Quinta-Feira, 27 de Novembro de 2014
 
PÁROCOS - 1900...

Novo Ano Litúrgico 

 

 

 

Uma monja carmelita

 

XXXIV Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei e Senhor do Universo

 

«Sentar-Se-á no seu trono glorioso

e separará uns dos outros»

 

 

EVANGELHO –  Mt 25,31-46

 

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus


 

Naquele tempo,

disse Jesus aos seus discípulos:

«Quando o Filho do homem vier na sua glória

com todos os seus Anjos,

sentar-Se-á no seu trono glorioso.

Todas as nações se reunirão na sua presença

e Ele separará uns dos outros,

como o pastor separa as ovelhas dos cabritos;

e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.

Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita:

‘Vinde, bem ditos de meu Pai;

recebei como herança o reino

que vos está preparado desde a criação do mundo.

Porque tive fome e destes-Me de comer;

tive sede e destes-me de beber;

era peregrino e Me recolhestes;

não tinha roupa e Me vestistes;

estive doente e viestes visitar-Me;

estava na prisão e fostes ver-Me’.

Então os justos Lhe dirão:

‘Senhor, quando é que Te vimos com fome

e Te demos de comer,

ou com sede e Te demos de beber?

Quando é que Te vimos peregrino e te recolhemos,

ou sem roupa e Te vestimos?

Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’

E o Rei lhes responderá:

‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes

a um dos meus irmãos mais pequeninos,

a Mim o fizestes’.

Dirá então aos que estiverem à sua esquerda:

‘Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno,

preparado para o demónio e os seus anjos.

Porque tive fome e não Me destes de comer;

tive sede e não Me destes de beber;

era peregrino e não Me recolhestes;

estava sem roupa e não Me vestistes;

estive doente e na prisão e não Me fostes visitar’.

Então também eles Lhe hão-de perguntar:

‘Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede,

peregrino ou sem roupa, doente ou na prisão,

e não Te prestámos assistência?’

E Ele lhes responderá:

‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o deixastes de fazer

a um dos meus irmãos mais pequeninos,

também a Mim o deixastes de fazer’.

Estes irão para o suplício eterno

e os justos para a vida eterna».

 

Palavra da salvação.

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:


• Quem é que a nossa sociedade considera uma “pessoa de sucesso”? Qual o perfil do homem “importante”? Quais são os padrões usados pela nossa cultura para aferir a realização ou a não realização de alguém? No geral, o “homem de sucesso”, que todos reconhecem como importante e realizado, é aquele que tem dinheiro suficiente para concretizar todos os sonhos e fantasias, que tem poder suficiente para ser temido, que tem êxito suficiente para juntar à sua volta multidões de aduladores, que tem fama suficiente para ser invejado, que tem talento suficiente para ser admirado, que tem a pouca vergonha suficiente para dizer ou fazer o que lhe apetece, que tem a vaidade suficiente para se apresentar aos outros como modelo de vida… No entanto, de acordo com a parábola que o Evangelho propõe, o critério fundamental usado por Jesus para definir quem é uma “pessoa de sucesso” é a capacidade de amar o irmão, sobretudo o mais pobre e desprotegido. Para mim, o que é que faz mais sentido: o critério do mundo ou o critério de Deus? Na minha perspectiva, qual é mais útil e necessário: o “homem de sucesso” do mundo ou o “homem de sucesso” de Deus?

• O amor ao irmão é, portanto, uma condição essencial para fazer parte do Reino. Nós cristãos, cidadãos do Reino, temos consciência disso e sentimo-nos responsáveis por todos os irmãos que sofrem? Os que não têm trabalho, nem pão, nem casa, podem contar com a nossa solidariedade activa? Os imigrantes, perdidos numa realidade cultural e social estranha, vítimas de injustiças e violências, condenados a um trabalho escravo e que, tantas vezes, não respeita a sua dignidade, podem contar com a nossa solidariedade activa? Os pobres, vítimas de injustiças, que nem sequer têm a possibilidade de recorrer aos tribunais para que lhes seja feita justiça, podem contar com a nossa solidariedade activa? Os que sobrevivem com pensões de miséria, sem possibilidades de comprar os medicamentos necessários para aliviar os seus padecimentos, podem contar com a nossa solidariedade activa? Os que estão sozinhos, abandonados por todos, sem amor nem amizade, podem contar com a nossa solidariedade activa? Os que estão presos a um leito de hospital ou a uma cela de prisão, marginalizados e condenados em vida, podem contar com a nossa solidariedade activa?

• O Reino de Deus – isto é, esse mundo novo onde reinam os critérios de Deus e que se constrói de acordo com os valores de Deus – é uma semente que Jesus semeou, que os discípulos são chamados a edificar na história (através do amor) e que terá o seu tempo definitivo no mundo que há-de vir. Não esqueçamos, no entanto, este facto essencial: o Reino de Deus está no meio de nós; a nossa missão é fazer com que ele seja uma realidade bem viva e bem presente no nosso mundo. Depende de nós fazer com que o Reino deixe de ser uma miragem, para passar a ser uma realidade a crescer e a transformar o mundo e a vida dos homens.

• Alguém acusou a religião cristã de ser o “ópio do povo”, por pôr as pessoas a sonhar com o mundo que há-de vir, em lugar de as levar a um compromisso efectivo com a transformação do mundo, aqui e agora. Na verdade, nós os cristãos caminhamos ao encontro do mundo que há-de vir, mas de pés bem assentes na terra, atentos à realidade que nos rodeia e preocupados em construir, desde já, um mundo de justiça, de fraternidade, de liberdade e de paz. A experiência religiosa não pode, nunca, servir-nos de pretexto para a evasão, para a fuga às responsabilidades, para a demissão das nossas obrigações para com o mundo e para com os irmãos.

 

 

 

XXXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Foste fiel em coisas pequenas:

vem tomar parte na alegria do teu senhor»

 

 

EVANGELHO –  Mt 25,14-30

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

Naquele tempo,

Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:

«Um homem, ao partir de viagem,

chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens.

A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um,

conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu.

O que tinha recebido cinco talentos

fê-los render e ganhou outros cinco.

Do mesmo modo,

o que recebera dois talentos ganhou outros dois.

Mas, o que recebera dois talentos ganhou outros dois.

Mas, o que recebera um só talento

foi escavar na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.

Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servos

e foi ajustar contas com eles.

O que recebera cinco talentos aproximou-se

e apresentou outros cinco, dizendo:

‘Senhor, confiaste-me cinco talentos:

aqui estão outros cinco que eu ganhei’.

Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel.

Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.

Vem tomar parte na alegria do teu senhor’.

Aproximou-se também o que recebera dois talentos e disse:

‘Senhor, confiaste-me dois talentos:

aqui estão outros dois que eu ganhei’.

Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel.

Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.

Vem tomar parte na alegria do teu senhor’.

Aproximou-se também o que recebera um só talento e disse:

‘Senhor, eu sabia que és um homem severo,

que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste.

Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra.

Aqui tens o que te pertence’.

O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso,

sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei;

devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro

e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu.

Tirai-lhe então o talento e dai-o àquele que tem dez.

Porque, a todo aquele que tem,

dar-se-á mais e terá em abundância;

mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.

Quanto ao servo inútil, lançai-o às trevas exteriores.

Aí haverá choro e ranger de dentes’».


Palavra da salvação.

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• Antes de mais, é preciso ter presente que nós, os cristãos, somos agora no mundo as testemunhas de Cristo e do projecto de salvação/libertação que o Pai tem para os homens. É com o nosso coração que Jesus continua a amar os publicanos e os pecadores do nosso tempo; é com as nossas palavras que Jesus continua a consolar os que estão tristes e desanimados; é com os nossos braços abertos que Jesus continua a acolher os imigrantes que fogem da miséria e da degradação; é com as nossas mãos que Jesus continua a quebrar as cadeias que prendem os escravizados e oprimidos; é com os nossos pés que Jesus continua a ir ao encontro de cada irmão que está sozinho e abandonado; é com a nossa solidariedade que Jesus continua a alimentar as multidões famintas do mundo e a dar medicamentos e cultura àqueles que nada têm… Nós, cristãos, membros do “corpo de Cristo”, que nos identificamos com Cristo, temos a grave responsabilidade de O testemunhar e de deixar que, através de nós, Ele continue a amar os homens e as mulheres que caminham ao nosso lado pelos caminhos do mundo.

• Os dois “servos” da parábola que, talvez correndo riscos, fizeram frutificar os “bens” que o “senhor” lhes deixou, mostram como devemos proceder, enquanto caminhamos pelo mundo à espera da segunda vinda de Jesus. Eles tiveram a ousadia de não se contentar com o que já tinham; não se deixaram dominar pelo comodismo e pela apatia… Lutaram, esforçaram-se, arriscaram, ganharam. Todos os dias, há cristãos que têm a coragem de arriscar. Não aceitam a injustiça e lutam contra ela; não pactuam com o egoísmo, o orgulho, a prepotência e propõem, em troca, os valores do Evangelho; não aceitam que os grandes e poderosos decidam os destinos do mundo e têm a coragem de lutar objectivamente contra os projectos desumanos que desfeiam esta terra; não aceitam que a Igreja se identifique com a riqueza, com o poder, com os grandes e esforçam-se por torná-la mais pobre, mais simples, mais humana, mais evangélica; não aceitam que a liturgia tenha de ser sempre tão solene que assuste os mais simples, nem tão etérea que não tenha nada a ver com a vida do dia a dia… Muitas vezes, são perseguidos, condenados, desautorizados, reduzidos ao silêncio, incompreendidos; muitas vezes, no seu excesso de zelo, cometem erros de avaliação, fazem opções erradas… Apesar de tudo, Jesus diz-lhes: “muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu Senhor”.

• O servo que escondeu os “bens” que o Senhor lhe confiou mostra como não devemos proceder, enquanto caminhamos pelo mundo à espera da segunda vinda de Jesus. Esse servo contentou-se com o que já tinha e não teve a ousadia de querer mais; entregou-se sem luta, deixou-se dominar pelo comodismo e pela apatia… Não lutou, não se esforçou, não arriscou, não ganhou. Todos os dias há cristãos que desistem por medo e cobardia e se demitem do seu papel na construção de um mundo melhor. Limitam-se a cumprir as regras, ou a refugiar-se no seu cantinho cómodo, sem força, sem vontade, sem coragem de ir mais além. Não falham, não cometem “pecados graves”, não fazem mal a ninguém, não correm riscos; limitam-se a repetir sempre os mesmos gestos, sem inovar, sem purificar, sem nada transformar; não fazem, nem deixam fazer e limitam-se a criticar asperamente aqueles que se esforçam por mudar as coisas… Não põem a render os “bens” que Deus lhes confiou e deixam-nos secar sem dar frutos. Jesus diz-lhes: “servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde não lancei; devias, portanto, depositar o meu dinheiro no banco e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu”.

 

 

Semana dos Seminários 2014 – 9 a 16 Novembro

 

   Nesta Semana dos Seminários de 2014, reafirmamos a nossa certeza de que o caminho da Igreja é o caminho da alegria do Evangelho, ou seja, o caminho de Cristo, que transforma as dores da humanidade, a tristeza, o desespero e a morte, em nova aurora de vida, de esperança e de alegria. Reafirmamos que o caminho da evangelização do mundo passa pelo testemunho de vida de muitas pessoas, famílias e comunidades, que se sentem felizes por estar fundadas em Cristo. Do mesmo modo, assumimos que a via mais segura para o cultivo das vocações sacerdotais entre os jovens, exige que todos nós, cristãos, vivamos e testemunhemos a alegria do encontro com o Evangelho.

   Rezamos pelos nossos Seminários, para que sejam escolas de formação dos futuros padres, servidores da alegria do Evangelho.


 

 

São Francisco de Assis

 

 

XXXII Domingo do Tempo Comum – Ano A

«Falava do templo do seu Corpo»

 

 

Dedicação da Basílica de Latrão

 

EVANGELHO –  Jo 2,12-22

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

 

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Estava próxima a Páscoa dos judeus

e Jesus subiu a Jerusalém.

Encontrou no templo

os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas

e os cambistas sentados às bancas.

Fez então um chicote de cordas

e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois;

deitou por terra o dinheiro dos cambistas

e derrubou-lhes as mesas;

e disse aos que vendiam pombas:

«Tirai tudo isto daqui;

não façais da casa de meu Pai casa de comércio».

Os discípulos recordaram-se do que estava escrito:

«Devora-me o zelo pela tua casa».

Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe:

«Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?».

Jesus respondeu-lhes:

«Destruí este templo e em três dias o levantarei».

Disseram os judeus:

«Foram precisos quarenta e seis anos para construir este templo

e Tu vais levantá-lo em três dias?».

Jesus, porém, falava do templo do seu Corpo.

Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos,

os discípulos lembraram-se do que tinha dito

e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus.

 

Palavra da salvação.

 

Breve comentário

A introdução do texto faz menção da Páscoa dos judeus, expressão típica de João, procura pôr uma nítida separação entre a festa hebraica e a páscoa cristã. Para Jesus, a festa hebraica tinha perdido o seu significado, passando da recordação da libertação a uma ocasião de comércio.

Ao tempo de Jesus, a cidade de Jerusalém, que habitualmente teria 50 000 habitantes, em alturas de Páscoa albergava à volta de 150 000 para a celebração da grande festividade. Chegava gente de toda a região da Palestina mas também de todos os pontos do Império Romano, alguns deles provavelmente para fazerem a sua única peregrinação à Cidade Santa.

Todos precisavam de adquirir um cordeiro para a ceia pascal, todos compravam ovelhas ou bois ou pombas para oferecerem em holocausto no altar do Senhor. Os que vinham de fora precisavam de trocar as suas moedas romanas, impuras perante a Lei judaica, por outras de cobre que ofereciam ao Templo. Tratava-se, portanto, duma ocasião que os comerciantes e cambistas não podiam perder para, por um lado, prestar um serviço aos que chegavam e, por outro, obter um bom lucro. E todo este negócio era controlado pelas grandes famílias sacerdotais, na altura a família de Anás e Caifás. Neste ambiente, o evangelista João apresenta um episódio dando, ao mesmo tempo, o significado profundo da acção de Jesus.

A insistência nos animais, cujo nome é repetido duas vezes, poderia aludir à substituição dos sacrifícios antigos com o sacrifício definitivo do «cordeiro de Deus» e sugerir a passagem da ordem cultual à ordem pessoal no culto a Deus que Jesus está para inaugurar.

Jesus tinha entrado no templo outras vezes. Recordemos a narração de Lucas, quando Jesus aos doze anos se encontra de tal modo na «Casa do Pai» que até se esquece de regressar para Nazaré. Por isso, não era novidade para ele o que se passava naquele lugar santo. Mas chegou a hora de realizar, como em Caná, um novo sinal. O templo tornou-se um lugar de comércio. Em vez de encontrar pessoas enamoradas por Deus, Jesus vê gente ávida de lucro, não querendo saber do lugar onde se encontravam.

            Jesus cumpre o acto profético anunciado pelo profeta Zacarias (14,21): «Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio», ao proclamar a presença do «dia do Senhor». Jesus é o Filho que vem no dia do Senhor à casa de seu Pai.

            Uma interpretação surge na forma de entender por parte dos discípulos: «O zelo da tua casa me devorará», passagem do Salmo 69,10 – salmo dos justos que sofrem – que também se irá realizar na pessoa de Jesus que purificará verdadeiramente o templo à custa da sua vida.

            O desafio lançado por Jesus, como sinal da sua acção, irá constituir uma ofensa para os defensores da continuidade: «Destruí este Templo, e em três dias o farei ressurgir». Percebido à letra pelos seus opositores, apenas captado pelos discípulos após a ressurreição de Jesus, este sinal anuncia a grande substituição que se irá operar. Todo o verdadeiro culto deixará de estar ligado ao templo de Jerusalém para se deslocar para a pessoa de Jesus, verdadeiro Templo de Deus em que se realiza realmente o encontro de Deus e o homem. A afirmação «absurda» de Jesus será usada mais tarde no Sinédrio como acusação contra ele. Jesus é o templo que assegura a presença de Deus no mundo, a presença do seu amor. A morte na cruz fará dele um templo único e definitivo de Deus.

            «Os discípulos recordaram-se…e acreditaram». O evangelista usa duas vezes esta frase, estabelecendo um paralelo entre a função da Escritura e das palavras de Jesus. A palavra de Jesus, tal como a palavra da Escritura, é objeto de fé.

 

 P. Franclim Pacheco


 

 

Nunca nos deixes só…

Anónimo

 

 

Comemoração de todos Fiéis Defuntos – Ano A

 

«Vinde a Mim...Eu vos aliviarei»

 

 

EVANGELHO –  Mt 11,25-30

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus


 

Naquele tempo, Jesus exclamou:

«Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra,

porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes

e as revelaste aos pequeninos.

Sim, Pai, Eu Te bendigo,

porque assim foi do teu agrado.

Tudo Me foi dado por meu Pai.

Ninguém conhece o Filho senão o Pai

e ninguém conhece o Pai senão o Filho

e aquele a quem o Filho o quiser revelar.

Vinde a Mim,

todos os que andais cansados e oprimidos,

e Eu vos aliviarei.

Tomai sobre vós o meu jugo

e aprendei de Mim,

que sou manso e humilde de coração,

e encontrareis descanso para as vossas almas.

Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».

 

Palavra da Salvação

 

 

Breve comentário

            Para melhor entender o texto de hoje é bom situá-lo no seu contexto. No evangelho de Mateus, o discurso da Missão, em que Jesus dá instruções aos apóstolos enviados a anunciar o Reino, ocupa todo o cap. 10. Na parte narrativa que se segue aparecem as incompreensões e as resistências que Jesus deve enfrentar. João Baptista e o povo não o compreendem (Mt 11,1-15). As grandes cidades à volta do mar da Galileia não querem abrir-se à sua mensagem (Mt 11,20-24). Os escribas e doutores não são capazes de perceber a pregação de Jesus (Mt 11,25). Nem os parentes o entendem (Mt 12,46-50). Só os pequenos entendem e aceitam a Boa Nova do reino (Mt 11,25-30). Os outros querem holocaustos, isto é, os animais oferecidos em holocausto a Deus, mas Jesus quer misericórdia (Mt 12, 8).  A resistência contra Jesus leva os fariseus a procurar matá-lo (Mt 12, 9-14). Eles chamam-lhe Belzebu (Mt 12,22-32). Mas Jesus não volta atrás: continua a assumir a missão de Servo, descrito pelo profeta Isaías (Is 42,1-4) e citado por inteiro por Mateus (Mt 12, 15-21).

            Na linha deste contexto, Jesus é o Messias esperado, mas diferente do que a maioria esperava. Não é o Messias nacionalista, nem um juiz severo, nem um Messias rei poderoso. Mas é o Messias humilde e servo que não quebra a cana já fendida, nem apaga a torcida fumegante.

            Encontramos no texto de hoje uma das raras orações de bênção referidas pelos evangelhos sinópticos, mais ainda, a única, se excluirmos a invocação no Getsémani. À chegada dos seus discípulos que tinham sido enviados em missão, Jesus reconhece publicamente e proclama em louvor e acção de graças que o Pai, na sua livre iniciativa e benevolência escolheu «os pequeninos» como destinatários da revelação. Estes pequeninos são opostos aos «sábios e inteligentes» que, por sua vez, na tradição profética são opostos aos humildes e pobres.

            Perante o acolhimento da mensagem do Reino por parte dos pequeninos, Jesus experimenta uma enorme alegria e, espontaneamente, transforma a sua alegria em oração de júbilo e acção de graças ao Pai. Os sábios e doutores daquele tempo tinham criado uma série de leis relacionadas com a pureza legal que impunham ao povo em nome de Deus (Mt 15,1-9). Eles pensavam que Deus exigia todas estas observâncias para que o povo pudesse ter paz. Mas a lei do amor, revelada por Jesus, afirmava o contrário: o que importa não é o que fazemos a Deus, mas sobretudo o que Deus, no seu grande amor, faz por nós! Jesus, sendo o Filho, conhece o Pai e sabe que o que o Pai queria quando, no passado, tinha chamado Abraão e Sara para formar um povo ou quando entregou a Lei a Moisés para firmar a Aliança. A intimidade com o Pai oferecia-lhe um critério novo que o colocava em contacto directo com o autor da Bíblia.

            Jesus convida todos os que estão cansados e promete-lhes repouso. O povo daquele tempo vivia cansado com o duplo peso dos impostos mas também das observâncias exigidas pelas leis da pureza legal. «Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim que sou manso e humilde coração».

            No seu modo de anunciar a boa nova do Reino, Jesus revela uma grande paixão pelo Pai e pelo povo humilhado. Ao contrário dos doutores do seu tempo, ele anuncia a Boa Nova de Deus em qualquer lugar onde houver pessoas que o escutem: nas sinagogas, nas casas dos amigos, ao longo dos caminhos com os discípulos, nas praias do Mar da Galileia, na montanha, nas praças das aldeias e cidades e também no templo de Jerusalém.

O jugo da vontade de Deus deixou de ser um jugo opressivo e duro, mas gera agora a paz gloriosa prometida aos humildes e mansos, garantia da salvação definitiva. O jugo de Jesus é suave e o seu fardo é leve, não porque não seja exigente mas porque tirou carga legalista. Fazer a vontade de Deus deixou de ser um código ou um sistema moral a interpretar e a seguir, para ser simplesmente seguir Jesus, o Filho, que revela e realiza a vontade de Deus de modo definitivo e pleno.

Franclim Pacheco

 

 

Oscar Niemeyer

 

 

XXX Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Amarás o Senhor teu Deus e o próximo como a ti mesmo»

 

EVANGELHO –  Mt 22,34-40

 

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

Naquele tempo,

os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus,

reuniram-se em grupo,

e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar:

«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?».

Jesus respondeu:

«‘Amarás o Senhor, teu Deus,

com todo o teu coração, com toda a tua alma

e com todo o teu espírito’.

Este é o maior e o primeiro mandamento.

O segundo, porém, é semelhante a este:

‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’.

Nestes dois mandamentos se resumem

toda a Lei e os Profetas».

 

Palavra da Salvação

 

Na reflexão, considerar as seguintes questões:

 

• Mais de dois mil anos de cristianismo criaram uma pesada herança de mandamentos, de leis, de preceitos, de proibições, de exigências, de opiniões, de pecados e de virtudes, que arrastamos pesadamente pela história. Algures durante o caminho, deixámos que o inevitável pó dos séculos cobrisse o essencial e o acessório; depois, misturámos tudo, arrumámos tudo sem grande rigor de organização e de catalogação e perdemos a noção do que é verdadeiramente importante. Hoje, gastamos tempo e energias a discutir certas questões que são importantes (o casamento dos padres, o sacerdócio das mulheres, o uso dos meios anticonceptivos, as questões acerca do que é ou não litúrgico, aos problemas do poder e da autoridade, os pormenores legais da organização eclesial…) mas continuamos a ter dificuldade em discernir o essencial da proposta de Jesus. O Evangelho deste domingo põe as coisas de forma totalmente clara: o essencial é o amor a Deus e o amor aos irmãos. Nisto se resume toda a revelação de Deus e a sua proposta de vida plena e definitiva para os homens. Precisamos de rever tudo, de forma a que o lixo acumulado não nos impeça de compreender, de viver, de anunciar e de testemunhar o cerne da proposta de Jesus.

• O que é “amar a Deus”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor a Deus passa, antes de mais, pela escuta da sua Palavra, pelo acolhimento das suas propostas e pela obediência total aos seus projectos – para mim próprio, para a Igreja, para a minha comunidade e para o mundo. Esforço-me, verdadeiramente, por tentar escutar as propostas de Deus, mantendo um diálogo pessoal com Ele, procurando reflectir e interiorizar a sua Palavra, tentando interpretar os sinais com que Ele me interpela na vida de cada dia? Tenho o coração aberto às suas propostas, ou fecho-me no meu egoísmo, nos meus preconceitos e na minha auto-suficiência, procurando construir uma vida à margem de Deus ou contra Deus? Procuro ser, em nome de Deus e dos seus planos, uma testemunha profética que interpela o mundo, ou instalo-me no meu cantinho cómodo e renuncio ao compromisso com Deus e com o Reino?

 

• O que é “amar os irmãos”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor aos irmãos passa por prestar atenção a cada homem ou mulher com quem me cruzo pelos caminhos da vida (seja ele branco ou negro, rico ou pobre, nacional ou estrangeiro, amigo ou inimigo), por sentir-me solidário com as alegrias e sofrimentos de cada pessoa, por partilhar as desilusões e esperanças do meu próximo, por fazer da minha vida um dom total a todos. O mundo em que vivemos precisa de redescobrir o amor, a solidariedade, o serviço, a partilha, o dom da vida… Na realidade, a minha vida é posta ao serviço dos meus irmãos, sem distinção de raça, de cor, de estatuto social? Os pobres, os necessitados, os marginalizados, os que alguma vez me magoaram e ofenderam, encontram em mim um irmão que os ama, sem condições?

 

 

Pobres de espírito…

 

 

MENSAGEM - REGRESSO À ATIVIDADE PAROQUIAL 

 

Caros paroquianos:

Depois destes 20 dias de ausência das paróquias, por motivos de saúde, eis que venho retomar a minha atividade paroquial.
Sei que ainda estou muito limitado/debilitado, mas também me faz bem ir até junto de vós, para caminharmos juntos e nos ajudarmos mutuamente.
Desde já, agradeço a todos aqueles e aquelas que com a sua oração, preocupação e amizade, me tiveram sempre presente diante do Senhor e de Sua e nossa Mãe, Maria Santíssima. Obrigado a todos. Que Ele vos recompense.
Agradeço também ao senhor Padre Mário Nunes a sua amizade, colaboração e dedicação, bem como ao nosso colaborador, senhor Diácono Diniz. Obrigado.
Por fim, quero continuar a poder contar convosco, para que assumindo a nossa pobreza/fragilidade, dediquemo-nos alegremente ao serviço do Evangelho, como nos recorda o Papa Francisco na sua recente Exortação Apostólica "Evangelii Gaudium".
Até já e bom fim-de-semana.

O vosso Prior e amigo,
Padre João


XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus»

 

 

EVANGELHO – Mt 22,15-21

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

Naquele tempo,

os fariseus reuniram-se para deliberar

sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse.

Enviaram-Lhe alguns dos seus discípulos,

juntamente com os herodianos, e disseram-Lhe:

«Mestre, sabemos que és sincero

e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus,

sem Te deixares influenciar por ninguém,

pois não fazes acepção de pessoas.

Diz-nos o teu parecer:

É lícito ou não pagar tributo a César?».

Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu:

«Porque Me tentais, hipócritas?

Mostrai-me a moeda do tributo».

Eles apresentaram-Lhe um denário,

e Jesus perguntou:

«De quem é esta imagem e esta inscrição?».

Eles responderam: «De César».

Disse-lhes Jesus:

«Então, daí a César o que é de César

e a Deus o que é de Deus».

 

Palavra da Salvação

 

Na reflexão, considerar as seguintes questões:

• A questão essencial que o nosso texto aborda é esta: o homem pertence a Deus e deve considerar Deus o seu único senhor e a sua referência fundamental. No entanto, embriagados pelo turbilhão das liberdades e das novas descobertas, os homens do nosso tempo consideraram que eram capazes de descobrir, por si próprios, os caminhos da vida e da felicidade e que podiam prescindir de Deus… Instalaram-se no orgulho e na auto-suficiência e deixaram Deus de fora das suas vidas. É preciso voltarmos a Deus e redescobrirmos a sua centralidade na nossa existência. Deus não atenta contra a nossa identidade e a nossa liberdade. Fomos criados para a comunhão com Deus e só nos sentiremos felizes e realizados quando nos entregarmos confiadamente nas suas mãos e fizermos d’Ele o centro da nossa caminhada.

• Em muitos casos, Deus foi apenas substituído por outros “deuses”: o dinheiro, o poder, o êxito, a realização profissional, a ascensão social, o clube de futebol… tomaram o lugar de Deus e passaram a dirigir e a condicionar a vida de tantos dos nossos contemporâneos. Quase sempre, no entanto, essa troca trouxe, apenas, escravidão, alienação, frustração e sentimentos de solidão e de orfandade… Como me sinto face a isto? Há outros deuses a tomarem posse da minha vida, a condicionarem as minhas opções, a dirigirem os meus interesses, a dominarem os meus projectos? Quais são esses deuses? Eles asseguraram-me a felicidade e a plena realização, ou tornam-me cada vez mais escravo e dependente?

