente sobre a alegria de Jesus e dos discípulos missionários, quero propor um ícone bíblico que encontramos no Evangelho de Lucas (cf. 10, 21-23).

 

1. Narra o evangelista que o Senhor enviou, dois a dois, os setenta e dois discípulos a anunciar, nas cidades e aldeias, que o Reino de Deus estava próximo, preparando assim as pessoas para o encontro com Jesus. Cumprida esta missão de anúncio, os discípulos regressaram cheios de alegria: a alegria é um traço dominante desta primeira e inesquecível experiência missionária. O Mestre divino disse-lhes: «Não vos alegreis, porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, por estarem os vossos nomes escritos no Céu. Nesse mesmo instante, Jesus estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: “Bendigo-te, ó Pai (…)”. Voltando-se, depois, para os discípulos, disse-lhes em particular: “Felizes os olhos que vêem o que estais a ver”» (Lc 10, 20-21.23).

As cenas apresentadas por Lucas são três: primeiro, Jesus falou aos discípulos, depois dirigiu-Se ao Pai, para voltar de novo a falar com eles. Jesus quer tornar os discípulos participantes da sua alegria, que era diferente e superior àquela que tinham acabado de experimentar.

 

2. Os discípulos estavam cheios de alegria, entusiasmados com o poder de libertar as pessoas dos demónios. Jesus, porém, recomendou-lhes que não se alegrassem tanto pelo poder recebido, como sobretudo pelo amor alcançado, ou seja, «por estarem os vossos nomes escritos no Céu» (Lc 10, 20). Com efeito, fora-lhes concedida a experiência do amor de Deus e também a possibilidade de o partilhar. E esta experiência dos discípulos é motivo de jubilosa gratidão para o coração de Jesus. Lucas viu este júbilo numa perspectiva de comunhão trinitária: «Jesus estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo», dirigindo-Se ao Pai e bendizendo-O. Este momento de íntimo júbilo brota do amor profundo que Jesus sente como Filho por seu Pai, Senhor do Céu e da Terra, que escondeu estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelou aos pequeninos (cf. Lc 10, 21). Deus escondeu e revelou, mas, nesta oração de louvor, é sobretudo a revelação que se põe em realce. Que foi que Deus revelou e escondeu? Os mistérios do seu Reino, a consolidação da soberania divina de Jesus e a vitória sobre satanás.

Deus escondeu tudo isto àqueles que se sentem demasiado cheios de si e pretendem saber já tudo. De certo modo, estão cegos pela própria presunção e não deixam espaço a Deus. Pode-se facilmente pensar em alguns contemporâneos de Jesus que Ele várias vezes advertiu, mas trata-se de um perigo que perdura sempre e tem a ver connosco também. Ao passo que os «pequeninos» são os humildes, os simples, os pobres, os marginalizados, os que não têm voz, os cansados e oprimidos, que Jesus declarou «felizes». Pode-se facilmente pensar em Maria, em José, nos pescadores da Galileia e nos discípulos chamados ao longo da estrada durante a sua pregação.

 

3. «Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado» (Lc 10, 21). Esta frase de Jesus deve ser entendida como referida à sua exultação interior, querendo «o teu agrado» significar o plano salvífico e benevolente do Pai para com os homens. No contexto desta bondade divina, Jesus exultou, porque o Pai decidiu amar os homens com o mesmo amor que tem pelo Filho. Além disso, Lucas faz-nos pensar numa exultação idêntica: a de Maria. «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador» (Lc 1, 46-47). Estamos perante a boa Notícia que conduz à salvação. Levando no seu ventre Jesus, o Evangelizador por excelência, Maria encontrou Isabel e exultou de alegria no Espírito Santo, cantando o Magnificat. Jesus, ao ver o bom êxito da missão dos seus discípulos e, consequentemente, a sua alegria, exultou no Espírito Santo e dirigiu-Se a seu Pai em oração. Em ambos os casos, trata-se de uma alegria pela salvação em acto, porque o amor com que o Pai ama o Filho chega até nós e, por obra do Espírito Santo, envolve-nos e faz-nos entrar na vida trinitária.

O Pai é a fonte da alegria. O Filho é a sua manifestação, e o Espírito Santo o animador. Imediatamente depois de ter louvado o Pai – como diz o evangelista Mateus – Jesus convida-nos: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve» (Mt 11, 28-30). «A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 1).

De tal encontro com Jesus, a Virgem Maria teve uma experiência totalmente singular e tornou-se «causa nostrae laetitiae». Os discípulos, por sua vez, receberam a chamada para estar com Jesus e ser enviados por Ele a evangelizar (cf. Mc 3, 14), e, feito isso, sentem-se repletos de alegria. Porque não entramos também nós nesta torrente de alegria?

 

4. «O grande risco do mundo actual, com a sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 2). Por isso, a humanidade tem grande necessidade de dessedentar-se na salvação trazida por Cristo. Os discípulos são aqueles que se deixam conquistar mais e mais pelo amor de Jesus e marcar pelo fogo da paixão pelo Reino de Deus, para serem portadores da alegria do Evangelho. Todos os discípulos do Senhor são chamados a alimentar a alegria da evangelização. Os bispos, como primeiros responsáveis do anúncio, têm o dever de incentivar a unidade da Igreja local à volta do compromisso missionário, tendo em conta que a alegria de comunicar Jesus Cristo se exprime tanto na preocupação de O anunciar nos lugares mais remotos como na saída constante para as periferias de seu próprio território, onde há mais gente pobre à espera.

Em muitas regiões, escasseiam as vocações ao sacerdócio e à vida consagrada. Com frequência, isso fica-se a dever à falta de um fervor apostólico contagioso nas comunidades, o que faz com as mesmas sejam pobres de entusiasmo e não suscitem fascínio. A alegria do Evangelho brota do encontro com Cristo e da partilha com os pobres. Por isso, encorajo as comunidades paroquiais, as associações e os grupos a viverem uma intensa vida fraterna, fundada no amor a Jesus e atenta às necessidades dos mais carecidos. Onde há alegria, fervor, ânsia de levar Cristo aos outros, surgem vocações genuínas, nomeadamente as vocações laicais à missão. Na realidade,  aumentou a consciência da identidade e missão dos fiéis leigos na Igreja, bem como a noção de que eles são chamados a assumir um papel cada vez mais relevante na difusão do Evangelho. Por isso, é importante uma adequada formação deles, tendo em vista uma acção apostólica eficaz.

 

5. «Deus ama quem dá com alegria» (2 Cor 9, 7). O Dia Mundial das Missões é também um momento propício para reavivar o desejo e o dever moral de participar jubilosamente na missão ad gentes. A contribuição monetária pessoal é sinal de uma oblação de si mesmo, primeiramente ao Senhor e depois aos irmãos, para que a própria oferta material se torne instrumento de evangelização de uma humanidade edificada no amor.

Queridos irmãos e irmãs, neste Dia Mundial das Missões, dirijo o meu pensamento a todas as Igrejas locais: Não nos deixemos roubar a alegria da evangelização! Convido-vos a mergulhar na alegria do Evangelho e a alimentar um amor capaz de iluminar a vossa vocação e missão. Exorto-vos a recordar, numa espécie de peregrinação interior, aquele «primeiro amor» com que o Senhor Jesus Cristo incendiou o coração de cada um; recordá-lo, não por um sentimento de nostalgia, mas para perseverar na alegria. O discípulo do Senhor persevera na alegria, quando está com Ele, quando faz a sua vontade, quando partilha a fé, a esperança e a caridade evangélica.

A Maria, modelo de uma evangelização humilde e jubilosa, elevemos a nossa oração, para que a Igreja se torne uma casa para muitos, uma mãe para todos os povos e possibilite o nascimento de um mundo novo.

 

Vaticano, 8 de Junho – Solenidade de Pentecostes – de 2014.

 

FRANCISCO

 

 

 

“Deus é bom para nós, oferece-nos 

gratuitamente a sua amizade, a sua

alegria, a salvação, mas tantas

vezes não acolhemos os seus dons,

pomos em primeiro lugar as nossas

preocupações materiais, os nossos

interesses”

 

 

 

 

XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Convidai para as bodas todos os que encontrardes»

 

 

EVANGELHO – Mt 22,1-14

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

 

Naquele tempo,

Jesus dirigiu-Se de novo

aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo

e, falando em parábolas, disse-lhes:

«O reino dos Céus pode comparar-se a um rei

que preparou um banquete nupcial para o seu filho.

Mandou os servos chamar os convidados para as bodas,

mas eles não quiseram vir.

Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes:

‘Dizei aos convidados:

Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos,

tudo está pronto. Vinde às bodas’.

Mas eles, sem fazerem caso,

foram um para o seu campo e outro para o seu negócio;

os outros apoderaram-se dos servos,

trataram-nos mal e mataram-nos.

O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos,

que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade.

Disse então aos servos:

‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos.

Ide às encruzilhadas dos caminhos

e convidai para as bodas todos os que encontrardes’.

Então os servos, saindo pelos caminhos,

reuniram todos os que encontraram, maus e bons.

E a sala do banquete encheu-se de convidados.

O rei, quando entrou para ver os convidados,

viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial.

E disse-lhe:

‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’.

Mas ele ficou calado.

O rei disse então aos servos:

‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores;

aí haverá choro e ranger de dentes’.

Na verdade, muitos são os chamados,

mas poucos os escolhidos».

 

Palavra da Salvação

 

Na reflexão, considerar as seguintes questões:

• No nosso texto, a questão decisiva não é se Deus convida ou se não convida; mas é se se aceita ou se não se aceita o convite de Deus para o “banquete” do Reino. Os convidados que não aceitaram o convite representam aqueles que estão demasiado preocupados a dirigir uma empresa de sucesso, ou a escalar a vida a pulso, ou a conquistar os seus cinco minutos de fama, ou a impor aos outros os seus próprios esquemas e projectos, ou a explorar o bem estar que o dinheiro lhes conquistou e não têm tempo para os desafios de Deus. Vivemos obcecados com o imediato, o politicamente correcto, o palpável, o material, e prescindimos dos valores eternos, duradouros, exigentes, que exigem o dom da própria vida. A questão é: onde é que está a verdadeira felicidade? Nos valores do Reino, ou nesses valores efémeros que nos absorvem e nos dominam?

• Os convidados que não aceitaram o convite representam também aqueles que estão instalados na sua auto-suficiência, nas suas certezas, seguranças e preconceitos e não têm o coração aberto e disponível para as propostas de Deus. Trata-se, muitas vezes, de pessoas sérias e boas, que se empenham seriamente na comunidade cristã e que desempenham papéis fundamentais na estruturação dos organismos paroquiais… Mas “nunca se enganam e raramente têm dúvidas”; sabem tudo sobre Deus, já construíram um deus à medida dos seus interesses, desejos e projectos e não se deixam questionar nem interpelar. Os seus corações estão, também, fechados à novidade de Deus.

• Os convidados que aceitaram o convite representam todos aqueles que, apesar dos seus limites e do seu pecado, têm o coração disponível para Deus e para os desafios que Ele faz. Percebem os limites da sua miséria e finitude e estão permanentemente à espera que Deus lhes ofereça a salvação. São humildes, pobres, simples, confiam em Deus e na salvação que Ele quer oferecer a cada homem e a cada mulher e estão dispostos a acolher os desafios de Deus.

• A parábola do homem que não vestiu o traje apropriado convida-nos a considerar que a salvação não é uma conquista, feita de uma vez por todas, mas um sim a Deus sempre renovado, e que implica um compromisso real, sério e exigente com os valores de Deus. Implica uma opção coerente, contínua, diária com a opção que eu fiz no Baptismo… Não é um compromisso de “meias tintas”, de tentativas falhadas, de “tanto se me dá como se me deu”; mas é um compromisso sério e coerente com essa vida nova que Jesus me apresentou.

 

 

 

XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Arrendará a vinha a outros vinhateiros»

 

 

 

EVANGELHO – Mt 21,33-43

 


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

Naquele tempo,

disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo:

«Ouvi outra parábola:

Havia um proprietário que plantou uma vinha,

cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar

e levantou uma torre;

depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe.

Quando chegou a época das colheitas,

mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos.

Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos,

espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no.

Tornou ele a mandar outros servos,

em maior número que os primeiros.

E eles trataram-nos do mesmo modo.

Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo:

‘Respeitarão o meu filho’.

Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si:

‘Este é o herdeiro;

matemo-lo e ficaremos com a sua herança’.

E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.

Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?».

Eles responderam:

«Mandará matar sem piedade esses malvados

e arrendará a vinha a outros vinhateiros,

que lhe entreguem os frutos a seu tempo».

Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura:

‘A pedra que os construtores rejeitaram

tornou-se a pedra angular;

tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’?

Por isso vos digo:

Ser-vos-á tirado o reino de Deus

e dado a um povo que produza os seus frutos».

 

Palavra da Salvação

 

Na reflexão, ter em conta as seguintes questões:


• O problema fundamental posto por este texto é o da coerência com que vivemos o nosso compromisso com Deus e com o Reino. Deus não obriga ninguém a aceitar a sua proposta de salvação e a envolver-se com o Reino; mas uma vez que aceitamos trabalhar na sua “vinha”, temos de produzir frutos de amor, de serviço, de doação, de justiça, de paz, de tolerância, de partilha… O nosso Deus não está disposto a pactuar com situações dúbias, descaracterizadas, amorfas, incoerentes, mentirosas; mas exige coerência, verdade e compromisso. A parábola convida-nos, antes de mais, a não nos deixarmos cair em esquemas de comodismo, de instalação, de facilidade, de “deixa andar”, mas a levarmos a sério o nosso compromisso com Deus e com o Reino e a darmos frutos consequentes. O meu compromisso com o Reino é sincero e empenhado? Quais são os frutos que eu produzo? Quando se trata de fazer opções, ganha o meu comodismo e instalação, ou a minha vontade de servir a construção do Reino?

• O que é que é decisivo para definir a pertença de alguém ao Reino? É ter uma “tradição familiar” cristã? É o ter entrado, por um acto formal (Baptismo) na Igreja? É o ter feito votos de pobreza, castidade e obediência numa determinada congregação religiosa? É o cumprir determinados actos de piedade? É o participar nos ritos? Nada disso é decisivo. O que é decisivo é o “produzir frutos” de amor e de justiça, que pomos ao serviço de Deus e dos nossos irmãos. Como é que eu entendo e vivo a minha caminhada de fé?

• A parábola fala de trabalhadores da “vinha” de Deus que rejeitam o “filho” de forma absoluta e radical. É provável que nenhum de nós, por um acto de vontade consciente, se coloque numa atitude semelhante e rejeite Jesus. No entanto, prescindir dos valores de Jesus e deixar que sejam o egoísmo, o comodismo, o orgulho, a arrogância, o dinheiro, o poder, a fama, a condicionar as nossas opções é, na mesma, rejeitar Jesus, colocá-l’O à margem da nossa existência. Como é que, no dia a dia, acolhemos e inserimos na nossa vida os valores de Jesus? As propostas de Jesus são, para nós, valores consistentes, que procuramos integrar na nossa existência e que servem de alicerce à construção da nossa vida, ou são valores dos quais nos descartamos com facilidade, sob pressão de interesses egoístas e comodistas?

• As nossas comunidades cristãs e religiosas são constituídas por homens e mulheres que se comprometeram com o Reino e que trabalham na “vinha” do Senhor. Deviam, portanto, produzir frutos bons e testemunhar diante do mundo, em gestos de amor, de acolhimento, de compreensão, de misericórdia, de partilha, de serviço, a realidade do Reino que Jesus Cristo veio propor. É isso que acontece, ou limitamo-nos a ter muitos grupos paroquiais, a preparar organigramas impressionantes da dinâmica comunitária, a construir espaços físicos amplos e confortáveis, a recitar a liturgia das horas, a produzir liturgias solenes, faustosas, imponentes… e completamente desligadas da vida?

Reflexão...

 

OUTRAS INFORMAÇÕES DA CATEQUESE

 
Início da catequese - 28/09/2014, às 10h30
Fim do 1º período - 20/21 de Dezembro de 2014
Início do 2º período - 10/11 de Janeiro de 2015 
Fim do 2º período - 29 de Março de 2015 (Domingo de ramos)
Início do 3º período - 11/12 de Abril de 2015
Fim do Ano Pastoral - 21 de Junho de 2015 (Dia da Comunidade Paroquial)

 

 

 

XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Arrependeu-se e foi.

Os publicanos e as mulheres de má vida

irão diante de vós para o reino de Deus»

 

EVANGELHO – Mt 21,28-32



Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus



Naquele tempo,

disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes

e aos anciãos do povo:

«Que vos parece?

Um homem tinha dois filhos.

Foi ter com o primeiro e disse-lhe:

‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha’.

Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero’.

Depois, porém, arrependeu-se e foi.

O homem dirigiu-se ao segundo filho

e falou-lhe do mesmo modo.

Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor’.

Mas de facto não foi.

Qual dos dois fez a vontade ao pai?»

Eles responderam-Lhe: «O primeiro».

Jesus disse-lhes:

«Em verdade vos digo:

Os publicanos e as mulheres de má vida

irão diante de vós para o reino de Deus.

João Baptista veio até vós,

ensinando-vos o caminho da justiça,

e não acreditastes nele;

mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram.

E vós, que bem o vistes,

não vos arrependestes, acreditando nele».

Palavra da Salvação

 

Para a reflexão, ter em conta os seguintes desenvolvimentos:

• Antes de mais, a parábola dos dois filhos chamados para trabalhar “na vinha” do pai sugere que, na perspectiva de Deus, todos os seus filhos são iguais e têm a mesma responsabilidade na construção do Reino. Deus tem um projecto para o mundo e quer ver todos os seus filhos – sem distinção de raça, de cor, de estatuto social, de formação intelectual – implicados na concretização desse projecto. Ninguém está dispensado de colaborar com Deus na construção de um mundo mais humano, mais justo, mais verdadeiro, mais fraterno. Tenho consciência de que também eu sou chamado a trabalhar na vinha de Deus?

• Diante do chamamento de Deus, há dois tipos de resposta… Há aqueles que escutam o chamamento de Deus, mas não são capazes de vencer o imobilismo, a preguiça, o comodismo, o egoísmo, a auto-suficiência e não vão trabalhar para a vinha (mesmo que tenham dito “sim” a Deus e tenham sido baptizados); e há aqueles que acolhem o chamamento de Deus e que lhe respondem de forma generosa. De que lado estou eu? Estou disposto a comprometer-me com Deus, a aceitar os seus desafios, a empenhar-me na construção de um mundo mais bonito e mais feliz, ou prefiro demitir-me das minhas responsabilidades e renunciar a ter um papel activo no projecto criador e salvador que Deus tem para os homens e para o mundo?

• O que é que significa, exactamente, dizer “sim” a Deus? É ser baptizado ou crismado? É casar na igreja? É fazer parte de uma confraria qualquer da paróquia? É fazer parte da equipa que gere a Fábrica da Igreja? É ter feito votos num qualquer instituto religiosos? É ir todos os dias à missa e rezar diariamente a Liturgia das Horas? Atenção: na parábola apresentada por Jesus, não chega dizer um “sim” inicial a Deus; mas é preciso que esse “sim” inicial se confirme, depois, num verdadeiro empenho na “vinha” do Senhor. Ou seja: não bastam palavras e declarações de boas intenções; é preciso viver, dia a dia, os valores do Evangelho, seguir Jesus nesse caminho de amor e de entrega que Ele percorreu, construir, com gestos concretos, um mundo de justiça, de bondade, de solidariedade, de perdão, de paz. Como me situo face a isto: sou um cristão “de registo”, que tem o nome nos livros da paróquia, ou sou um cristão “de facto”, que dia a dia procura acolher a novidade de Deus, perceber os seus desafios, responder aos seus apelos e colaborar com Ele na construção de uma nova terra, de justiça, de paz, de fraternidade, de felicidade para todos os homens?

• Nas nossas comunidades cristãs aparecem, com alguma frequência, pessoas que sabem tudo sobre Deus, que se consideram família privilegiada de Deus, mas que desprezam esses irmãos que não têm um comportamento “religiosamente correcto” ou que não cumprem estritamente as regras do “bom comportamento” cristão… Atenção: não temos qualquer autoridade para catalogar as pessoas, para as excluir e marginalizar… Na perspectiva de Deus, o importante não é que alguém se tenha afastado ou que tenha assumido comportamentos marginais e escandalosos; o essencial é que tenha acolhido o chamamento de Deus e que tenha aceitado trabalhar “na vinha”. A este propósito, Jesus diz algo de inaudito aos “santos” príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo: “os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o Reino de Deus”. Hoje, que é que isto significa? Hoje, quem são os “vós”? Hoje, quem são os “publicanos e mulheres de má vida”?

 

Informação da Catequese

 

Informam-se todos os pais/encarregados de educação de que a catequese terá início no próximo Domingo, dia 28 de Setembro, às 10h30, na Eucaristia Paroquial, com a festa do envio dos catequistas e catequizandos.
Assim, aceitaram trabalhar como catequistas os seguintes cristãos:
1º ano - Isabel e Maria dos Anjos
2º ano - Sónia Libório
3º ano - Lília Gala
4º ano - Graça e Paula Gala
5º ano - Sónia
6º ano - Fernanda Capão
7º ano - Helena Miranda e Mário
8º ano - Cinita
9º ano - Mário e Pedro Caniçais
10º ano - Paula Reis
11º ano - Teresa Grangeia


Mais se informa que o Pároco, não podendo estar presente em tudo, visto ter 3 paróquias ao seu cuidado,  é necessário ter alguém responsável por este sector, chamando-lhe COORDENADOR DA CATEQUESE. Foi eleita pelos catequistas a CINITA.
 
Quanto às matrículas/renovação da catequese, as mesmas serão feitas junto de cada catequista. Os 2 anos que ainda não têm catequistas, devem dirigir-se à srª coordenadora.
 
Ficou deliberado também de que o custo da matrícula/renovação é de 10€: 3€ matrícula e 7€ catecismo.

 

XXV Domingo do Tempo Comum – Ano A

«Serão maus os teus olhos porque eu sou bom?»

 

EVANGELHO – Mt 20,1-16a

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:

«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.

Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha.

Saiu a meio da manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes:

‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’.

E eles foram.

Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. 

Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes:

‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’

Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’.

Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’.

Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz:

«Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’.

Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.

Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um.

Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:

‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’.

Mas o proprietário respondeu a um deles:

‘Amigo, em nada te prejudico.

Não foi um denário que ajustaste comigo?

Leva o que é teu e segue o teu caminho.

Eu quero dar a este último tanto como a ti.

Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu?

Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?

Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos».

Palavra da Salvação

 

 

Na reflexão, considerar as seguintes linhas:

• Antes de mais, o nosso texto deixa claro que o Reino de Deus (esse mundo novo de salvação e de vida plena) é para todos sem excepção. Para Deus não há marginalizados, excluídos, indignos, desclassificados… Para Deus, há homens e mulheres – todos seus filhos, independentemente da cor da pele, da nacionalidade, da classe social – a quem Ele ama, a quem Ele quer oferecer a salvação e a quem Ele convida para trabalhar na sua vinha. A única coisa verdadeiramente decisiva é se os interpelados aceitam ou não trabalhar na vinha de Deus. Fazer parte da Igreja de Jesus é fazer uma experiência radical de comunhão universal.


• Todos têm lugar na Igreja de Jesus… Mas todos terão a mesma dignidade e importância? Jesus garante que sim. Não há trabalhadores mais importantes do que os outros, não há trabalhadores de primeira e de segunda classe. O que há é homens e mulheres que aceitaram o convite do Senhor – tarde ou cedo, não interessa – e foram trabalhar para a sua vinha. Dentro desta lógica, que sentido é que fazem certas atitudes de quem se sente dono da comunidade porque “estou aqui há mais tempo do que os outros”, ou porque “tenho contribuído para a comunidade mais do que os outros”? Na comunidade de Jesus, a idade, o tempo de serviço, a cor da pele, a posição social, a posição hierárquica, não servem para fundamentar qualquer tipo de privilégios ou qualquer superioridade sobre os outros irmãos. Embora com funções diversas, todos são iguais em dignidade e todos devem ser acolhidos, amados e considerados de igual forma.

• O nosso texto denuncia ainda essa concepção de Deus como um “negociante”, que contabiliza os créditos dos homens e lhes paga em consequência. Deus não faz negócio com os homens: Ele não precisa da mercadoria que temos para Lhe oferecer. O Deus que Jesus anuncia é o Pai que quer ver os seus filhos livres e felizes e que, por isso, derrama o seu amor, de forma gratuita e incondicional, sobre todos eles. Sendo assim que sentido fazem certas expressões da vivência religiosa que são autênticas negociatas com Deus (“se tu me fizeres isto, prometo-te aquilo”; “se tu me deres isto, pago-te com aquilo”)?

• Entender que Deus não é um negociante, mas um Pai cheio de amor pelos seus filhos, significa também renunciar a uma lógica interesseira no nosso relacionamento com ele. O cristão não faz as coisas por interesse, ou de olhos postos numa recompensa (o céu, a “sorte” na vida, a eliminação da doença, o adivinhar a chave da lotaria), mas porque está convicto de que esse comportamento que Deus lhe propõe é o caminho para a verdadeira vida. Quem segue o caminho certo, é feliz, encontra a paz e a serenidade e colhe, logo aí, a sua recompensa.

• Com alguma frequência encontramos cristãos que não entendem porque é que Deus ama e aceita na sua família, em pé de igualdade com os filhos da primeira hora, esses que só tardiamente responderam ao apelo do Reino. Sentem-se injustiçados, incompreendidos, ciumentos, invejosos e condenam, mais ou menos veladamente, essa lógica de misericórdia que, à luz dos critérios humanos, lhes parece muito injusta. Na sua perspectiva, a fidelidade a Deus e aos seus mandamentos merece uma recompensa e esta deve ser tanto maior quanto maior a antiguidade e a qualidade dos “serviços” prestados a Deus. Que sentido faz esta lógica à luz dos ensinamentos de Jesus?


 

 

 

"Tem sempre presente que a pele se enruga, que o cabelo se torna branco, que os dias se convertem em anos, mas o mais importante não muda: tua força interior"

 

 

Madre Tereza de Calcutá

 

 

 

XXIV Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

Exaltação da Santa Cruz

 

         

Evangelho: João 3, 13-17 

Naquele tempo, Jesus disse a Nicodemos: 3Ninguém subiu ao Céu a não ser aquele que desceu do Céu, o Filho do Homem. 14Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, 15a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna. 16Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. 17De facto, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele.

 

O texto do evangelho faz parte do longo discurso com que Jesus responde a Nicodemos, apontando a necessidade da fé para obter a vida eterna e fugir ao juízo de condenação. Jesus, o Filho do homem (v. 13), provém do seio do Pai; é aquele que «desceu do Céu» (v. 13), o único que viu a Deus e pode comunicar o seu projeto de amor, que se realiza na oblação do Filho unigénito. Jesus compara-se à serpente de bronze (cf. Nm 21, 4-9), afirmando que a plena realização do que aconteceu no deserto irá verificar-se quando Ele for elevado na cruz (v. 14) para salvação do mundo (v. 17). Quem olhar para Ele com fé, isto é, quem acreditar que Cristo crucificado é o Filho de Deus, o salvador, terá a vida eterna. Acolhendo n´Ele o dom de amor do Pai, o homem passa da morte do pecado à vida eterna. No horizonte deste texto, transparece o cântico do “Servo de Javé” (cf. Is 52, 13ss.), onde encontramos juntos os verbos “elevar” e “glorificar”. Compreende-se, portanto, que S. João quer apresentar a cruz, ponto supremo de ignomínia, como vértice da glória.