• O homem e a mulher foram criados à imagem de Deus. Eles não são, portanto, objectos que podem ser usados, explorados e alienados, mas seres revestidos de uma suprema dignidade, de uma dignidade divina. Apesar da Declaração Universal dos Direitos do Homem e de uma infinidade de organizações e de associações destinadas a proteger e a assegurar os direitos, liberdades e garantias, há milhões de homens, mulheres e crianças que continuam, todos os dias, a ser maltratados, humilhados, explorados, desprezados, diminuídos na sua dignidade. Destruir a imagem de Deus que existe em cada criança, mulher ou homem, é um grave crime contra Deus. Nós, os cristãos, não podemos permitir que tal aconteça. Devemos sentir-nos responsáveis sempre que algum irmão ou irmã, em qualquer canto do mundo, é privado dos seus direitos e da sua dignidade; e temos o dever grave de lutar, de forma objectiva, contra todos os sistemas que, na Igreja ou na sociedade, atentem contra a vida e a dignidade de qualquer pessoa.

• Para o cristão, Deus é a referência fundamental e está sempre em primeiro lugar; mas isso não significa que o cristão viva à margem do mundo e se demita das suas responsabilidades na construção do mundo. O cristão deve ser um cidadão exemplar, que cumpre as suas responsabilidades e que colabora activamente na construção da sociedade humana. Ele respeita as leis e cumpre pontualmente as suas obrigações tributárias, com coerência e lealdade. Não foge aos impostos, não aceita esquemas de corrupção, não infringe as regras legalmente definidas. Vive de olhos postos em Deus; mas não se escusa a lutar por um mundo melhor e por uma sociedade mais justa e mais fraterna.

• Como é que eu me situo face ao poder político e às instituições civis: com total indiferença, com sujeição cega, ou com lealdade crítica? Como é que eu contribuo para a construção da sociedade? À luz de que critérios e de que valores julgo os factos, as decisões, as leis políticas e sociais que regem a comunidade humana em que estou inserido? As minhas opções políticas são coerentes com os critérios do Evangelho e com os valores de Jesus?

 

 

 

 

 


 

 

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA FRANCISCO

PARA O DIA MUNDIAL DAS MISSÕES 2014

 

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Ainda hoje há tanta gente que não conhece Jesus Cristo. Por isso, continua a revestir-se de grande urgência a missão ad gentes, na qual são chamados a participar todos os membros da Igreja, pois esta é, por sua natureza, missionária: a Igreja nasceu «em saída». O Dia Mundial das Missões é um momento privilegiado para os fiéis dos vários Continentes se empenharem, com a oração e gestos concretos de solidariedade, no apoio às Igrejas jovens dos territórios de missão. Trata-se de uma ocorrência permeada de graça e alegria: de graça, porque o Espírito Santo, enviado pelo Pai, dá sabedoria e fortaleza a quantos são dóceis à sua acção; de alegria, porque Jesus Cristo, Filho do Pai, enviado a evangelizar o mundo, sustenta e acompanha a nossa obra missionária. E, justamente sobre a alegria de Jesus e dos discípulos missionários, quero propor um ícone bíblico que encontramos no Evangelho de Lucas (cf. 10, 21-23).

 

1. Narra o evangelista que o Senhor enviou, dois a dois, os setenta e dois discípulos a anunciar, nas cidades e aldeias, que o Reino de Deus estava próximo, preparando assim as pessoas para o encontro com Jesus. Cumprida esta missão de anúncio, os discípulos regressaram cheios de alegria: a alegria é um traço dominante desta primeira e inesquecível experiência missionária. O Mestre divino disse-lhes: «Não vos alegreis, porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, por estarem os vossos nomes escritos no Céu. Nesse mesmo instante, Jesus estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: “Bendigo-te, ó Pai (…)”. Voltando-se, depois, para os discípulos, disse-lhes em particular: “Felizes os olhos que vêem o que estais a ver”» (Lc 10, 20-21.23).

As cenas apresentadas por Lucas são três: primeiro, Jesus falou aos discípulos, depois dirigiu-Se ao Pai, para voltar de novo a falar com eles. Jesus quer tornar os discípulos participantes da sua alegria, que era diferente e superior àquela que tinham acabado de experimentar.

 

2. Os discípulos estavam cheios de alegria, entusiasmados com o poder de libertar as pessoas dos demónios. Jesus, porém, recomendou-lhes que não se alegrassem tanto pelo poder recebido, como sobretudo pelo amor alcançado, ou seja, «por estarem os vossos nomes escritos no Céu» (Lc 10, 20). Com efeito, fora-lhes concedida a experiência do amor de Deus e também a possibilidade de o partilhar. E esta experiência dos discípulos é motivo de jubilosa gratidão para o coração de Jesus. Lucas viu este júbilo numa perspectiva de comunhão trinitária: «Jesus estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo», dirigindo-Se ao Pai e bendizendo-O. Este momento de íntimo júbilo brota do amor profundo que Jesus sente como Filho por seu Pai, Senhor do Céu e da Terra, que escondeu estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelou aos pequeninos (cf. Lc 10, 21). Deus escondeu e revelou, mas, nesta oração de louvor, é sobretudo a revelação que se põe em realce. Que foi que Deus revelou e escondeu? Os mistérios do seu Reino, a consolidação da soberania divina de Jesus e a vitória sobre satanás.

Deus escondeu tudo isto àqueles que se sentem demasiado cheios de si e pretendem saber já tudo. De certo modo, estão cegos pela própria presunção e não deixam espaço a Deus. Pode-se facilmente pensar em alguns contemporâneos de Jesus que Ele várias vezes advertiu, mas trata-se de um perigo que perdura sempre e tem a ver connosco também. Ao passo que os «pequeninos» são os humildes, os simples, os pobres, os marginalizados, os que não têm voz, os cansados e oprimidos, que Jesus declarou «felizes». Pode-se facilmente pensar em Maria, em José, nos pescadores da Galileia e nos discípulos chamados ao longo da estrada durante a sua pregação.

 

3. «Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado» (Lc 10, 21). Esta frase de Jesus deve ser entendida como referida à sua exultação interior, querendo «o teu agrado» significar o plano salvífico e benevolente do Pai para com os homens. No contexto desta bondade divina, Jesus exultou, porque o Pai decidiu amar os homens com o mesmo amor que tem pelo Filho. Além disso, Lucas faz-nos pensar numa exultação idêntica: a de Maria. «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador» (Lc 1, 46-47). Estamos perante a boa Notícia que conduz à salvação. Levando no seu ventre Jesus, o Evangelizador por excelência, Maria encontrou Isabel e exultou de alegria no Espírito Santo, cantando o Magnificat. Jesus, ao ver o bom êxito da missão dos seus discípulos e, consequentemente, a sua alegria, exultou no Espírito Santo e dirigiu-Se a seu Pai em oração. Em ambos os casos, trata-se de uma alegria pela salvação em acto, porque o amor com que o Pai ama o Filho chega até nós e, por obra do Espírito Santo, envolve-nos e faz-nos entrar na vida trinitária.

O Pai é a fonte da alegria. O Filho é a sua manifestação, e o Espírito Santo o animador. Imediatamente depois de ter louvado o Pai – como diz o evangelista Mateus – Jesus convida-nos: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve» (Mt 11, 28-30). «A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 1).

De tal encontro com Jesus, a Virgem Maria teve uma experiência totalmente singular e tornou-se «causa nostrae laetitiae». Os discípulos, por sua vez, receberam a chamada para estar com Jesus e ser enviados por Ele a evangelizar (cf. Mc 3, 14), e, feito isso, sentem-se repletos de alegria. Porque não entramos também nós nesta torrente de alegria?

 

4. «O grande risco do mundo actual, com a sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 2). Por isso, a humanidade tem grande necessidade de dessedentar-se na salvação trazida por Cristo. Os discípulos são aqueles que se deixam conquistar mais e mais pelo amor de Jesus e marcar pelo fogo da paixão pelo Reino de Deus, para serem portadores da alegria do Evangelho. Todos os discípulos do Senhor são chamados a alimentar a alegria da evangelização. Os bispos, como primeiros responsáveis do anúncio, têm o dever de incentivar a unidade da Igreja local à volta do compromisso missionário, tendo em conta que a alegria de comunicar Jesus Cristo se exprime tanto na preocupação de O anunciar nos lugares mais remotos como na saída constante para as periferias de seu próprio território, onde há mais gente pobre à espera.

Em muitas regiões, escasseiam as vocações ao sacerdócio e à vida consagrada. Com frequência, isso fica-se a dever à falta de um fervor apostólico contagioso nas comunidades, o que faz com as mesmas sejam pobres de entusiasmo e não suscitem fascínio. A alegria do Evangelho brota do encontro com Cristo e da partilha com os pobres. Por isso, encorajo as comunidades paroquiais, as associações e os grupos a viverem uma intensa vida fraterna, fundada no amor a Jesus e atenta às necessidades dos mais carecidos. Onde há alegria, fervor, ânsia de levar Cristo aos outros, surgem vocações genuínas, nomeadamente as vocações laicais à missão. Na realidade,  aumentou a consciência da identidade e missão dos fiéis leigos na Igreja, bem como a noção de que eles são chamados a assumir um papel cada vez mais relevante na difusão do Evangelho. Por isso, é importante uma adequada formação deles, tendo em vista uma acção apostólica eficaz.

 

5. «Deus ama quem dá com alegria» (2 Cor 9, 7). O Dia Mundial das Missões é também um momento propício para reavivar o desejo e o dever moral de participar jubilosamente na missão ad gentes. A contribuição monetária pessoal é sinal de uma oblação de si mesmo, primeiramente ao Senhor e depois aos irmãos, para que a própria oferta material se torne instrumento de evangelização de uma humanidade edificada no amor.

Queridos irmãos e irmãs, neste Dia Mundial das Missões, dirijo o meu pensamento a todas as Igrejas locais: Não nos deixemos roubar a alegria da evangelização! Convido-vos a mergulhar na alegria do Evangelho e a alimentar um amor capaz de iluminar a vossa vocação e missão. Exorto-vos a recordar, numa espécie de peregrinação interior, aquele «primeiro amor» com que o Senhor Jesus Cristo incendiou o coração de cada um; recordá-lo, não por um sentimento de nostalgia, mas para perseverar na alegria. O discípulo do Senhor persevera na alegria, quando está com Ele, quando faz a sua vontade, quando partilha a fé, a esperança e a caridade evangélica.

A Maria, modelo de uma evangelização humilde e jubilosa, elevemos a nossa oração, para que a Igreja se torne uma casa para muitos, uma mãe para todos os povos e possibilite o nascimento de um mundo novo.

 

Vaticano, 8 de Junho – Solenidade de Pentecostes – de 2014.

 

FRANCISCO

 

 

 

“Deus é bom para nós, oferece-nos 

gratuitamente a sua amizade, a sua

alegria, a salvação, mas tantas

vezes não acolhemos os seus dons,

pomos em primeiro lugar as nossas

preocupações materiais, os nossos

interesses”

 

 

 

 

XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Convidai para as bodas todos os que encontrardes»

 

 

EVANGELHO – Mt 22,1-14

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

 

Naquele tempo,

Jesus dirigiu-Se de novo

aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo

e, falando em parábolas, disse-lhes:

«O reino dos Céus pode comparar-se a um rei

que preparou um banquete nupcial para o seu filho.

Mandou os servos chamar os convidados para as bodas,

mas eles não quiseram vir.

Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes:

‘Dizei aos convidados:

Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos,

tudo está pronto. Vinde às bodas’.

Mas eles, sem fazerem caso,

foram um para o seu campo e outro para o seu negócio;

os outros apoderaram-se dos servos,

trataram-nos mal e mataram-nos.

O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos,

que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade.

Disse então aos servos:

‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos.

Ide às encruzilhadas dos caminhos

e convidai para as bodas todos os que encontrardes’.

Então os servos, saindo pelos caminhos,

reuniram todos os que encontraram, maus e bons.

E a sala do banquete encheu-se de convidados.

O rei, quando entrou para ver os convidados,

viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial.

E disse-lhe:

‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’.

Mas ele ficou calado.

O rei disse então aos servos:

‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores;

aí haverá choro e ranger de dentes’.

Na verdade, muitos são os chamados,

mas poucos os escolhidos».

 

Palavra da Salvação

 

Na reflexão, considerar as seguintes questões:

• No nosso texto, a questão decisiva não é se Deus convida ou se não convida; mas é se se aceita ou se não se aceita o convite de Deus para o “banquete” do Reino. Os convidados que não aceitaram o convite representam aqueles que estão demasiado preocupados a dirigir uma empresa de sucesso, ou a escalar a vida a pulso, ou a conquistar os seus cinco minutos de fama, ou a impor aos outros os seus próprios esquemas e projectos, ou a explorar o bem estar que o dinheiro lhes conquistou e não têm tempo para os desafios de Deus. Vivemos obcecados com o imediato, o politicamente correcto, o palpável, o material, e prescindimos dos valores eternos, duradouros, exigentes, que exigem o dom da própria vida. A questão é: onde é que está a verdadeira felicidade? Nos valores do Reino, ou nesses valores efémeros que nos absorvem e nos dominam?

• Os convidados que não aceitaram o convite representam também aqueles que estão instalados na sua auto-suficiência, nas suas certezas, seguranças e preconceitos e não têm o coração aberto e disponível para as propostas de Deus. Trata-se, muitas vezes, de pessoas sérias e boas, que se empenham seriamente na comunidade cristã e que desempenham papéis fundamentais na estruturação dos organismos paroquiais… Mas “nunca se enganam e raramente têm dúvidas”; sabem tudo sobre Deus, já construíram um deus à medida dos seus interesses, desejos e projectos e não se deixam questionar nem interpelar. Os seus corações estão, também, fechados à novidade de Deus.

• Os convidados que aceitaram o convite representam todos aqueles que, apesar dos seus limites e do seu pecado, têm o coração disponível para Deus e para os desafios que Ele faz. Percebem os limites da sua miséria e finitude e estão permanentemente à espera que Deus lhes ofereça a salvação. São humildes, pobres, simples, confiam em Deus e na salvação que Ele quer oferecer a cada homem e a cada mulher e estão dispostos a acolher os desafios de Deus.

• A parábola do homem que não vestiu o traje apropriado convida-nos a considerar que a salvação não é uma conquista, feita de uma vez por todas, mas um sim a Deus sempre renovado, e que implica um compromisso real, sério e exigente com os valores de Deus. Implica uma opção coerente, contínua, diária com a opção que eu fiz no Baptismo… Não é um compromisso de “meias tintas”, de tentativas falhadas, de “tanto se me dá como se me deu”; mas é um compromisso sério e coerente com essa vida nova que Jesus me apresentou.

 

 

 

XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Arrendará a vinha a outros vinhateiros»

 

 

 

EVANGELHO – Mt 21,33-43

 


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

Naquele tempo,

disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo:

«Ouvi outra parábola:

Havia um proprietário que plantou uma vinha,

cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar

e levantou uma torre;

depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe.

Quando chegou a época das colheitas,

mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos.

Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos,

espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no.

Tornou ele a mandar outros servos,

em maior número que os primeiros.

E eles trataram-nos do mesmo modo.

Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo:

‘Respeitarão o meu filho’.

Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si:

‘Este é o herdeiro;

matemo-lo e ficaremos com a sua herança’.

E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.

Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?».

Eles responderam:

«Mandará matar sem piedade esses malvados

e arrendará a vinha a outros vinhateiros,

que lhe entreguem os frutos a seu tempo».

Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura:

‘A pedra que os construtores rejeitaram

tornou-se a pedra angular;

tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’?

Por isso vos digo:

Ser-vos-á tirado o reino de Deus

e dado a um povo que produza os seus frutos».

 

Palavra da Salvação

 

Na reflexão, ter em conta as seguintes questões:


• O problema fundamental posto por este texto é o da coerência com que vivemos o nosso compromisso com Deus e com o Reino. Deus não obriga ninguém a aceitar a sua proposta de salvação e a envolver-se com o Reino; mas uma vez que aceitamos trabalhar na sua “vinha”, temos de produzir frutos de amor, de serviço, de doação, de justiça, de paz, de tolerância, de partilha… O nosso Deus não está disposto a pactuar com situações dúbias, descaracterizadas, amorfas, incoerentes, mentirosas; mas exige coerência, verdade e compromisso. A parábola convida-nos, antes de mais, a não nos deixarmos cair em esquemas de comodismo, de instalação, de facilidade, de “deixa andar”, mas a levarmos a sério o nosso compromisso com Deus e com o Reino e a darmos frutos consequentes. O meu compromisso com o Reino é sincero e empenhado? Quais são os frutos que eu produzo? Quando se trata de fazer opções, ganha o meu comodismo e instalação, ou a minha vontade de servir a construção do Reino?

• O que é que é decisivo para definir a pertença de alguém ao Reino? É ter uma “tradição familiar” cristã? É o ter entrado, por um acto formal (Baptismo) na Igreja? É o ter feito votos de pobreza, castidade e obediência numa determinada congregação religiosa? É o cumprir determinados actos de piedade? É o participar nos ritos? Nada disso é decisivo. O que é decisivo é o “produzir frutos” de amor e de justiça, que pomos ao serviço de Deus e dos nossos irmãos. Como é que eu entendo e vivo a minha caminhada de fé?

• A parábola fala de trabalhadores da “vinha” de Deus que rejeitam o “filho” de forma absoluta e radical. É provável que nenhum de nós, por um acto de vontade consciente, se coloque numa atitude semelhante e rejeite Jesus. No entanto, prescindir dos valores de Jesus e deixar que sejam o egoísmo, o comodismo, o orgulho, a arrogância, o dinheiro, o poder, a fama, a condicionar as nossas opções é, na mesma, rejeitar Jesus, colocá-l’O à margem da nossa existência. Como é que, no dia a dia, acolhemos e inserimos na nossa vida os valores de Jesus? As propostas de Jesus são, para nós, valores consistentes, que procuramos integrar na nossa existência e que servem de alicerce à construção da nossa vida, ou são valores dos quais nos descartamos com facilidade, sob pressão de interesses egoístas e comodistas?

• As nossas comunidades cristãs e religiosas são constituídas por homens e mulheres que se comprometeram com o Reino e que trabalham na “vinha” do Senhor. Deviam, portanto, produzir frutos bons e testemunhar diante do mundo, em gestos de amor, de acolhimento, de compreensão, de misericórdia, de partilha, de serviço, a realidade do Reino que Jesus Cristo veio propor. É isso que acontece, ou limitamo-nos a ter muitos grupos paroquiais, a preparar organigramas impressionantes da dinâmica comunitária, a construir espaços físicos amplos e confortáveis, a recitar a liturgia das horas, a produzir liturgias solenes, faustosas, imponentes… e completamente desligadas da vida?

Reflexão...

 

OUTRAS INFORMAÇÕES DA CATEQUESE

 
Início da catequese - 28/09/2014, às 10h30
Fim do 1º período - 20/21 de Dezembro de 2014
Início do 2º período - 10/11 de Janeiro de 2015 
Fim do 2º período - 29 de Março de 2015 (Domingo de ramos)
Início do 3º período - 11/12 de Abril de 2015
Fim do Ano Pastoral - 21 de Junho de 2015 (Dia da Comunidade Paroquial)

 

 

 

XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Arrependeu-se e foi.

Os publicanos e as mulheres de má vida

irão diante de vós para o reino de Deus»

 

EVANGELHO – Mt 21,28-32



Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus



Naquele tempo,

disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes

e aos anciãos do povo:

«Que vos parece?

Um homem tinha dois filhos.

Foi ter com o primeiro e disse-lhe:

‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha’.

Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero’.

Depois, porém, arrependeu-se e foi.

O homem dirigiu-se ao segundo filho

e falou-lhe do mesmo modo.

Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor’.

Mas de facto não foi.

Qual dos dois fez a vontade ao pai?»

Eles responderam-Lhe: «O primeiro».

Jesus disse-lhes:

«Em verdade vos digo:

Os publicanos e as mulheres de má vida

irão diante de vós para o reino de Deus.

João Baptista veio até vós,

ensinando-vos o caminho da justiça,

e não acreditastes nele;

mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram.

E vós, que bem o vistes,

não vos arrependestes, acreditando nele».

Palavra da Salvação

 

Para a reflexão, ter em conta os seguintes desenvolvimentos:

• Antes de mais, a parábola dos dois filhos chamados para trabalhar “na vinha” do pai sugere que, na perspectiva de Deus, todos os seus filhos são iguais e têm a mesma responsabilidade na construção do Reino. Deus tem um projecto para o mundo e quer ver todos os seus filhos – sem distinção de raça, de cor, de estatuto social, de formação intelectual – implicados na concretização desse projecto. Ninguém está dispensado de colaborar com Deus na construção de um mundo mais humano, mais justo, mais verdadeiro, mais fraterno. Tenho consciência de que também eu sou chamado a trabalhar na vinha de Deus?

• Diante do chamamento de Deus, há dois tipos de resposta… Há aqueles que escutam o chamamento de Deus, mas não são capazes de vencer o imobilismo, a preguiça, o comodismo, o egoísmo, a auto-suficiência e não vão trabalhar para a vinha (mesmo que tenham dito “sim” a Deus e tenham sido baptizados); e há aqueles que acolhem o chamamento de Deus e que lhe respondem de forma generosa. De que lado estou eu? Estou disposto a comprometer-me com Deus, a aceitar os seus desafios, a empenhar-me na construção de um mundo mais bonito e mais feliz, ou prefiro demitir-me das minhas responsabilidades e renunciar a ter um papel activo no projecto criador e salvador que Deus tem para os homens e para o mundo?

• O que é que significa, exactamente, dizer “sim” a Deus? É ser baptizado ou crismado? É casar na igreja? É fazer parte de uma confraria qualquer da paróquia? É fazer parte da equipa que gere a Fábrica da Igreja? É ter feito votos num qualquer instituto religiosos? É ir todos os dias à missa e rezar diariamente a Liturgia das Horas? Atenção: na parábola apresentada por Jesus, não chega dizer um “sim” inicial a Deus; mas é preciso que esse “sim” inicial se confirme, depois, num verdadeiro empenho na “vinha” do Senhor. Ou seja: não bastam palavras e declarações de boas intenções; é preciso viver, dia a dia, os valores do Evangelho, seguir Jesus nesse caminho de amor e de entrega que Ele percorreu, construir, com gestos concretos, um mundo de justiça, de bondade, de solidariedade, de perdão, de paz. Como me situo face a isto: sou um cristão “de registo”, que tem o nome nos livros da paróquia, ou sou um cristão “de facto”, que dia a dia procura acolher a novidade de Deus, perceber os seus desafios, responder aos seus apelos e colaborar com Ele na construção de uma nova terra, de justiça, de paz, de fraternidade, de felicidade para todos os homens?

• Nas nossas comunidades cristãs aparecem, com alguma frequência, pessoas que sabem tudo sobre Deus, que se consideram família privilegiada de Deus, mas que desprezam esses irmãos que não têm um comportamento “religiosamente correcto” ou que não cumprem estritamente as regras do “bom comportamento” cristão… Atenção: não temos qualquer autoridade para catalogar as pessoas, para as excluir e marginalizar… Na perspectiva de Deus, o importante não é que alguém se tenha afastado ou que tenha assumido comportamentos marginais e escandalosos; o essencial é que tenha acolhido o chamamento de Deus e que tenha aceitado trabalhar “na vinha”. A este propósito, Jesus diz algo de inaudito aos “santos” príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo: “os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o Reino de Deus”. Hoje, que é que isto significa? Hoje, quem são os “vós”? Hoje, quem são os “publicanos e mulheres de má vida”?

 

Informação da Catequese

 

Informam-se todos os pais/encarregados de educação de que a catequese terá início no próximo Domingo, dia 28 de Setembro, às 10h30, na Eucaristia Paroquial, com a festa do envio dos catequistas e catequizandos.
Assim, aceitaram trabalhar como catequistas os seguintes cristãos:
1º ano - Isabel e Maria dos Anjos
2º ano - Sónia Libório
3º ano - Lília Gala
4º ano - Graça e Paula Gala
5º ano - Sónia
6º ano - Fernanda Capão
7º ano - Helena Miranda e Mário
8º ano - Cinita
9º ano - Mário e Pedro Caniçais
10º ano - Paula Reis
11º ano - Teresa Grangeia


Mais se informa que o Pároco, não podendo estar presente em tudo, visto ter 3 paróquias ao seu cuidado,  é necessário ter alguém responsável por este sector, chamando-lhe COORDENADOR DA CATEQUESE. Foi eleita pelos catequistas a CINITA.
 
Quanto às matrículas/renovação da catequese, as mesmas serão feitas junto de cada catequista. Os 2 anos que ainda não têm catequistas, devem dirigir-se à srª coordenadora.
 
Ficou deliberado também de que o custo da matrícula/renovação é de 10€: 3€ matrícula e 7€ catecismo.

 

XXV Domingo do Tempo Comum – Ano A

«Serão maus os teus olhos porque eu sou bom?»

 

EVANGELHO – Mt 20,1-16a

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:

«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.

Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha.

Saiu a meio da manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes:

‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’.

E eles foram.

Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo. 

Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes:

‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’

Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’.

Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’.

Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz:

«Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’.

Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.

Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um.

Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:

‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’.

Mas o proprietário respondeu a um deles:

‘Amigo, em nada te prejudico.

Não foi um denário que ajustaste comigo?

Leva o que é teu e segue o teu caminho.

Eu quero dar a este último tanto como a ti.

Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu?

Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?

Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos».

Palavra da Salvação

 

 

Na reflexão, considerar as seguintes linhas:

• Antes de mais, o nosso texto deixa claro que o Reino de Deus (esse mundo novo de salvação e de vida plena) é para todos sem excepção. Para Deus não há marginalizados, excluídos, indignos, desclassificados… Para Deus, há homens e mulheres – todos seus filhos, independentemente da cor da pele, da nacionalidade, da classe social – a quem Ele ama, a quem Ele quer oferecer a salvação e a quem Ele convida para trabalhar na sua vinha. A única coisa verdadeiramente decisiva é se os interpelados aceitam ou não trabalhar na vinha de Deus. Fazer parte da Igreja de Jesus é fazer uma experiência radical de comunhão universal.


• Todos têm lugar na Igreja de Jesus… Mas todos terão a mesma dignidade e importância? Jesus garante que sim. Não há trabalhadores mais importantes do que os outros, não há trabalhadores de primeira e de segunda classe. O que há é homens e mulheres que aceitaram o convite do Senhor – tarde ou cedo, não interessa – e foram trabalhar para a sua vinha. Dentro desta lógica, que sentido é que fazem certas atitudes de quem se sente dono da comunidade porque “estou aqui há mais tempo do que os outros”, ou porque “tenho contribuído para a comunidade mais do que os outros”? Na comunidade de Jesus, a idade, o tempo de serviço, a cor da pele, a posição social, a posição hierárquica, não servem para fundamentar qualquer tipo de privilégios ou qualquer superioridade sobre os outros irmãos. Embora com funções diversas, todos são iguais em dignidade e todos devem ser acolhidos, amados e considerados de igual forma.

• O nosso texto denuncia ainda essa concepção de Deus como um “negociante”, que contabiliza os créditos dos homens e lhes paga em consequência. Deus não faz negócio com os homens: Ele não precisa da mercadoria que temos para Lhe oferecer. O Deus que Jesus anuncia é o Pai que quer ver os seus filhos livres e felizes e que, por isso, derrama o seu amor, de forma gratuita e incondicional, sobre todos eles. Sendo assim que sentido fazem certas expressões da vivência religiosa que são autênticas negociatas com Deus (“se tu me fizeres isto, prometo-te aquilo”; “se tu me deres isto, pago-te com aquilo”)?

• Entender que Deus não é um negociante, mas um Pai cheio de amor pelos seus filhos, significa também renunciar a uma lógica interesseira no nosso relacionamento com ele. O cristão não faz as coisas por interesse, ou de olhos postos numa recompensa (o céu, a “sorte” na vida, a eliminação da doença, o adivinhar a chave da lotaria), mas porque está convicto de que esse comportamento que Deus lhe propõe é o caminho para a verdadeira vida. Quem segue o caminho certo, é feliz, encontra a paz e a serenidade e colhe, logo aí, a sua recompensa.

• Com alguma frequência encontramos cristãos que não entendem porque é que Deus ama e aceita na sua família, em pé de igualdade com os filhos da primeira hora, esses que só tardiamente responderam ao apelo do Reino. Sentem-se injustiçados, incompreendidos, ciumentos, invejosos e condenam, mais ou menos veladamente, essa lógica de misericórdia que, à luz dos critérios humanos, lhes parece muito injusta. Na sua perspectiva, a fidelidade a Deus e aos seus mandamentos merece uma recompensa e esta deve ser tanto maior quanto maior a antiguidade e a qualidade dos “serviços” prestados a Deus. Que sentido faz esta lógica à luz dos ensinamentos de Jesus?