  

Meditatio

Jesus veio dar cumprimento à história do povo hebreu e à nossa história. Verificamo-lo todas as vezes que lemos a palavra de Deus. De facto, como Ele mesmo afirma, não veio abolir, mas dar pleno cumprimento à Lei. Jesus é Aquele que desceu do céu, Aquele que conhece o Pai, e que está em íntima união com Ele: “Eu e o Pai somos Um” (Jo 10, 30). Jesus é enviado pelo Pai para revelar o mistério da salvação, o mistério de amor que se há-de realizar com a sua morte na cruz. Jesus crucificado é a suprema manifestação da glória de Deus. Por isso, a cruz torna-se símbolo de vitória, de dom, de salvação, de amor. Tudo o que podemos entender com a palavra “cruz” – o sofrimento, a injustiça, a perseguição, a morte – é incompreensível se for olhado apenas com olhos humanos. Mas, aos olhos da fé e do amor, tudo aparece como meio de conformidade com Aquele que nos amou por primeiro. Então, o sofrimento não é vivido como fim em si mesmo, mas como participação no mistério de Deus, caminho que leva à salvação.

Só se acreditamos em Cristo crucificado, isto é, se nos dispomos a acolher o mistério de Deus que incarna e dá a vida por todos; só se nos pomos diante da vida com humildade, livres para nos deixar amar e, por nossa vez, tornar-nos dom de amor aos irmãos, saberemos receber a salvação: participaremos na vida divina de amor. Celebrar a festa da Exaltação da Santa Cruz significa tomar consciência do amor de Deus Pai, que não hesitou em enviar-nos o seu Filho, Jesus Cristo: esse Filho que, despojado do seu esplendor divino, se tornou semelhante aos homens, deu a vida na cruz por cada um dos seres humanos, crente ou não crente (cf. Fil, 2, 6-11). A Cruz torna-se o espelho em que, refletindo a nossa imagem, podemos reencontrar o verdadeiro significado da vida, as portas da esperança, o lugar da renovada comunhão com Deus.

Como dizem as nossas Constituições, “Do Coração de Cristo, aberto na cruz, nasce o homem de coração novo, animado pelo Espírito e unido aos seus irmãos na comunidade de amor, que é a Igreja” (n. 3).

O Pe. Dehon adere, com toda a sua vida, ao "amor de Cristo que aceita a morte" e é trespassado na Cruz. Ele experimenta esse amor, não tanto intelectualmente, mas sobretudo com o coração, e manifesta-o e derrama-o nos irmãos, com a sua bondade. Todos o chamam o "Très bon Père".

Ao contemplar o amor de Cristo que dá "a vida pelos homens" até morrer pela sua "salvação", em "obediência filial ao Pai", na cruz, o Pe. Dehon aprende que o único verdadeiro amor é o amor oblativo. O "Coração de Cristo, aberto na cruz" é a própria fonte do amor oblativo. E a oblação de amor, entendida como imolação, é, para o Pe. Dehon, "a própria fonte da salvação"(Cst 3), é a força do nosso apostolado (cf. Cst 5), é a alma da nossa santidade "para Glória e Alegria de Deus" (Cst 25; cf. Cst 35-39).

"Do Coração de Cristo, aberto na cruz, nasce o homem de coração novo, animado pelo Espírito" (Cst 3). Este nascimento, preanunciado a Nicodemos (cf. Jo 3, 3.5), realizou-se na transfixão do Lado, onde a água que brota de Cristo é sinal do dom do Espírito, do Batismo, do nascimento da Igreja e, na Igreja, de cada um de nós.

 

 

 

 

 

 

 

XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

 

 

EVANGELHO – Mt 18,15-20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

Naquele tempo,disse Jesus aos seus discípulos:
«Se o teu irmão te ofender,vai ter com ele e repreende-o a sós.
Se te escutar, terás ganho o teu irmão.
Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas,
para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas.
Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja,
considera-o como um pagão ou um publicano.
Em verdade vos digo:
Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu.
Digo-vos ainda:
Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus.
Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles».

 

Na reflexão e partilha, considerar as seguintes questões:

• A palavra “tolerância” é uma palavra profundamente cristã, que sugere o respeito pelo outro, pelas suas diferenças, até pelos seus erros e falhas. No entanto, o que significa “tolerância”? Significa que cada um pode fazer o mal ou o bem que quiser, sem que tal nos diga minimamente respeito? Implica recusarmo-nos a intervir quando alguém toma atitudes que atentam contra a vida, a liberdade, a dignidade, os direitos dos outros? Quer dizer que devemos ficar indiferentes quando alguém assume comportamentos de risco, porque ele “é maior e vacinado” e nós não temos nada com isso? Quais são as fronteiras da “tolerância”? Diante de alguém que se obstina no erro, que destrói a sua vida e a dos outros, devemos ficar de braços cruzados? Até que ponto vai a nossa responsabilidade para com os irmãos que nos rodeiam? A “tolerância” não será, tantas vezes, uma desculpa que serve para disfarçar a indiferença, a demissão das responsabilidades, o comodismo?

• O Evangelho deste domingo sugere a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros. Convida-nos a respeitar o nosso irmão, mas a não pactuar com as atitudes erradas que ele possa assumir. Amar alguém é não ficar indiferente quando ele está a fazer mal a si próprio; por isso, amar significa, muitas vezes, corrigir, admoestar, questionar, discordar, interpelar… É preciso amar muito e respeitar muito o outro, para correr o risco de não concordar com ele, de lhe fazer observações que o vão magoar; no entanto, trata-se de uma exigência que resulta do mandamento do amor…

• Que atitude tomar em relação a quem erra? Como proceder? Antes de mais, é preciso evitar publicitar os erros e as falhas dos outros. O denunciar publicamente o erro do irmão, pode significar destruir-lhe a credibilidade e o bom-nome, a paz e a tranquilidade, as relações familiares e a confiança dos amigos. Fazer com que alguém seja julgado na praça pública – seja ou não culpado – é condená-lo antecipadamente, é não dar-lhe a possibilidade de se defender e de se explicar, é restringir-lhe o direito de apelar à misericórdia e à capacidade de perdão dos outros irmãos. Humilhar o irmão publicamente é, sobretudo, uma grave falta contra o amor. É por isso que o Evangelho de hoje convida a ir ao encontro do irmão que falhou e a repreendê-lo a sós…

• Sobretudo, é preciso que a nossa intervenção junto do nosso irmão não seja guiada pelo ódio, pela vingança, pelo ciúme, pela inveja, mas seja guiada pelo amor. A lógica de Deus não é a condenação do pecador, mas a sua conversão; e essa lógica devia estar sempre presente, quando nos confrontamos com os irmãos que falharam. O que é que nos leva, por vezes, a agir e a confrontar os nossos irmãos com os seus erros: o orgulho ferido, a vontade de humilhar aquele que nos magoou, a má vontade, ou o amor e a vontade de ver o irmão reencontrar a felicidade e a paz?

• A Igreja tem o direito e o dever de pronunciar palavras de denúncia e de condenação, diante de actos que afectam gravemente o bem comum… No entanto, deve distinguir claramente entre a pessoa e os seus actos errados. As acções erradas devem ser condenadas; os que cometeram essas acções devem ser vistos como irmãos, a quem se ama, a quem se acolhe e a quem se dá sempre outra oportunidade de acolher as propostas de Jesus e de integrar a comunidade do Reino.

 

D. António Moiteiro  - Início do Munus episcopal em Aveiro

 

 

Uma monja carmelita

 

Santo Agostinho

 

 

XXII Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo»

 

 

EVANGELHO – Mt 16,21-27

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.
Pedro, tomando-O à parte, começou a contestá-l’O, dizendo:
«Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!»
Jesus voltou-Se para Pedro e disse-he:
«Vai-te daqui, Satanás.
Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».
Jesus disse então aos seus discípulos:
«Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Porque, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la.
Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?
O Filho do homem há-de vir na glória de seu Pai, com os seus Anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras».

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:


• Frente a frente, o Evangelho deste domingo coloca a lógica dos homens (Pedro) e a lógica de Deus (Jesus). A lógica dos homens aposta no poder, no domínio, no triunfo, no êxito; garante-nos que a vida só tem sentido se estivermos do lado dos vencedores, se tivermos dinheiro em abundância, se formos reconhecidos e incensados pelas multidões, se tivermos acesso às festas onde se reúne a alta sociedade, se tivermos lugar no conselho de administração da empresa. A lógica de Deus aposta na entrega da vida a Deus e aos irmãos; garante-nos que a vida só faz sentido se assumirmos os valores do Reino e vivermos no amor, na partilha, no serviço, na solidariedade, na humildade, na simplicidade. Na minha vida de cada dia, estas duas perspectivas confrontam-se, a par e passo… Qual é a minha escolha? Na minha perspectiva, qual destas duas propostas apresenta um caminho de felicidade seguro e duradouro?

• Jesus tornou-Se um de nós para concretizar os planos do Pai e propor aos homens – através do amor, do serviço, do dom da vida – o caminho da salvação, da vida verdadeira. Neste texto (como, aliás, em muitos outros), fica claramente expressa a fidelidade radical de Jesus a esse projecto. Por isso, Ele não aceita que nada nem ninguém O afaste do caminho do dom da vida: dar ouvidos à lógica do mundo e esquecer os planos de Deus é, para Jesus, uma tentação diabólica que Ele rejeita duramente. Que significado e que lugar ocupam na minha vida os projectos de Deus? Esforço-me por descobrir a vontade de Deus a meu respeito e a respeito do mundo? Estou atento a esses “sinais dos tempos” através dos quais Deus me interpela? Sou capaz de acolher e de viver com fidelidade e radicalidade as propostas de Deus, mesmo quando elas são exigentes e vão contra os meus interesses e projectos pessoais?

• Quem são os verdadeiros discípulos de Jesus? Muitos de nós receberam uma catequese que insistia em ritos, em fórmulas, em práticas de piedade, em determinadas obrigações legais, mas que deixou para segundo plano o essencial: o seguimento de Jesus. A identidade cristã constrói-se à volta de Jesus e da sua proposta de vida. Que nenhum de nós tenha dúvidas: ser cristão é bem mais do que ser baptizado, ter casado na igreja, organizar a festa do santo padroeiro da paróquia, ou dar-se bem com o padre… Ser cristão é, essencialmente, seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. O cristão é aquele que faz de Jesus a referência fundamental à volta da qual constrói toda a sua existência; e é aquele que renuncia a si mesmo e que toma a mesma cruz de Jesus.

• O que é “renunciar a si mesmo”? É não deixar que o egoísmo, o orgulho, o comodismo, a auto-suficiência dominem a vida. O seguidor de Jesus não vive fechado no seu cantinho, a olhar para si mesmo, indiferente aos dramas que se passam à sua volta, insensível às necessidades dos irmãos, alheado das lutas e reivindicações dos outros homens; mas vive para Deus e na solidariedade, na partilha e no serviço aos irmãos.

• O que é “tomar a cruz”? É amar até às últimas consequências, até à morte. O seguidor de Jesus é aquele que está disposto a dar a vida para que os seus irmãos sejam mais livres e mais felizes. Por isso, o cristão não tem medo de lutar contra a injustiça, a exploração, a miséria, o pecado, mesmo que isso signifique enfrentar a morte, a tortura, as represálias dos poderosos.


 

 

William Shakespeare

 

XXI Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Tu és Pedro, e dar-te-ei as chaves do reino dos Céus»

 

 

Breve comentário

            O texto deste domingo pode dividir-se claramente em duas partes: o diálogo de Jesus com os discípulos que culmina com a solene profissão de Pedro e a declaração de Jesus acerca de Pedro.

            Jesus faz uma espécie de sondagem acerca da sua identidade: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?». A resposta dos discípulos, que referem a opinião das pessoas, elenca quatro modelos interpretativos da figura e actividade de Jesus. É identificado com João, o Baptista, nos ambientes da corte de Herodes Antipas (cf. Mt 14,2); a figura de Elias é usada pelo próprio Jesus para  apresentar a figura de João Baptista (Mt 11,14); o profeta Jeremias, profeta da crise e da destruição do primeiro templo, representa o destino de Jesus, o profeta contestado na sua pátria (Mt 13,57).

            A resposta à segunda pergunta de Jesus, que interpela os discípulos, é dada por «Simão Pedro», designação que prepara a intervenção de Jesus: «És feliz, Simão… Tu és Pedro». A declaração messiânica de Pedro já foi em parte antecipada na profissão de fé dos discípulos que acolhem Jesus no barco depois do misterioso encontro nocturno sobre o lago (Mt 14,33). A formulação posta na boca de Pedro é uma síntese da fé eclesial: Jesus é o Cristo e o Filho de Deus vivo. O título de Cristo (Messias) é assim precisado com a denominação característica da comunidade de Mateus: «Filho de Deus». Ele é o Eleito, o enviado definitivo de Deus para realizar o seu projecto salvífico na história. O nome «vivente», dado a Deus, sublinha este aspecto da presença e acção eficaz de Deus na história humana (cf. Mt 26,63).

            As palavras dirigidas por Jesus a Pedro partem da sua profissão de fé mas dilatam o seu horizonte porque anunciam o papel e o destino futuro do discípulo. Pedro é chamado «feliz» por participar da condição dos «pequenos» e «humildes» a quem o Pai revela o seu projecto salvífico, escondido aos «sábios e inteligentes». Daí o contraste entre a condição humana e histórica de Pedro, «carne e sangue»» e a iniciativa do Pai que está nos céus que lhe revela a identidade profunda de Jesus, Messias e Filho de Deus.

            A segunda palavra de Jesus a Pedro é uma promessa a respeito do futuro. Este anúncio profético apoia-se na imagem da «pedra», à qual é associada a da «construção». O Simão «Pedro» será a base e alicerce para a construção da comunidade messiânica, a igreja.

O vocábulo grego ekkl?sia, donde vem a nossa palavra Igreja, através do latim, traduz habitualmente a palavra hebraico q?h?l, a assembleia ou convocação do povo de Deus libertado do Egipto e unido a Deus pela Aliança. O que era a «igreja do Senho ou de Deus» torna-se a Igreja de Cristo, a comunidade messiânica, da qual Pedro é constituído o alicerce, que toma o lugar de Israel e na qual entrar a fazer parte todos aqueles que reconhecem Jesus como Messias, Filho de Deus vivo.

A esta comunidade messiânica, fundada sobre a rocha-Pedro, Jesus promete a indefectibilidade perante os assaltos das «portas do Inferno». Em Cesareia de Filipe, actual Banias, encontrava-se o maior centro pagão do Israel antigo, incluindo o templo dedicado ao deus Pan à frente duma enorme gruta donde surge o rio Jordão. Os judeus da época acreditavam que essa gruta era a entrada do mundo das trevas, a porta do inferno. A expressão refere-se, pois, às forças do mal, representadas pelo adversário ou maligno que se opõe à acção de Deus e à perseverança dos crentes. Num e noutro caso, a promessa de Jesus garante à sua comunidade a estabilidade espiritual e histórica, simbolizada pela rocha, alicerce sobre a qual é construída.

 A terceira palavra anuncia a sua tarefa futura, representada pela imagem das chaves do reino dos céus, a seguir desenvolvida e precisada com a sentença sobre «ligar e desligar». Na tradição bíblica o símbolo das chaves indica autoridade e responsabilidade; daí que Pedro recebe a responsabilidade em relação a entrar ou a ser excluído do reino. Por outro lado, os rabinos estavam convencidos de possuírem as chaves da Torah, isto é, toda a autoridade sobre a interpretação da Sagrada Escritura e sobre as leis de Deus.

Ao longo do evangelho de Mateus torna-se claro que Jesus leva a cumprimento a Lei e os profetas, na linha da vontade de Deus. O poder das chaves, transmitido a Pedro, diz respeito à interpretação autorizada da vontade de Deus como a revelou e realizou Jesus. Pedro, como sábio discípulo do Reino dos Céus, tem a tarefa de interpretar de modo autorizado a vontade de Deus revelada pelas palavras e gestos de Jesus.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

 Anónimo

 

 

XX Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

 

Breve comentário

            Para melhor entendermos este episódio, devemos ter em conta que o evangelho segundo Mateus se dirige a uma comunidade de cristãos de origem judaica, com toda a sua carga histórica e religiosa, e que vive em ambiente palestinense, no meio dos outros judeus que não aceitaram a Boa Nova.

            Na linha da tradição, muitos cristãos consideravam o povo de Israel como a estirpe eleita e santa, único herdeiro da salvação de Deus. Outros mostravam alguma abertura, admitindo que os israelitas eram os primeiros destinatários da salvação, mas não os únicos. De facto, Jesus Ressuscitado tinha sido claro na sua ordem de envio: «Ide, fazei discípulos todos os povos…» (Mt 28,19) e esta questão mereceu a atenção do 1º Concílio da Igreja nascente (Act 15).

            A vida pública de Jesus desenrolou-se praticamente em território judaico e a sua missão quase se limitou «às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas há alguns gestos da parte de Jesus que são um prelúdio e anúncio do universalismo da salvação. É neste ambiente que Mateus nos refere o episódio da mulher cananeia.

            As duas cidades, Tiro e Sídon, situadas na linha costeira a norte de Israel, sempre foram consideradas na tradição bíblica como representantes dos povos pagãos. Para os israelitas, povo pagão é sinónimo de inimigo de Deus e do povo, daí serem tratados por «cães».

            O evangelista Mateus foi colher este episódio ao evangelho de Marcos e apresenta-o duma forma mais dramatizada, apresentando Jesus numa atitude tão dura que até os discípulos intervêm para se verem livres daquela mulher que, por seu lado, não desanima.

            A mulher era doutra raça e doutra religião. Começa por suplicar a cura da filha que estava possuída por um espírito impuro. Os pagãos não tinham problemas em recorrer aos judeus, mas o mesmo não acontecia com os judeus em relação aos pagãos. Era-lhes proibido pela Lei entrar em contacto com uma pessoa doutra religião ou raça.

            A mulher grita mas Jesus não responde. É uma atitude estranha, mesmo para os discípulos que começam a ficar cansados da insistência da mulher: «Despede-a, porque ela vem atrás de nós a gritar». Mas Jesus não escuta nem quer escutar. Defende-se com a Lei e com o objectivo da sua missão: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». É o mesmo que dizer que o Pai, que o enviou, não quer que ele escute aquela mulher.  

            A mulher não se deixa vencer. Lança-se aos pés de Jesus e suplica: «Senhor, socorre-me». A esta segunda tentativa, Jesus permanece fiel aos princípios judaicos, fazendo uso duma parábola tirada da vida familiar que inclui um insulto clássico dos judeus em relação aos povos pagãos: «Não é bem tomar o pão dos filhos para o lançar aos cachorros». Nas casas pobres, então como agora, havia muitos filhos e muitos cães, pelo que o pão era reservado apenas aos filhos.

            A mulher aceita o insulto, transformando-o num novo desafio lançado a Jesus. Leva a comparação até ao fim, mostrando que na casa dos pobres os cachorros comem as migalhas que caem da mesa, inclusive as migalhas atiradas pelas crianças. Jesus, em criança, deve ter feito o mesmo. Por isso, a mulher espera que na nova «casa» inaugurada por Jesus, isto é, na comunidade cristã, haja alguma migalha ou pedaço que tenha sobrado.

            Desde o não ligar coisa alguma, o apresentar a supremacia do povo de Israel, até ao insulto, chamando «cadela» à mulher que implora a cura da filha, de tudo isto se serve Jesus para pôr à prova a fé daquela mulher que ele mesmo acaba por reconhecer, numa frase jamais dirigida a um membro do povo Israel: «Ó mulher, é grande a tua fé! Faça-se como desejas». A cura da filha obtida por meio da fé humilde e constante da mulher pagã é um sinal antecipador do novo caminho, aberto também aos pagãos, para aceder à mesa dos filhos e fazer parte de pleno direito da casa de Israel.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

Porque Devo Perdoar?

 

Não há nada pior na nossa vida do que a mágoa, a ira, o ódio que sentimos quando alguém fere os nossos sentimentos, quando alguém julga a nossa conduta, quando alguém nos faz perder o chão por coisas insignificantes.

 Mas pior ainda é quando uma raiz de amargura cresce no nosso coração pesa na nossa alma e nos entristece cada vez que lembramos das injúrias que sofremos.

Não se perdoa porque é bonito ou somente porque está na Bíblia, engana-se quem pensa assim.

O perdão quando é liberado por nós, liberta-nos do que aprisiona a nossa alegria, derrota o ódio, tira-nos o peso da dor e abre espaço para o amor dentro de nós.

 

Anónimo

 

 

XIX Domingo do Tempo Comum - Ano A

 
EVANGELHO – Mt 14,22-33

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Depois de ter saciado a fome à multidão,
Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco
e a esperá-l’O na outra margem,
enquanto Ele despedia a multidão.
Logo que a despediu,
subiu a um monte, para orar a sós.
Ao cair da tarde, estava ali sozinho.
O barco ia já no meio do mar,
açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário.
Na quarta vigília da noite,
Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar.
Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar,
assustaram-se, pensando que fosse um fantasma.
E gritaram cheios de medo.
Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo:
«Tende confiança. Sou Eu. Não temais».
Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor,
manda-me ir ter contigo sobre as águas».
«Vem!» – disse Jesus.
Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas,
para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se,
gritou: «Salva-me, Senhor!»
Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o.
Depois disse-lhe:
«Homem de pouca fé, porque duvidaste?»
Logo que saíram para o barco, o ventou amainou.
Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus,
e disseram-Lhe:
«Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».


A reflexão pode partir dos seguintes elementos:

• O Evangelho deste domingo é, antes de mais, uma catequese sobre a caminhada histórica da comunidade de Jesus, enviada à “outra margem”, a convidar todos os homens para o banquete do Reino e a oferecer-lhes o alimento com que Deus mata a fome de vida e de felicidade dos seus filhos. Estamos dispostos a embarcar na aventura de propor a todos os homens o banquete do Reino? Temos consciência de que nos foi confiada a missão de saciar a fome do mundo? Aqueles que são deixados à margem dessa mesa onde se jogam os interesses e os destinos do mundo, que têm fome e sede de vida, de amor, de esperança, encontram em nós uma proposta credível e coerente que aponta no sentido de uma realidade de plenitude, de realização, de vida plena?

• A caminhada histórica dos discípulos e o seu testemunho do banquete do Reino não é um caminho fácil, feito no meio de aclamações das multidões e dos aplausos unânimes dos homens. A comunidade (o “barco”) dos discípulos tem de abrir caminho através de um mar de dificuldades, continuamente batido pela hostilidade dos adversários do Reino e pela recusa do mundo em acolher os projectos de Jesus. Todos os dias o mundo nos mostra – com um sorriso irónico – que os valores em que acreditamos e que procuramos testemunhar estão ultrapassados. Todos os dias o mundo insiste em provar-nos – às vezes com agressividade, outras vezes com comiseração – que só seremos competitivos e vencedores quando usarmos as armas da arrogância, do poder, do orgulho, da prepotência, da ganância… Como nos colocamos face a isto? É possível desempenharmos o nosso papel no mundo, com rigor e competência, sem perdermos as nossas referências cristãs e sem trairmos o Reino?

• Para que seja possível viver de forma coerente e corajosa na dinâmica do Reino, os discípulos têm de estar conscientes da presença de Jesus, o Senhor da vida e da história, que as forças do mal nunca conseguirão vencer nem domesticar. Ele diz aos discípulos, tantas vezes desanimados e assustados face às dificuldades e às perseguições: “tende confiança. Sou Eu. Não temais”. Os discípulos sabem, assim, que não há qualquer razão para se deixarem afundar no desespero e na desilusão. Mesmo quando a sua fé vacila, eles sabem que a mão de Jesus está lá, estendida, para que eles não sejam submergidos pelas forças do egoísmo, da injustiça, da morte. Nada nem ninguém poderá roubar a vida àqueles que lutam para instaurar o Reino. Jesus, vivo e ressuscitado, não deixa nunca que sejamos vencidos.

 

 

 

 

XVIII DOMINGO TEMPO COMUM - ANO A

 

EVANGELHO – Mt 14,13-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
quando Jesus ouviu dizer que João Baptista tinha sido morto,
retirou-Se num barco para um local deserto e afastado.
Mas logo que as multidões o souberam,
deixando as suas cidades, seguiram-n’O a pé.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
e, cheio de compaixão, curou os seus doentes.
Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se de Jesus
e disseram-Lhe:
“Este local é deserto e a hora avançada.
Manda embora toda esta gente,
para que vá às aldeias comprar alimento”.
Mas Jesus respondeu-lhes:
“Não precisam de se ir embora; dai-lhes vós de comer”.
Disseram-Lhe eles:
“Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes”.
Disse Jesus: “Trazei-mos cá”.
Ordenou então à multidão que se sentasse na relva.
Tomou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos ao Céu e recitou a bênção.
Depois partiu os pães e deu-os aos discípulos
e os discípulos deram-nos à multidão.
Todos comeram e ficaram saciados.
E, dos pedaços que sobraram, encheram doze cestos.
Ora, os que comeram eram cerca de cinco mil homens,
sem contar mulheres e crianças.

 

Na reflexão, ter em conta os seguintes aspectos:

• Antes de mais, o texto convida-nos a reflectir sobre a preocupação de Deus em oferecer a todos os homens a vida em abundância. Ele convida todos os homens para o “banquete” do Reino… Aos desclassificados e proscritos que vivem à margem da vida e da história, aos que têm fome de amor e de justiça, aos que vivem atolados no desespero, aos que têm permanentemente os olhos toldados por lágrimas de tristeza, aos que o mundo condena e marginaliza, aos que não têm pão na mesa nem paz no coração, Deus diz: “quero oferecer-te essa plenitude de vida que os homens teus irmãos te negam. Tu também estás convidado para a mesa do Reino”.

• A nossa responsabilidade de seguidores de Jesus compromete-nos com a “fome” do mundo. Nenhum cristão pode dizer que não tem culpa pelo facto de 80 por cento da humanidade ser obrigada a viver com 20 por cento dos recursos disponíveis… Nenhum cristão pode “lavar as mãos” quando se gastam em armas e extravagâncias recursos que deviam estar ao serviço da saúde, da educação, da habitação, da construção de redes de saneamento básico… Nenhum cristão pode dormir tranquilo quando tantos homens e mulheres, depois de uma vida de trabalho, recebem pensões miseráveis que mal dão para pagar os medicamentos, enquanto se gastam quantias exorbitantes em obras de fachada que só servem para satisfazer o ego dos donos do mundo… Nós temos responsabilidades na forma como o mundo se constrói… Que podemos fazer para que o nosso mundo seja alicerçado sobre outros valores?

• É preciso criarmos a consciência de que os bens criados por Deus pertencem a todos os homens e não a um grupo restrito de privilegiados. O Vaticano II afirma: “Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os povos; de modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos (…). Sejam quais forem as formas de propriedade, conforme as legítimas instituições dos povos e segundo as diferentes e mutáveis circunstâncias, deve-se sempre atender a este destino universal dos bens. Por esta razão, quem usa desses bens temporais, não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si, mas também os outros. De resto, todos têm o direito de ter uma parte de bens suficientes para si e suas famílias” (Gaudium et Spes, 69). Como me situo face aos bens? Vejo os bens que Deus me concedeu como “meus, muito meus e só meus”, ou como dons que Deus depositou nas minhas mãos para eu administrar e partilhar, mas que pertencem a todos os homens?

• O problema da fome no mundo não se resolve recorrendo a programas de assistência social, de “rendimento mínimo garantido” ou de outros esquemas de “caridadezinha”; mas resolve-se recorrendo a uma verdadeira revolução das mentalidades, que leve os homens a interiorizar a lógica de partilha. Os bens que Deus colocou à disposição dos seus filhos não podem ser açambarcados por alguns; pertencem a todos os homens e devem ser postos ao serviço de todos. É preciso quebrar a lógica do capitalismo, a lógica egoísta do lucro (mesmo quando ela reparte alguns trocos pelos miseráveis para aliviar a consciência dos exploradores), e substitui-la pela lógica do dom, da partilha, do amor. Sem isto, nenhuma mudança social criará, de verdade, um mundo mais justo e mais fraterno.