 

 

 

"Tem sempre presente que a pele se enruga, que o cabelo se torna branco, que os dias se convertem em anos, mas o mais importante não muda: tua força interior"

 

 

Madre Tereza de Calcutá

 

 

 

XXIV Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

Exaltação da Santa Cruz

 

         

Evangelho: João 3, 13-17 

Naquele tempo, Jesus disse a Nicodemos: 3Ninguém subiu ao Céu a não ser aquele que desceu do Céu, o Filho do Homem. 14Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, 15a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna. 16Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. 17De facto, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele.

 

O texto do evangelho faz parte do longo discurso com que Jesus responde a Nicodemos, apontando a necessidade da fé para obter a vida eterna e fugir ao juízo de condenação. Jesus, o Filho do homem (v. 13), provém do seio do Pai; é aquele que «desceu do Céu» (v. 13), o único que viu a Deus e pode comunicar o seu projeto de amor, que se realiza na oblação do Filho unigénito. Jesus compara-se à serpente de bronze (cf. Nm 21, 4-9), afirmando que a plena realização do que aconteceu no deserto irá verificar-se quando Ele for elevado na cruz (v. 14) para salvação do mundo (v. 17). Quem olhar para Ele com fé, isto é, quem acreditar que Cristo crucificado é o Filho de Deus, o salvador, terá a vida eterna. Acolhendo n´Ele o dom de amor do Pai, o homem passa da morte do pecado à vida eterna. No horizonte deste texto, transparece o cântico do “Servo de Javé” (cf. Is 52, 13ss.), onde encontramos juntos os verbos “elevar” e “glorificar”. Compreende-se, portanto, que S. João quer apresentar a cruz, ponto supremo de ignomínia, como vértice da glória.

  

Meditatio

Jesus veio dar cumprimento à história do povo hebreu e à nossa história. Verificamo-lo todas as vezes que lemos a palavra de Deus. De facto, como Ele mesmo afirma, não veio abolir, mas dar pleno cumprimento à Lei. Jesus é Aquele que desceu do céu, Aquele que conhece o Pai, e que está em íntima união com Ele: “Eu e o Pai somos Um” (Jo 10, 30). Jesus é enviado pelo Pai para revelar o mistério da salvação, o mistério de amor que se há-de realizar com a sua morte na cruz. Jesus crucificado é a suprema manifestação da glória de Deus. Por isso, a cruz torna-se símbolo de vitória, de dom, de salvação, de amor. Tudo o que podemos entender com a palavra “cruz” – o sofrimento, a injustiça, a perseguição, a morte – é incompreensível se for olhado apenas com olhos humanos. Mas, aos olhos da fé e do amor, tudo aparece como meio de conformidade com Aquele que nos amou por primeiro. Então, o sofrimento não é vivido como fim em si mesmo, mas como participação no mistério de Deus, caminho que leva à salvação.

Só se acreditamos em Cristo crucificado, isto é, se nos dispomos a acolher o mistério de Deus que incarna e dá a vida por todos; só se nos pomos diante da vida com humildade, livres para nos deixar amar e, por nossa vez, tornar-nos dom de amor aos irmãos, saberemos receber a salvação: participaremos na vida divina de amor. Celebrar a festa da Exaltação da Santa Cruz significa tomar consciência do amor de Deus Pai, que não hesitou em enviar-nos o seu Filho, Jesus Cristo: esse Filho que, despojado do seu esplendor divino, se tornou semelhante aos homens, deu a vida na cruz por cada um dos seres humanos, crente ou não crente (cf. Fil, 2, 6-11). A Cruz torna-se o espelho em que, refletindo a nossa imagem, podemos reencontrar o verdadeiro significado da vida, as portas da esperança, o lugar da renovada comunhão com Deus.

Como dizem as nossas Constituições, “Do Coração de Cristo, aberto na cruz, nasce o homem de coração novo, animado pelo Espírito e unido aos seus irmãos na comunidade de amor, que é a Igreja” (n. 3).

O Pe. Dehon adere, com toda a sua vida, ao "amor de Cristo que aceita a morte" e é trespassado na Cruz. Ele experimenta esse amor, não tanto intelectualmente, mas sobretudo com o coração, e manifesta-o e derrama-o nos irmãos, com a sua bondade. Todos o chamam o "Très bon Père".

Ao contemplar o amor de Cristo que dá "a vida pelos homens" até morrer pela sua "salvação", em "obediência filial ao Pai", na cruz, o Pe. Dehon aprende que o único verdadeiro amor é o amor oblativo. O "Coração de Cristo, aberto na cruz" é a própria fonte do amor oblativo. E a oblação de amor, entendida como imolação, é, para o Pe. Dehon, "a própria fonte da salvação"(Cst 3), é a força do nosso apostolado (cf. Cst 5), é a alma da nossa santidade "para Glória e Alegria de Deus" (Cst 25; cf. Cst 35-39).

"Do Coração de Cristo, aberto na cruz, nasce o homem de coração novo, animado pelo Espírito" (Cst 3). Este nascimento, preanunciado a Nicodemos (cf. Jo 3, 3.5), realizou-se na transfixão do Lado, onde a água que brota de Cristo é sinal do dom do Espírito, do Batismo, do nascimento da Igreja e, na Igreja, de cada um de nós.

 

 

 

 

 

 

 

XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

 

 

EVANGELHO – Mt 18,15-20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

 

Naquele tempo,disse Jesus aos seus discípulos:
«Se o teu irmão te ofender,vai ter com ele e repreende-o a sós.
Se te escutar, terás ganho o teu irmão.
Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas,
para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas.
Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja,
considera-o como um pagão ou um publicano.
Em verdade vos digo:
Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu.
Digo-vos ainda:
Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus.
Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles».

 

Na reflexão e partilha, considerar as seguintes questões:

• A palavra “tolerância” é uma palavra profundamente cristã, que sugere o respeito pelo outro, pelas suas diferenças, até pelos seus erros e falhas. No entanto, o que significa “tolerância”? Significa que cada um pode fazer o mal ou o bem que quiser, sem que tal nos diga minimamente respeito? Implica recusarmo-nos a intervir quando alguém toma atitudes que atentam contra a vida, a liberdade, a dignidade, os direitos dos outros? Quer dizer que devemos ficar indiferentes quando alguém assume comportamentos de risco, porque ele “é maior e vacinado” e nós não temos nada com isso? Quais são as fronteiras da “tolerância”? Diante de alguém que se obstina no erro, que destrói a sua vida e a dos outros, devemos ficar de braços cruzados? Até que ponto vai a nossa responsabilidade para com os irmãos que nos rodeiam? A “tolerância” não será, tantas vezes, uma desculpa que serve para disfarçar a indiferença, a demissão das responsabilidades, o comodismo?

• O Evangelho deste domingo sugere a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros. Convida-nos a respeitar o nosso irmão, mas a não pactuar com as atitudes erradas que ele possa assumir. Amar alguém é não ficar indiferente quando ele está a fazer mal a si próprio; por isso, amar significa, muitas vezes, corrigir, admoestar, questionar, discordar, interpelar… É preciso amar muito e respeitar muito o outro, para correr o risco de não concordar com ele, de lhe fazer observações que o vão magoar; no entanto, trata-se de uma exigência que resulta do mandamento do amor…

• Que atitude tomar em relação a quem erra? Como proceder? Antes de mais, é preciso evitar publicitar os erros e as falhas dos outros. O denunciar publicamente o erro do irmão, pode significar destruir-lhe a credibilidade e o bom-nome, a paz e a tranquilidade, as relações familiares e a confiança dos amigos. Fazer com que alguém seja julgado na praça pública – seja ou não culpado – é condená-lo antecipadamente, é não dar-lhe a possibilidade de se defender e de se explicar, é restringir-lhe o direito de apelar à misericórdia e à capacidade de perdão dos outros irmãos. Humilhar o irmão publicamente é, sobretudo, uma grave falta contra o amor. É por isso que o Evangelho de hoje convida a ir ao encontro do irmão que falhou e a repreendê-lo a sós…

• Sobretudo, é preciso que a nossa intervenção junto do nosso irmão não seja guiada pelo ódio, pela vingança, pelo ciúme, pela inveja, mas seja guiada pelo amor. A lógica de Deus não é a condenação do pecador, mas a sua conversão; e essa lógica devia estar sempre presente, quando nos confrontamos com os irmãos que falharam. O que é que nos leva, por vezes, a agir e a confrontar os nossos irmãos com os seus erros: o orgulho ferido, a vontade de humilhar aquele que nos magoou, a má vontade, ou o amor e a vontade de ver o irmão reencontrar a felicidade e a paz?

• A Igreja tem o direito e o dever de pronunciar palavras de denúncia e de condenação, diante de actos que afectam gravemente o bem comum… No entanto, deve distinguir claramente entre a pessoa e os seus actos errados. As acções erradas devem ser condenadas; os que cometeram essas acções devem ser vistos como irmãos, a quem se ama, a quem se acolhe e a quem se dá sempre outra oportunidade de acolher as propostas de Jesus e de integrar a comunidade do Reino.

 

D. António Moiteiro  - Início do Munus episcopal em Aveiro

 

 

Uma monja carmelita

 

Santo Agostinho

 

 

XXII Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo»

 

 

EVANGELHO – Mt 16,21-27

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.
Pedro, tomando-O à parte, começou a contestá-l’O, dizendo:
«Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!»
Jesus voltou-Se para Pedro e disse-he:
«Vai-te daqui, Satanás.
Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».
Jesus disse então aos seus discípulos:
«Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Porque, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la.
Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?
O Filho do homem há-de vir na glória de seu Pai, com os seus Anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras».

 

Na reflexão, considerar os seguintes dados:


• Frente a frente, o Evangelho deste domingo coloca a lógica dos homens (Pedro) e a lógica de Deus (Jesus). A lógica dos homens aposta no poder, no domínio, no triunfo, no êxito; garante-nos que a vida só tem sentido se estivermos do lado dos vencedores, se tivermos dinheiro em abundância, se formos reconhecidos e incensados pelas multidões, se tivermos acesso às festas onde se reúne a alta sociedade, se tivermos lugar no conselho de administração da empresa. A lógica de Deus aposta na entrega da vida a Deus e aos irmãos; garante-nos que a vida só faz sentido se assumirmos os valores do Reino e vivermos no amor, na partilha, no serviço, na solidariedade, na humildade, na simplicidade. Na minha vida de cada dia, estas duas perspectivas confrontam-se, a par e passo… Qual é a minha escolha? Na minha perspectiva, qual destas duas propostas apresenta um caminho de felicidade seguro e duradouro?

• Jesus tornou-Se um de nós para concretizar os planos do Pai e propor aos homens – através do amor, do serviço, do dom da vida – o caminho da salvação, da vida verdadeira. Neste texto (como, aliás, em muitos outros), fica claramente expressa a fidelidade radical de Jesus a esse projecto. Por isso, Ele não aceita que nada nem ninguém O afaste do caminho do dom da vida: dar ouvidos à lógica do mundo e esquecer os planos de Deus é, para Jesus, uma tentação diabólica que Ele rejeita duramente. Que significado e que lugar ocupam na minha vida os projectos de Deus? Esforço-me por descobrir a vontade de Deus a meu respeito e a respeito do mundo? Estou atento a esses “sinais dos tempos” através dos quais Deus me interpela? Sou capaz de acolher e de viver com fidelidade e radicalidade as propostas de Deus, mesmo quando elas são exigentes e vão contra os meus interesses e projectos pessoais?

• Quem são os verdadeiros discípulos de Jesus? Muitos de nós receberam uma catequese que insistia em ritos, em fórmulas, em práticas de piedade, em determinadas obrigações legais, mas que deixou para segundo plano o essencial: o seguimento de Jesus. A identidade cristã constrói-se à volta de Jesus e da sua proposta de vida. Que nenhum de nós tenha dúvidas: ser cristão é bem mais do que ser baptizado, ter casado na igreja, organizar a festa do santo padroeiro da paróquia, ou dar-se bem com o padre… Ser cristão é, essencialmente, seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. O cristão é aquele que faz de Jesus a referência fundamental à volta da qual constrói toda a sua existência; e é aquele que renuncia a si mesmo e que toma a mesma cruz de Jesus.

• O que é “renunciar a si mesmo”? É não deixar que o egoísmo, o orgulho, o comodismo, a auto-suficiência dominem a vida. O seguidor de Jesus não vive fechado no seu cantinho, a olhar para si mesmo, indiferente aos dramas que se passam à sua volta, insensível às necessidades dos irmãos, alheado das lutas e reivindicações dos outros homens; mas vive para Deus e na solidariedade, na partilha e no serviço aos irmãos.

• O que é “tomar a cruz”? É amar até às últimas consequências, até à morte. O seguidor de Jesus é aquele que está disposto a dar a vida para que os seus irmãos sejam mais livres e mais felizes. Por isso, o cristão não tem medo de lutar contra a injustiça, a exploração, a miséria, o pecado, mesmo que isso signifique enfrentar a morte, a tortura, as represálias dos poderosos.


 

 

William Shakespeare

 

XXI Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

«Tu és Pedro, e dar-te-ei as chaves do reino dos Céus»

 

 

Breve comentário

            O texto deste domingo pode dividir-se claramente em duas partes: o diálogo de Jesus com os discípulos que culmina com a solene profissão de Pedro e a declaração de Jesus acerca de Pedro.

            Jesus faz uma espécie de sondagem acerca da sua identidade: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?». A resposta dos discípulos, que referem a opinião das pessoas, elenca quatro modelos interpretativos da figura e actividade de Jesus. É identificado com João, o Baptista, nos ambientes da corte de Herodes Antipas (cf. Mt 14,2); a figura de Elias é usada pelo próprio Jesus para  apresentar a figura de João Baptista (Mt 11,14); o profeta Jeremias, profeta da crise e da destruição do primeiro templo, representa o destino de Jesus, o profeta contestado na sua pátria (Mt 13,57).

            A resposta à segunda pergunta de Jesus, que interpela os discípulos, é dada por «Simão Pedro», designação que prepara a intervenção de Jesus: «És feliz, Simão… Tu és Pedro». A declaração messiânica de Pedro já foi em parte antecipada na profissão de fé dos discípulos que acolhem Jesus no barco depois do misterioso encontro nocturno sobre o lago (Mt 14,33). A formulação posta na boca de Pedro é uma síntese da fé eclesial: Jesus é o Cristo e o Filho de Deus vivo. O título de Cristo (Messias) é assim precisado com a denominação característica da comunidade de Mateus: «Filho de Deus». Ele é o Eleito, o enviado definitivo de Deus para realizar o seu projecto salvífico na história. O nome «vivente», dado a Deus, sublinha este aspecto da presença e acção eficaz de Deus na história humana (cf. Mt 26,63).

            As palavras dirigidas por Jesus a Pedro partem da sua profissão de fé mas dilatam o seu horizonte porque anunciam o papel e o destino futuro do discípulo. Pedro é chamado «feliz» por participar da condição dos «pequenos» e «humildes» a quem o Pai revela o seu projecto salvífico, escondido aos «sábios e inteligentes». Daí o contraste entre a condição humana e histórica de Pedro, «carne e sangue»» e a iniciativa do Pai que está nos céus que lhe revela a identidade profunda de Jesus, Messias e Filho de Deus.

            A segunda palavra de Jesus a Pedro é uma promessa a respeito do futuro. Este anúncio profético apoia-se na imagem da «pedra», à qual é associada a da «construção». O Simão «Pedro» será a base e alicerce para a construção da comunidade messiânica, a igreja.

O vocábulo grego ekkl?sia, donde vem a nossa palavra Igreja, através do latim, traduz habitualmente a palavra hebraico q?h?l, a assembleia ou convocação do povo de Deus libertado do Egipto e unido a Deus pela Aliança. O que era a «igreja do Senho ou de Deus» torna-se a Igreja de Cristo, a comunidade messiânica, da qual Pedro é constituído o alicerce, que toma o lugar de Israel e na qual entrar a fazer parte todos aqueles que reconhecem Jesus como Messias, Filho de Deus vivo.

A esta comunidade messiânica, fundada sobre a rocha-Pedro, Jesus promete a indefectibilidade perante os assaltos das «portas do Inferno». Em Cesareia de Filipe, actual Banias, encontrava-se o maior centro pagão do Israel antigo, incluindo o templo dedicado ao deus Pan à frente duma enorme gruta donde surge o rio Jordão. Os judeus da época acreditavam que essa gruta era a entrada do mundo das trevas, a porta do inferno. A expressão refere-se, pois, às forças do mal, representadas pelo adversário ou maligno que se opõe à acção de Deus e à perseverança dos crentes. Num e noutro caso, a promessa de Jesus garante à sua comunidade a estabilidade espiritual e histórica, simbolizada pela rocha, alicerce sobre a qual é construída.

 A terceira palavra anuncia a sua tarefa futura, representada pela imagem das chaves do reino dos céus, a seguir desenvolvida e precisada com a sentença sobre «ligar e desligar». Na tradição bíblica o símbolo das chaves indica autoridade e responsabilidade; daí que Pedro recebe a responsabilidade em relação a entrar ou a ser excluído do reino. Por outro lado, os rabinos estavam convencidos de possuírem as chaves da Torah, isto é, toda a autoridade sobre a interpretação da Sagrada Escritura e sobre as leis de Deus.

Ao longo do evangelho de Mateus torna-se claro que Jesus leva a cumprimento a Lei e os profetas, na linha da vontade de Deus. O poder das chaves, transmitido a Pedro, diz respeito à interpretação autorizada da vontade de Deus como a revelou e realizou Jesus. Pedro, como sábio discípulo do Reino dos Céus, tem a tarefa de interpretar de modo autorizado a vontade de Deus revelada pelas palavras e gestos de Jesus.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

 Anónimo

 

 

XX Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

 

Breve comentário

            Para melhor entendermos este episódio, devemos ter em conta que o evangelho segundo Mateus se dirige a uma comunidade de cristãos de origem judaica, com toda a sua carga histórica e religiosa, e que vive em ambiente palestinense, no meio dos outros judeus que não aceitaram a Boa Nova.

            Na linha da tradição, muitos cristãos consideravam o povo de Israel como a estirpe eleita e santa, único herdeiro da salvação de Deus. Outros mostravam alguma abertura, admitindo que os israelitas eram os primeiros destinatários da salvação, mas não os únicos. De facto, Jesus Ressuscitado tinha sido claro na sua ordem de envio: «Ide, fazei discípulos todos os povos…» (Mt 28,19) e esta questão mereceu a atenção do 1º Concílio da Igreja nascente (Act 15).

            A vida pública de Jesus desenrolou-se praticamente em território judaico e a sua missão quase se limitou «às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas há alguns gestos da parte de Jesus que são um prelúdio e anúncio do universalismo da salvação. É neste ambiente que Mateus nos refere o episódio da mulher cananeia.

            As duas cidades, Tiro e Sídon, situadas na linha costeira a norte de Israel, sempre foram consideradas na tradição bíblica como representantes dos povos pagãos. Para os israelitas, povo pagão é sinónimo de inimigo de Deus e do povo, daí serem tratados por «cães».

            O evangelista Mateus foi colher este episódio ao evangelho de Marcos e apresenta-o duma forma mais dramatizada, apresentando Jesus numa atitude tão dura que até os discípulos intervêm para se verem livres daquela mulher que, por seu lado, não desanima.

            A mulher era doutra raça e doutra religião. Começa por suplicar a cura da filha que estava possuída por um espírito impuro. Os pagãos não tinham problemas em recorrer aos judeus, mas o mesmo não acontecia com os judeus em relação aos pagãos. Era-lhes proibido pela Lei entrar em contacto com uma pessoa doutra religião ou raça.

            A mulher grita mas Jesus não responde. É uma atitude estranha, mesmo para os discípulos que começam a ficar cansados da insistência da mulher: «Despede-a, porque ela vem atrás de nós a gritar». Mas Jesus não escuta nem quer escutar. Defende-se com a Lei e com o objectivo da sua missão: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». É o mesmo que dizer que o Pai, que o enviou, não quer que ele escute aquela mulher.  

            A mulher não se deixa vencer. Lança-se aos pés de Jesus e suplica: «Senhor, socorre-me». A esta segunda tentativa, Jesus permanece fiel aos princípios judaicos, fazendo uso duma parábola tirada da vida familiar que inclui um insulto clássico dos judeus em relação aos povos pagãos: «Não é bem tomar o pão dos filhos para o lançar aos cachorros». Nas casas pobres, então como agora, havia muitos filhos e muitos cães, pelo que o pão era reservado apenas aos filhos.

            A mulher aceita o insulto, transformando-o num novo desafio lançado a Jesus. Leva a comparação até ao fim, mostrando que na casa dos pobres os cachorros comem as migalhas que caem da mesa, inclusive as migalhas atiradas pelas crianças. Jesus, em criança, deve ter feito o mesmo. Por isso, a mulher espera que na nova «casa» inaugurada por Jesus, isto é, na comunidade cristã, haja alguma migalha ou pedaço que tenha sobrado.

            Desde o não ligar coisa alguma, o apresentar a supremacia do povo de Israel, até ao insulto, chamando «cadela» à mulher que implora a cura da filha, de tudo isto se serve Jesus para pôr à prova a fé daquela mulher que ele mesmo acaba por reconhecer, numa frase jamais dirigida a um membro do povo Israel: «Ó mulher, é grande a tua fé! Faça-se como desejas». A cura da filha obtida por meio da fé humilde e constante da mulher pagã é um sinal antecipador do novo caminho, aberto também aos pagãos, para aceder à mesa dos filhos e fazer parte de pleno direito da casa de Israel.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

Porque Devo Perdoar?

 

Não há nada pior na nossa vida do que a mágoa, a ira, o ódio que sentimos quando alguém fere os nossos sentimentos, quando alguém julga a nossa conduta, quando alguém nos faz perder o chão por coisas insignificantes.

 Mas pior ainda é quando uma raiz de amargura cresce no nosso coração pesa na nossa alma e nos entristece cada vez que lembramos das injúrias que sofremos.

Não se perdoa porque é bonito ou somente porque está na Bíblia, engana-se quem pensa assim.

O perdão quando é liberado por nós, liberta-nos do que aprisiona a nossa alegria, derrota o ódio, tira-nos o peso da dor e abre espaço para o amor dentro de nós.

 

Anónimo

 

 

XIX Domingo do Tempo Comum - Ano A

 
EVANGELHO – Mt 14,22-33

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Depois de ter saciado a fome à multidão,
Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco
e a esperá-l’O na outra margem,
enquanto Ele despedia a multidão.
Logo que a despediu,
subiu a um monte, para orar a sós.
Ao cair da tarde, estava ali sozinho.
O barco ia já no meio do mar,
açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário.
Na quarta vigília da noite,
Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar.
Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar,
assustaram-se, pensando que fosse um fantasma.
E gritaram cheios de medo.
Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo:
«Tende confiança. Sou Eu. Não temais».
Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor,
manda-me ir ter contigo sobre as águas».
«Vem!» – disse Jesus.
Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas,
para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se,
gritou: «Salva-me, Senhor!»
Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o.
Depois disse-lhe:
«Homem de pouca fé, porque duvidaste?»
Logo que saíram para o barco, o ventou amainou.
Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus,
e disseram-Lhe:
«Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».


A reflexão pode partir dos seguintes elementos:

• O Evangelho deste domingo é, antes de mais, uma catequese sobre a caminhada histórica da comunidade de Jesus, enviada à “outra margem”, a convidar todos os homens para o banquete do Reino e a oferecer-lhes o alimento com que Deus mata a fome de vida e de felicidade dos seus filhos. Estamos dispostos a embarcar na aventura de propor a todos os homens o banquete do Reino? Temos consciência de que nos foi confiada a missão de saciar a fome do mundo? Aqueles que são deixados à margem dessa mesa onde se jogam os interesses e os destinos do mundo, que têm fome e sede de vida, de amor, de esperança, encontram em nós uma proposta credível e coerente que aponta no sentido de uma realidade de plenitude, de realização, de vida plena?

• A caminhada histórica dos discípulos e o seu testemunho do banquete do Reino não é um caminho fácil, feito no meio de aclamações das multidões e dos aplausos unânimes dos homens. A comunidade (o “barco”) dos discípulos tem de abrir caminho através de um mar de dificuldades, continuamente batido pela hostilidade dos adversários do Reino e pela recusa do mundo em acolher os projectos de Jesus. Todos os dias o mundo nos mostra – com um sorriso irónico – que os valores em que acreditamos e que procuramos testemunhar estão ultrapassados. Todos os dias o mundo insiste em provar-nos – às vezes com agressividade, outras vezes com comiseração – que só seremos competitivos e vencedores quando usarmos as armas da arrogância, do poder, do orgulho, da prepotência, da ganância… Como nos colocamos face a isto? É possível desempenharmos o nosso papel no mundo, com rigor e competência, sem perdermos as nossas referências cristãs e sem trairmos o Reino?

• Para que seja possível viver de forma coerente e corajosa na dinâmica do Reino, os discípulos têm de estar conscientes da presença de Jesus, o Senhor da vida e da história, que as forças do mal nunca conseguirão vencer nem domesticar. Ele diz aos discípulos, tantas vezes desanimados e assustados face às dificuldades e às perseguições: “tende confiança. Sou Eu. Não temais”. Os discípulos sabem, assim, que não há qualquer razão para se deixarem afundar no desespero e na desilusão. Mesmo quando a sua fé vacila, eles sabem que a mão de Jesus está lá, estendida, para que eles não sejam submergidos pelas forças do egoísmo, da injustiça, da morte. Nada nem ninguém poderá roubar a vida àqueles que lutam para instaurar o Reino. Jesus, vivo e ressuscitado, não deixa nunca que sejamos vencidos.

 

 

 

 

XVIII DOMINGO TEMPO COMUM - ANO A

 

EVANGELHO – Mt 14,13-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
quando Jesus ouviu dizer que João Baptista tinha sido morto,
retirou-Se num barco para um local deserto e afastado.
Mas logo que as multidões o souberam,
deixando as suas cidades, seguiram-n’O a pé.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
e, cheio de compaixão, curou os seus doentes.
Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se de Jesus
e disseram-Lhe:
“Este local é deserto e a hora avançada.
Manda embora toda esta gente,
para que vá às aldeias comprar alimento”.
Mas Jesus respondeu-lhes:
“Não precisam de se ir embora; dai-lhes vós de comer”.
Disseram-Lhe eles:
“Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes”.
Disse Jesus: “Trazei-mos cá”.
Ordenou então à multidão que se sentasse na relva.
Tomou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos ao Céu e recitou a bênção.
Depois partiu os pães e deu-os aos discípulos
e os discípulos deram-nos à multidão.
Todos comeram e ficaram saciados.
E, dos pedaços que sobraram, encheram doze cestos.
Ora, os que comeram eram cerca de cinco mil homens,
sem contar mulheres e crianças.

 

Na reflexão, ter em conta os seguintes aspectos:

• Antes de mais, o texto convida-nos a reflectir sobre a preocupação de Deus em oferecer a todos os homens a vida em abundância. Ele convida todos os homens para o “banquete” do Reino… Aos desclassificados e proscritos que vivem à margem da vida e da história, aos que têm fome de amor e de justiça, aos que vivem atolados no desespero, aos que têm permanentemente os olhos toldados por lágrimas de tristeza, aos que o mundo condena e marginaliza, aos que não têm pão na mesa nem paz no coração, Deus diz: “quero oferecer-te essa plenitude de vida que os homens teus irmãos te negam. Tu também estás convidado para a mesa do Reino”.

• A nossa responsabilidade de seguidores de Jesus compromete-nos com a “fome” do mundo. Nenhum cristão pode dizer que não tem culpa pelo facto de 80 por cento da humanidade ser obrigada a viver com 20 por cento dos recursos disponíveis… Nenhum cristão pode “lavar as mãos” quando se gastam em armas e extravagâncias recursos que deviam estar ao serviço da saúde, da educação, da habitação, da construção de redes de saneamento básico… Nenhum cristão pode dormir tranquilo quando tantos homens e mulheres, depois de uma vida de trabalho, recebem pensões miseráveis que mal dão para pagar os medicamentos, enquanto se gastam quantias exorbitantes em obras de fachada que só servem para satisfazer o ego dos donos do mundo… Nós temos responsabilidades na forma como o mundo se constrói… Que podemos fazer para que o nosso mundo seja alicerçado sobre outros valores?

• É preciso criarmos a consciência de que os bens criados por Deus pertencem a todos os homens e não a um grupo restrito de privilegiados. O Vaticano II afirma: “Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os povos; de modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos (…). Sejam quais forem as formas de propriedade, conforme as legítimas instituições dos povos e segundo as diferentes e mutáveis circunstâncias, deve-se sempre atender a este destino universal dos bens. Por esta razão, quem usa desses bens temporais, não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si, mas também os outros. De resto, todos têm o direito de ter uma parte de bens suficientes para si e suas famílias” (Gaudium et Spes, 69). Como me situo face aos bens? Vejo os bens que Deus me concedeu como “meus, muito meus e só meus”, ou como dons que Deus depositou nas minhas mãos para eu administrar e partilhar, mas que pertencem a todos os homens?