• A narração que hoje nos é proposta tem um inegável contexto eucarístico (as palavras “ergueu os olhos ao céu e recitou a bênção, partiu os pães e deu-os aos discípulos” levam-nos à fórmula que usamos sempre que celebrámos a Eucaristia). Na verdade, sentar-se à mesa com Jesus e receber o pão que Ele oferece (Eucaristia) é comprometer-se com a dinâmica do Reino e é assumir a lógica da partilha, do amor, do serviço. Celebrar a Eucaristia obriga-nos a lutar contra as desigualdades, os sistemas de exploração, os esquemas de açambarcamento dos bens, os esbanjamentos, a procura de bens supérfluos… Quando celebramos a Eucaristia e nos comprometemos com uma lógica de partilha e de dom, estamos a tornar Jesus presente no mundo e a fazer com que o Reino seja uma realidade viva na história dos homens.

 

Pensamento...

 

 

 

XVII Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

            Breve comentário

            Termina neste domingo o discurso em parábolas que preenche todo o capítulo 13 do evangelho segundo Mateus.

            O ponto fundamental das duas primeiras parábolas não está no achado do tesouro ou da pérola, mas na decisão que tomam os dois protagonistas em vender tudo o que têm para comprar o que descobriram ou encontraram. No primeiro caso trata-se provavelmente dum jornaleiro que se vê perante um tesouro escondido no campo em que está a trabalhar. A única hipótese de ficar com o tesouro é desfazer-se de tudo o que tem para comprar aquele campo. Segundo o costume da época, o tesouro não pertence a quem o encontra mas ao dono do campo. Por isso, não basta tê-lo encontrado. É preciso comprar o campo para se tornar também dono do tesouro.

O protagonista da segunda parábola é um negociante que arrisca tudo o que tem para comprar uma pérola que sabe valer a pena.

            O sentido religioso destas duas parábolas só se pode captar em toda a sua profundidade se forem confrontadas com as sentenças evangélicas em que Jesus propõe um escolhe decisiva e radical perante o reino de Deus. Exemplo desta decisão é a dos discípulos que deixam tudo para seguir Jesus (Mt 4,20.22; 8,22; 9,9; 19,21.27.29).

            A terceira parábola retoma o tema da parábola do trigo e do joio. Serve-se da imagem da pesca no lago de Tiberíades em que eram usadas grandes redes de arrasto, puxadas por dois barcos, e que apanhavam toda a espécie de peixes. Ao chegarem à margem, os pescadores faziam a escolha dos peixes bons, que colocavam nas canastras, lançando fora os que não prestavam ou eram impuros perante a Lei (Lv 11,10-11). São dois tempos distintos: a pesca e a separação dos bons e dos maus. Para a comunidade dos discípulos, agora é o tempo da pesca ao largo, o tempo de lançar a rede do evangelho para apanhar a todos sem distinção. A separação final, o juízo, cabe somente a Deus.

            A última parte, dirigida aos discípulos, define o seu estatuto de discípulos com uma semelhança que sublinha também a sua responsabilidade. O discípulo não é um adepto duma escola ou doutrina mas é aquele que entra na lógica do reino dos céus como foi apresentada no discurso em parábolas. Daqui a sua sabedoria comparável à dum dono de casa que «tira do seu tesouro coisas novas e antigas». A novidade é a «justiça superior» que surge da nova interpretação definitiva da vontade de Deus já revelada aos antigos. O evangelista quer, assim, harmonizar a novidade messiânica, revelada e realizada por Jesus, com a promessa bíblica antiga.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

XVI Domingo do tempo comum – Ano A

 

 

Breve comentário

            Continuamos a escutar neste domingo o discurso das parábolas em que é revelado progressivamente o mistério do Reino de Deus ou, na linguagem do evangelista Mateus, do Reino dos Céus. Habitualmente não é feita a explicação das parábolas. A parábola do trigo e do joio é uma das poucas, juntamente com a do semeador, que é interpretada. Mas a parábola e a sua interpretação são colocadas em dois contextos, com destinatários diferentes: a parábola é dirigida à multidão enquanto a explicação é dada apenas aos discípulos em casa.

            Sem ter em conta a interpretação, é fácil identificar o sentido da boa semente/trigo com a «palavra do reino» (Mt 13,19) da parábola do semeador. Tal como naquela parábola existe um opositor, o maligno, assim na nova parábola há o «inimigo» que semeia o joio, opondo-se, desta maneira, à missão de Jesus que proclama o evangelho do Reino. Ao tempo da comunidade, a parábola constitui uma resposta às dificuldades dos discípulos que constatam as resistências e a rejeição da parte dum grupo crescente de judeus.

A resposta que a parábola dá pode ser resumida assim: a oposição é obra do adversário; bem e mal, crentes e incrédulos coexistem ao longo da história que vai do primeiro anúncio ao juízo definitivo; no tempo intermédio não se podem antecipar o juízo e a separação reservados para o fim e que são da competência do Senhor, único juiz; este é o tempo de crescimento e de actuação da palavra proclamada e acolhida, isto é, o tempo da missão, da paciente e perseverança espera.

            Também é fácil estabelecer os pontos de contacto entre as duas parábolas gémeas do grão de mostarda e do fermento. Os elementos narrativos estão dispostos de modo a dar realce ao contraste entre um início pequeno e insignificante e o momento final: o grão de mostarda era conhecido popularmente como a semente mais pequena, podendo tornar-se, em condições ambientaisfavoráveis, numa árvore de 3/4 metros de altura. O mesmo contraste está presente numa pequena porção de fermento colocado em três medidas farinha, ou seja, a cerca de 60/70 quilos. Aos judeus que aguardam uma manifestação prodígios e triunfalista do Reino de Deus, o evangelista responde com a história paradoxal destas duas parábolas. A manifestação da realeza de Deus é insignificante, mas a esperança dos discípulos, como a de Jesus, está projectada para o cumprimento final que corresponde às promessas de Deus testemunhadas pelas Escrituras. De facto, quando o evangelista Mateus escreve aos cristãos do seu tempo, já se começam a ver sinais da abertura missionária da Igreja aos povos, preanunciada por Ezequiel (17,22-23) na imagem dos pássaros que se acolhem à sombra da árvore plantada por Deus.

            Mateus conclui as três parábolas com uma breve reflexão sobre o significado de falar em parábolas: trata-se da revelação do reino aos crentes (discípulos) e o ocultar do projecto de Deus aos não-crentes (judeus). Este modo de ver corresponde à visão histórico-salvífica de Mateus, apresentada como de costume numa citação bíblica adaptada com liberdade ao contexto. Nas parábolas de Jesus cumpre-se a palavra profética do Antigo Testamento, quer para a forma «em parábolas» quer para o conteúdo, ou seja a revelação do desígnio misterioso de Deus que abraça toda a história salvífica.

            Na parte final o cenário muda. Jesus volta a entrar em casa e os discípulos pedem-lhe que explique a parábola do joio. Mas, ao lermos com atenção, verificamos que estamos perante um novo texto que só vagamente tem a ver com a parábola do joio. Pela linguagem usada vê-se que se trata duma catequese tardia adaptada à comunidade cristã de origem judaica, com o objectivo de a incentivar num tempo de desmotivação.


P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

XV Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

 

Breve comentário

            Com o texto deste domingo começa o discurso central do evangelho de Mateus, o discurso das parábolas, em que o evangelista reúne toda uma série de ensinamentos de Jesus acerca do mistério do Reino.  A «casa» donde Jesus sai é aquela onde ele mora em Cafarnaum e onde se encontra com os seus discípulos para os instruir e a sua saída é posta em relação com a do semeador (saiu Jesus – saiu o semeador). O seu «sair» tem como objectivo físico ou concreto a margem do lago de Genesaré, embora o texto lhe chame mar, usando a linguagem comum. A sua saída atrai uma multidão que o obriga a subir para um barco para daí lhes falar.

            Parábola é uma narrativa, imaginada ou verdadeira, que se apresenta com o fim de ensinar uma verdade. Difere da alegoria porque esta personifica atributos e qualidades pessoais como termos de comparação, ao passo que a parábola faz-nos ver as pessoas na sua maneira de proceder e de viver. Também difere da fábula, onde encontramos seres fantasiosos, já que aquela se limita ao que é humano e possível.

            A parábola é um exemplo. O emprego contínuo que Jesus fez das parábolas está em perfeita concordância com o método de ensino ministrado ao povo no templo e na sinagoga. Elas aparecem no Antigo Testamento (2Sm 12,1-4) e de modo especial nos profetas (Is 5,1-12; Ez 17,1-10). Os escribas e doutores da Lei faziam grande uso das parábolas e da linguagem figurada para ilustrar o seu ensino. Assim eram os Haggadoth [narrações] dos livros rabínicos. A parábola tantas vezes usada por Jesus no seu ministério (Mc 4, 34) servia para esclarecer os seus ensinamentos, referindo-se à vida comum e aos interesses humanos, para manifestar a natureza do seu reino e para experimentar a disposição dos seus ouvintes (Mt 21,45; Lc 20,19). Era um método muito usado no Oriente, apropriado ao ensino indirecto dos valores e das realidades da vida.

            A narração em parábolas fala dum semeador, não dum lavrador, e a sua actividade é caracterizada pelo contraste entre perda de sementes (13,4-7) e fruto abundante (13,8). Além disso devemos notar uma diferença entre a riqueza dos pormenores com que é descrita a perda das sementes e a forma concisa do fruto abundante. Mas à quantidade das experiências de insucesso e de desilusão representadas pelas várias perdas de sementes (à beira do caminho… em terreno pedregoso… entre espinhos…) contrapõe-se a grande colheita que faz esquecer a experiência negativa da perda. Jesus, o semeador, semeia a palavra do Reino que torna presente a senhoria de Deus sobre o mundo, sobre os homens e que realiza o fruto final. A parábola tem uma tal força persuasiva que leva o ouvinte a ter confiança na obra de Jesus que, embora marcada por insucessos ou desilusões, no fim terá êxito.

            Como primeira resposta, Jesus diz que fala assim pelo facto de as multidões não compreenderem. Ele não pretende forçar a entender. De facto, até agora Jesus falou e agiu com clareza, mas as multidões nada compreenderam; tendo em conta isto, recorre à linguagem das parábolas que, sendo mais velada, poderá estimular as multidões a pensar mais e melhor, a reflectir nos obstáculos que impedem a sua compreensão do ensinamento do Jesus. Parecem repetir-se as circunstâncias do tempo de Isaías, quando o povo estava fechado à mensagem de Deus (Is 6,9-10).

            Os discípulos são aqueles que acolheram em Jesus e na sua palavra a misteriosa revelação da senhoria de Deus e, por isso, são destinatários da promessa que diz respeito à sua condição final: a posse plena dos bens messiânicos. Em relação aos outros realiza-se a ameaça do juízo que se refere ao servo que, com medo, escondeu o talento do seu senhor: «ser-lhe-á tirado o que tem». É a perda das prerrogativas ligadas ao estatuto de povo de Deus, na sequência da longa história de infidelidades de Israel de que faz eco o texto de Isaías com a referência à cegueira e à surdez que impedem a cura, isto é, a salvação. Os discípulos crentes são declarados «felizes» porque participam daquela época messiânica esperada por «profetas e justos» do Antigo Testamento.

            A explicação da parábola atinge o seu cume ao apresentar o ouvinte ideal: aquele que escuta e compreende a Palavra, isto é, põe-na em prática de forma activa e perseverante. Esta é a base para a apresentação das outras situações de inconstância e infidelidade, de perseverança por causa da tribulação e da perseguição que se exprime em insultos, calúnias, acusações e rejeições. Todas estas circunstâncias fazem parte do dia-a-dia da comunidade de cristãos a quem o evangelho de Mateus é dirigido.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

Oração da Felicidade

(Papa Francisco)

 

 
 

 

 

 

 

Mensagem de saudação à Igreja de Aveiro

 

 

 «A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus

e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós» (2 Cor 13, 17)

 

          No momento em que se torna pública a minha nomeação para bispo de Aveiro, gostaria que as minhas primeiras palavras fossem as mesmas com que S. Paulo saudava os cristãos, e a mesma saudação com a qual, todos os domingos, iniciamos a celebração da Páscoa de Jesus. O que realmente dá sentido à comunidade cristã é a presença de Cristo Ressuscitado no meio dela, e que nos introduz no mistério do amor de Deus.

            Quando há dois anos iniciei o ministério episcopal, afirmei que a missão da Igreja não podia ser outra que a de proclamar o amor gratuito de Deus, a conversão ao Evangelho, o dom do Espírito, o Batismo para o perdão dos pecados e a formação de comunidades cristãs onde a fraternidade seja o selo da nossa identidade. Passado este tempo, estou verdadeiramente convicto de que sem comunidades cristãs vivas não há Igreja de Jesus.

            Para os próximos anos, o nosso horizonte pastoral deve ser o dinamismo criado pela Missão Jubilar que celebrou os 75 anos da restauração da Diocese e a recente exortação apostólica do Papa Francisco “A Alegria do Evangelho”. A missão da Igreja não é outra senão a de propor a toda a humanidade a alegria do Evangelho: «aqueles que se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo renasce sem cessar a alegria» (EG 1).

            Desejo, neste momento, saudar todos e cada um de vós que trabalhais na construção do reino de Deus na diocese de Aveiro: o Administrador Diocesano, Mons. João Gonçalves Gaspar, exemplo de amor e dedicação à Diocese; os sacerdotes e os diáconos, colaboradores próximos do bispo; os religiosos, enquanto sinal do mundo novo que todos somos chamados a construir; os leigos que se dedicam à obra da evangelização; as autoridades civis, académicas e militares que se empenham na busca do bem comum; sem esquecer aqueles que, pela doença ou pelas consequências do sistema social que impera, mais sofrem. Para todos endereço uma palavra de esperança e a certeza da minha colaboração na promoção da pessoa humana criada à imagem e semelhança de Deus.

            Uma palavra de muita estima e amizade para com o Senhor D. António Francisco, anterior bispo de Aveiro. Que a semente lançada á terra possa continuar a crescer e dar fruto abundante.

            Não posso deixar de manifestar o meu reconhecimento e gratidão à Arquidiocese de Braga, a minha comunidade de pertença nestes últimos tempos. Bem hajais pelo muito que significais para mim: a dedicação plena e acompanhamento do Senhor Arcebispo D. Jorge Ortiga; a amizade do clero e dos seminaristas; os religiosos, de um modo especial os contemplativos; e o número imenso de leigos com os quais contactei, nomeadamente nas visitas pastorais. Seria imperdoável não lembrar os jovens; para eles uma palavra de muita estima e carinho, reafirmando o incentivo e relembrando-lhes o que tantas vezes proferi nos encontros que tivemos: «O rosto da Igreja jovem sois vós».

            A todos peço que me ajudeis a concretizar, nas terras de Aveiro, o meu lema episcopal «É preciso que Jesus reine» (1 Cor 15, 25), para que Jesus reine efetivamente na Diocese, nas famílias e, primeiro que tudo, no nosso coração.

            Invoco a proteção de Santa Joana Princesa e, à Mãe do Evangelho vivo, convosco quero pedir que interceda por cada um de nós.

            Cultivemos a cultura da proximidade e rezemos uns pelos outros.

 

Aveiro, 4 de julho de 2014 (Festa da Rainha Santa Isabel de Portugal)

† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo eleito de Aveiro

 

 

Nomina del Vescovo di Aveiro (Portogallo)

Il Papa ha nominato Vescovo della diocesi di Aveiro (Portogallo) S.E. Mons. António Manuel Moiteiro Ramos, finora Vescovo titolare di Cabarsussi ed Ausiliare di Braga.

S.E. Mons. António Manuel Moiteiro Ramos

S.E. Mons. António Manuel Moiteiro Ramos è nato il 17 maggio 1956, ad Aldeia de João Pires, diocesi di Guarda, Portogallo.

Ha studiato Filosofia e Teologia presso i seminari della diocesi di Guarda. Ha conseguito la Licenza e il Dottorato in Teologia presso l’Istituto di Pastorale Catechetica di Madrid, affiliato alla Pontificia Università di Salamanca, Spagna.

È stato ordinato sacerdote il 4 luglio 1981.

Dopo l’ordinazione sacerdotale ha ricoperto i seguenti incarichi: Cooperatore Pastorale nella Parrocchia di São Vicente; Membro del Segretariato diocesano dell’Educazione Cristiana; Professore di Pastorale Catechetica presso l’Istituto superiore di Teologia di Viseu ed il Seminario maggiore di Guarda; Presidente del Segretariato diocesano dell’Educazione Cristiana; Direttore spirituale del Seminario maggiore di Guarda; Parroco della Cattedrale di Guarda e Coordinatore della Pastorale diocesana.

L’8 giugno 2012 è stato nominato Vescovo titolare di Cabarsussi e Ausiliare dell’arcidiocesi di Braga, ricevendo l’ordinazione episcopale il 12 agosto successivo.

 

 

XIV Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

Breve comentário

            No evangelho de Mateus, o discurso da Missão ocupa todo o cap. 10. Na parte narrativa que se segue aparecem as incompreensões e as resistências que Jesus deve enfrentar. João Baptista e o povo não o compreendem (Mt 11,1-15). As grandes cidades à volta do mar da Galileia não querem abrir-se à sua mensagem (Mt 11,20-24). Os escribas e doutores não são capazes de perceber a pregação de Jesus (Mt 11,25). Nem os parentes o entendem (Mt 12,46-50). Só os pequenos entendem e aceitam a Boa Nova do reino (Mt 11,25-30). Os outros querem sacrifícios, mas Jesus quer misericórdia (Mt 12, 8).  A resistência contra Jesus leva os fariseus a procurar matá-lo (Mt 12, 9-14). Eles chamam-lhe Belzebu (Mt 12,22-32). Mas Jesus não volta atrás: continua a assumir a missão de Servo, descrito pelo profeta Isaías (Is 42,1-4) e citado por inteiro por Mateus (Mt 12, 15-21).

            Na linha deste contexto, Jesus é o Messias esperado, mas diferente do que a maioria esperava. Não é o Messias nacionalista, nem um juiz severo, nem um Messias rei poderoso. Mas é o Messias humilde e servo que não quebra a cana já fendida, nem apaga a torcida fumegante.

            Encontramos no texto deste domingo uma das raras orações de bênção referidas pelos evangelhos sinópticos, mais ainda, a única, se excluirmos a invocação no Getsémani. À chegada dos seus discípulos que tinham sido enviados em missão, Jesus reconhece publicamente e proclama em louvor e acção de graças que o Pai, na sua livre iniciativa e benevolência escolheu «os pequeninos» como destinatários da revelação. Estes pequeninos são opostos aos «sábios e inteligentes» que, por sua vez, na tradição profética são opostos aos humildes e pobres».

            Perante o acolhimento da mensagem do Reino por parte dos pequeninos, Jesus experimenta uma enorme alegria e, espontaneamente, transforma a sua alegria em oração de júbilo e acção de graças ao Pai. Os sábios e doutores daquele tempo tinham criado uma série de leis relacionadas com a pureza legal que impunham ao povo em nome de Deus (Mt 15, 1-9). Eles pensavam que Deus exigia todas estas observâncias para que o povo pudesse ter paz. Mas a lei do amor, revelada por Jesus, afirmava o contrário: o que importa não é o que fazemos a Deus, mas sobretudo o que Deus, no seu grande amor, faz por nós! Jesus, sendo o Filho, conhece o Pai e sabe que o que o Pai queria quando, no passado, tinha chamado Abraão e Sara para formar um povo ou quanto entregou a Lei a Moisés para firmar a Aliança. A intimidade com o Pai oferecia-lhe um critério novo que o colocava em contacto directo com o autor da Bíblia.

            Jesus convida todos os que estão cansados e promete-lhes repouso. O povo daquele tempo vivia cansado com o duplo peso dos impostos mas também das observâncias exigidas pelas leis da pureza legal. «Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim que sou manso e humilde coração».

            No seu modo de anunciar a boa nova do Reino, Jesus revela uma grande paixão pelo Pai e pelo povo humilhado. Ao contrário dos doutores do seu tempo, ele anuncia a Boa Nova de Deus em qualquer lugar onde houver pessoas que o escutem: nas sinagogas, nas casas dos amigo, ao longo dos caminhos com os discípulos, nas praias do Mar da Galileia, na montanha, nas praça das aldeias e cidades e também no templo de Jerusalém.

O jugo da vontade de Deus deixou de ser um jugo opressivo e duro, mas gera agora a paz gloriosa prometida aos humildes e mansos, garantia da salvação definitiva. O jugo de Jesus é suave e o seu fardo é leve, não porque não seja exigente mas porque tirou as incrustações legalistas. Fazer a vontade de Deus deixou de ser um código ou um sistema moral a interpretar e a seguir, para ser simplesmente seguir Jesus, o Filho, que a revela e realiza de modo definitivo e pleno.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

Pensamento ...

 

 

 

Solenidade de S. Pedro e S. Paulo, Apóstolos – Ano A

 

 

Breve comentário

            O texto deste domingo pode dividir-se claramente em duas partes: o diálogo de Jesus com os discípulos que culmina com a solene profissão de Pedro e a declaração de Jesus acerca de Pedro.

            Jesus faz uma espécie de sondagem acerca da sua identidade: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?». A resposta dos discípulos, que referem a opinião das pessoas, elenca quatro modelos interpretativos da figura e actividade de Jesus. É identificado com João Baptista nos ambientes da corte de Herodes Antipas (cf. Mt 14,2); a figura de Elias é usada pelo próprio Jesus para apresentar a figura de João Baptista (Mt 11,14); o profeta Jeremias, antigo profeta da crise e da destruição do primeiro templo, representa o destino de Jesus, o profeta contestado na sua pátria (Mt 13,57).

            A resposta à segunda pergunta de Jesus, que interpela os discípulos é dada por «Simão Pedro», designação que prepara a intervenção de Jesus: «És feliz, Simão… Tu és Pedro». A declaração messiânica de Pedro já foi em parte antecipada na profissão de fé dos discípulos que acolhem Jesus no barco depois do misterioso encontro nocturno sobre o lago (Mt 14,33). A formulação posta na boca de Pedro é uma síntese da fé eclesial: Jesus é o Cristo e o Filho de Deus vivo. O título de Cristo (Messias) é assim precisado com a denominação característica da comunidade de Mateus: «Filho de Deus». Ele é o eleito, o enviado definitivo de Deus para realizar o seu projecto salvífico na história. O nome «vivo», dado a Deus, sublinha este aspecto da presença e acção eficaz de Deus na história humana (cf. Mt 26,63).

            As palavras dirigidas por Jesus a Pedro partem da sua profissão de fé mas alargam o seu horizonte porque anunciam o papel e o destino futuro do discípulo. Pedro é chamado «feliz» por participar da condição dos «pequenos» e «humildes» a quem o Pai revela o seu projecto salvífico, escondido aos «sábios e inteligentes». Daí o contraste entre a condição humana e histórica de Pedro, «carne e sangue»» e a iniciativa do Pai que está nos céus que lhe revela a identidade profunda de Jesus, Messias e Filho de Deus.

            A segunda palavra de Jesus a Pedro é uma promessa a respeito do futuro. Este anúncio profético apoia-se na imagem da «pedra», à qual é associada a da «construção». O Simão «Pedro» será a base e alicerce para a construção da comunidade messiânica, a igreja, termo que, por estranho que nos possa parecer, nos quatro evangelhos só ocorre no de Mateus.

O vocábulo grego ekkl?sia, donde vem a nossa palavra Igreja, através do latim, traduz habitualmente a palavra hebraica q?h?l, a assembleia ou convocação do povo de Deus libertado do Egipto e unido a Deus pela Aliança. O que era a «igreja do Senhor ou de Deus» torna-se a Igreja de Cristo, a comunidade messiânica, da qual Pedro é constituído como alicerce, que toma o lugar de Israel e da qual fazem parte todos aqueles que reconhecem Jesus como Messias, Filho de Deus vivo.

A esta comunidade messiânica, fundada sobre a rocha-Pedro, Jesus promete a indefectibilidade perante os assaltos das «portas do Inferno». Em Cesareia de Filipe encontrava-se o maior centro pagão do Israel antigo, incluindo o templo dedicado ao Deus Pan à frente duma enorme gruta, onde surge e começa o rio Jordão. Os judeus da época acreditavam que essa gruta era a entrada do mundo das trevas, a porta do inferno. A expressão refere-se, pois, às forças do mal, representadas pelo adversário ou maligno que se opõe à acção de Deus e à perseverança dos crentes. Num e noutro caso, a promessa de Jesus garante à sua comunidade a estabilidade espiritual e histórica, simbolizada pela rocha, alicerce sobre a qual é construída.

 A terceira palavra anuncia a sua tarefa futura, representada pela imagem das chaves do reino dos céus, a seguir desenvolvida e precisada com a sentença sobre «ligar e desligar». Na tradição bíblica o símbolo das chaves indica autoridade e responsabilidade; daí que Pedro recebe a responsabilidade em relação a entrar ou a ser excluído do reino. Por outro lado, os rabinos estavam convencidos de possuírem as chaves da Torah, isto é, toda a autoridade sobre a interpretação da Sagrada Escritura e sobre as leis de Deus.

Ao longo do evangelho de Mateus torna-se claro que Jesus leva a cumprimento a Lei e os profetas, na linha da vontade de Deus. O poder das chaves, transmitido a Pedro, diz respeito à interpretação autorizada da vontade de Deus como a revelou e realizou Jesus. Pedro, como sábio discípulo do Reino dos Céus, tem a tarefa de interpretar de modo autorizado a vontade de Deus revelada pelas palavras e gestos de Jesus.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

Vaticano: Papa rejeita «cristãos de laboratório» que vivam a fé sem a Igreja

 


Francisco apresenta catequese sobre a importância da comunidade para conhecer Jesus Cristo

Cidade do Vaticano, 25 jun 2014 (Ecclesia) – O Papa alertou hoje no Vaticano para o que chamou de “cristãos de laboratório” e disse que a vivência da fé em Jesus exige uma “pertença” à Igreja.

Na segunda catequese semanal do novo ciclo dedicado ao tema, Francisco falou na “tentação” de prescindir dos outros para se salvar “sozinho”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Há quem julgue ter uma relação pessoal, direta, imediata com Jesus Cristo, fora da comunhão e da mediação da Igreja. São tentações perigosas e prejudiciais; são, como dizia o grande Paulo VI, dicotomias absurdas”, declarou, na audiência pública desta quarta-feira, perante dezenas de milhares de pessoas reunidas na Praça de São Pedro.

O Papa realçou que na Igreja não existe o ‘faça você mesmo’ ou ‘freelancers’, citando o seu predecessor, Bento XV, que descreveu a Igreja como “um ‘nós’ eclesial”, e lamentou que alguns digam: ‘Eu acredito em Deus, acredito em Jesus, mas a Igreja não me interessa’.

Francisco sublinhou que esta Igreja é composta por pessoas “com os seus dons e os seus limites”, mas deixou claro que “ninguém é cristão só por si”.

“Está claro, isto? Ninguém é cristão só por si! Não se fazem cristãos de laboratório”, disse.

O Papa afirmou que “o cristão pertence a um povo que se chama Igreja” e que outros transmitiram a fé que cada um dos seus membros professa hoje.

“Eu lembro-me sempre muito do rosto da irmã que me ensinou o Catecismo”, observou.

A Igreja, prosseguiu, é “uma grande família”, em que ninguém vive “a título individual” ou por “conta própria”.

“A nossa identidade é a pertença, somos cristãos porque pertencemos à Igreja”, precisou.

Segundo o Papa, “não se pode amar sem amar os irmãos” ou estar “em comunhão com Deus sem estar em comunhão com a Igreja”.

“Não podemos ser bons cristãos se não estivermos unidos a todos os que procuram seguir o Senhor Jesus como um único povo”, insistiu.

Francisco deixou a tradicional saudação aos peregrinos de língua portuguesa, em especial aos fiéis do Santuário de Nossa Senhora do Porto.

“Irmãos e amigos, estais em boas mãos, estais nas mãos da Virgem Maria. Ela vos proteja da tentação de prescindir dos outros, de pôr a Igreja de lado, de pensar em salvar-vos sozinhos. Rezai por mim! Que Deus vos abençoe”, referiu.