• O problema da fome no mundo não se resolve recorrendo a programas de assistência social, de “rendimento mínimo garantido” ou de outros esquemas de “caridadezinha”; mas resolve-se recorrendo a uma verdadeira revolução das mentalidades, que leve os homens a interiorizar a lógica de partilha. Os bens que Deus colocou à disposição dos seus filhos não podem ser açambarcados por alguns; pertencem a todos os homens e devem ser postos ao serviço de todos. É preciso quebrar a lógica do capitalismo, a lógica egoísta do lucro (mesmo quando ela reparte alguns trocos pelos miseráveis para aliviar a consciência dos exploradores), e substitui-la pela lógica do dom, da partilha, do amor. Sem isto, nenhuma mudança social criará, de verdade, um mundo mais justo e mais fraterno.

• A narração que hoje nos é proposta tem um inegável contexto eucarístico (as palavras “ergueu os olhos ao céu e recitou a bênção, partiu os pães e deu-os aos discípulos” levam-nos à fórmula que usamos sempre que celebrámos a Eucaristia). Na verdade, sentar-se à mesa com Jesus e receber o pão que Ele oferece (Eucaristia) é comprometer-se com a dinâmica do Reino e é assumir a lógica da partilha, do amor, do serviço. Celebrar a Eucaristia obriga-nos a lutar contra as desigualdades, os sistemas de exploração, os esquemas de açambarcamento dos bens, os esbanjamentos, a procura de bens supérfluos… Quando celebramos a Eucaristia e nos comprometemos com uma lógica de partilha e de dom, estamos a tornar Jesus presente no mundo e a fazer com que o Reino seja uma realidade viva na história dos homens.

 

Pensamento...

 

 

 

XVII Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

            Breve comentário

            Termina neste domingo o discurso em parábolas que preenche todo o capítulo 13 do evangelho segundo Mateus.

            O ponto fundamental das duas primeiras parábolas não está no achado do tesouro ou da pérola, mas na decisão que tomam os dois protagonistas em vender tudo o que têm para comprar o que descobriram ou encontraram. No primeiro caso trata-se provavelmente dum jornaleiro que se vê perante um tesouro escondido no campo em que está a trabalhar. A única hipótese de ficar com o tesouro é desfazer-se de tudo o que tem para comprar aquele campo. Segundo o costume da época, o tesouro não pertence a quem o encontra mas ao dono do campo. Por isso, não basta tê-lo encontrado. É preciso comprar o campo para se tornar também dono do tesouro.

O protagonista da segunda parábola é um negociante que arrisca tudo o que tem para comprar uma pérola que sabe valer a pena.

            O sentido religioso destas duas parábolas só se pode captar em toda a sua profundidade se forem confrontadas com as sentenças evangélicas em que Jesus propõe um escolhe decisiva e radical perante o reino de Deus. Exemplo desta decisão é a dos discípulos que deixam tudo para seguir Jesus (Mt 4,20.22; 8,22; 9,9; 19,21.27.29).

            A terceira parábola retoma o tema da parábola do trigo e do joio. Serve-se da imagem da pesca no lago de Tiberíades em que eram usadas grandes redes de arrasto, puxadas por dois barcos, e que apanhavam toda a espécie de peixes. Ao chegarem à margem, os pescadores faziam a escolha dos peixes bons, que colocavam nas canastras, lançando fora os que não prestavam ou eram impuros perante a Lei (Lv 11,10-11). São dois tempos distintos: a pesca e a separação dos bons e dos maus. Para a comunidade dos discípulos, agora é o tempo da pesca ao largo, o tempo de lançar a rede do evangelho para apanhar a todos sem distinção. A separação final, o juízo, cabe somente a Deus.

            A última parte, dirigida aos discípulos, define o seu estatuto de discípulos com uma semelhança que sublinha também a sua responsabilidade. O discípulo não é um adepto duma escola ou doutrina mas é aquele que entra na lógica do reino dos céus como foi apresentada no discurso em parábolas. Daqui a sua sabedoria comparável à dum dono de casa que «tira do seu tesouro coisas novas e antigas». A novidade é a «justiça superior» que surge da nova interpretação definitiva da vontade de Deus já revelada aos antigos. O evangelista quer, assim, harmonizar a novidade messiânica, revelada e realizada por Jesus, com a promessa bíblica antiga.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

XVI Domingo do tempo comum – Ano A

 

 

Breve comentário

            Continuamos a escutar neste domingo o discurso das parábolas em que é revelado progressivamente o mistério do Reino de Deus ou, na linguagem do evangelista Mateus, do Reino dos Céus. Habitualmente não é feita a explicação das parábolas. A parábola do trigo e do joio é uma das poucas, juntamente com a do semeador, que é interpretada. Mas a parábola e a sua interpretação são colocadas em dois contextos, com destinatários diferentes: a parábola é dirigida à multidão enquanto a explicação é dada apenas aos discípulos em casa.

            Sem ter em conta a interpretação, é fácil identificar o sentido da boa semente/trigo com a «palavra do reino» (Mt 13,19) da parábola do semeador. Tal como naquela parábola existe um opositor, o maligno, assim na nova parábola há o «inimigo» que semeia o joio, opondo-se, desta maneira, à missão de Jesus que proclama o evangelho do Reino. Ao tempo da comunidade, a parábola constitui uma resposta às dificuldades dos discípulos que constatam as resistências e a rejeição da parte dum grupo crescente de judeus.

A resposta que a parábola dá pode ser resumida assim: a oposição é obra do adversário; bem e mal, crentes e incrédulos coexistem ao longo da história que vai do primeiro anúncio ao juízo definitivo; no tempo intermédio não se podem antecipar o juízo e a separação reservados para o fim e que são da competência do Senhor, único juiz; este é o tempo de crescimento e de actuação da palavra proclamada e acolhida, isto é, o tempo da missão, da paciente e perseverança espera.

            Também é fácil estabelecer os pontos de contacto entre as duas parábolas gémeas do grão de mostarda e do fermento. Os elementos narrativos estão dispostos de modo a dar realce ao contraste entre um início pequeno e insignificante e o momento final: o grão de mostarda era conhecido popularmente como a semente mais pequena, podendo tornar-se, em condições ambientaisfavoráveis, numa árvore de 3/4 metros de altura. O mesmo contraste está presente numa pequena porção de fermento colocado em três medidas farinha, ou seja, a cerca de 60/70 quilos. Aos judeus que aguardam uma manifestação prodígios e triunfalista do Reino de Deus, o evangelista responde com a história paradoxal destas duas parábolas. A manifestação da realeza de Deus é insignificante, mas a esperança dos discípulos, como a de Jesus, está projectada para o cumprimento final que corresponde às promessas de Deus testemunhadas pelas Escrituras. De facto, quando o evangelista Mateus escreve aos cristãos do seu tempo, já se começam a ver sinais da abertura missionária da Igreja aos povos, preanunciada por Ezequiel (17,22-23) na imagem dos pássaros que se acolhem à sombra da árvore plantada por Deus.

            Mateus conclui as três parábolas com uma breve reflexão sobre o significado de falar em parábolas: trata-se da revelação do reino aos crentes (discípulos) e o ocultar do projecto de Deus aos não-crentes (judeus). Este modo de ver corresponde à visão histórico-salvífica de Mateus, apresentada como de costume numa citação bíblica adaptada com liberdade ao contexto. Nas parábolas de Jesus cumpre-se a palavra profética do Antigo Testamento, quer para a forma «em parábolas» quer para o conteúdo, ou seja a revelação do desígnio misterioso de Deus que abraça toda a história salvífica.

            Na parte final o cenário muda. Jesus volta a entrar em casa e os discípulos pedem-lhe que explique a parábola do joio. Mas, ao lermos com atenção, verificamos que estamos perante um novo texto que só vagamente tem a ver com a parábola do joio. Pela linguagem usada vê-se que se trata duma catequese tardia adaptada à comunidade cristã de origem judaica, com o objectivo de a incentivar num tempo de desmotivação.


P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

XV Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

 

Breve comentário

            Com o texto deste domingo começa o discurso central do evangelho de Mateus, o discurso das parábolas, em que o evangelista reúne toda uma série de ensinamentos de Jesus acerca do mistério do Reino.  A «casa» donde Jesus sai é aquela onde ele mora em Cafarnaum e onde se encontra com os seus discípulos para os instruir e a sua saída é posta em relação com a do semeador (saiu Jesus – saiu o semeador). O seu «sair» tem como objectivo físico ou concreto a margem do lago de Genesaré, embora o texto lhe chame mar, usando a linguagem comum. A sua saída atrai uma multidão que o obriga a subir para um barco para daí lhes falar.

            Parábola é uma narrativa, imaginada ou verdadeira, que se apresenta com o fim de ensinar uma verdade. Difere da alegoria porque esta personifica atributos e qualidades pessoais como termos de comparação, ao passo que a parábola faz-nos ver as pessoas na sua maneira de proceder e de viver. Também difere da fábula, onde encontramos seres fantasiosos, já que aquela se limita ao que é humano e possível.

            A parábola é um exemplo. O emprego contínuo que Jesus fez das parábolas está em perfeita concordância com o método de ensino ministrado ao povo no templo e na sinagoga. Elas aparecem no Antigo Testamento (2Sm 12,1-4) e de modo especial nos profetas (Is 5,1-12; Ez 17,1-10). Os escribas e doutores da Lei faziam grande uso das parábolas e da linguagem figurada para ilustrar o seu ensino. Assim eram os Haggadoth [narrações] dos livros rabínicos. A parábola tantas vezes usada por Jesus no seu ministério (Mc 4, 34) servia para esclarecer os seus ensinamentos, referindo-se à vida comum e aos interesses humanos, para manifestar a natureza do seu reino e para experimentar a disposição dos seus ouvintes (Mt 21,45; Lc 20,19). Era um método muito usado no Oriente, apropriado ao ensino indirecto dos valores e das realidades da vida.

            A narração em parábolas fala dum semeador, não dum lavrador, e a sua actividade é caracterizada pelo contraste entre perda de sementes (13,4-7) e fruto abundante (13,8). Além disso devemos notar uma diferença entre a riqueza dos pormenores com que é descrita a perda das sementes e a forma concisa do fruto abundante. Mas à quantidade das experiências de insucesso e de desilusão representadas pelas várias perdas de sementes (à beira do caminho… em terreno pedregoso… entre espinhos…) contrapõe-se a grande colheita que faz esquecer a experiência negativa da perda. Jesus, o semeador, semeia a palavra do Reino que torna presente a senhoria de Deus sobre o mundo, sobre os homens e que realiza o fruto final. A parábola tem uma tal força persuasiva que leva o ouvinte a ter confiança na obra de Jesus que, embora marcada por insucessos ou desilusões, no fim terá êxito.

            Como primeira resposta, Jesus diz que fala assim pelo facto de as multidões não compreenderem. Ele não pretende forçar a entender. De facto, até agora Jesus falou e agiu com clareza, mas as multidões nada compreenderam; tendo em conta isto, recorre à linguagem das parábolas que, sendo mais velada, poderá estimular as multidões a pensar mais e melhor, a reflectir nos obstáculos que impedem a sua compreensão do ensinamento do Jesus. Parecem repetir-se as circunstâncias do tempo de Isaías, quando o povo estava fechado à mensagem de Deus (Is 6,9-10).

            Os discípulos são aqueles que acolheram em Jesus e na sua palavra a misteriosa revelação da senhoria de Deus e, por isso, são destinatários da promessa que diz respeito à sua condição final: a posse plena dos bens messiânicos. Em relação aos outros realiza-se a ameaça do juízo que se refere ao servo que, com medo, escondeu o talento do seu senhor: «ser-lhe-á tirado o que tem». É a perda das prerrogativas ligadas ao estatuto de povo de Deus, na sequência da longa história de infidelidades de Israel de que faz eco o texto de Isaías com a referência à cegueira e à surdez que impedem a cura, isto é, a salvação. Os discípulos crentes são declarados «felizes» porque participam daquela época messiânica esperada por «profetas e justos» do Antigo Testamento.

            A explicação da parábola atinge o seu cume ao apresentar o ouvinte ideal: aquele que escuta e compreende a Palavra, isto é, põe-na em prática de forma activa e perseverante. Esta é a base para a apresentação das outras situações de inconstância e infidelidade, de perseverança por causa da tribulação e da perseguição que se exprime em insultos, calúnias, acusações e rejeições. Todas estas circunstâncias fazem parte do dia-a-dia da comunidade de cristãos a quem o evangelho de Mateus é dirigido.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

Oração da Felicidade

(Papa Francisco)

 

 
 

 

 

 

 

Mensagem de saudação à Igreja de Aveiro

 

 

 «A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus

e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós» (2 Cor 13, 17)

 

          No momento em que se torna pública a minha nomeação para bispo de Aveiro, gostaria que as minhas primeiras palavras fossem as mesmas com que S. Paulo saudava os cristãos, e a mesma saudação com a qual, todos os domingos, iniciamos a celebração da Páscoa de Jesus. O que realmente dá sentido à comunidade cristã é a presença de Cristo Ressuscitado no meio dela, e que nos introduz no mistério do amor de Deus.

            Quando há dois anos iniciei o ministério episcopal, afirmei que a missão da Igreja não podia ser outra que a de proclamar o amor gratuito de Deus, a conversão ao Evangelho, o dom do Espírito, o Batismo para o perdão dos pecados e a formação de comunidades cristãs onde a fraternidade seja o selo da nossa identidade. Passado este tempo, estou verdadeiramente convicto de que sem comunidades cristãs vivas não há Igreja de Jesus.

            Para os próximos anos, o nosso horizonte pastoral deve ser o dinamismo criado pela Missão Jubilar que celebrou os 75 anos da restauração da Diocese e a recente exortação apostólica do Papa Francisco “A Alegria do Evangelho”. A missão da Igreja não é outra senão a de propor a toda a humanidade a alegria do Evangelho: «aqueles que se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo renasce sem cessar a alegria» (EG 1).

            Desejo, neste momento, saudar todos e cada um de vós que trabalhais na construção do reino de Deus na diocese de Aveiro: o Administrador Diocesano, Mons. João Gonçalves Gaspar, exemplo de amor e dedicação à Diocese; os sacerdotes e os diáconos, colaboradores próximos do bispo; os religiosos, enquanto sinal do mundo novo que todos somos chamados a construir; os leigos que se dedicam à obra da evangelização; as autoridades civis, académicas e militares que se empenham na busca do bem comum; sem esquecer aqueles que, pela doença ou pelas consequências do sistema social que impera, mais sofrem. Para todos endereço uma palavra de esperança e a certeza da minha colaboração na promoção da pessoa humana criada à imagem e semelhança de Deus.

            Uma palavra de muita estima e amizade para com o Senhor D. António Francisco, anterior bispo de Aveiro. Que a semente lançada á terra possa continuar a crescer e dar fruto abundante.

            Não posso deixar de manifestar o meu reconhecimento e gratidão à Arquidiocese de Braga, a minha comunidade de pertença nestes últimos tempos. Bem hajais pelo muito que significais para mim: a dedicação plena e acompanhamento do Senhor Arcebispo D. Jorge Ortiga; a amizade do clero e dos seminaristas; os religiosos, de um modo especial os contemplativos; e o número imenso de leigos com os quais contactei, nomeadamente nas visitas pastorais. Seria imperdoável não lembrar os jovens; para eles uma palavra de muita estima e carinho, reafirmando o incentivo e relembrando-lhes o que tantas vezes proferi nos encontros que tivemos: «O rosto da Igreja jovem sois vós».

            A todos peço que me ajudeis a concretizar, nas terras de Aveiro, o meu lema episcopal «É preciso que Jesus reine» (1 Cor 15, 25), para que Jesus reine efetivamente na Diocese, nas famílias e, primeiro que tudo, no nosso coração.

            Invoco a proteção de Santa Joana Princesa e, à Mãe do Evangelho vivo, convosco quero pedir que interceda por cada um de nós.

            Cultivemos a cultura da proximidade e rezemos uns pelos outros.

 

Aveiro, 4 de julho de 2014 (Festa da Rainha Santa Isabel de Portugal)

† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo eleito de Aveiro

 

 

Nomina del Vescovo di Aveiro (Portogallo)

Il Papa ha nominato Vescovo della diocesi di Aveiro (Portogallo) S.E. Mons. António Manuel Moiteiro Ramos, finora Vescovo titolare di Cabarsussi ed Ausiliare di Braga.

S.E. Mons. António Manuel Moiteiro Ramos

S.E. Mons. António Manuel Moiteiro Ramos è nato il 17 maggio 1956, ad Aldeia de João Pires, diocesi di Guarda, Portogallo.

Ha studiato Filosofia e Teologia presso i seminari della diocesi di Guarda. Ha conseguito la Licenza e il Dottorato in Teologia presso l’Istituto di Pastorale Catechetica di Madrid, affiliato alla Pontificia Università di Salamanca, Spagna.

È stato ordinato sacerdote il 4 luglio 1981.

Dopo l’ordinazione sacerdotale ha ricoperto i seguenti incarichi: Cooperatore Pastorale nella Parrocchia di São Vicente; Membro del Segretariato diocesano dell’Educazione Cristiana; Professore di Pastorale Catechetica presso l’Istituto superiore di Teologia di Viseu ed il Seminario maggiore di Guarda; Presidente del Segretariato diocesano dell’Educazione Cristiana; Direttore spirituale del Seminario maggiore di Guarda; Parroco della Cattedrale di Guarda e Coordinatore della Pastorale diocesana.

L’8 giugno 2012 è stato nominato Vescovo titolare di Cabarsussi e Ausiliare dell’arcidiocesi di Braga, ricevendo l’ordinazione episcopale il 12 agosto successivo.

 

 

XIV Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

Breve comentário

            No evangelho de Mateus, o discurso da Missão ocupa todo o cap. 10. Na parte narrativa que se segue aparecem as incompreensões e as resistências que Jesus deve enfrentar. João Baptista e o povo não o compreendem (Mt 11,1-15). As grandes cidades à volta do mar da Galileia não querem abrir-se à sua mensagem (Mt 11,20-24). Os escribas e doutores não são capazes de perceber a pregação de Jesus (Mt 11,25). Nem os parentes o entendem (Mt 12,46-50). Só os pequenos entendem e aceitam a Boa Nova do reino (Mt 11,25-30). Os outros querem sacrifícios, mas Jesus quer misericórdia (Mt 12, 8).  A resistência contra Jesus leva os fariseus a procurar matá-lo (Mt 12, 9-14). Eles chamam-lhe Belzebu (Mt 12,22-32). Mas Jesus não volta atrás: continua a assumir a missão de Servo, descrito pelo profeta Isaías (Is 42,1-4) e citado por inteiro por Mateus (Mt 12, 15-21).

            Na linha deste contexto, Jesus é o Messias esperado, mas diferente do que a maioria esperava. Não é o Messias nacionalista, nem um juiz severo, nem um Messias rei poderoso. Mas é o Messias humilde e servo que não quebra a cana já fendida, nem apaga a torcida fumegante.

            Encontramos no texto deste domingo uma das raras orações de bênção referidas pelos evangelhos sinópticos, mais ainda, a única, se excluirmos a invocação no Getsémani. À chegada dos seus discípulos que tinham sido enviados em missão, Jesus reconhece publicamente e proclama em louvor e acção de graças que o Pai, na sua livre iniciativa e benevolência escolheu «os pequeninos» como destinatários da revelação. Estes pequeninos são opostos aos «sábios e inteligentes» que, por sua vez, na tradição profética são opostos aos humildes e pobres».

            Perante o acolhimento da mensagem do Reino por parte dos pequeninos, Jesus experimenta uma enorme alegria e, espontaneamente, transforma a sua alegria em oração de júbilo e acção de graças ao Pai. Os sábios e doutores daquele tempo tinham criado uma série de leis relacionadas com a pureza legal que impunham ao povo em nome de Deus (Mt 15, 1-9). Eles pensavam que Deus exigia todas estas observâncias para que o povo pudesse ter paz. Mas a lei do amor, revelada por Jesus, afirmava o contrário: o que importa não é o que fazemos a Deus, mas sobretudo o que Deus, no seu grande amor, faz por nós! Jesus, sendo o Filho, conhece o Pai e sabe que o que o Pai queria quando, no passado, tinha chamado Abraão e Sara para formar um povo ou quanto entregou a Lei a Moisés para firmar a Aliança. A intimidade com o Pai oferecia-lhe um critério novo que o colocava em contacto directo com o autor da Bíblia.

            Jesus convida todos os que estão cansados e promete-lhes repouso. O povo daquele tempo vivia cansado com o duplo peso dos impostos mas também das observâncias exigidas pelas leis da pureza legal. «Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim que sou manso e humilde coração».

            No seu modo de anunciar a boa nova do Reino, Jesus revela uma grande paixão pelo Pai e pelo povo humilhado. Ao contrário dos doutores do seu tempo, ele anuncia a Boa Nova de Deus em qualquer lugar onde houver pessoas que o escutem: nas sinagogas, nas casas dos amigo, ao longo dos caminhos com os discípulos, nas praias do Mar da Galileia, na montanha, nas praça das aldeias e cidades e também no templo de Jerusalém.

O jugo da vontade de Deus deixou de ser um jugo opressivo e duro, mas gera agora a paz gloriosa prometida aos humildes e mansos, garantia da salvação definitiva. O jugo de Jesus é suave e o seu fardo é leve, não porque não seja exigente mas porque tirou as incrustações legalistas. Fazer a vontade de Deus deixou de ser um código ou um sistema moral a interpretar e a seguir, para ser simplesmente seguir Jesus, o Filho, que a revela e realiza de modo definitivo e pleno.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

Pensamento ...

 

 

 

Solenidade de S. Pedro e S. Paulo, Apóstolos – Ano A

 

 

Breve comentário

            O texto deste domingo pode dividir-se claramente em duas partes: o diálogo de Jesus com os discípulos que culmina com a solene profissão de Pedro e a declaração de Jesus acerca de Pedro.

            Jesus faz uma espécie de sondagem acerca da sua identidade: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?». A resposta dos discípulos, que referem a opinião das pessoas, elenca quatro modelos interpretativos da figura e actividade de Jesus. É identificado com João Baptista nos ambientes da corte de Herodes Antipas (cf. Mt 14,2); a figura de Elias é usada pelo próprio Jesus para apresentar a figura de João Baptista (Mt 11,14); o profeta Jeremias, antigo profeta da crise e da destruição do primeiro templo, representa o destino de Jesus, o profeta contestado na sua pátria (Mt 13,57).

            A resposta à segunda pergunta de Jesus, que interpela os discípulos é dada por «Simão Pedro», designação que prepara a intervenção de Jesus: «És feliz, Simão… Tu és Pedro». A declaração messiânica de Pedro já foi em parte antecipada na profissão de fé dos discípulos que acolhem Jesus no barco depois do misterioso encontro nocturno sobre o lago (Mt 14,33). A formulação posta na boca de Pedro é uma síntese da fé eclesial: Jesus é o Cristo e o Filho de Deus vivo. O título de Cristo (Messias) é assim precisado com a denominação característica da comunidade de Mateus: «Filho de Deus». Ele é o eleito, o enviado definitivo de Deus para realizar o seu projecto salvífico na história. O nome «vivo», dado a Deus, sublinha este aspecto da presença e acção eficaz de Deus na história humana (cf. Mt 26,63).

            As palavras dirigidas por Jesus a Pedro partem da sua profissão de fé mas alargam o seu horizonte porque anunciam o papel e o destino futuro do discípulo. Pedro é chamado «feliz» por participar da condição dos «pequenos» e «humildes» a quem o Pai revela o seu projecto salvífico, escondido aos «sábios e inteligentes». Daí o contraste entre a condição humana e histórica de Pedro, «carne e sangue»» e a iniciativa do Pai que está nos céus que lhe revela a identidade profunda de Jesus, Messias e Filho de Deus.

            A segunda palavra de Jesus a Pedro é uma promessa a respeito do futuro. Este anúncio profético apoia-se na imagem da «pedra», à qual é associada a da «construção». O Simão «Pedro» será a base e alicerce para a construção da comunidade messiânica, a igreja, termo que, por estranho que nos possa parecer, nos quatro evangelhos só ocorre no de Mateus.

O vocábulo grego ekkl?sia, donde vem a nossa palavra Igreja, através do latim, traduz habitualmente a palavra hebraica q?h?l, a assembleia ou convocação do povo de Deus libertado do Egipto e unido a Deus pela Aliança. O que era a «igreja do Senhor ou de Deus» torna-se a Igreja de Cristo, a comunidade messiânica, da qual Pedro é constituído como alicerce, que toma o lugar de Israel e da qual fazem parte todos aqueles que reconhecem Jesus como Messias, Filho de Deus vivo.

A esta comunidade messiânica, fundada sobre a rocha-Pedro, Jesus promete a indefectibilidade perante os assaltos das «portas do Inferno». Em Cesareia de Filipe encontrava-se o maior centro pagão do Israel antigo, incluindo o templo dedicado ao Deus Pan à frente duma enorme gruta, onde surge e começa o rio Jordão. Os judeus da época acreditavam que essa gruta era a entrada do mundo das trevas, a porta do inferno. A expressão refere-se, pois, às forças do mal, representadas pelo adversário ou maligno que se opõe à acção de Deus e à perseverança dos crentes. Num e noutro caso, a promessa de Jesus garante à sua comunidade a estabilidade espiritual e histórica, simbolizada pela rocha, alicerce sobre a qual é construída.

 A terceira palavra anuncia a sua tarefa futura, representada pela imagem das chaves do reino dos céus, a seguir desenvolvida e precisada com a sentença sobre «ligar e desligar». Na tradição bíblica o símbolo das chaves indica autoridade e responsabilidade; daí que Pedro recebe a responsabilidade em relação a entrar ou a ser excluído do reino. Por outro lado, os rabinos estavam convencidos de possuírem as chaves da Torah, isto é, toda a autoridade sobre a interpretação da Sagrada Escritura e sobre as leis de Deus.

Ao longo do evangelho de Mateus torna-se claro que Jesus leva a cumprimento a Lei e os profetas, na linha da vontade de Deus. O poder das chaves, transmitido a Pedro, diz respeito à interpretação autorizada da vontade de Deus como a revelou e realizou Jesus. Pedro, como sábio discípulo do Reino dos Céus, tem a tarefa de interpretar de modo autorizado a vontade de Deus revelada pelas palavras e gestos de Jesus.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

Vaticano: Papa rejeita «cristãos de laboratório» que vivam a fé sem a Igreja

 


Francisco apresenta catequese sobre a importância da comunidade para conhecer Jesus Cristo

Cidade do Vaticano, 25 jun 2014 (Ecclesia) – O Papa alertou hoje no Vaticano para o que chamou de “cristãos de laboratório” e disse que a vivência da fé em Jesus exige uma “pertença” à Igreja.

Na segunda catequese semanal do novo ciclo dedicado ao tema, Francisco falou na “tentação” de prescindir dos outros para se salvar “sozinho”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Há quem julgue ter uma relação pessoal, direta, imediata com Jesus Cristo, fora da comunhão e da mediação da Igreja. São tentações perigosas e prejudiciais; são, como dizia o grande Paulo VI, dicotomias absurdas”, declarou, na audiência pública desta quarta-feira, perante dezenas de milhares de pessoas reunidas na Praça de São Pedro.

O Papa realçou que na Igreja não existe o ‘faça você mesmo’ ou ‘freelancers’, citando o seu predecessor, Bento XV, que descreveu a Igreja como “um ‘nós’ eclesial”, e lamentou que alguns digam: ‘Eu acredito em Deus, acredito em Jesus, mas a Igreja não me interessa’.

Francisco sublinhou que esta Igreja é composta por pessoas “com os seus dons e os seus limites”, mas deixou claro que “ninguém é cristão só por si”.

“Está claro, isto? Ninguém é cristão só por si! Não se fazem cristãos de laboratório”, disse.

O Papa afirmou que “o cristão pertence a um povo que se chama Igreja” e que outros transmitiram a fé que cada um dos seus membros professa hoje.

“Eu lembro-me sempre muito do rosto da irmã que me ensinou o Catecismo”, observou.

A Igreja, prosseguiu, é “uma grande família”, em que ninguém vive “a título individual” ou por “conta própria”.

“A nossa identidade é a pertença, somos cristãos porque pertencemos à Igreja”, precisou.

Segundo o Papa, “não se pode amar sem amar os irmãos” ou estar “em comunhão com Deus sem estar em comunhão com a Igreja”.

“Não podemos ser bons cristãos se não estivermos unidos a todos os que procuram seguir o Senhor Jesus como um único povo”, insistiu.

Francisco deixou a tradicional saudação aos peregrinos de língua portuguesa, em especial aos fiéis do Santuário de Nossa Senhora do Porto.

“Irmãos e amigos, estais em boas mãos, estais nas mãos da Virgem Maria. Ela vos proteja da tentação de prescindir dos outros, de pôr a Igreja de lado, de pensar em salvar-vos sozinhos. Rezai por mim! Que Deus vos abençoe”, referiu.

Antes do encontro, o Papa cumprimentou durante vários minutos um grupo de crianças doentes que acompanhou a audiência através de ecrãs gigantes, na sala Paulo VI.

OC

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo - Ano A

 

 

Breve comentário

É muito natural que este trecho que lemos neste domingo não tenha sido pronunciado na Sinagoga de Cafarnaum inserido no discurso do Pão da Vida, depois do sinal da multiplicação de pães. Tem muito mais sentido que Jesus tenha dito estas palavras na Última Ceia, depois da instituição da Eucaristia, com as palavras eucarísticas: «Isto é o meu corpo… Este é o cálice do meu sangue…». João preferiu dar relevo ao lavar dos pés e ao exemplo de serviço e doação a partir da atitude e da vida de Jesus. No entanto, não quis perder as palavras de Jesus sobre a Eucaristia, integrando-as no Discurso em Cafarnaum.

O texto de hoje retoma a afirmação «Eu sou o pão vivo descido do Céu» que os ouvintes e leitores de João entendem bem como uma proclamação de Jesus como Messias e a verdadeira Palavra e Sabedoria de Deus. Mas acrescenta repetidamente algo mais forte e decisivo: «O Pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo». A palavra «carne» (sarx, em grego) indica a realidade física do homem, mas no seu aspecto mais frágil. Por isso, no início do seu Evangelho, S. João diz-nos: «E o Verbo fez-se carne», isto é, assumiu completamente a nossa humanidade até às últimas consequências. Deus tornou-se presente e manifestou o seu amor precisamente nesta «carne» que agora Jesus dá a «comer» para a vida do mundo.

Esta realidade apresentada por Jesus nunca poderia ser entendida pelos judeus antes da Ressurreição e sem uma atitude de fé. Por isso mesmo, estas palavras são dirigidas essencialmente à comunidade dos cristãos que já têm a experiência de Eucaristia.

            Nos tempos antigos, e também no Antigo Testamento, o pão era considerado um dom de Deus ou dos deuses. A sua oferta torna-se um sinal do dom de si mesmo a Deus. Só mais tarde se tornou símbolo do trabalho e da fadiga humana. Para os antigos, comer o pão durante os seus cultos significava receber a vida divina.

            Já no Antigo Testamento Deus fala de si através do sinal do pão. Ao povo que caminha no deserto, Deus dá o dom do maná como sinal da sua atenção e amor pelo homem. Na verdade, Deus é indispensável para a vida do homem, tal como o pão; melhor: mais do que o pão. «Nem só de pão vive o homem mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Dt 8,3).

            Jesus, aos seus discípulos, ensina a pedir na oração o «pão quotidiano», ou seja, o necessário para a vida; e este não é só o pão da mesa mas também o «pão de Deus», que é o próprio Jesus. Ele dá-se a todos com abundância, como nos lembra o sinal da multiplicação dos pães; através dele vive-se a amizade profunda com Deus que supera também a morte: «Quem come deste pão viverá para sempre» (Jo 6,51); e todos aqueles que comem o seu pão crescem no amor fraterno e formam um novo povo: a Igreja.

            Os judeus não entendiam as palavras de Jesus porque o respeito profundo pela vida exigia que desde os tempos do Antigo Testamento fosse proibido comer o sangue, porque o sangue era sinal de vida (Dt 12,16.23). Além disso, estava próxima Páscoa (Jo 6,4) e dentro do poucos dias todos iriam comer a carne e o sangue do cordeiro pascal na celebração da noite de Páscoa. Tomaram as palavras de Jesus à letra e, por isso, não compreendiam.

            Na verdade, comer a carne de Jesus significava aceitá-lo como o novo Cordeiro Pascal, cujo sangue os libertaria da escravidão. Beber o sangue de Jesus significava assimilar a mesma maneira de viver que marcou a vida de Jesus. O que dá a vida não é celebrar o maná do passado mas comer este novo pão que é Jesus, a sua carne e o seu sangue. Ao participar na Eucaristia assimilamos a sua vida, a sua doação, a sua entrega.

            A referência ao «sangue» é uma referência directa à paixão e à morte na cruz. O Filho de Deus, numa atitude de amor, entrega e doação, assumiu a nossa humanidade até às últimas consequências, até à morte.

            A adesão à Palavra de Jesus é fundamental para a Vida, mas comer a sua carne e beber o seu sangue leva o discípulo a assimilar a sua vida, a entrar numa profunda comunhão de vida com Ele e com o Pai, de forma a haver como que uma identificação. S. Paulo traduziria esta realidade na expressão. «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim». A quem entra neste processo de união íntima com Jesus é prometida a Vida para sempre.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

Obrigado Senhor!

 

Pode ser um momento, uma história, uma imagem, um recado, uma resposta…. até uma pergunta… pode ser a mais simples fracção de segundo… mas Tu, Senhor, estás lá sempre… Sempre presente com a firmeza e a verdade que dão sentido à nossa vida, que dão força ao nosso esforço, que dão tolerância às nossas decisões, que dão coragem aos nossos desafios… que nos levam inquestionavelmente sempre mais longe…

Anónimo

 

Solenidade da Santíssima Trindade 

Ano A

 

 

Breve comentário

Neste Domingo da Santíssima Trindade continuamos a ler o Evangelho segundo S. João, como sempre obscuro e enigmático. O texto deste domingo não é excepção. São apenas três versículos muito densos, extraídos do diálogo de Jesus com Nicodemos, que revelam a verdadeira face de Deus.

Não é preciso muito para enquadrar a situação. Em primeiro lugar, olhemos para os personagens: Deus, o mundo, o Filho unigénito. O mundo, ou os homens que estão no mundo, continuamente em oposição a Deus e contra a vontade de Deus, porque obstinadamente buscam a própria vontade. Os homens, quando querem agir sem Deus, tornam o «mundo» uma massa indiferente ou em oposição a Deus, que cai sob o domínio da morte.

Mas «Deus amou o mundo…»: a cena desenvolve-se de acordo com um guião imprevisível. Deus ama este mundo, esta massa de homens que o rejeitam. Não há luta nem duelo. O homem está teimosamente em oposição a Deus, mas Deus procura obstinadamente o homem. O que poderia ser uma luta para a história torna-se um fenómeno totalmente novo. O mundo deve ser recuperado para o amor de Deus, mas deve ser recuperado pelo amor e não pela força. Caso contrário, o vencedorseria a morte. Morte aqui é parte do inimigo, mas um inimigo que não tem consistência própria: é simplesmente o resultado da rejeição de Deus. O mundo é, ao mesmo tempo, inimigo e vítima. Inimigo, porque se opõe a Deus; vítima, porque a sua própria loucura o leva ao reino da morte. Uma situação sem solução, se não entrasse em cena um novo personagem: o Filho único.

O Unigénito, dado (como dom) por Deus, é chamado «Filho», porque participa da mesma força e do amor de Deus; é definido como «Unigénito», pois a sua relação com Deus é muito especial e única. É este Filho que recria a ligação entre Deus e o «mundo»: n’Ele é possível reencontrar o fio original da amizade perdida, os homens podem realmente experimentar a reconciliação de Deus. Em Jesus torna-se possível voltar a aprender a ser homens e filhos, a viver uma vida plenamente humana, sem estar em oposição a Deus. O mundo deve ser salvo, não condenado e destruído. Como vai terminar esta história? Vencerá o amor de Deus manifestado no Unigénito, ou vencerá a obstinação do mundo? A resposta do evangelista envolve o leitor e ouvinte: «quem crê n’Ele tem a vida eterna».

Há um julgamento que pode levar irremediavelmente à condenação: «Quem nele crê não é julgado, mas quem não crê já está julgado (condenado)». Este juízo não é pronunciado por Deus no fim dos tempos, mas é actual: é a pessoa que escolhe a vida ou a morte, conforme aceita Cristo e a sua Palavra ou recusa Cristo e a sua proposta de amor.

Aqui reside a importância do mistério da Santíssima Trindade. Se Deus fosse apenas o único Deus, como os muçulmanos acreditam, seria o protagonista único, sem espaço para mais ninguém. Se Deus fosse, pelo contrário, uma multiplicidade de actores, como na antiga religião grega, os homens não passariam de bonecos nas suas mãos. Mas o nosso Deus é uno e trino e, portanto, capaz deabrir espaço para um mundo que o rejeita, e voltar a envolver o homem na sua demonstração de amor.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

PEREGRINAÇÃO INTERPAROQUIAL DAS CRIANÇAS A FÁTIMA

 

                

(…)Este ano não foi exceção. Acompanhadas pelos seus familiares, párocos, catequistas e professores, milhares de crianças rumaram à Cova da Iria. (…) entregaram ao Santuário de Fátima o resultado do trabalho que tinham desenvolvido durante o mês de maio, em resposta à campanha promovida pela instituição, que assim recebeu milhares de pequenos tijolos em papel, decorados pelas crianças, e em que cada uma delas revelou o que se propõe fazer pela construção de um mundo melhor, principal apelo da peregrinação, ao qual se juntou a exortação ao amor a Deus e a Nossa Senhora.

 

Tudo foi diferente nesta peregrinação, a começar pela moldura do grande grupo dos pequenos peregrinos, que este ano se estima terem sido 35 mil; o recinto ganhou cor, à qual se juntou o multicolorido trazido pelas t-shirts e bonés das crianças. O altar foi modificado recebendo uma grande tela que lembrou o tema da peregrinação “Ó Jesus, é por vosso amor”; os cânticos das celebrações foram interpretados por crianças e o hino da peregrinação foi inédito; a zona da escadaria esteve reservada para as crianças, uma parte acolheu um grande mapa do Mundo, imperfeito, que foi reconstruído, durante a Eucaristia, com os tijolos oferecidos pelas crianças. 


               

No total, incluindo as crianças, participaram na celebração eucarística (…), que foi antecedida da recitação do Rosário, à volta de 200 mil peregrinos. A Eucaristia, presidida por D. Anacleto Oliveira, bispo de Viana do Castelo, foi concelebrada por D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, por D. Serafim Ferreira e Silba, bispo emérito de Leiria-Fátima, e por 150 sacerdotes.

As paróquias de Troviscal, Amoreira e Ancas, também marcaram presença com o seu pároco, pais, crianças e catequistas. Eramos cerca de 65 participantes.

Na homilia, D. Anacleto Oliveira lembrou a importância de cada ser humano se sentir pertença de Deus e colaborador da obra redentora e reparadora de Deus para o Mundo. Numa linguagem simples, direcionada às crianças, D. Anacleto Oliveira pediu-lhes para agradecerem a Deus “por todas as pessoas que nos fazem bem” e apelou à construção de mundo melhor, “um mundo sem buracos”, em que cada buraco no mapa do Mundo significa “solidão, miséria, guerra, uma maldição, quando as pessoas não querem saber de Deus”.

 

No final foi distribuída às crianças, como recordação da vinda ao Santuário de Fátima, uma pequena cruz em madeira com o lema da peregrinação inscrito “Ó Jesus é por vosso amor”; junto com a cruz foi também oferecida uma pagela com a oração ensinada por Nossa Senhora a Lúcia, Francisco e Jacinta, para eles a rezassem quando fizessem algum sacrifício: "Ó Jesus, é por vosso amor...". 

 

No momento da distribuição, o reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, explicou o sentido do presente-surpresa: “A Cruz pretende mostrar o grande amor que Jesus tem por nós e convidar-nos a retribuir esse amor”.

“Ó Jesus, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria”, rezaram de seguida as crianças, a uma só voz, após a distribuição da pagela.

Nas palavras finais da celebração eucarística, D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, despediu-se das crianças e de quem as acompanhava, disse-se sensibilizado “pelo espetáculo de beleza” que via nesta peregrinação e relembrou a importância das crianças na reconstrução do Mundo.

 

“Não se esqueçam de uma coisa: ocupais um lugar importante no coração de Deus, Deus conta muito convosco. (…) Aqui também se constrói Portugal, não é só na Assembleia da República”, afirmou D. António Marto, pedindo que todos os peregrinos rezassem com ele uma Avé Maria com uma intenção muito especial, por ser dia 10 de junho, feriado nacional, Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas: “[Rezemos] Para que Portugal seja um lar onde todos possam viver como irmãos, onde todos possam viver em paz, em fraternidade e onde não falte trabalho”.

 

 

LeopolDina Simões

 

Domingo do Pentecostes – Ano A

 

 

Breve comentário

Na solenidade de Pentecostes o texto evangélico é ainda tirado do evangelho de S. João e é importante lê-lo em paralelo com o texto de Act 2,1-11 que descreve o dom do Espírito ao grupo dos discípulos. A importância da festa litúrgica e do seu sentido eclesial, além do sentido cristológico, orienta-nos para a compreensão do texto bíblico.

             O cumprimento da Páscoa, cinquenta dias depois, na festa do Pentecostes, que em Israel celebrava o dom da Lei, faz-nos compreender a ligação estreita entre Jesus ressuscitado, o Espírito Santo e a vida da Igreja. De facto, o dom do Espírito parte da Páscoa, é dom do Pai e do Filho e conduz a Igreja para a plenitude do Reino, pois guia, ilumina e sustenta os crentes na missão de anunciar o evangelho, continuando a obra do seu Mestre, o Senhor Jesus. O elo do Amor no seio da vida trinitária, o Espírito divino, torna-se assim o vínculo que une a comunidade crente e torna-a testemunha credível no mundo.

            O texto deste domingo é parte do evangelho que escutámos no domingo de Páscoa em que o encontro do Senhor ressuscitado com os seus é acompanhado precisamente do dom do Espírito Santo e da missão; nesta solenidade o acento cai sobre o segundo elemento e sobre o papel do Espírito na vida do cristão, temáticas antecipadas nos textos dos dois últimos deste tempo pascal.

            O texto coloca-nos no dia da ressurreição, em Jerusalém; depois da primeira parte do dia dia, com a descoberta do túmulo vazio, a visita de Pedro e João e das mulheres e o testemunho de Maria Madalena, chegou a tarde. O lugar não é especificado, o evangelista quer atrair a atenção para o carácter eclesial do acontecimento. Recordemos que para João ressurreição e dom do Espírito são um só acontecimento e, por isso, colocados no mesmo dia. A indicação da tarde pode, além disso, fazer referência às reuniões dominicais das primeiras comunidades cristãs.

            Os discípulos, não somente os apóstolos, estão reunidos com as portas fechadas, com medo, numa situação de angústia que muda radicalmente com a chegada de Jesus que se faz presente aos seus discípulos naquela tarde como em qualquer outra circunstância ou tempo; a sua saudação «Paz a vós» (Shalom) é um dom efectivo de paz, como o próprio Jesus tinha prometido: «É a minha paz que eu vos dou; não a dou à maneira do mundo» (Jo 14,27). Jesus mostra as mãos e o lado, donde tinha saído sangue e água, para mostrar a fonte da eficácia salvífica da sua morte. Além disso sublinha-se a identidade entre o Senhor glorioso da Igreja e o Jesus crucificado. Os discípulos reconhecem imediatamente Jesus, sem reservas.

            Jesus diz-lhes de novo: «Paz a vós». Com a ressurreição, Jesus deu início a um tempo novo, assinalado pela alegria, mas também caracterizado por uma nova tarefa confiada aos discípulos. «Como o Pai me enviou, também eu vos envio». Não se trata dum confronto entre duas acções de envio, a do Pai em relação ao Filho e deste em relação aos discípulos; é indicada, isso sim, a forte continuidade duma única missão recebida do Pai, primeiro por Jesus e agora pelos discípulos, não somente aqueles, presentes em Jerusalém, mas também os do futuro, de todas as épocas e lugares.

            Após o envio segue-se o dom do Espírito Santo, em vista da missão de que são investidos os discípulos. O gesto de Jesus reproduz o gesto primordial da criação do homem, o que mostra o objectivo bem claro de sugerir que se trata aqui duma nova criação. Jesus glorificado comunica o Espírito que faz renascer o homem, concedendo-lhe poder partilhar a comunhão com Deus.

            A seguir fala-se de perdão dos pecados. Referindo-se a Mt 26,28 e ao que é comum nos evangelhos, agora João explicita o conteúdo do mandato confiado aos discípulos: o perdão dos pecados, o dom da misericórdia. A fidelidade  de Jesus ao Pai na sua paixão e morte trouxe a salvação que se concretiza no acolhimento do pecador e na condenação do pecado. Graças à vitória de Cristo a salvação divina prevaleceu sobre as trevas e atingiu todas as pessoas através do ministério dos discípulos.

            A formulação em positivo e negativo deste versículos deve-se ao estilo semítivo que exprime através dos contrários «perdoar/reter» a totalidade do poder misericordioso transmitido pelo Ressuscitado aos discípulos. Salvação para quem crê e acolhe o dom de Jesus, condenação para quem não se abre a Ele com fé.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

Solenidade da Ascensão do Senhor – Ano A

 

 

Breve comentário

            O texto do evangelho deste domingo é o final do Evangelho segundo Mateus. Um olhar ao texto mostra-nos que o autor se centra em dois aspectos complementares: a figura de Jesus e o estatuto dos discípulos que são protagonistas da experiência pascal, a única em relação aos «onze».

O grupo mutilado depois da perda de Judas acolhe o convite de Jesus e do anjo (28,7.10) e dirigem-se para a Galileia. É na «Galileia das nações», onde ressoou o primeiro anúncio do reino dos céus ao «povo imerso nas trevas e na sombra da morte» (4,12-16), que se retoma agora o contacto de Jesus ressuscitado com os discípulos que serão encarregados de continuar a missão com a sua autoridade e garantia da sua presença.

O «monte», no evangelho de Mateus, não é apenas um lugar geográfico: sobre um monte Jesus revela a vontade definitiva de Deus (5,1; 8,1); sobre o monte retira-se para rezar (14,23); sentado sobre o monte acolhe a multidão e cura os doentes (15,29); sobre um alto monte revela-se aos discípulos como o enviado de Deus (17,1.5). O último encontro acontece num monte da Galileia, lugar dos encontros históricos de revelação e de salvação.

            Os discípulos reconhecem Jesus como o seu Senhor, prostrando-se, numa atitude de humilde adoração. Mas a fé pascal não está isenta daquela dúvida que acompanha a fé histórica da comunidade («homens de pouca fé!» – 8,26). Só a presença e a palavra de Jesus faz superar a dúvida e fazer amadurecer a fé dos discípulos.

            A primeira palavra de Jesus é uma declaração solene sobre a sua senhoria universal, referindo a iniciativa divina: «Foi-me dado todo o poder…». Mediante a ressurreição, Jesus foi constituído no pleno exercício do seu poder e, como o próprio Deus, pode ser proclamado «Senhor do céu e da terra» (11,25).

            A segunda palavra de Jesus é uma ordem dada aos discípulos: Ide, fazei discípulos todos os povos». A primeira missão histórica dos discípulos era destinada às ovelhas perdidas da casa de Israel», excluindo os pagãos e samaritanos. Agora, a nova missão dos discípulos não tem limites nem restrições, fazendo com que toda a humanidade tenha uma relação de pertença a Jesus ressuscitado através do sinal baptismal e do pleno acolhimento e actuação do seu ensino. Este baptismo é dado «em nome de…», isto é, «em relação…» ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo». O Pai é o novo rosto de Deus revelado por Jesus aos discípulos; assim como a identidade profunda de Jesus é conhecida pelo Pai que se revela aos pequeninos. O Espírito Santo é o poder benéfico e salvador de Deus revelado nos gestos e nas palavras da missão histórica de Jesus. É a única vez, em todo o Novo Testamento, que lemos esta fórmula do rito baptismal.

            Tal como a condição para a pertença salvífica à antiga Aliança era o acolhimento e a actuação íntegra de tudo o que Deus tinha ordenado por meio de Moisés, assim o requisito fundamental para a pertença à comunidade dos discípulos do Senhor Jesus é observar, praticar fielmente a vontade de Deus que ele revelou e ensinou de modo pleno e definitivo.

            A última palavra de Jesus é uma promessa que vale como garantia de encorajamento e confiança: «Eis que Eu estou convosco». Aquele que, antes de nascer, tinha sido apresentado como Emanuel, Deus connosco; o mesmo que declarou que onde dois ou três se reunissem em seu nome: «Eu estarei no meio deles», apresenta-se agora com toda a autoridade divina para garantir a sua presença, não provisória ou pontual, mas constante: «Eu estarei convosco todos os dias até ao fim dos tempos».

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

 

 

 

   

                                                                                    Reflexão...                                                                       

 

 

VI Domingo da Páscoa – Ano A

 

Breve comentário

            O texto deste Domingo é tirado das palavras que Jesus dirige aos seus discípulos durante a Última Ceia. Ele está para deixar fisicamente os seus; por isso, quer ensinar aos discípulos como devem comportar-se durante a sua ausência. Sublinha que o amor por ele é algo de concreto, que não se esgota nas palavras, mas demonstra-se com os factos, observando os seus mandamentos, guardando e pondo em prática a palavra de Jesus, isto é, imitando o seu exemplo, amando como ele amou.

            Este amor tão forte e concreto não é possível à natureza, sendo necessária a intervenção do Espírito de Deus. Por isso, Jesus pedirá ao Pai que dê aos seus amigos o Espírito da Verdade para que esteja sempre com eles. Este Espírito, além de ser o Paráclito, ou seja, o advogado defensor de Cristo no grande processo do mundo contra ele, exerce a função específica de fazer penetrar no coração dos discípulos a verdade, ou seja, a palavra, a revelação de Cristo que é a manifestação do amor de Deus; Ele deve conduzir os cristãos para essa mesma revelação.

            O mundo, a humanidade incrédula, encontra-se na impossibilidade de receber o Espírito da Verdade porque não o percebeu nem reconheceu presente na pessoa de Deus, como não reconheceu o Verbo-Luz, nem a sua linguagem, nem o Pai. Pelo contrário, os discípulos reconheceram o Espírito na pessoa do Mestre; morando em Jesus, apesar de ainda não lhes ter sido dado, Ele permanece junto dos seus amigos e está neles.

            Jesus pode agora declarar que não deixará órfãos os seus amigos: «Voltarei a vós!». Com a presença do Espírito no seu coração, eles podem ver Jesus depois da sua partida desta terra, ao contrário do mundo incrédulo que, depois da sua morte na cruz e sepultura, não o verá mais. Trata-se duma visão de fé, possível apenas aos crentes. Eles viverão como Jesus, o Vivente, o Pão da vida, a fonte da vida.

            Esta experiência sobrenatural fará perceber, na fé, aos amigos de Jesus a vida de comunhão entre o Pai e o Filho, e deste com os discípulos. Quem escuta os mandamentos de Jesus, isto é, a sua palavra, os faz penetrar no seu coração e observa fielmente, manifesta o amor que tem por Jesus. Este é o verdadeiro discípulo, que será objecto dum amor especial da parte do Pai. Ele, que ama de tal maneira o mundo que entrega o seu Filho unigénito (3,16), nutre um amor de predilecção por Cristo e pelos seus amigos. O amor do Pai pelo Filho vai, naturalmente, ter reflexos no modo como o Filho ama os seus amigos, a ponto de estes serem objecto duma particular manifestação.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

PEREGRINAÇÃO DAS CRIANÇAS

 

 

 

V Domingo da Páscoa – Ano A

 

 

Breve comentário

            O texto deste Domingo é o início do primeiro dos discursos de despedida de Jesus, durante a última Ceia com os seus discípulos.

            Nos discursos de despedida presentes no Antigo Testamento e na literatura intertestamentária há alguns traços característicos. O que está para morrer despede-se dos seus familiares ou de todo o povo, recorda-lhes a conduta que devem ter (habitualmente serem fiéis à Lei), algumas vezes confiando-lhes uma missão particular. Há dois textos bíblicos que estão por detrás deste discurso de Jesus: todo o livro do Deuteronómio que mais não é que o discurso de adeus pronunciado por Moisés antes da sua morte, e o salmo 42-43, que fala de perturbação e afastamento, de desejo de permanecer em comunhão com Deus.

            Tomando este modelo literário, João pode falar do futuro. Depois da ressurreição de Jesus todos aqueles que crêm nele poderão entrar em intimidade com o Pai e continuar a sua missão no mundo. Por isso, o discurso de «adeus» torna-se num discurso de «até já».

            Judas tinha acabado de sair. Os discípulos estão tristes, assustados pela partida iminente do Mestre. Jesus sabe que esta situação constitui um perigo para a sua fé. Por isso, a exortação: «Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus; crede também em mim»A fé em Deus é a mesma fé depositada em Jesus porque o Pai se revela no seu Filho. Neste ponto, Jesus garante aos discípulos que essa confiança está firmemente estabelecida: «Na minha casa de Pai há muitas moradas».Existe uma casa de família grande, para onde Jesus vai à nossa frente. Para ele, na verdade, morrer não é cair em um abismo sem fundo, mas «passar deste mundo para o Pai» (Jo 13,1). Por isso, promete aos seus um lugar cuidadosamente preparado para cada um, na perfeita comunhão com o Pai e com Ele. «Voltarei e vos levarei para junto de mim».

No entanto, para viver em comunhão com o Pai é necessária uma relação com Jesus. Os discípulos devem, eles mesmos, começar uma viagem. O caminho, contudo, é novamente o próprio Jesus. Ele tinha dito: «Eu sou a porta» (Jo 10,7.9). Agora apresenta-se como o Caminho, a Verdade e a Vida.

Tal como é «a porta», Jesus é o único caminho para o Pai: «Ninguém vai ao Pai senão por mim». É a única maneira para o Pai, porque é a única verdade, a única vida.

 A «verdade» significa revelação. Jesus não é o único que revela Deus como Pai, mas em tudo ? diz ele ? em tudo que faz, é a revelação de Deus. Não é uma revelação parcial de Deus, mas a revelação completa, total e definitiva do Pai porque Jesus é o filho único e, em tudo o que diz e faz, revela-se como o Filho num perfeito relacionamento de amor com o Pai.

Ele é a «vida», isto é, através da união com Jesus, o Filho, temos a união com Deus, o Pai, e depois a vida eterna, que é a própria vida do Pai. Como Jesus é o Filho único gerado de Deus, só Ele é a porta e o caminho para o Pai, em que o homem encontra a auto-realização e definitiva felicidade perfeita.

O equívoco típico do evangelho de S. João surge na pergunta de Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta!».Aresposta de Jesus é clara: «Há tanto tempo que estou convosco, e não me conhecestes, Filipe? Quem me viu, viu o Pai». O Pai e o Filho estão mutuamente ligados por uma união perfeita. Isso significa que, quando Jesus fala, fala o Pai, quando Jesus faz um gesto, é o Pai quem faz. Essas obras são os milagres de Jesus, as suas acções, toda a sua existência, que manifestam a sua relação filial com o Pai e o amor do Pai por meio dele que salva os homens. Por isso, quem olhar com fé para o Filho, vê nele e através dele, o Pai. A consequência é que aqueles que crêem em Jesus vão fazer o que Jesus fez, isto é, continuar a amar como Jesus amou e agir como Jesus agiu. Com efeito, a existência e as actividades daqueles que pela fé estão unidos a Cristo continuam a revelar o Pai e levar os homens a Ele. De facto, Jesus acrescenta que os discípulos farão obras «maiores»: neles continuará, para sempre, a tarefa de Jesus de manifestar o amor do Pai.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

IV Domingo da Páscoa – Ano A

 

 

Breve comentário

       O texto do evangelho de S. João proposto para este domingo, chamado Domingo do Bom Pastor, apresenta-se como um tijolo encaixado numa parede já construída. Imediatamente antes, em Jo 9,40-41, Jesus falava da cegueira dos fariseus. Logo a seguir ao texto de hoje, em Jo 10,19-21, vemos a conclusão da discussão sobre a cegueira. Assim, as palavras sobre o Bom Pastor ensinam o que fazer para tirar a cegueira dos olhos. Com este encaixe, a «parede» fica mais forte e mais bela.

       Jesus serve-se de duas situações comuns no seu tempo: a porta e o pastor. A primeira situação refere-se ao recinto fechado no qual eram guardados vários rebanhos durante a noite, com um dos pastores a vigiar, enquanto os outros dormiam. De manhã, cada pastor ia buscar as suas ovelhas, chamando-as pelo nome; cada rebanho seguia o seu pastor, porque estavam habituadas à sua presença e à sua voz. As ovelhas dos outros pastores ouviam a voz, mas ficavam onde estavam porque não conheciam aquela voz. De vez em quando havia o perigo do assalto. Os ladrões entravam por um buraco feito na parede para roubar as ovelhas. Não entravam pela porta porque estava alguém a vigiar.