Antes do encontro, o Papa cumprimentou durante vários minutos um grupo de crianças doentes que acompanhou a audiência através de ecrãs gigantes, na sala Paulo VI.

OC

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo - Ano A

 

 

Breve comentário

É muito natural que este trecho que lemos neste domingo não tenha sido pronunciado na Sinagoga de Cafarnaum inserido no discurso do Pão da Vida, depois do sinal da multiplicação de pães. Tem muito mais sentido que Jesus tenha dito estas palavras na Última Ceia, depois da instituição da Eucaristia, com as palavras eucarísticas: «Isto é o meu corpo… Este é o cálice do meu sangue…». João preferiu dar relevo ao lavar dos pés e ao exemplo de serviço e doação a partir da atitude e da vida de Jesus. No entanto, não quis perder as palavras de Jesus sobre a Eucaristia, integrando-as no Discurso em Cafarnaum.

O texto de hoje retoma a afirmação «Eu sou o pão vivo descido do Céu» que os ouvintes e leitores de João entendem bem como uma proclamação de Jesus como Messias e a verdadeira Palavra e Sabedoria de Deus. Mas acrescenta repetidamente algo mais forte e decisivo: «O Pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo». A palavra «carne» (sarx, em grego) indica a realidade física do homem, mas no seu aspecto mais frágil. Por isso, no início do seu Evangelho, S. João diz-nos: «E o Verbo fez-se carne», isto é, assumiu completamente a nossa humanidade até às últimas consequências. Deus tornou-se presente e manifestou o seu amor precisamente nesta «carne» que agora Jesus dá a «comer» para a vida do mundo.

Esta realidade apresentada por Jesus nunca poderia ser entendida pelos judeus antes da Ressurreição e sem uma atitude de fé. Por isso mesmo, estas palavras são dirigidas essencialmente à comunidade dos cristãos que já têm a experiência de Eucaristia.

            Nos tempos antigos, e também no Antigo Testamento, o pão era considerado um dom de Deus ou dos deuses. A sua oferta torna-se um sinal do dom de si mesmo a Deus. Só mais tarde se tornou símbolo do trabalho e da fadiga humana. Para os antigos, comer o pão durante os seus cultos significava receber a vida divina.

            Já no Antigo Testamento Deus fala de si através do sinal do pão. Ao povo que caminha no deserto, Deus dá o dom do maná como sinal da sua atenção e amor pelo homem. Na verdade, Deus é indispensável para a vida do homem, tal como o pão; melhor: mais do que o pão. «Nem só de pão vive o homem mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Dt 8,3).

            Jesus, aos seus discípulos, ensina a pedir na oração o «pão quotidiano», ou seja, o necessário para a vida; e este não é só o pão da mesa mas também o «pão de Deus», que é o próprio Jesus. Ele dá-se a todos com abundância, como nos lembra o sinal da multiplicação dos pães; através dele vive-se a amizade profunda com Deus que supera também a morte: «Quem come deste pão viverá para sempre» (Jo 6,51); e todos aqueles que comem o seu pão crescem no amor fraterno e formam um novo povo: a Igreja.

            Os judeus não entendiam as palavras de Jesus porque o respeito profundo pela vida exigia que desde os tempos do Antigo Testamento fosse proibido comer o sangue, porque o sangue era sinal de vida (Dt 12,16.23). Além disso, estava próxima Páscoa (Jo 6,4) e dentro do poucos dias todos iriam comer a carne e o sangue do cordeiro pascal na celebração da noite de Páscoa. Tomaram as palavras de Jesus à letra e, por isso, não compreendiam.

            Na verdade, comer a carne de Jesus significava aceitá-lo como o novo Cordeiro Pascal, cujo sangue os libertaria da escravidão. Beber o sangue de Jesus significava assimilar a mesma maneira de viver que marcou a vida de Jesus. O que dá a vida não é celebrar o maná do passado mas comer este novo pão que é Jesus, a sua carne e o seu sangue. Ao participar na Eucaristia assimilamos a sua vida, a sua doação, a sua entrega.

            A referência ao «sangue» é uma referência directa à paixão e à morte na cruz. O Filho de Deus, numa atitude de amor, entrega e doação, assumiu a nossa humanidade até às últimas consequências, até à morte.

            A adesão à Palavra de Jesus é fundamental para a Vida, mas comer a sua carne e beber o seu sangue leva o discípulo a assimilar a sua vida, a entrar numa profunda comunhão de vida com Ele e com o Pai, de forma a haver como que uma identificação. S. Paulo traduziria esta realidade na expressão. «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim». A quem entra neste processo de união íntima com Jesus é prometida a Vida para sempre.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

Obrigado Senhor!

 

Pode ser um momento, uma história, uma imagem, um recado, uma resposta…. até uma pergunta… pode ser a mais simples fracção de segundo… mas Tu, Senhor, estás lá sempre… Sempre presente com a firmeza e a verdade que dão sentido à nossa vida, que dão força ao nosso esforço, que dão tolerância às nossas decisões, que dão coragem aos nossos desafios… que nos levam inquestionavelmente sempre mais longe…

Anónimo

 

Solenidade da Santíssima Trindade 

Ano A

 

 

Breve comentário

Neste Domingo da Santíssima Trindade continuamos a ler o Evangelho segundo S. João, como sempre obscuro e enigmático. O texto deste domingo não é excepção. São apenas três versículos muito densos, extraídos do diálogo de Jesus com Nicodemos, que revelam a verdadeira face de Deus.

Não é preciso muito para enquadrar a situação. Em primeiro lugar, olhemos para os personagens: Deus, o mundo, o Filho unigénito. O mundo, ou os homens que estão no mundo, continuamente em oposição a Deus e contra a vontade de Deus, porque obstinadamente buscam a própria vontade. Os homens, quando querem agir sem Deus, tornam o «mundo» uma massa indiferente ou em oposição a Deus, que cai sob o domínio da morte.

Mas «Deus amou o mundo…»: a cena desenvolve-se de acordo com um guião imprevisível. Deus ama este mundo, esta massa de homens que o rejeitam. Não há luta nem duelo. O homem está teimosamente em oposição a Deus, mas Deus procura obstinadamente o homem. O que poderia ser uma luta para a história torna-se um fenómeno totalmente novo. O mundo deve ser recuperado para o amor de Deus, mas deve ser recuperado pelo amor e não pela força. Caso contrário, o vencedorseria a morte. Morte aqui é parte do inimigo, mas um inimigo que não tem consistência própria: é simplesmente o resultado da rejeição de Deus. O mundo é, ao mesmo tempo, inimigo e vítima. Inimigo, porque se opõe a Deus; vítima, porque a sua própria loucura o leva ao reino da morte. Uma situação sem solução, se não entrasse em cena um novo personagem: o Filho único.

O Unigénito, dado (como dom) por Deus, é chamado «Filho», porque participa da mesma força e do amor de Deus; é definido como «Unigénito», pois a sua relação com Deus é muito especial e única. É este Filho que recria a ligação entre Deus e o «mundo»: n’Ele é possível reencontrar o fio original da amizade perdida, os homens podem realmente experimentar a reconciliação de Deus. Em Jesus torna-se possível voltar a aprender a ser homens e filhos, a viver uma vida plenamente humana, sem estar em oposição a Deus. O mundo deve ser salvo, não condenado e destruído. Como vai terminar esta história? Vencerá o amor de Deus manifestado no Unigénito, ou vencerá a obstinação do mundo? A resposta do evangelista envolve o leitor e ouvinte: «quem crê n’Ele tem a vida eterna».

Há um julgamento que pode levar irremediavelmente à condenação: «Quem nele crê não é julgado, mas quem não crê já está julgado (condenado)». Este juízo não é pronunciado por Deus no fim dos tempos, mas é actual: é a pessoa que escolhe a vida ou a morte, conforme aceita Cristo e a sua Palavra ou recusa Cristo e a sua proposta de amor.

Aqui reside a importância do mistério da Santíssima Trindade. Se Deus fosse apenas o único Deus, como os muçulmanos acreditam, seria o protagonista único, sem espaço para mais ninguém. Se Deus fosse, pelo contrário, uma multiplicidade de actores, como na antiga religião grega, os homens não passariam de bonecos nas suas mãos. Mas o nosso Deus é uno e trino e, portanto, capaz deabrir espaço para um mundo que o rejeita, e voltar a envolver o homem na sua demonstração de amor.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

PEREGRINAÇÃO INTERPAROQUIAL DAS CRIANÇAS A FÁTIMA

 

                

(…)Este ano não foi exceção. Acompanhadas pelos seus familiares, párocos, catequistas e professores, milhares de crianças rumaram à Cova da Iria. (…) entregaram ao Santuário de Fátima o resultado do trabalho que tinham desenvolvido durante o mês de maio, em resposta à campanha promovida pela instituição, que assim recebeu milhares de pequenos tijolos em papel, decorados pelas crianças, e em que cada uma delas revelou o que se propõe fazer pela construção de um mundo melhor, principal apelo da peregrinação, ao qual se juntou a exortação ao amor a Deus e a Nossa Senhora.

 

Tudo foi diferente nesta peregrinação, a começar pela moldura do grande grupo dos pequenos peregrinos, que este ano se estima terem sido 35 mil; o recinto ganhou cor, à qual se juntou o multicolorido trazido pelas t-shirts e bonés das crianças. O altar foi modificado recebendo uma grande tela que lembrou o tema da peregrinação “Ó Jesus, é por vosso amor”; os cânticos das celebrações foram interpretados por crianças e o hino da peregrinação foi inédito; a zona da escadaria esteve reservada para as crianças, uma parte acolheu um grande mapa do Mundo, imperfeito, que foi reconstruído, durante a Eucaristia, com os tijolos oferecidos pelas crianças. 


               

No total, incluindo as crianças, participaram na celebração eucarística (…), que foi antecedida da recitação do Rosário, à volta de 200 mil peregrinos. A Eucaristia, presidida por D. Anacleto Oliveira, bispo de Viana do Castelo, foi concelebrada por D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, por D. Serafim Ferreira e Silba, bispo emérito de Leiria-Fátima, e por 150 sacerdotes.

As paróquias de Troviscal, Amoreira e Ancas, também marcaram presença com o seu pároco, pais, crianças e catequistas. Eramos cerca de 65 participantes.

Na homilia, D. Anacleto Oliveira lembrou a importância de cada ser humano se sentir pertença de Deus e colaborador da obra redentora e reparadora de Deus para o Mundo. Numa linguagem simples, direcionada às crianças, D. Anacleto Oliveira pediu-lhes para agradecerem a Deus “por todas as pessoas que nos fazem bem” e apelou à construção de mundo melhor, “um mundo sem buracos”, em que cada buraco no mapa do Mundo significa “solidão, miséria, guerra, uma maldição, quando as pessoas não querem saber de Deus”.

 

No final foi distribuída às crianças, como recordação da vinda ao Santuário de Fátima, uma pequena cruz em madeira com o lema da peregrinação inscrito “Ó Jesus é por vosso amor”; junto com a cruz foi também oferecida uma pagela com a oração ensinada por Nossa Senhora a Lúcia, Francisco e Jacinta, para eles a rezassem quando fizessem algum sacrifício: "Ó Jesus, é por vosso amor...". 

 

No momento da distribuição, o reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, explicou o sentido do presente-surpresa: “A Cruz pretende mostrar o grande amor que Jesus tem por nós e convidar-nos a retribuir esse amor”.

“Ó Jesus, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria”, rezaram de seguida as crianças, a uma só voz, após a distribuição da pagela.

Nas palavras finais da celebração eucarística, D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, despediu-se das crianças e de quem as acompanhava, disse-se sensibilizado “pelo espetáculo de beleza” que via nesta peregrinação e relembrou a importância das crianças na reconstrução do Mundo.

 

“Não se esqueçam de uma coisa: ocupais um lugar importante no coração de Deus, Deus conta muito convosco. (…) Aqui também se constrói Portugal, não é só na Assembleia da República”, afirmou D. António Marto, pedindo que todos os peregrinos rezassem com ele uma Avé Maria com uma intenção muito especial, por ser dia 10 de junho, feriado nacional, Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas: “[Rezemos] Para que Portugal seja um lar onde todos possam viver como irmãos, onde todos possam viver em paz, em fraternidade e onde não falte trabalho”.

 

 

LeopolDina Simões

 

Domingo do Pentecostes – Ano A

 

 

Breve comentário

Na solenidade de Pentecostes o texto evangélico é ainda tirado do evangelho de S. João e é importante lê-lo em paralelo com o texto de Act 2,1-11 que descreve o dom do Espírito ao grupo dos discípulos. A importância da festa litúrgica e do seu sentido eclesial, além do sentido cristológico, orienta-nos para a compreensão do texto bíblico.

             O cumprimento da Páscoa, cinquenta dias depois, na festa do Pentecostes, que em Israel celebrava o dom da Lei, faz-nos compreender a ligação estreita entre Jesus ressuscitado, o Espírito Santo e a vida da Igreja. De facto, o dom do Espírito parte da Páscoa, é dom do Pai e do Filho e conduz a Igreja para a plenitude do Reino, pois guia, ilumina e sustenta os crentes na missão de anunciar o evangelho, continuando a obra do seu Mestre, o Senhor Jesus. O elo do Amor no seio da vida trinitária, o Espírito divino, torna-se assim o vínculo que une a comunidade crente e torna-a testemunha credível no mundo.

            O texto deste domingo é parte do evangelho que escutámos no domingo de Páscoa em que o encontro do Senhor ressuscitado com os seus é acompanhado precisamente do dom do Espírito Santo e da missão; nesta solenidade o acento cai sobre o segundo elemento e sobre o papel do Espírito na vida do cristão, temáticas antecipadas nos textos dos dois últimos deste tempo pascal.