Outra situação era o recinto junto de casa para um só rebanho; este recinto era rodeado por muros de pedra e algumas plantas; a «porta» era o próprio pastor que aí se colocava.

Jesus afirma: «Eu sou a Porta», evidentemente com dois sentidos diversos: é a porta através da qual através da qual passa o pastor e a porta através da qual passam as ovelhas.

No primeiro caso, Jesus afirma que quem quer ser pastor das ovelhas deve estar em comunhão com ele, de contrário é um salteador. No segundo diz-se que o único verdadeiro acesso à salvação é o próprio Jesus.

É preciso ter em conta que depois deste texto vem o episódio do cego de nascença (c. 11), com o confronto com os guias de Israel que decidiram expulsar da comunidade quem reconhece Jesus como Messias. Estes sacerdotes e fariseus pretendem ser pastores de Israel e expulsam o cego curado. Vê-se claramente que não se interessam com as ovelhas. A estes Jesus chama cegos e guias cegos que estão convencidos que vêm muito bem. Perante isto, Jesus reivindica ser a única porta de acesso à vida, à salvação.

Os verbos unidos ao Bom Pastor fazem-nos perceber qual é a sua missão: «abre», isto é, abriu a passagem para a vida nova fechada pelo pecado e pela morte; «chama» a possuir a sua própria vida; «conduz», isto é, está sempre connosco, alimenta-nos, ama-nos; «caminha à frente, indicando-nos o caminho e mostrando-nos em si mesmo o cumprimento das suas promessas, uma das quais a ressurreição.

A resposta dos féis (ovelhas) apresenta um dinamismo de conversão bastante sublinhado pelos verbos «escutar», «conhecer» e «seguir». Daqui nasce a resposta a um chamamento claro e inequívoco à «vida». Só quem está atento à voz do Pastor, à sua Palavra, pode conhecê-lo, ou seja, fazer uma experiência de comunhão com aquele que nos convida a fazer comunhão com os outros, em atitude de serviço. E convida-nos a segui-lo, na mesma atitude de entrega e serviço a caminho da Vida

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

III Domingo da Páscoa – Ano A

 

Breve comentário

            O III Domingo da Páscoa apresenta-nos um texto próprio de Lucas, contendo dados tradicionais reelaborados de modo pessoal pelo evangelista para ilustrar a sua doutrina, os seus elementos característicos, a começar pela centralidade de Jerusalém. Trata-se duma perícopa muito significativa para compreender o sentido da ressurreição de Jesus e as modalidades da fé pascal para os crentes de todos os tempos.

            Lucas coloca no dia de Páscoa o encontro do ressuscitado com dois dos seus discípulos que estão a caminho, tema também central na segunda parte do evangelho, num esquema literário que encontramos também em Act 8,26-39, no encontro de Filipe com o eunuco etíope.

            O grupo daqueles que acompanhavam habitualmente Jesus, denominado vagamente pordiscípulos, é mais amplo que os Doze, ou Onze com a morte de Judas. Os dois que vão para Emaús pertencem ao grupo mais alargado e é dito o nome dum deles: Cléofas. Vão embora desanimados, afastando-se do grupo a que pertencem, e vão conversando sobre «as coisas que aconteceram», às quais não conseguem dar resposta.

            Jesus aproxima-se e caminha com eles: uma nota muito simples mas cheia de significado para o caminho de fé dos discípulos de ontem e hoje. O primeiro passo é dado sempre por Jesus que vem ao nosso encontro no caminho que percorremos, em qualquer lugar em que nos encontremos. Com uma atitude simples, Jesus insere-se no discurso. Para os dois discípulos, trata-se dum peregrino (forasteiro) que está a deixar Jerusalém depois das festas da Páscoa, espantando-se pelo facto de ele não estar a par de algo que abalou toda a gente.

            O que explicam ao peregrino tem a ver com Jesus, o nazareno, profeta poderoso em palavras e obras, que devia libertar Israel. A chama do nacionalismo, da revolta e do messianismo estão latentes na resposta. Mas tudo acabou: os chefes religiosos e autoridades políticas crucificaram Jesus há três dias. É bom recordar que, segundo a crença hebraica, o espírito do defunto ficava perto do cadáver até ao terceiro dia a partir do qual a morte era definitiva. Alguns factos os perturbaram: algumas mulheres e discípulos encontraram o túmulo vazio e uns anjos disseram que Ele estava vivo, mas a Ele não O viram.

            A ideia que têm sobre a pessoa e vida de Jesus impede-os de O reconhecer, pois Ele nada tem a ver com glória terrena, messias político e nacionalismos. Lucas mantém vivo o «suspense» e abrenovos horizontes. À dúvida dos dois, ele contrapõe uma ciência segura e sagrada. O viajante, com grande capacidade pedagógica guia os seus companheiros de caminhada através da leitura das Escrituras para a compreensão da sua vida. Ao messianismo triunfalista, à salvação terrena de Israel, contrapõe o plano de Deus, revelado pela Escritura, que previa a necessidade («não devia…?») da paixão de Cristo para entrar na sua glória. Por detrás do texto transparece a prática habitual da leitura dos textos do Antigo Testamento nas assembleias litúrgicas.

            A caminhada está quase a acabar para os dois discípulos que, segundo as regras da hospitalidade palestinenses, insistem com o desconhecido para ficar com eles.

            Quando se sentam à mesa, Jesus «parte o pão» e neste gesto faz-se reconhecer. Depois da leitura da Escritura,  Lucas sugere aos seus ouvintes a «fracção do pão», termo técnico para indicar a Eucaristia (cf. Act 2,42.46; 20,7.11; 27,35): é aqui que agora os discípulos podem sempre encontrar o seu Senhor ressuscitado.

            Com o partir do pão, sem uma palavra, os seus olhos abrem-se: afinal o viajante é Jesus, que desaparece. O Senhor desaparece, mas fica a alegria do encontro. O resto é simples conclusão: reflexão sobre a luz das Escrituras, regresso a Jerusalém, para junto do grupo, onde ficam a saber que Simão viu o Ressuscitado, e contam a sua experiência ao longo do caminho e o instante da fracção do pão.

            O texto belo e bem estruturado que Lucas nos apresenta, mais do que um relato duma viagem com as suas peripécias, apresenta-se como uma catequese para os cristãos dos anos 80, a cinquenta anos de distância da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus, que se interrogavam, tal como os cristãos de todos os tempos: se Cristo ressuscitou e está vivo, como podemos encontrá-l’O e reconhecê-l’O; se Cristo está vivo, porque não toma uma atitude e triunfa definitivamente sobre o mal e sobre todos os poderes deste mundo?

            Na base na narração evangélica está o esquema duma celebração eucarística: a liturgia da Palavra e o «partir do pão». Os cristãos, à luz das Escrituras, vão percebendo o plano de Deus no que respeita a Jesus e àqueles que percorrem o mesmo caminho, seguindo-O. Ele faz-se companheiro (com+pão – o que partilha o mesmo pão), sentando-se à mesma, para que os seus entrem em comunhão com Ele e o reconheçam neste gesto, sinal da sua entrega aos homens. Para quem faz esta experiência só há um atitude a tomar: testemunhar que Jesus está vivo e presente na vida dos homens.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

II domingo da Páscoa – Ano A

 

 

Breve comentário

            A ressurreição de Jesus é um acontecimento de ordem sobrenatural. O evangelista João já tinha falado da ressurreição de Lázaro como um sinal de que Jesus era a Ressurreição e a Vida. Mas a ressurreição de Lázaro foi um tornar a viver, um voltar atrás à vida natural para, um tempo mais tarde, voltar a morrer. A ressurreição de Jesus é um passo para a frente: é um vencer a morte para uma vida que não mais acaba. Jesus continua a ser o mesmo, mas de modo diferente, tendo ultrapassado as barreiras naturais e físicas.

            É isto que o evangelista João começa por dizer ao apresentar Jesus, que surge no meio dos seus discípulos, estando as portas fechadas.

Jesus veio e pôs-se no meio deles. Agora, Jesus é capaz de se tornar presente para os seus quando ele quer e em qualquer circunstância. A «Paz» não é apenas uma saudação ou um desejo, mas o dom efectivo da paz, conforme Jesus já tinha dito: «Deixo-os a paz, dou-vos a minha paz (Jo 14,27). A seguir, faz-se reconhecer, apresentando-se como o mesmo que foi crucificado, com os sinais da morte: o lado, as mãos e os pés. Aquele que se apresenta diante dos discípulos já não é apenas o Mestre, o personagem do passado, mas o «Senhor». Com a sua ressurreição, Jesus demonstrou ser verdadeiro Deus porque é senhor da vida e da morte. Ele já tinha anunciado aos seus amigos que, com a sua visita depois da paixão e morte, o seu coração seria inundado por uma enorme alegria. Por isso, os discípulos alegram-se ao verem o Senhor.

«Como o Pai me enviou, também eu vos envio». Jesus, o Enviado por excelência, envia os seus discípulos. O «como» não é uma simples comparação entre dois actos de envio, mas a continuidade intrínseca de uma missão única: o Filho estende aos discípulos a sua própria missão, que ele recebeu do Pai. Para esta missão, Jesus comunica (soprando) aos seus discípulos o Espírito (sopro) Santo, ao mesmo tempo que lhes confere o poder de perdoar os pecados. O poder que é reservado a Deus e a seu Filho é conferido por Jesus aos seus discípulos, na medida em que se trata da mesma missão salvífica.

O reconhecimento de Jesus ressuscitado dá-se sempre no primeiro dia da semana (e «oito dias depois»), assinalado progressivamente como dia do Senhor, quando a comunidade está reunida para fazer a experiência de perceber a presença do Senhor na sua vida, receber a força do Espírito e a paz de Cristo. Quem não está presente, como Tomé, não percebe nem quer perceber o anúncio: «Vimos o Senhor», e quer provas físicas.

A figura de Tomé tem aparecido como modelo de incredulidade e de fé. Mas ele é, sobretudo, o discípulo que, não admitindo o testemunho da comunidade, mantém-se fiel à sua própria convicção, mas cede lealmente diante da evidência. A vida do Senhor ressuscitado escapa aos nossos sentidos, não pode ser tocada com as nossas mãos nem ser vista com os nossos olhos. Só pode ser alcançada através da fé.

Oito dias antes, os dez tinham exultado de alegria e, depois, tentaram convencer Tomé, embora sem sucesso. Era necessária a presença e a palavra do Vivente. O narrador passa ao lado do facto de que o discípulo já não faz questão de estender a mão. Relata a reacção imediata de Tomé: em vez de aceitar a oferta que lhe é feita, ele entra no pensamento de Jesus e faz a sua confissão de fé.

Não precisamos de fé para aquilo que vemos, sentimos fisicamente e que nos aparece com a certeza da evidência física. Por isso aqueles que acreditam sem verem são mais felizes porque têm a fé no seu estado mais puro, isto é, a única Fé. Só assim consegue fazer a verdadeira profissão de fé em Jesus, reconhecendo-o como: «Meu Senhor e meu Deus».

Finalmente, o evangelista lembra aos leitores que o seu livro foi composto «para que, crendo, tenhais a vida em seu nome». Este pequeno texto é a chave de interpretação de todo o evangelho de João. A sua finalidade é universal, conforme a medida do projecto de Deus. O Messias esperado por Israel seria, segundo os profetas, salvador para a humanidade inteira. Narrando o itinerário do Logos feito carne e, depois, do Filho que volta à glória que era sua antes da criação do mundo, o evangelista sublinhou com frequência que o dom da «vida» era destinado por Deus a todos os que, além de todas as fronteiras, creriam no Amor que ele manifestou em Jesus, Aquele que reúne na Unidade os filhos de Deus dispersos.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

Domingo da Ressurreição – Ano A

 

 

Breve comentário

            O evangelista João escreve para um grupo de pessoas que, na sua maior parte, não teve qualquer contacto pessoal com a figura do Jesus histórico. A sua relação com Jesus ressuscitado baseava-se no contacto íntimo que a fé proporciona. Por isso, S. João começa por acentuar alguns aspectos de encontro físico com a realidade do túmulo vazio, apresentando experiências concretas.

            Maria Madalena vai ao túmulo «de madrugada», quando já começa a haver alguma luz, o que não se parece conciliar com a referência «quando ainda estava escuro». Ela dirige-se ao túmulo ainda possuída pela ideia da morte, em «trevas», e não dá conta que o «dia» já começou. É o primeiro dia: começou uma nova criação!

Maria Madalena fica consternada perante a pedra removida. A palavra usada por João significa sobretudo um mausoléu. Isso indica que o túmulo de Jesus era especial. Havia duas classes de sepulcros a que podemos chamar covas ou cavernas: as mais comuns eram poços de tipo vertical. Sobre a cavidade, como tampa do poço, havia uma pedra ou lousa que cobria o buraco impedindo que as feras de chegarem ao cadáver. Já as covas de tipo horizontal eram sepulcros escavados ao nível do chão com uma abertura de aproximadamente um metro de diâmetro de modo que um adulto tinha de baixar-se para conseguir entrar. Uma pedra, que naguns casos era uma roda deslizante sobre um carril escavado, tapava a entrada. Este parece ser o túmulo que quase todos os evangelistas chamam sepulcro novo, escavado na rocha, no qual José de Arimateia colocou o corpo de Jesus.

Conclui, imediatamente, que o Senhor não se encontra no túmulo! Alguém o deve ter levado. É isto que ela vai comunicar a Pedro e ao «outro discípulo que Jesus amava». Sente-se perdida sem Jesus. Há uma atitude de procura, mas busca um Senhor morto.

O evangelista refere a pressa com que os dois discípulos se dirigem ao sepulcro: vão a correr, mas o outro discípulo chega em primeiro lugar. Apesar disso, deixa que Pedro entre em primeiro lugar, mantendo a precedência habitual em relação aos outros discípulos.

            Pedro analisa o estado das coisas: «vê os panos de linho por terra e o sudário que cobrira a cabeça de Jesus. O sudário não estava com os panos de linho no chão, mas enrolado num lugar à parte». Isto é sinal evidente que o cadáver não foi roubado, pois quem o roubasse não se daria ao trabalho de deixar tudo em ordem.

Mas Pedro não manifesta qualquer reacção. Será o discípulo que chegou em primeiro lugar ao túmulo que, entrando e vendo, acredita. Aquele discípulo, que está em sintonia com Jesus, a Vida, compreende os sinais da morte e do amor de Jesus. Parte dos sinais para chegar à fé no encontro pessoal com o Ressuscitado. Reconhece o mistério da presença por meio da ausência.

            A experiência do ressuscitado tem dois aspectos: negativo e positivo. É, em primeiro lugar, a experiência da ausência que, todavia, se descobre como sinal de vida. Em segundo lugar, reconhece e experimenta a vida anunciada. Jesus morreu, mas não é cadáver e está vivo e presente. É inútil buscá-lo no sepulcro, ele não está ali. O sepulcro é passado que remete para o presente. Será a reflexão posterior dos acontecimentos vistos à luz das Escrituras que irá ajudar a compreender o sentido da Ressurreição.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

Domingo de Ramos e da Paixão – Ano A

 

Breve comentário

Com esta narração estamos na parte central e certamente mais antiga do anúncio primitivo, que podemos definir como o cume do drama da redenção.

A narração, descritivamente pobre, é, no entanto, densa de conteúdo doutrinal. Verificam-se duas tendências dominantes: a histórica, que procura confirmar a veracidade dos factos, e a teológica, empenhada em apresentar a morte de Cristo, não como simples facto de crónica, mas como recapitulação de toda a preparação profética do passado e como projecção da humanidade num futuro de esperança e de amor. Em linhas gerais, os evangelistas procedem conforme um esquema comum, o que não exclui diversidade de pormenores e inserções de elementos próprios.

A figura central da narração é a pessoa do Mestre que, embora imerso numa atmosfera hostil, aparece como o dominador dos acontecimentos e das pessoas. O grito de fé do centurião, unido às reacções cósmicas manifestadas na morte de Cristo, abre uma espiral de luz a confirmar que, apesar do aparente e momentâneo sucesso das forças adversas, o verdadeiro vencedor é ele, o Messias e Filho de Deus, Salvador da humanidade.

A exposição de Mateus é essencialmente uma narração eclesial (o centurião não está isolado no seu acto de fé), onde o presente é visto como maturação do passado (citações da Escritura), que assegura aos crentes a fidelidade divina e leva-os ao acto de adoração plena, enquanto a conclusão da perícopa, em visual cósmico, coloca em relevo o aspecto escatológico da morte do Redentor.

Centrados no facto de Cristo que morre na cruz, podemos distinguir dois grupos de pequenos quadros que completam e clarificam a cena central: os últimos momentos de Jesus e a sua morte (Mt 27,45-50) e os fenómenos cósmicos na morte de Jesus (Mt 27,51-56).

Os últimos momentos de Jesus e a sua morte (Mt 27,45-50)

Mateus, mais do que nos aspectos clínicos dos últimos instantes de Jesus, fixa-se no aspecto doutrinal sublinhando a incidência da morte de Cristo no âmbito da história da Salvação. Um acontecimento tão grande não podia ser reduzido a termos comuns; era necessário recorrer a uma linguagem adaptada que envolvesse toda a realidade, o céu e a terra; por isso, a partida do Salvador é acompanhada de fenómenos excepcionais, entre os quais o primeiro, recordado por toda a tradição sinóptica, é o do aparecimento das trevas.

No momento em que a Luz do mundo se apaga sobre a cruz, as trevas envolvem a terra. Tal escuridão é considerada uma intervenção extraordinária de Deus, estreitamente ligada às circunstâncias dos últimos instantes da vida do Redentor, no qual os cristãos veriam o cumprimento das trevas anunciadas para o Dia de Yahweh. É suficiente pensar numa intervenção extraordinária de Deus em fenómenos naturais mais intensos como uma aglomeração misteriosa de espessas e densas nuvens ou, melhor ainda, um escurecer do sol provocado por vapores ou pelo pó trazido pelo vento siroco, fenómeno frequente na Palestina nesta estação e que, provavelmente, naquele ano teve uma intensidade excepcional.

Mais que no facto sensível em si, é para o seu valor simbólico que o evangelista quer chamar a atenção dos leitores. Apoiando-se em passagens do Antigo Testamento de tipo apocalíptico-profético, Mateus quer apresentar nas trevas que envolvem a terra o símbolo das forças do mal que procuram desesperadamente prender a obra redentora de Jesus e a aproximação do supremo juízo divino, do Dia de Yahweh. De resto, o tema das trevas, como concretização das forças do mal, encontra-se um pouco por toda a parte nas narrações evangélicas, sobretudo nas da Paixão. Aqui, na morte de Jesus, torna-se uma prova sensível do mar de ódio que está a submergir Cristo. Além disso, no Antigo Testamento, a obscuridade é símbolo de desgraça e de maldição por parte de Deus, pelo que se torna também sinal da ira punitiva do Senhor que se abate sobre os algozes do Messias e Filho de Deus.

No meio destas trevas, a tradição de Marcos-Mateus recorda o grito de Jesus entoado no início do Salmo 22, quase como confirmação dos oráculos proféticos e também como reflexo do drama íntimo que o atormenta pelo lado humano: Elî, Eli, lema sabachtánî, acrescentando imediatamente o esclarecimento da tradução (27,46b). A citação literal do salmo convida a considerar o espírito que o percorre de princípio ao fim e que não é certamente nem de amargura nem sequer de desconforto, mas exprime o confiante abandono do Messias nas mãos de Deus para que os inimigos, que quiseram a sua morte, não venham a prevalecer.

Pronunciando estas palavras do salmo, Jesus coloca-se na posição espiritual do salmista. Em ambos os casos, o do Mestre e o do salmista, o abandono não é nem a rejeição nem a reprovação, mas sim a expressão do peso que a prova deixa na natureza humana, unido porém à oração confiante dirigida a Deus, embora no meio duma opressão exterior e miséria moral; mais: o facto de invocar a Deus como «seu Deus» dá exactamente ao lamento o acento da confidência mais do que de reprovação. Deus, por um desígnio misterioso, abandona-o nas mãos dos inimigos, mas a aparente derrota muda-se, no salmo, em sentido messiânico, com o triunfo do Messias.

Jesus repetiu em voz alta a invocação do salmista e o termo ’Elî foi interpretado como invocação do profeta Elias. A confusão não parece ser um equívoco da parte dos hebreus que estavam junto à cruz, mas sim intencional jogo de palavras para escarnecer uma vez mais do agonizante. De facto é difícil pensar que os escribas e os fariseus presentes não tenham reconhecido nas palavras de Cristo o início do Salmo 22.

Segundo a opinião popular corrente, Elias era o grande socorrista das necessidades e, particularmente, levava a salvação na angústia máxima aos homens piedosos; além disso, sempre segundo a crença do povo, devia descer à terra para preparar a vinda do Messias (cf. Mt 17,10ss) para ungi-lo como tal e dá-lo a conhecer ao mundo. Os hebreus, presentes na agonia de Cristo, jogando com a homofonia material dos termos, fingiram entender que o moribundo invocava a ajuda do profeta e desejava tê-lo ao lado como socorro; por isso, com complacência sarcástica, colocam em relevo que o Salvador invoca o precursor do Messias, já certos que Jesus não se moveria mais da cruz e que certamente ninguém o ajudaria.

Logo a seguir a este mal entendido sobre Elias, Mateus insere no seu quadro narrativo o facto de um soldado (só os soldados se podiam aproximar) que procura tirar a sede a Jesus oferecendo-lhe vinagre, sem o mínimo aceno ao que determinou esta acção. A oferta do vinagre com um acenar ao Sl 69,22 poderia aparecer como uma ofensa a aumentar o tormento; na realidade, é entendida como um alívio (cf. 19,28), mesmo prolongando um pouco mais o sofrimento do moribundo.

Não faltaram críticos que duvidaram do valor deste facto, dizendo-o fruto da reflexão dos evangelistas sobre o Sl 69,22. Um exame atento ao conjunto sugere antes a formulação inversa: realmente Cristo na cruz experimentou uma grande sede, coisa normal nos crucificados, e este elemento histórico levou à reflexão teológica que o viu já preanunciado pelo salmista.

Todavia, embora admitindo que o vocábulo «vinagre» tenha sido escolhido pelos evangelistas por causa do Sl 69,22, no nosso caso a palavra tem uma acepção mais ampla e, segundo a opinião comum dos exegetas, designa a chamada «posca», uma bebida ácida e refrescante, mistura de água com vinagre, muito usada pelos soldados que a preferiam à água pura.

Atingido pelo espectáculo de tanta majestade no sofrimento, e movido por um sentido de humanidade, o soldado, tendo metido uma esponja numa cana, ofereceu-lhe de beber. Mas também aqui a maldade dos presentes se faz notar: «Deixa, vejamos se Elias vem salvá-lo»; o ódio cega completamente os hebreus que até ao fim atacam a própria vitima.

O forte grito com que Jesus morre demonstra que Cristo até ao último momento teve uma clara consciência e que a sua vida não se apagou docemente mas violentamente como verdadeira vítima sacrificial para o bem da humanidade.

Uma coisa nos fere: todos os trágicos acontecimentos que se sucederam com ritmo alucinante, de noite e manhã, encontram o seu epílogo na simples constatação dos evangelistas na sua função de historiadores: «expirou». É um verbo demasiado breve para exprimir uma realidade tão grande, mas em casos semelhantes a discrição e o silêncio são preferíveis. Os evangelistas enunciam, sem romantismo, a conclusão da obra, em que Jesus realizou definitivamente a salvação dos homens.

Os fenómenos cósmicos na morte de Jesus (Mt 27,51-56)

A ideia que preside a esta cena final nos sinópticos, em que Marcos e Lucas são mais breves, aparece evidente: às injúrias e humilhações precedentes opõem-se aqui as provas de testemunho e veneração. Mateus é mais desenvolvido e, enquanto noutros lados tende a abreviar elementos maravilhosos, aqui, pelo contrário, multiplicou-os, acrescentando outros sinais, como o terramoto, o fender da rocha, a abertura dos sepulcros e a ressurreição dos mortos, o que, opondo-se às precedentes descrições que apresentavam o Mestre na sua realeza natural e humana, faz realçar a sua misteriosa personalidade de Filho de Deus.

Os fenómenos com que os sinópticos, Mateus em particular, apresentam a morte de Jesus, fazem realçar, juntamente com as trevas, a dimensão excepcional do acontecimento e o unem estreitamente a profundos visuais simbólico-doutrinais, quer cultuais (o véu do templo que se rasga), quer cósmicos (o terramoto e o fender da rocha), quer escatológicos (a ressurreição dos mortos). Para entender estes dados e a sua inserção na perícopa é necessário ter em conta o género literário destas narrações. Não se trata de instantâneos fotográficos, nem de serviço imediato de informação, mas duma narração de sabor bíblico e intenção teológica.

Sem negar à partida os acontecimentos maravilhosos, temos no entanto o direito de nos interrogarmos porque é que eles são expostos desta maneira e se os autores não teriam a intenção de evocar temas bíblicos que se realizaram agora.

            A hora sexta é o meio dia; a hora nona são as três horas da tarde. Esta é a hora das trevas em pleno dia, como foi profetizado por Amós: «Naquele dia – oráculo do Senhor meu Deus – farei com que o Sol se ponha ao meio-dia, e em pleno dia cobrirei a terra de trevas» (Am 8,9; no mesmo contexto fala do «luto por um filho único). O dia do Senhor tão esperado revela-se como «trevas e não luz» (Am 5,20). Estamos como no fim do mundo: «Logo após a aflição daqueles dias,o Sol irá escurecer-se, a Lua não dará a sua luz… Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem…» (Mt 24,29ss), isto é, o sinal da cruz. Esta é a hora profetizada por Jesus Jesus quando estava perante o Sinédrio: «De agora em diante vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu» (Mt 26,64).

            Nesta hora, hora da sua morte na cruz, Jesus deixa de ser definido como vivente neste mundo, ou melhor deixa de ser definido como um condenado à morte, e assume uma nova modalidade como presença na história, como juiz sentado à direita do Pai. Devemos ainda esperar o anúncio da ressurreição, mas tudo já se decide nesta hora suprema, a qual se apresenta como uma dupla hora de trevas em vez da luz esperada, mas também hora de salvação precisamente no meio da trevas mais densas. Hora duma salvação que se realiza paradoxalmente, no momento do extremo abandono.

É provável que a morte de Cristo tenha sido acompanhada de acontecimentos extraordinários (Mt 27,51-53). Porém, vê-se que o evangelista os apresenta com uma intenção de fundo. Encontramo-nos diante dum género literário utilizado pelos escritos sagrados para anunciar as profundas transformações que o início da era messiânica teria produzido. De resto, demonstram-no muito bem as expressões evangélicas usadas pelo primeiro evangelista ao apresentar estes fenómenos cósmicos, expressões onde a referência profético-apocalíptica aparece evidente. Podemos recordar orasgar do véu que, na literatura apocalíptica, significa «suprimir o segredo, tirar a exclusividade», ou ainda o tremor de terra e o partir das pedras, figura do juízo divino, ou também a ressurreição dos corpos como apresentação do início duma nova fase e dum novo modo de viver.

O primeiro fenómeno, comum aos três sinópticos, é o do véu do templo rasgado, colocado aqui pelo seu significado simbólico. Mais do que procurar saber de que véu se trata, o acento é posto sobre o «rasgar» ou destruição do véu, figurando a revogação do judaísmo a favor do cristianismo. Com a morte de Cristo termina a antiga economia judaica com todas as suas instituições cultuais e o seu âmbito nacionalista para dar início ao universalismo da salvação; as figuras e as promessas dão lugar à realidade, enquanto ao ritualismo judaico, ligado a um só templo e celebrado com a oferta de vítimas irracionais, se substitui o culto universal em espírito e verdade de que Cristo é o altar, a vítima e o Sacerdote. Realizava-se, assim, a dupla profecia de Jesus que o templo ficaria deserto (Mt 23,38), enquanto era erigido o novo templo não feito por mão de homem.

Ao véu que se rasga, comum à tradição sinóptica, Mateus acrescenta outros três fenómenos (o terramoto, o quebrar das rochas e a ressurreição dos mortos), a entender-se sempre em âmbito simbólico; mais: dir-se-ia que, avançando na sua descrição, o primeiro evangelista se afasta mais da possibilidade duma interpretação histórico-narrativa para sublinhar de modo primário as apresentações profético-apocalípticas de valor claramente teológico.