            O texto coloca-nos no dia da ressurreição, em Jerusalém; depois da primeira parte do dia dia, com a descoberta do túmulo vazio, a visita de Pedro e João e das mulheres e o testemunho de Maria Madalena, chegou a tarde. O lugar não é especificado, o evangelista quer atrair a atenção para o carácter eclesial do acontecimento. Recordemos que para João ressurreição e dom do Espírito são um só acontecimento e, por isso, colocados no mesmo dia. A indicação da tarde pode, além disso, fazer referência às reuniões dominicais das primeiras comunidades cristãs.

            Os discípulos, não somente os apóstolos, estão reunidos com as portas fechadas, com medo, numa situação de angústia que muda radicalmente com a chegada de Jesus que se faz presente aos seus discípulos naquela tarde como em qualquer outra circunstância ou tempo; a sua saudação «Paz a vós» (Shalom) é um dom efectivo de paz, como o próprio Jesus tinha prometido: «É a minha paz que eu vos dou; não a dou à maneira do mundo» (Jo 14,27). Jesus mostra as mãos e o lado, donde tinha saído sangue e água, para mostrar a fonte da eficácia salvífica da sua morte. Além disso sublinha-se a identidade entre o Senhor glorioso da Igreja e o Jesus crucificado. Os discípulos reconhecem imediatamente Jesus, sem reservas.

            Jesus diz-lhes de novo: «Paz a vós». Com a ressurreição, Jesus deu início a um tempo novo, assinalado pela alegria, mas também caracterizado por uma nova tarefa confiada aos discípulos. «Como o Pai me enviou, também eu vos envio». Não se trata dum confronto entre duas acções de envio, a do Pai em relação ao Filho e deste em relação aos discípulos; é indicada, isso sim, a forte continuidade duma única missão recebida do Pai, primeiro por Jesus e agora pelos discípulos, não somente aqueles, presentes em Jerusalém, mas também os do futuro, de todas as épocas e lugares.

            Após o envio segue-se o dom do Espírito Santo, em vista da missão de que são investidos os discípulos. O gesto de Jesus reproduz o gesto primordial da criação do homem, o que mostra o objectivo bem claro de sugerir que se trata aqui duma nova criação. Jesus glorificado comunica o Espírito que faz renascer o homem, concedendo-lhe poder partilhar a comunhão com Deus.

            A seguir fala-se de perdão dos pecados. Referindo-se a Mt 26,28 e ao que é comum nos evangelhos, agora João explicita o conteúdo do mandato confiado aos discípulos: o perdão dos pecados, o dom da misericórdia. A fidelidade  de Jesus ao Pai na sua paixão e morte trouxe a salvação que se concretiza no acolhimento do pecador e na condenação do pecado. Graças à vitória de Cristo a salvação divina prevaleceu sobre as trevas e atingiu todas as pessoas através do ministério dos discípulos.

            A formulação em positivo e negativo deste versículos deve-se ao estilo semítivo que exprime através dos contrários «perdoar/reter» a totalidade do poder misericordioso transmitido pelo Ressuscitado aos discípulos. Salvação para quem crê e acolhe o dom de Jesus, condenação para quem não se abre a Ele com fé.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

Solenidade da Ascensão do Senhor – Ano A

 

 

Breve comentário

            O texto do evangelho deste domingo é o final do Evangelho segundo Mateus. Um olhar ao texto mostra-nos que o autor se centra em dois aspectos complementares: a figura de Jesus e o estatuto dos discípulos que são protagonistas da experiência pascal, a única em relação aos «onze».

O grupo mutilado depois da perda de Judas acolhe o convite de Jesus e do anjo (28,7.10) e dirigem-se para a Galileia. É na «Galileia das nações», onde ressoou o primeiro anúncio do reino dos céus ao «povo imerso nas trevas e na sombra da morte» (4,12-16), que se retoma agora o contacto de Jesus ressuscitado com os discípulos que serão encarregados de continuar a missão com a sua autoridade e garantia da sua presença.

O «monte», no evangelho de Mateus, não é apenas um lugar geográfico: sobre um monte Jesus revela a vontade definitiva de Deus (5,1; 8,1); sobre o monte retira-se para rezar (14,23); sentado sobre o monte acolhe a multidão e cura os doentes (15,29); sobre um alto monte revela-se aos discípulos como o enviado de Deus (17,1.5). O último encontro acontece num monte da Galileia, lugar dos encontros históricos de revelação e de salvação.

            Os discípulos reconhecem Jesus como o seu Senhor, prostrando-se, numa atitude de humilde adoração. Mas a fé pascal não está isenta daquela dúvida que acompanha a fé histórica da comunidade («homens de pouca fé!» – 8,26). Só a presença e a palavra de Jesus faz superar a dúvida e fazer amadurecer a fé dos discípulos.

            A primeira palavra de Jesus é uma declaração solene sobre a sua senhoria universal, referindo a iniciativa divina: «Foi-me dado todo o poder…». Mediante a ressurreição, Jesus foi constituído no pleno exercício do seu poder e, como o próprio Deus, pode ser proclamado «Senhor do céu e da terra» (11,25).

            A segunda palavra de Jesus é uma ordem dada aos discípulos: Ide, fazei discípulos todos os povos». A primeira missão histórica dos discípulos era destinada às ovelhas perdidas da casa de Israel», excluindo os pagãos e samaritanos. Agora, a nova missão dos discípulos não tem limites nem restrições, fazendo com que toda a humanidade tenha uma relação de pertença a Jesus ressuscitado através do sinal baptismal e do pleno acolhimento e actuação do seu ensino. Este baptismo é dado «em nome de…», isto é, «em relação…» ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo». O Pai é o novo rosto de Deus revelado por Jesus aos discípulos; assim como a identidade profunda de Jesus é conhecida pelo Pai que se revela aos pequeninos. O Espírito Santo é o poder benéfico e salvador de Deus revelado nos gestos e nas palavras da missão histórica de Jesus. É a única vez, em todo o Novo Testamento, que lemos esta fórmula do rito baptismal.

            Tal como a condição para a pertença salvífica à antiga Aliança era o acolhimento e a actuação íntegra de tudo o que Deus tinha ordenado por meio de Moisés, assim o requisito fundamental para a pertença à comunidade dos discípulos do Senhor Jesus é observar, praticar fielmente a vontade de Deus que ele revelou e ensinou de modo pleno e definitivo.

            A última palavra de Jesus é uma promessa que vale como garantia de encorajamento e confiança: «Eis que Eu estou convosco». Aquele que, antes de nascer, tinha sido apresentado como Emanuel, Deus connosco; o mesmo que declarou que onde dois ou três se reunissem em seu nome: «Eu estarei no meio deles», apresenta-se agora com toda a autoridade divina para garantir a sua presença, não provisória ou pontual, mas constante: «Eu estarei convosco todos os dias até ao fim dos tempos».

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

 

 

 

   

                                                                                    Reflexão...                                                                       

 

 

VI Domingo da Páscoa – Ano A

 

Breve comentário

            O texto deste Domingo é tirado das palavras que Jesus dirige aos seus discípulos durante a Última Ceia. Ele está para deixar fisicamente os seus; por isso, quer ensinar aos discípulos como devem comportar-se durante a sua ausência. Sublinha que o amor por ele é algo de concreto, que não se esgota nas palavras, mas demonstra-se com os factos, observando os seus mandamentos, guardando e pondo em prática a palavra de Jesus, isto é, imitando o seu exemplo, amando como ele amou.

            Este amor tão forte e concreto não é possível à natureza, sendo necessária a intervenção do Espírito de Deus. Por isso, Jesus pedirá ao Pai que dê aos seus amigos o Espírito da Verdade para que esteja sempre com eles. Este Espírito, além de ser o Paráclito, ou seja, o advogado defensor de Cristo no grande processo do mundo contra ele, exerce a função específica de fazer penetrar no coração dos discípulos a verdade, ou seja, a palavra, a revelação de Cristo que é a manifestação do amor de Deus; Ele deve conduzir os cristãos para essa mesma revelação.

            O mundo, a humanidade incrédula, encontra-se na impossibilidade de receber o Espírito da Verdade porque não o percebeu nem reconheceu presente na pessoa de Deus, como não reconheceu o Verbo-Luz, nem a sua linguagem, nem o Pai. Pelo contrário, os discípulos reconheceram o Espírito na pessoa do Mestre; morando em Jesus, apesar de ainda não lhes ter sido dado, Ele permanece junto dos seus amigos e está neles.

            Jesus pode agora declarar que não deixará órfãos os seus amigos: «Voltarei a vós!». Com a presença do Espírito no seu coração, eles podem ver Jesus depois da sua partida desta terra, ao contrário do mundo incrédulo que, depois da sua morte na cruz e sepultura, não o verá mais. Trata-se duma visão de fé, possível apenas aos crentes. Eles viverão como Jesus, o Vivente, o Pão da vida, a fonte da vida.

            Esta experiência sobrenatural fará perceber, na fé, aos amigos de Jesus a vida de comunhão entre o Pai e o Filho, e deste com os discípulos. Quem escuta os mandamentos de Jesus, isto é, a sua palavra, os faz penetrar no seu coração e observa fielmente, manifesta o amor que tem por Jesus. Este é o verdadeiro discípulo, que será objecto dum amor especial da parte do Pai. Ele, que ama de tal maneira o mundo que entrega o seu Filho unigénito (3,16), nutre um amor de predilecção por Cristo e pelos seus amigos. O amor do Pai pelo Filho vai, naturalmente, ter reflexos no modo como o Filho ama os seus amigos, a ponto de estes serem objecto duma particular manifestação.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

PEREGRINAÇÃO DAS CRIANÇAS

 

 

 

V Domingo da Páscoa – Ano A

 

 

Breve comentário

            O texto deste Domingo é o início do primeiro dos discursos de despedida de Jesus, durante a última Ceia com os seus discípulos.

            Nos discursos de despedida presentes no Antigo Testamento e na literatura intertestamentária há alguns traços característicos. O que está para morrer despede-se dos seus familiares ou de todo o povo, recorda-lhes a conduta que devem ter (habitualmente serem fiéis à Lei), algumas vezes confiando-lhes uma missão particular. Há dois textos bíblicos que estão por detrás deste discurso de Jesus: todo o livro do Deuteronómio que mais não é que o discurso de adeus pronunciado por Moisés antes da sua morte, e o salmo 42-43, que fala de perturbação e afastamento, de desejo de permanecer em comunhão com Deus.

            Tomando este modelo literário, João pode falar do futuro. Depois da ressurreição de Jesus todos aqueles que crêm nele poderão entrar em intimidade com o Pai e continuar a sua missão no mundo. Por isso, o discurso de «adeus» torna-se num discurso de «até já».

            Judas tinha acabado de sair. Os discípulos estão tristes, assustados pela partida iminente do Mestre. Jesus sabe que esta situação constitui um perigo para a sua fé. Por isso, a exortação: «Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus; crede também em mim»A fé em Deus é a mesma fé depositada em Jesus porque o Pai se revela no seu Filho. Neste ponto, Jesus garante aos discípulos que essa confiança está firmemente estabelecida: «Na minha casa de Pai há muitas moradas».Existe uma casa de família grande, para onde Jesus vai à nossa frente. Para ele, na verdade, morrer não é cair em um abismo sem fundo, mas «passar deste mundo para o Pai» (Jo 13,1). Por isso, promete aos seus um lugar cuidadosamente preparado para cada um, na perfeita comunhão com o Pai e com Ele. «Voltarei e vos levarei para junto de mim».

No entanto, para viver em comunhão com o Pai é necessária uma relação com Jesus. Os discípulos devem, eles mesmos, começar uma viagem. O caminho, contudo, é novamente o próprio Jesus. Ele tinha dito: «Eu sou a porta» (Jo 10,7.9). Agora apresenta-se como o Caminho, a Verdade e a Vida.

Tal como é «a porta», Jesus é o único caminho para o Pai: «Ninguém vai ao Pai senão por mim». É a única maneira para o Pai, porque é a única verdade, a única vida.

 A «verdade» significa revelação. Jesus não é o único que revela Deus como Pai, mas em tudo ? diz ele ? em tudo que faz, é a revelação de Deus. Não é uma revelação parcial de Deus, mas a revelação completa, total e definitiva do Pai porque Jesus é o filho único e, em tudo o que diz e faz, revela-se como o Filho num perfeito relacionamento de amor com o Pai.

Ele é a «vida», isto é, através da união com Jesus, o Filho, temos a união com Deus, o Pai, e depois a vida eterna, que é a própria vida do Pai. Como Jesus é o Filho único gerado de Deus, só Ele é a porta e o caminho para o Pai, em que o homem encontra a auto-realização e definitiva felicidade perfeita.

O equívoco típico do evangelho de S. João surge na pergunta de Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta!».Aresposta de Jesus é clara: «Há tanto tempo que estou convosco, e não me conhecestes, Filipe? Quem me viu, viu o Pai». O Pai e o Filho estão mutuamente ligados por uma união perfeita. Isso significa que, quando Jesus fala, fala o Pai, quando Jesus faz um gesto, é o Pai quem faz. Essas obras são os milagres de Jesus, as suas acções, toda a sua existência, que manifestam a sua relação filial com o Pai e o amor do Pai por meio dele que salva os homens. Por isso, quem olhar com fé para o Filho, vê nele e através dele, o Pai. A consequência é que aqueles que crêem em Jesus vão fazer o que Jesus fez, isto é, continuar a amar como Jesus amou e agir como Jesus agiu. Com efeito, a existência e as actividades daqueles que pela fé estão unidos a Cristo continuam a revelar o Pai e levar os homens a Ele. De facto, Jesus acrescenta que os discípulos farão obras «maiores»: neles continuará, para sempre, a tarefa de Jesus de manifestar o amor do Pai.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

IV Domingo da Páscoa – Ano A

 

 

Breve comentário

       O texto do evangelho de S. João proposto para este domingo, chamado Domingo do Bom Pastor, apresenta-se como um tijolo encaixado numa parede já construída. Imediatamente antes, em Jo 9,40-41, Jesus falava da cegueira dos fariseus. Logo a seguir ao texto de hoje, em Jo 10,19-21, vemos a conclusão da discussão sobre a cegueira. Assim, as palavras sobre o Bom Pastor ensinam o que fazer para tirar a cegueira dos olhos. Com este encaixe, a «parede» fica mais forte e mais bela.

       Jesus se