Antes de mais, temos o terramoto e o fender das rochas (Mt 27,51b). Entramos aqui em plena expressão bíblico-apocalíptica para a descrição do dia de Yahweh de que Mateus mostra depender estreitamente.  Não se nega a possibilidade de que à morte de Jesus tenha havido um terramoto com um fender das rochas; porém, do conjunto aparece mais evidente que o nosso evangelista se refira ao Antigo Testamento,  na recordação de abalos telúricos como manifestação da ira divina (cf. Am 8,9; Jr 15,9), para fazer compreender que, com a morte de Cristo, se cumpriram as profecias escatológicas e teve verdadeiramente início a era messiânica da transformação e da salvação.

Mais difícil se apresenta a interpretação do outro fenómeno recordado por Mateus, a ressurreição de alguns mortos que se teriam feito ver em Jerusalém depois da ressurreição de Cristo (Mt 27,52-53). Tomada à letra, este texto torna-se pouco verosímil. De facto, como se pode pensar em mortos que ressuscitam no momento em que Jesus expira e que esperam no sepulcro a ressurreição de Jesus para aparecer na cidade santa? E, a ser assim, como é que o redentor poderia ainda ser considerado o primogénito dos mortos? (cf. 1Co 15,20)

O texto é entendido à luz das apresentações apocalípticas da época admitindo que aqui Mateus queira falar da ressurreição escatológica, já anunciada pelos profetas para o fim dos tempos. Os justos de que se fala seriam os personagens do Antigo Testamento que esperavam a libertação de Cristo para entrar na beatitude celeste. Mateus quer ensinar que estes justos obtiveram a entrada na era escatológica, associados à ressurreição de Cristo e por força da sua precedente morte salvífica na Cruz; eles entraram assim com as suas almas no céu, apareceram na Jerusalém Celeste, enquanto o seu corpo espera ainda a ressurreição final. Esta palavra de Mateus é mais teológica que histórica; com ela, sobretudo, o evangelista, ligando-a aos acontecimentos apocalípticos precedentes (tremor de terra, escurecimento do sol, quebrar das rochas), quis apresentar aos cristãos a morte de Cristo no seu significado universal, como o início do fim dos tempos, o início duma nova era escatológica, que em parte já chegou, enquanto pela graça e pela fé estamos unidos a Cristo ressuscitado, mas que, ao mesmo tempo, não chegou definitivamente, pois ainda estamos neste mundo de pecado à espera de nos unirmos para sempre com Cristo glorificado.

O conjunto de todos estes fenómenos assume assim o valor de uma verdadeira revolução cósmica que, partindo do alto, o véu do templo, se propaga para a terra, com o terramoto, transmitindo-se àquilo que nela é mais sólido, as pedras, e de mais sagrado, os túmulos.

O centurião romano, encarregado da execução e da guarda ao corpo do Crucificado, permanecendo ao lado da cruz, tinha notado em Jesus factos extraordinários: o suportar sereno da dor, a profunda calma diante das injúrias e sarcasmos, o perdão concedido aos que o crucificaram, o forte grito antes de morrer; tudo coisas que o atingiram fortemente. Certamente o centurião já tinha visto morrer muita gente condenada, mas nenhum tinha tido uma atitude resignada e nobre como a de Jesus; um semelhante espectáculo tinha-o abalado e colocado a ele, pagão, frente ao extraordinário, ao divino.

No pretório e no Calvário o centurião tinha ouvido acusar aquele condenado de se ter feito Filho de Deus. Ora ele mesmo, por todas as circunstâncias, podia constatar que aquela afirmação era bem fundada e que Jesus se tinha comportado de modo sobre-humano. O centurião, perante tudo isto, sente brotar-lhe de modo espontâneo a afirmação: «Verdadeiramente este homem era Filho de Deus», uma profissão de fé que proclama publicamente a inocência de Jesus e a sua grandeza mais que humana e o fundamento de todas as suas pretensões, a prefigurar concretamente a entrada no reino dos céus da multidão dos gentios, ingresso predito por Jesus quando louvou a fé dum outro centurião durante a sua vida pública (Mt 8,10-11).

Juntamente com o centurião são recordadas, como testemunhas mudas e doridas, algumas mulheres piedosas, quase todas galileias, do grupo que há muito seguia Jesus (cf. Lc 8,2ss). Temos aqui um outro contraste muito forte: a ausência dos discípulos, que fugiram à excepção de João (Jo 19,26ss), e estas mulheres débeis corajosamente presentes na tragédia do Calvário. Em parte, são as mesmas que estarão presentes na sepultura e que na manhã de Páscoa se dirigirão ao túmulo. Mateus conservou o nome delas: Maria de Magdala, Maria mãe de Tiago e José e a mãe dos filhos de Zebedeu.

A presença destas mulheres piedosas e da Mãe de Jesus ao lado da cruz a testemunhar a sua fidelidade e o seu amor, fecha com um flash humano e piedoso a cena do Gólgota. Na realidade, o enquadramento de Mateus, de narração fúnebre transforma-se em apoteose para recordar que a morte é a condição da vitória, mas também o início da mesma. Embora Jesus esteja ainda na cruz, ele já triunfa e as piedosas mulheres, que observam de longe, já preanunciam a sua ressurreição.

Este enquadramento último do Calvário adquire assim um valor teológico e recorda-nos uma vez mais que a participação na paixão de Cristo é o único caminho para entrar e fazer parte da sua glória.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

Administrador Diocesano

 

Monsenhor João Gonçalves Gaspar

Aos 07 dias de mês de Abril de 2014, em obediência ao preceituado no Código de Direito Canónico ( cc. 419 e ss.), reuniu o Colégio de Consultores da Diocese de Aveiro. Como único ponto da Agenda constava a eleição do Administrador Diocesano uma vez que, na tarde do passado dia 5, iniciara o múnus pastoral de Bispo da Diocese do Porto, sua Ex.cia Rev.ma o Senhor D. António Francisco dos Santos.

Assim, e dando cumprimento à Agenda proposta, após votação secreta, foi eleito para Administrador Diocesano o Rev.do padre Mons. João Gonçalves Gaspar que aceitou a eleição e exercerá esta função até à vinda do novo Bispo Diocesano.
Depois de tecer algumas palavras de circunstância, manifestou a sua surpresa, mas também a disponibilidade para o cargo que agora lhe tinha sido pedido. Da parte dos Consultores, todo o Colégio foi unânime na certeza da sua colaboração sempre que lhe fosse solicitada.

Tendo feito a profissão de fé, canonicamente ordenada, o Administrador Diocesano deu início ao cargo para que foi eleito.

O secretário do colégio de Consultores
P. Manuel Joaquim Rocha

 

Perdoar...

 

"Sabemos verdadeiramente o que é perdoar?

Podemos talvez ter a impressão que perdoar é esquecer algo que nos fizeram,

como se passássemos um pano sobre uma situação que nos magoou e fazemos de conta que não existiu.

Mas vemos na nossa vida que isto é tão difícil.

Queremos perdoar alguém, mas a mágoa impede que a relação fique como antes.

E a mágoa é um peso que trazemos e que gostaríamos tanto de não trazer connosco.

O perdão, mais do que esquecer é acreditar no outro e no bem que pode realizar na sua vida.

Tal como Jesus, não perdoa como se esquecesse aquilo que aconteceu, mas perdoa dando uma nova oportunidade.

E essa experiência faz-nos verdadeiramente livres e felizes."

 

V Domingo da Quaresma – Ano A

 

 

Breve comentário

O evangelho deste domingo é mais uma das catequeses que o evangelista João apresenta na primeira parte do seu evangelho, o «Livro dos Sinais».

Apesar de ser um texto bastante longo, chamado vulgarmente «a ressurreição de Lázaro», dedica apenas dois versículos a este episódio. O resto do texto procura ajudar o leitor ou o ouvinte a entrar na profundidade da mensagem que o «sinal» quer transmitir.

O termo «ressurreição» referido a Lázaro é equívoco. Será melhor falar de «reanimação», um regresso a este mundo para retomar a vida material, reservando a palavra «ressurreição» para significar a entrada para a vida inaugurada por Jesus na Páscoa, deixando esta vida material para entrar no mundo de Deus.

Logo no início da narração é apresentada uma família composta apenas por três elementos, não havendo referência a outros membros, com a nota de que são «irmãos». Pelo facto de as duas irmãs, Marta e Maria, terem o controlo da casa, podemos pensar que Lázaro (forma grega do nome Eleazar, que significa «Deus ajudou») seria menor ou solteiro. Por outro lado, é com a palavra «irmão» que Jesus ressuscitado se refere à comunidade dos discípulos (Jo 20,17) e é assim que os membros da primeira comunidade cristã se tratam. A relação entre Jesus e esta família é apresentada em termos de amizade e de amor recíproco.

As irmãs de Lázaro enviam-lhe um recado: «Senhor, aquele de quem és amigo        está doente», em que está implícito um pedido de ajuda. Porém, Jesus não vai imediatamente ter com o amigo doente, mas deixa que ele morra. Não tem a intenção de impedir a morte física, prolongando-a indefinidamente, mas quer dar uma lição acerca da sua missão e do plano do Pai: dar a vida eterna, apresentando um sentido diferente, novo, para a morte física.

Jesus manifesta aos discípulos a sua intenção de ir para a Judeia porque o impele o amor para com o seu amigo e por todos os homens. Este é o motivo do seu peregrinar: o amor generoso e fiel por todos. Mas os discípulos que estão com ele só pensam no perigo que poderá representar tal atitude. Com a frase «Não são doze as horas do dia?», provavelmente citando um provérbio, Jesus compara a sua vida a um dia de caminhada. Enquanto não tiver terminado o que Deus lhe confiou, a sua vida não chegou ainda ao seu termo e a sua missão continua. Só quando tudo estiver realizado terá chegado a sua hora, virá a noite, o «poder das trevas», em que os seus inimigos poderão matá-lo.

Com o atraso deliberado de Jesus, para quem a morte é um «sono», o amigo Lázaro acaba por morrer e é sepultado logo no mesmo dia, conforme o costume judaico. Há quatro dias que tal aconteceu. Já não há nada a fazer pois, para a mentalidade judaica, tudo está consumado a partir do terceiro dia, tornando a morte irreversível.

As irmãs de Lázaro, uma após outra, chamam a atenção de Jesus para o seu atraso: «Senhor, se Tu estivesses aqui, o meu irmão não teria morrido».Mas Marta continua a confiar, acredita que Jesus é o Messias e pode fazer tudo, podendo fazer ressuscitar o irmão. Ela crê na ressurreição final, mas espera que Jesus actue agora. No Antigo Testamento Elias tinha ressuscitado o filho da viúva de Sarepta (1Rs 17,21) e Eliseu o filho da mulher sunamita (2Rs 4,14). O próprio Jesus tinha ressuscitado a filha de Jairo e o filho da viúva de Naim. Mas em todos estes casos nem sequer estavam sepultados, quanto mais tendo morrido há quatro dias e a cheirar mal!

A afirmação fundamental do texto é descrita em poucas palavras: «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em mim jamais morrerá para sempre». A catequese é evidente: aqueles que aderem a Jesus já possuem a vida definitiva. A morte física é inevitável, mas não é definitiva, é apenas um sono, uma passagem para a vida definitiva.

Jesus não é indiferente ao sofrimento e à dor dos seus amigos. Chora perante a separação, embora  apenas por algum tempo. Mas o evangelista faz notar que o choro de Jesus é diferente. Enquanto usa o verbo grego klaiein para Maria, Marta e os outros judeus, que tem o sentido dum choro acompanhado com gestos de desespero, para Jesus usa o verbo edákrusen que significa: «as lágrimas começaram a correr-lhe dos olhos». Trata-se dum choro sereno.

A pedra que encerra o sepulcro representa uma barreira entre a vida e a morte, tornando-se símbolo de separação definitiva. É esta «pedra» que Jesus manda retirar, tal como removeu a pedra do seu sepulcro para vencer a barreira da morte, pois a morte não é um fim.

Jesus reza ao Pai, não para pedir um milagre mas para que os que o rodeiam entendam o significado profundo do «sinal» que está para realizar. E bradou com voz forte: «Lázaro, vem para fora». Concretiza-se assim o que ele já tinha dito: «Chega a hora – e é já – em que os mortos hão-se ouvir a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão. Todos os que estão dos túmulos hão-se ouvir a sua voz e sairão» (Jo 5,25-29).

A ordem final de Jesus – «Desligai-o e deixai-o ir» – parece não ter sentido naquele momento. Mas o evangelista está a pensar na futura comunidade dos «irmãos» que choram a perda dum «irmão». É importante deixar que o irmão viva a sua condição duma vida nova e plena. Esta vida é um novo nascimento, como o entenderam os cristãos logo no início, assinalando o dia da morte como o dia festivo da comemoração de cada santo.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

Senhor...

"Ao cair da noite vêm as lágrimas 

E ao amanhecer volta a alegria.

Quantas vezes, Senhor, me deito cansado, desanimado com as dificuldades do dia que passou.

Quantas vezes não me apetece acordar, mas ficar ali, deitado, isolado dos meus problemas.

Mas quem confia em Ti, sabe que o medo e o desânimo não têm a última palavra.

A Quaresma, como tempo de preparação para a Páscoa,

lembra-nos que a Ressurreição é sempre o lado luminoso da cruz.

Não a evita, mas transforma-a.

Hoje, Senhor, peço-te que em cada manhã sinta a promessa de um novo dia.

Que eu me sinta movido a buscar a alegria, aquela que só Tu podes dar."


IV Domingo da Quaresma – Ano A

 

Breve comentário

            O episódio da cura cego de nascença, inserido na primeira parte do Evangelho de S. João, o Livro do Sinais, deve ser abordado não apenas como uma cura miraculosa mas como um «sinal» que aponta para uma realidade mais profunda.

            O contexto anterior traz uma certa luz para entendermos o texto de hoje. O episódio está no prolongamento da festa das Tendas que, durante uma semana, se caracterizava pela liturgia da água e da luz. No segundo dia da festa, celebrava-se o rito da «alegria do poço», organizando-se uma solene procissão para ir buscar água à piscina de Siloé, o único reservatório da cidade. Jesus, de pé, proclamou: «Se alguém tem sede, venha a mim; e quem crê em mim sacie a sua sede» (Jo 7,37), o que faz recordar o diálogo com a samaritana. Durante a festa da luz proclama: «Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8,12), frase que irá encontrar um eco no episódio deste domingo.

            O homem do relato é cego de nascença, mas a sua cegueira não provém do pecado. O seu estado simboliza outra escuridão, aquela em que todo o homem se encontra antes de ser iluminado. Por isso, ele não pede nada, pois não pode pedir aquilo que não conhece. Ele não vai recuperar algo que já teve: simplesmente vai nascer para uma nova existência.

A cura do cego só se realiza depois de ele se ter ido lavar à piscina de Siloé (palavra que significa «Enviado»), com uma referência clara a Jesus, o enviado do Pai. Jesus é a água viva que cura a cegueira do homem, de todo o homem.

            Quem é iluminado por Jesus, quem recebe a sua luz, passando a ser uma pessoa nova, iluminada, o que naturalmente leva os outros a duvidarem se é o mesmo indivíduo. Ele tornou-se diferente!

            Da parte das autoridades religiosas, que estão convencidos de possuírem a verdade, de serem iluminados, há uma rejeição do sinal operado. Estão convencidos de que vêem e, por isso, negam-se a ver a Luz: «as trevas não o receberam», como anuncia o evangelista no início do evangelho.

            Porém, para aquele que foi cego, e agora começa a ver, existe todo um caminho a percorrer até chegar a «ver» plenamente. Um caminho em que é rejeitado, abandonado à sua sorte mesmo pelos mais próximos (os pais que se põem longe da situação), um caminho de procura da verdade, consciente da sua limitação e da sua ignorância: «Onde está, não sei»; «Se é pecador, não sei»; «Quem é?».

Mas algo de novo se operou e, por isso, não tem medo de enfrentar aqueles que o querem aconselhar a continuar «cego», que o ameaçam. Torna-se corajoso, até um pouco atrevido e irónico perante aqueles que se recusam a ver a evidência, pelo que o insultam e expulsam do seu círculo. O que era cego estava proibido de entrar no templo; agora, que vê, é expulso da sinagoga…

            Este homem, apesar de ter sido iluminado, de ter recebido a Luz que o modificou e levou a tomar atitudes firmes face aos que permanecem nas trevas, julgando ver, ainda não conhece plenamente Jesus. Fez todo um percurso de fé. Falta-lhe o reconhecimento de Jesus e a confissão de fé. «Tu crês no Filho do Homem?».Ele respondeu e disse: «E quem é, Senhor, para eu crer nele?».Disse-lhe Jesus:«Já O viste. Quem fala contigo é Ele».Ele disse: «Eu creio, Senhor!».

            Aquele que era cego fisicamente, sem culpa da sua parte, agora vê plenamente, está agora completamente iluminado. Aqueles que não eram cegos fisicamente apresentam uma maior cegueira, permanecem nas trevas e recusam-se a ver. Por sua culpa são cegos!

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

A vida é bela...

 

"Já pensou hoje em como a vida é bela?

Já fez alguma coisa para mudar a sua vida?

Já disse as pessoas de sua família o quanto as ama?

Já agradeceu a Deus pelas coisas belas que você tem?

O que está esperando!

Vá viver a sua vida, pois a felicidade não pode esperar..."

 

 

III Domingo da Quaresma – Ano A

 

 

Breve comentário 

Para uma compreensão do evangelho deste domingo e dos dois domingos seguintes, devemos ter em conta que os textos são tirados do Evangelho segundo S. João que apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. Sendo, por um lado, o evangelho que apresenta mais pormenores geográficos e cronológicos sobre a pessoa e obra de Jesus, por outro lado é aquele que se apresenta como o mais simbólico. O leitor ou ouvinte deve interrogar-se sempre sobre o que S. João pretende dizer para além daquilo que apresenta.

            A primeira parte da obra (4,1–11,56) é chamada «Livro dos Sinais» pois o autor, por detrás dos textos, tratados de forma simbólica, apresenta um conjunto de catequeses sobre a acção de Jesus Messias, utilizando os «sinais» da água (4,1–5,47), do pão (6,1-7,53), da luz (8,12-9,41), do pastor (10,1-42) e da vida (11,1-56). O texto deste domingo é a primeira catequese do «Livro dos Sinais»: através do «sinal» da água, o autor vai descrever a acção criadora e vivificadora de Jesus.

A cena passa-se à volta do «poço de Jacob», não longe da cidade samaritana de Siquém (em aramaico, Sicara – a actual Askar). Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária, e cuja profundidade ultrapassa os 30 metros, que, segundo a tradição, teria sido aberto pelo patriarca Jacob. A Samaria era a região central da Palestina que, depois da invasão dos assírios em 721 a.C., passou a ser habitada por outros povos que se misturaram com a população local que aí continuou após a deportação duma parte dela para a Assíria. Com o decorrer dos tempos esta gente começou a paganizar-se (cf. 2Rs 17,29).

Na época do Novo Testamento, existia uma animosidade muito viva entre samaritanos e judeus. A relação entre as duas comunidades deteriorou-se ainda mais quando, após o regresso do Exílio, os judeus recusaram a ajuda dos samaritanos (cf. Esd 4,1-5) para reconstruir o Templo de Jerusalém (437 a.C.) e denunciaram os casamentos mistos. Tiveram, então, de enfrentar a oposição dos samaritanos na reconstrução da cidade (cf. Ne 3,33-4,17). Como reacção, no ano 333 a.C. os samaritanos construíram um Templo no monte Garizim; no entanto, esse Templo foi destruído em 128 a.C. por João Hircano. Já em vida de Jesus, no ano 6 d.C., os problemas avolumaram-se quando os samaritanos profanaram o Templo de Jerusalém durante a festa da Páscoa, espalhando ossos humanos nos átrios. Por isso, mais do que um mal-estar, entre judeus e samaritanos havia um sentimento de ódio e desprezo recíprocos.

Aquele «poço» aparece, na tradição samaritana, judaica e dos essénios de Qumran, com um forte sentido simbólico. Faz recordar todos os poços abertos pelos patriarcas e a água que Moisés fez brotar do rochedo no deserto; mas, de modo particular, torna-se figura da Lei de Moisés.

Situando o diálogo junto dum poço, o evangelista apresenta-nos um tema da literatura bíblica. O poço era lugar privilegiado de encontro, de conflito e de reconciliação. Por exemplo, foi junto de um poço que se prepararam os casamentos de Isaac e Jacob; foi também junto de um poço que Moisés encontrou as filhas de Raguel.

Também Jesus, tal como Moisés, senta-se junto dum poço, cansado, por volta da hora sexta (meio-dia). É aqui que se dá o encontro com uma mulher samaritana.

A mulher é um símbolo da Samaria, que procura a água capaz de matar a sua sede de vida plena. Jesus, na linha da profecia de Oseias que pregou nesta região séculos antes, é o Deus/esposo que vai ao encontro do povo/esposa infiel para lhe fazer descobrir o amor verdadeiro. O «poço» representa a Lei e todo o sistema religioso. Era «nesse poço» que os samaritanos procuravam a água da vida plena sem se poderem saciar. Por isso, entregaram-se ao culto de outros deuses/«maridos» (precisamente cinco), conforme nos relata 2Rs 17,29-41. Mas continuaram sem saciar a sua sede de vida plena.

Jesus senta-se «junto do poço» e propõe à mulher/Samaria uma «água viva» que matará definitivamente a sua sede de vida eterna. Jesus passa a ser o «novo poço», onde todos os que têm sede de vida plena encontrarão resposta para a sua sede. Ele mesmo tem sede e pede água, mas a sede dele é a sede de matar a sede. O pedido «Dá-me de beber» vai encontrar um paralelo na exclamação «Tenho sede» que Jesus faz do alto da cruz, sem que tenha bebido a água que lhe fizeram chegar…

O evangelista desenvolve todo o diálogo num crescendo que parte da reacção negativa («Tu és judeu e pedes de beber a mim que sou uma mulher samaritana?»), da confusão e do equívoco («não tens balde»), pela descoberta da presença de Deus em Jesus («vejo que tu és profeta»), pela iniciativa de ir anunciar aos outros («Não será ele o Messias?»), até à confissão de fé («Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo») de muitos que, através da mulher, se encontraram com Jesus.

 

P. Franclim Pacheco

 

Diocese de Aveiro

 

 

Senhor,

Neste dia quero rezar-te pelos pais 

Todos necessitamos de um pai

Dos seus braços fortes e acolhedores

Das suas palavras rectas e orientadoras

Da sua ternura e afecto.

E hoje os pais são tão esquecidos!

Senhor, rezo-Te pelos pais

Que nunca percam o sentido da paternidade

Que se sintam gratificados pelo dom de serem pais

Que amem os seus filhos e lhes indiquem caminhos e metas

Que construam lares com sonhos e esperança

Lares onde o amor seja verdade!

E que aprendam com São José a cuidar dos seus filhos

A procurarem os seus filhos

A acompanharem os seus filhos

A amarem os seus filhos.

Senhor, obrigado pelos pais!

Pe.Manuel dos Santos

 

 

Pensamento...

 

 

“ A vida não é fácil, e viver exige muita dedicação

de cada um de nós, a felicidade anseia sempre

pelo nosso melhor, por isso a ajuda de Deus

para nos conduzir é fundamental e indispensável”

Anónimo


 

II Domingo da Quaresma – Ano A

 

 

Breve comentário

Para melhor entendermos o texto deste domingo, que nos apresenta a transfiguração de Jesus, devemos situá-lo no seu contexto. Antes da transfiguração é referida a confissão de Pedro (16,13-20) com a inserção do dito de Jesus sobre o primado, seguindo-se a predição da paixão e ressurreição (16,21-23), à qual Pedro reage, sendo chamado «Satanás», o convite à renúncia de si mesmo, a tomar a sua cruz e a seguir Jesus no seu caminho de amor e de entrega da vida (Mt 16,24-28). O que se segue, até Mt 20,34, continua a ser uma catequese sobre o discipulado, apresentando mais dois anúncios da paixão.

A transfiguração aparece colocada pouco depois do primeiro anúncio e é seguida quase a seguir do segundo. Nela o tema da glória prevalece; mas também está aqui presente o tema da dor: o pressentimento da morte serve de fundo à perícopa. Nos anúncios da paixão o tema do sofrimento e da morte prevalece mas não está só, pois todos os anúncios terminam sempre com uma referência à ressurreição.

            O Pai confirma os actos realizados por Jesus antes de subir ao monte: ele é o Cristo e o Filho de Deus (16,16), é o servo sofredor que Pedro não aceita (16,21-23), aquele que chama a segui-lo no seu caminho (16,24) e se declara como juiz do mundo (16,27). Diante de três homens, o Filho do Homem é proclamado pelo Pai como Filho de Deus. É o final da discussão sobre quem é Jesus, é o início da viagem para Jerusalém, com a sua morte e glorificação.

            Com a transfiguração, Pedro, Tiago e João têm uma antecipação da glória que Jesus terá depois da sua ressurreição. Também nós seremos transfigurados como ele, se o escutarmos e cumprirmos a sua palavra.

Literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania, isto é, uma manifestação de Deus, apresentada com os elementos típicos que encontramos no Antigo Testamento para apresentar as manifestações de Deus: o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino.

            Antes deste episódio, Jesus tinha exclamado: «Há aqui alguns presentes que não experimentarão a morte antes de verem o Filho do Homem vir no seu reino» (16,28). No contexto do evangelho de Mateus este versículo refere-se à transfiguração a seguir narrada como um saborear antecipado da glória do Filho do Homem.

A indicação de «seis dias», no pensamento de Mateus pode referir-se ao testemunho de Pedro e à discussão que se lhe seguiu, sobretudo a oposição de Jesus a Pedro, mas também à recordação da manifestação de Deus no monte Sinai (Ex 24,16). De facto, seis dias é o tempo exacto que a glória do Senhor, isto é, a nuvem, cobriu o monte Sinai. No sétimo dia o Senhor chamou Moisés do meio da nuvem. O monte alto é identificado pela tradição com o monte Tabor, na planície de Jezrael. Jesus leva consigo apenas três discípulos. Também isto nos recorda o Sinai, pois Moisés subiu ao monte juntamente com Aarão e os seus dois filhos, Nadab e Abiú.

Para Mateus, o monte é lugar de revelação: Jesus sobe a um monte para apresentar a sua Lei (Mt 5–7); sobre um monte fará a sua manifestação como Ressuscitado (Mt 28,16-20).

O verbo usado por Mateus para apresentar a transfiguração é metamorphòthe (mudou de aspecto). O evangelista sublinha este efeito sobretudo no rosto de Jesus. Aqui há uma referência a Moisés que, ao descer do monte Sinai não se tinha dado conta que a pela do seu rosto resplandecia depois de ter falado com Deus» (Ex 34,29). O judaísmo esperava para a era escatológica uma transformação dos justos (cf. também Paulo, 1Co 15,35-54). As suas vestes tornaram-se brancas como a luz: uma expressão quase idêntica descreve o anjo da ressurreição (28,3).

            Ao lado de Jesus surgem duas figuras: Moisés e Elias. Estes dois personagens são extremamente significativos. Não são apenas os dois personagens mais importantes do Antigo Testamento, mas ambos estiveram no monte Sinai e tiveram uma visão de Deus. Além disso, a sua morte foi particular: Moisés morreu antes de entrar na terra prometida, mas o seu túmulo nunca foi encontrado (Dt 34,5-6); Elias foi arrebatado num carro de fogo (2Rs 2). Eles falam com Jesus precisamente da sua morte, como especifica o texto paralelo de Lucas (Lc 9,31). A função de Moisés e Elias parece ser a de quem presta homenagem a Jesus e dá testemunho da voz do céu.

            A proposta de Pedro em fazer três tendas é um serviço oferecido; é também uma manifestação de alegria e de assombro. Talvez ele queira prolongar este momento de glorificação, pois revolta-se contra a ideia do sofrimento messiânico.

Agora Jesus tem o aspecto daqueles que Deus já glorificou com a vida imortal (luz e brancura das vestes). Paixão e ressurreição, humilhação e glória estão entrelaçadas. Deste modo, a transfiguração torna-se ela mesma um anúncio, uma profecia dos factos. O que por agora domina sobre o monte, diante dos olhos estupefactos de Pedro, Tiago e João é sobretudo a glória. Por um breve momento, Jesus oferece aos seus discípulos mais próximos uma iluminação sobre o seu futuro e o deles, um presságio do além. O sofrimento, para o qual ele está a caminhar com lúcida consciência e para o qual caminharão os seus discípulos, é um presságio, não é definitivo. O seu desembocar natural, inevitável, será a glória; a qual então manifesta o secreto valor do presente sofrimento: «Porque quem quiser salvar a própria vida, há-de perdê-la; mas, quem perder a própria vida por minha causa, salvá-la-á».

            A nuvem luminosa interrompe o discurso de Pedro. Trata-se dum contrassenso que se encontra somente em Mateus (como pode uma nuvem fazer luz?). Neste elemento encontramos ainda o influxo do Êxodo: a nuvem da glória do Senhor «aparecia como fogo devorador aos olhos dos filhos de Israel no cimo da montanha» (Ex 24,17). Também a nuvem cobria a Tenda da Reunião em Ex 40,34-35. Agora já não há necessidade de fazer tendas, pois a revelação da glória do Senhor foi agora encerrada no coração dos discípulos!

Este é o meu Filho Predilecto, em quem me comprazo – A frase é a mesma que se ouviu na narração do baptismo e que condensa, aprofundando-as, diversas expressões do Antigo Testamento. O Pai apresenta agora o Filho predilecto, o seu unigénito, aos três discípulos: «Este é o meu Filho». Como Yahweh no Sinai tinha falado ao povo por meio de Moisés, oferecendo-lhe o poder tornar-se sua nação predilecta, sua propriedade santa, assim agora o próprio Deus fala aos três discípulos, apresentando-lhes o seu Filho predilecto.

Escutai-O! Todas as palavras de Jesus são autenticadas, aprovadas e defendidas por Deus. No pensamento de Mateus, a voz do céu pede que seja escutada sobretudo e em particular a palavra de Jesus sobre a sua própria paixão, morte e ressurreição, objecto já da repulsa por parte do mais importante discípulo, e destinada a permanecer pelos séculos futuros como motivo de escândalo.

O texto fala do grande temor dos três discípulos, mas a descrição que dá é, uma vez mais, convencional. O temor e a perturbação dos discípulos são a reacção natural de qualquer homem ou mulher diante da manifestação da grandeza, da omnipotência e da majestade de Deus.

Jesus toca os discípulos, com um gesto que lhe é habitual e que traz a salvação aos doentes. Encoraja-os, dizendo: «Levantai-vos e não tenhais medo». Também esta dupla ordem é habitual em Jesus. Jesus é familiar, amigo; ao mesmo tempo ele é o Senhor, cuja palavra traz a tranquilidade e segurança.

O retorno de Jesus à condição habitual da sua existência terrena é enunciado sem ênfase, como a constatação dum facto de que foram testemunhas, mas de que não se saberia dizer nada mais. Como aconteceu? Como comentá-lo? Eles viram Jesus sem glória, no fim, isto é, só Jesus. O acontecimento conclui-se com a mesma simplicidade e falta de preparação com que tinha começado.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


Pensamento...

 

Deus traçou o caminho de cada um: o voo do

falcão não é igual ao do cisne, mas isso

pouco importa, desde que cada um sirva a

verdade e a justiça.

(Tolstoi)

 

 

"Sempre comigo e em mim"

 

Senhor, 
disse um autor espiritual que 
“com a Tua Cruz não vens abolir a morte e o sofrimento, 
nem mesmo explicá-lo, mas enchê-lo da Tua presença”. 
E assim é de facto! 
No meu sofrimento ninguém me pode acompanhar, 
ninguém pode sentir a minha dor senão eu só, 
ninguém pode conhecer o seu tamanho, 
a sua ordem de grandeza. 
Mas Tu, Senhor, podes tudo isto 
e sentes comigo e em mim 
o que eu sinto e sofro. 
Conheces tudo o que sinto 
a partir de dentro de mim. 
Acompanhas-me, Senhor 
e o saber-me acompanhado e compreendido 
é o melhor bálsamo para as minhas dores físicas e morais. 
Tu e Tua Mãe estão sempre comigo e em mim! 
Ofereço-Tas para a salvação dos meus irmãos!

Uma monja carmelita


I Domingo da Quaresma – Ano A

 

 


Breve comentário

No 1º Domingo da Quaresma a liturgia propõe-nos o texto das tentações de Jesus segundo o evangelho de Mateus. Trata-se duma composição sugestiva e rica de aspectos teológicos e espirituais. O quadro cenográfico é constituído pela sucessão de três sequências: o deserto, o templo de Jerusalém, um monte altíssimo. Sobre este fundo enfrentam-se os dois protagonistas num diálogo, ou melhor, numa disputa escriturística: Jesus e o diabo.

Na cena introdutória Jesus está no deserto, onde foi conduzido pelo Espírito. O narrador apresenta imediatamente também o outro protagonista, o diabo, que tem o papel de tentador. Uma anotação circunstancial e de tempo precisa a condição de Jesus no deserto: sente fome depois dum jejum total de 40 dias. Este é o cenário do primeiro diálogo, introduzido pelo diabo tentador com uma proposta que se liga à condição de Jesus faminto pelo jejum no deserto. De cada vez o diabo, para formular a sua sugestão tentadora, serve-se do cenário que ele mesmo vai mudando oportunamente. Por fim, à ordem decisiva de Jesus «vai-te Satanás…», o diabo retira-se e anjos aproximam-se para assistirem Jesus.

                        Do confronto das três sequências e dos respectivos diálogos pode verificar-se um crescendo para a terceira cena, na qual o drama se resolve. Jesus desmascara o «tentador» identificando-o com o adversário de Deus, Satanás. Com uma ordem peremptória, motivada por uma fórmula bíblica, que recorda a confissão de fé em Deus, único Senhor, ele encerra o debate.

As duas primeiras sugestões diabólicas baseiam-se no título «Filho de Deus», revelado na cena baptismal. Na terceira, a proposta do tentador assenta numa condição que muda completamente o estatuto de Filho de Deus. Aqui não há lugar para alternativas. Por isso, a resposta de Jesus não pode deixar de ser uma recusa total e a ruptura completa com as sugestões diabólicas. Até este momento, a iniciativa era deixada ao diabo; agora Jesus muda os papéis e afirma a sua escolha irreversível.

As três frases bíblicas, tomadas do livro do Deuteronómio, estão dispostas em ordem decrescente: Dt 8,3 – Dt 6,16 – Dt 6,13. Considerando os episódios bíblicos evocados, tem-se a ordem de sucessão da história bíblica: o maná no deserto (Ex 16); a água da rocha (Ex 17,2-7), o dom da terra (Dt 34,1-4). Portanto, para a organização do texto de Mateus contribuiu, para além dos elementos supra mencionados, também uma preocupação temática conexa com a utilização dos textos bíblicos e as situações que eles evocam em relação ao caminho de Israel e às provas no deserto.

A perícopa evangélica das tentações assemelha-se mais a uma controvérsia escriturística que a uma narração biográfica. Mas, ao contrário das outras controvérsias evangélicas, aqui o fio narrativo tem traços que encontram paralelo nos textos de estilo apocalíptico. Entre estes pode salientar-se a apresentação do «diabo» tentador, chamado «Satanás», que conduz Jesus à cidade santa, sobre o pináculo do templo, ou à montanha altíssima, donde se vêem os reinos do mundo com a sua glória, e, finalmente, a aparição dos anjos.

A chave de interpretação das tentações pode ser sugerida pelas referências explícitas ou implícitas aos textos e situações bíblicas.

O quadro introdutório – Jesus conduzido pelo Espírito para ser tentado – tem evidentes ligações com Dt 8,2 em que se diz que Deus «conduziu Israel durante quarenta anos pelo deserto para pô-lo à prova» (pôr à prova = tentar). A prova, explicitamente mencionada, é a da fome, a que corresponde o maná doado por Deus para fazer entender que o homem não vive só de pão mas «vive de quanto sai da boca de Deus» (Dt 8,3). O evangelista retocou este cliché bíblico para o fazer enquadrar com a sua perspectiva espiritual e teológica. O agente da tentação já não é Deus, mas «Satanás», mais conforme à evolução das concepções bíblicas e judaicas do post-exílio.

Além disso, Jesus é guiado para o deserto pelo Espírito descido sobre ele por ocasião do baptismo, como Israel é guiado pelo Espírito do Senhor, segundo Is 63,14. Mateus indica que Jesus jejua no deserto «quarenta dias e quarenta noites», segundo um formulário que se liga à figura bíblica de Moisés que, no encontro com o Senhor no Sinai, permanece com o Senhor «quarenta dias e quarenta noites sem comer pão e beber água» (Ex 34,28; Dt 9,9.18; cf. o caminho de Elias no deserto: 1Rs 19,8).

A referência a Moisés está subjacente provavelmente também na cenografia da terceira tentação. O «monte altíssimo» do qual se podem ver todos os reinos do mundo e a sua glória recorda o episódio de Moisés que sobe ao Monte Nebo, do qual o Senhor lhe mostra toda a terra prometida e lhe diz: «Este é o país pelo qual eu jurei a Abraão… eu o darei à tua descendência» (Dt 34,1-4).

Os dois textos do Deuteronómio a que Jesus se liga para recusar as propostas diabólicas, apelam às três situações de prova vividas por Israel no caminho do deserto: o maná (Dt 8,3); a água da rocha (Massá – Dt 6,16), e finalmente a posse da terra que pode fazer esquecer Deus para seguir outros deuses, (Dt 6,13; cf. 8,19). Numa palavra, as três tentações de Jesus, segundo o evangelho de Mateus, percorrem as etapas de Israel, chamado a viver a fidelidade com Deus nas situações de crise. Com uma diferença: onde Israel falhou na relação filial por causa duma falsa procura de segurança, Jesus confirma o seu estatuto de Filho único de Deus numa relação de absoluta fidelidade a Deus.

            A tentação dos pães – A fome de Jesus no fim de quarenta dias de jejum é só uma ocasião imediata para a sugestão do tentador. Neste fundo projecta-se a tentação de Israel que tem medo de morrer de fome no deserto (Ex 16,3). Numa correcta visão de fé, o dom do maná era só um sinal da fidelidade de Deus para que o povo compreendesse que a palavra de Deus «conserva aqueles que crêem nele» (Sb 16,26). A resposta de Jesus, recusando-se a realizar o papel messiânico num contexto espectacular e prodigioso, liga-se a esta perspectiva de fé, acentuando a linha da humilde e confiante adesão à palavra de Deus que é fonte de vida para o crente (Dt 8,3).

            A tentação do templo – A segunda tentação assume ainda uma conotação messiânica pelo cenário em que desenvolve: sobre o pináculo do templo de Jerusalém. De facto, espera-se a manifestação do Messias num contexto de prodígios, exactamente sobre o monte Sião, onde se ergue o templo de Deus. A nova proposta do tentador desta vez tem uma cobertura religiosa, porque, em sintonia com a primeira resposta de Jesus, apela para a «palavra» de Deus, que promete protecção ao justo que se encontra em perigo (Sl 91,11-12). Mas Jesus desmascara esta pseudo-religião que pretende servir-se de Deus. Apela à palavra de Deus que traça o caminho de fidelidade contestando toda a intenção humana de desafiar e instrumentalizar Deus (Dt 6,16).

            A tentação do poder – Na última tentação diabólica para desviar o Messias do seu projecto de fidelidade a Deus estão presentes as esperanças messiânicas que alimentaram os movimentos de insurreição da Palestina.

Ao Messias davídico, entronizado sobre o monte Sião, ao lado do santuário de Deus, são prometidos os reinos da terra (Sl 2,6.8; 110,1-2). Porém, a condição posta pelo tentador é a adoração idolátrica que representa a infidelidade radical a Deus, único Senhor. De facto, Israel na posse da terra esqueceu e traiu a sua relação com o único Deus, prestando culto a outras divindades e sacrificando aos demónios (Dt 32,15-18). Não é aquele o caminho de fidelidade traçado pelo princípio fundamental que o crente hebreu recita em cada manhã: «Escuta Israel: o Senhor é o nosso Deus; o Senhor é único» (Dt 6,5). A conquista e a instauração dum poder imperialista em nome de Deus é uma perversão diabólica da verdadeira relação de fé que reconhece a única senhoria de Deus.

O cenário das três tentações encerra com um quadro ideal que é prelúdio da vitória definitiva de Jesus. Ao seu serviço estão agora os anjos que acompanharão a sua vinda como juiz e Senhor universal (Mt 16,27; 24,31; 25,31). Aquele pão que ele recusou obter de maneira taumatúrgica usufruindo do seu estatuto de Messias, recebe-o agora como sinal da fidelidade de Deus. Aquela assistência divina que não reivindicou como privilégio messiânico na cena do templo, obtém-na no fim do seu caminho humano de fidelidade.


P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

VIII domingo do tempo comum – Ano A

 

 

Breve comentário

                O texto deste domingo, na continuação do Sermão da Montanha, apresenta uma série de exortações acompanhadas de comparações, tiradas da observação da vida comum ou da natureza.

            A primeira exortação encerra-se com a alternativa radical: Deus ou dinheiro, baseando-se na ideia de que um servo não pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. A imagem de «servir», unida ao vocabulário afectivo (odiar, amar) tem uma carga de conotações religiosas. O serviço ao único Deus é definido como «amá-lo com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças» (Dt 6,4-5.10-12). Em nome desta dedicação total ao único Deus e Senhor contesta-se toda a idolatria, isto é, servir a outros deuses e senhores. Neste fundo religioso compreende-se o rigor da escolha evangélica que se opõe ao ídolo contrário a Deus: o dinheiro, quando considerado como única fonte de confiança.

            A segunda exortação refere-se à não preocupação com as necessidades elementares, como são a comida e a roupa. A motivação do discurso evangélico assenta na hierarquia de valores, com uma referência à acção criadora de Deus. Quem deu a vida e o corpo não proverá também ao que lhes é necessário?

            Os exemplos que se seguem partem precisamente desta ideia de Deus criador e providente. Deus provê comida a todos os animais, mesmo aos mais simples. O mesmo argumento serve para os lírios do campo, que se apresentam com beleza e esplendor, e para a erva, imagem do aspecto efémero e mortal da existência humana. Por isso os discípulos que se preocupam demasiado com a comida e com a roupa revelam uma fé débil que desconfia da generosidade e poder de Deus Pai: são «homens de pouca fé» (cf. Mt 8,26; 14,31; 16,8).

            A partir destes exemplos, o discurso continua com uma exortação directa aos discípulos, definindo como prioridade a procura do Reino que se traduz na «justiça» do Pai celeste, isto é, a procura da vontade de Deus, numa atitude de confiança absoluta no Pai celeste que «bem sabe que tendes necessidade de tudo isso».

            A justiça do reino é um tema caro a Mateus, entendido aqui como uma procura activa de tal justiça como é revelada pelo ensino de Jesus, isto é, a procura da vontade de Deus. A preocupação principal do crente deve ser o reino de Deus e a sua justiça, bem supremo. Este desejo de fundo torna-se uma regra geral válida em todas as circunstâncias. Todas as outras coisas devem ser esperadas de Deus e pedir-lhe com a confiança de filhos ao Pai providente e carinhoso que de certeza não nos fará faltar quanto é necessário para a nossa vida. A adesão a Deus orienta as nossas escolhas nos campos da vida quotidiana e liberta-as não só do egoísmo, mas também duma visão demasiado curta que não nos permite viver verdadeiramente.

            Uma ânsia excessiva em relação às pequenas ou grandes necessidades quotidianas pode ofuscar o interesse e a recordação do objectivo e tirar o sentido da existências, inclusive anular a nossa relação com Deus, que é fundamental para que a vida tenha significado: a plena comunhão com Deus, o nosso Pai celeste.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

Mensagem para a Quaresma 2014

 

Amados diocesanos

[1] A Missão Jubilar que vivemos, na celebração dos setenta e cinco anos da restauração da nossa diocese, foi um belo e bom caminho percorrido pela Igreja de Aveiro. Cumprimos, de forma criativa, múltiplas e abençoadas etapas ao serviço da evangelização. Sabemo-nos discípulos de Jesus Cristo e portadores da alegria do evangelho. Sentimo-nos chamados, através de um novo dinamismo pastoral, a ser fermento, sal e luz, como presença da Igreja nesta casa comum da humanidade que é o mundo.

Ancorados em Cristo, tivemos a ousadia evangélica de nos lançarmos ao largo sem receios nem preconceitos. Quisemos ver os outros e olhar o mundo com os olhos de Deus. E, a partir daí, descobrimos com alegria que éramos muitos mais do que imaginávamos a levar a boa nova das bem-aventuranças do reino a todos os lugares da diocese.

Discípulos missionários e mensageiros de Jesus e por Ele enviados em missão, cruzamo-nos, neste tempo jubilar, nos caminhos da diocese e encontrámo-nos no seio das realidades diárias.

A tarefa não terminou! Apenas uma etapa se cumpriu! A Missão Jubilar revelou-nos, com maior clareza, este amor primeiro de Deus por nós e abriu caminhos novos à missão da Igreja de Aveiro. Esta é a hora de continuar e de prosseguir este caminho!

 

[2] Neste espírito da Missão Jubilar, proponho-vos nova caminhada para o tempo forte da Quaresma e do Tríduo Pascal com o lema: “Nesta Quaresma, atreve-te…”.

Na sua mensagem para esta Quaresma, o Papa Francisco inspira-se no texto de São Paulo: “Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza” (2 Cor 8, 9).

Esta Quaresma, vivida com o dinamismo apostólico e a pedagogia pastoral que a Missão Jubilar nos deu, encontra a Igreja de Aveiro “pronta e solícita para testemunhar a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo cada pessoa” (Papa Francisco, Mensagem para a Quaresma 2014).

A caminhada de Quaresma, para a qual vos convoco, quer ajudar-nos a viver, a fortalecer e a desenvolver esta feliz experiência do amor de Deus e de comunhão entre pessoas, famílias, comunidades e movimentos. Vamos colocar, em cada semana, a Palavra de Deus no coração do caminho para a Páscoa e fazer da Quaresma tempo de descoberta da alegria do evangelho.

Centremo-nos na liturgia de cada domingo da Quaresma. Aí se inspira o desafio semanal, a aclamação ao evangelho e o compromisso de acção. Aí encontraremos a imagem inspiradora para a semana e a oração pessoal de cada dia, que facilmente transformaremos em oração familiar e comunitária.

 

[3] Escuta  |  Liberta-te | Transforma-te | Orienta-te  | Renova-te | Manifesta-te | Vive, são desafios que a caminhada de Quaresma nos apresenta e compromissos a que a Quaresma nos convoca.

São apelos de renovação espiritual ao alcance de todos: sacerdotes, diáconos, consagrados e leigos.

São imperativos de conversão, que queremos assumir como pessoas e como comunidades, e caminhos de transformação humana e social, que vamos percorrer, para que o mundo sinta a ternura do amor de Deus e a força da esperança para vencer a “miséria material, moral e espiritual” (Papa Francisco, MQ 2014).

Coloco esta mensagem no coração de todos os diocesanos, crianças, jovens, famílias, doentes, idosos e emigrantes, para que em todos se retome e reavive a bela experiência jubilar, que nos leva, em cada momento da nossa vivência eclesial, ao encontro de quantos habitam esta nossa casa, que é a diocese de Aveiro.

 

“Que Deus sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e a solicitude para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos asseguro-vos a minha oração e peço-vos que rezeis por mim.

Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde”  (Papa Francisco, MQ 2014).

 

Aveiro, 10 de Fevereiro de 2014

António Francisco dos Santos, bispo de Aveiro

 

 

 

Mensagem de D. António Francisco à diocese de Aveiro

 

Mensagem à Diocese de Aveiro

 

Caros Diocesanos

Nesta hora, não encontro outras palavras senão estas ditas, por Deus quando chamou Abraão: “Deixa a tua terra, a tua família e vai para a terra que eu te indicar” (Gén 12, 1).

Foi à voz de Deus e seguindo o Seu chamamento que sempre parti. Desde a minha primeira missão, como jovem diácono, nos confins do Alto Douro.

Em todos os lugares permaneci e trabalhei, por pouco ou muito tempo, com alegria. Sempre me senti livre para daí partir no dia seguinte, se necessário fosse. Sempre, de igual modo, me senti disponível para aí permanecer.

De todos os lugares fiz minha terra até ao fim. De todas as pessoas sempre me senti irmão. Em todos os lugares onde vivi e nos diferentes múnus que a Igreja me confiou eram previsíveis as mudanças. Menos aqui!

Aveiro era para mim lugar, desígnio e missão até ao fim. Nunca aqui fui estranho nem me senti estrangeiro. Mas, hoje, compreendo, melhor do que nunca, que também aqui era simplesmente peregrino. Só Deus basta e só Cristo permanece.

Pedi a muitos dos nossos sacerdotes em cada ano que, por imperativo de missão, deixassem terras e comunidades e partissem, com alegria e coragem, para outras terras e novas comunidades. Agora tenho eu mesmo de ser coerente e consequente com o que pedi aos outros.

Aveiro era a minha casa e a minha família, pensava eu! Aqui encontrei barco e remos à minha medida. Sempre senti que Cristo ia ao leme. Nunca me faltaram colaboradores dedicados, dispostos a remar ao meu lado e disponíveis para a missão.

A Missão Jubilar ajudou-nos a ser uma Igreja una e unida. Percorremos “um belo e bom caminho” como Igreja feliz, decidida e mobilizada para acolher e anunciar a “alegria do Evangelho”.

Agora é tempo de partir. Sem vos deixar. Parto de amarras soltas, agradecido por esta Igreja de Aveiro que sirvo e tanto amo. Sei que vou acompanhado pela amizade, oração e dedicação de todos os aveirenses.

À voz de Deus e ao mandato da Igreja eu só posso dizer “Sim” por entre desafios, temores e surpresas. Sempre me senti sereno quando obedeci. Sempre reencontrei a liberdade interior quando, depois de dúvidas e receios, venci o temor e disse sim a Deus e à Igreja.

De coração livre e disponível para a Missão, quero, ajoelhado diante de Deus e de olhar voltado para a Mãe de Deus e para Santa Joana, Nossa Padroeira, dizer sim à Igreja que agora me chama a servir a Diocese do Porto.

Acompanhai-me com a vossa amizade e oração, como sempre fizestes ao longo destes oito anos e abençoai-me nesta nova e difícil missão a que Deus me chama. Vivei esta hora comigo.

Com a bênção do vosso bispo e vosso irmão.

 

Aveiro, 20 de Fevereiro de 2014


 

 

Mensagem para refletir...

 

Li um dia destes dias que os pais cometem pelo menos 6 erros na educação dos filhos, por excessiva protecção: ao ler a descrição dos erros: percebi que os cometo todos os dias, várias vezes por dia… porque os amo, porque não quero que fiquem tristes, porque não quero que passem por dificuldades, porque não quero que ninguém os magoe…

Mas, se calhar também não os deixo crescer, não aprendem a ser grandes, não são capazes de resolver os seus próprios problemas.
Senhor, ensina-me a amar os meus filhos, como Tu nos amas. Quando caímos, estendes a tua mão, quando nos sentimos sós, sabemos que estás presente, quando erramos, temos certo o teu perdão, perante o nosso arrependimento! Assim crescemos como teus filhos, aprendemos a ser tuas testemunhas.
Senhor ensina-me a amar os outros, como Tu me Amas! 

Anónimo

 

VII Domingo do Tempo Comum – Ano A

Breve comentário

                Este texto, com dois comentários de Jesus acerca de dois princípios da Lei, é a continuação do Domingo passado.

            «Olho por olho, dente por dente» faz referência à lei mais ampla de Ex 21,23-25: «vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé,queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão». Este princípio, que já se encontra no velho código de Hammurabi do séc. XVIII a.C., conhecido como «lei de talião», apesar de parecer uma lei dura, estabelece a proporcionalidade da justiça em relação ao direito lesado, para limitar e controlar a vingança.

O princípio alternativo, formulado por Jesus, tem um valor programático: «Não vos oponhais ao mal». A exemplificação que se segue não é exaustiva, mas puramente indicativa, elencando algumas situações de injustiça e de afronta, típicas do ambiente palestinense antigo.

O primeiro é o caso de insulto. A bofetada com as costas da mão na face direita era considerada particularmente injuriosa, estando prevista uma pena pecuniária mais grave do que para um murro ou uma simples bofetada. A atitude sugerida neste caso inspira-se no modelo do Servo de Yahweh de Is 50,6: «Não ocultei o rosto às injúrias e aos escarros».

O segundo exemplo adquire a sua eficácia paradoxal sobre o fundo da norma bíblica a propósito dos penhores: Se tomares como penhor o manto do teu próximo, restitui-o ao pôr do sol, porque é a sua única coberta..» (Ex 22,25-26). No caso de processo por hipoteca sobre as vestes do devedor, o princípio evangélico contra a represália propõe uma conduta que vai além dos direitos essenciais tutelados pela lei bíblica: «Deixa-lhe tembém o manto».

A terceira forma de injustiça ou abuso de poder é o da requisição para uma corveia, isto é, para um trabalho gratuito obrigatório, por parte da autoridade militar ou dos funcionários públicos, que implique uma caminhada.

Ainda num contexto jurídico se coloca o último exemplo, o do empréstimo, para o qual a lei bíblica recomenda a gratuidade sobretudo se é destinado a um indigente (Ex 21,24). Neste caso, trata-se da renúncia espontânea do direito próprio a favor daquele que se encontra em estado de necessidade.

A ideia fundamental subjacente a este princípio não é apenas estabelecer princípio da não-violência mas evitar o recurso à legítima defesa, à reivindicação cega dos direitos pessoais, o que seria uma forma velada de uso da lei de talião.

«Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo». Este princípio, que surge como lei, não está escrito em parte alguma mas é a formulação duma prática antiga. O amor do próximo estava bem estabelecido entre o povo hebreu pela lei de Lv 19,18 mas era limitado apenas aos membros do povo, traduzindo-se numa hostilidade para com os estrangeiros e os inimigos religiosos, como lemos expressamente no Salmo 139,21-22: «Não hei-de eu, Senhor, odiar os que te odeiam? Não hei-de aborrecer os que se voltam contra ti? Odeio-os com toda a minha alma. Considero-os como meus inimigos».

A esta mentalidade contrapõe-se nitidamente o imperativo evangélico que estende o princípio do amor aos inimigos. A motivação e a fonte deste modo de agir apenas se pode encontrar no estilo do Pai Celeste que ama e beneficia, de modo desinteressado, justos e injustos. O amor para com os inimigos sem descriminações religiosas e morais é também a verificação e realização daquele estatuto de filhos de Deus que foi prometido aos discípulos na proclamação das bem aventuranças. Outra forma de agir torna dos discípulos de Jesus iguais a todos os outros, inclusive àqueles que eles mesmos criticam pelo seu estilo de vida.

Para o judaísmo em geral, a perfeição estava na escrupulosa observância dum código de leis. Os discípulos são chamados a ser perfeitos, imitando os traços característicos do amor benigno e misericordioso de Deus. A perfeição está na dedicação total a Deus, realizada por meio daquele amor activo e universal que é revelado e tornado possível no encontro com Jesus, o Cristo.

P. Franclim Pacheco

 

Diocese de Aveiro

 

 

"Para percebermos e saborearmos que vale a pena viver,

não obstante todas as dificuldades e surpresas que a vida nos vai trazendo,

é fundamental a aceitação, o calor humano, o carinho dos que nos rodeiam.

Nem sempre reconhecemos esse dado elementar;

nem sempre valorizamos suficientemente 

o que outros fazem ou significam para nós;

e também, com frequência, não somos capazes de ajudar 

a que os outros façam essa experiência 

e acolham o valor da vida como o grande dom de Deus.

Afinal, o segredo da vida que vale a pena viver 

está, muitas vezes, bem perto de nós.

Mas, por distracção, indiferença, egoísmo, incapacidade de doação, 

não sabemos descobrir e agarrar esse tesouro."

Anónimo

“Todas as vezes que a palavra impossível aparece no meu caminho, Jesus Cristo vem e apaga o im.”

 

Novo Conselho Económico da Paróquia

 

 

VI Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

 

Breve comentário

            A primeira parte do texto (vv. 17-20) apresenta alguns aspectos que merecem a nossa atenção e que, no fundo, são a chave de leitura para o que se segue. No início fala-se de «Lei ou profetas», mas depois restringe-se o discurso à «Lei» e aos «preceitos mínimos» e, finalmente, requer-se uma «justiça» superior à dos representantes do judaísmo para entrar no «reino dos céus».

            A fórmula «Lei ou (e) Profetas», que ocorre quatro vezes no evangelho de Mateus, começa por exprimir o conjunto da revelação bíblica no seu valor normativo e profético. Mas parece que Mateus apresenta a dimensão profética o critério para interpretar a Lei (Pentateuco) do Antigo Testamento. Nesta perspectiva se deve entender a afirmação final «dar cumprimento». Na missão histórica de Jesus, nas suas palavras e gestos, está a plena revelação e realização da Lei nas suas intenções proféticas.

            O iota (i) é a mais pequena letra do alfabeto grego; o ápice é um sinal gráfico pequeníssimo. A ideia é que nada da Lei é eliminado. Por outras palavras, a Lei, tal como a profecia bíblica, cumpre-se agora em Jesus, intérprete e promulgador definitivo da vontade de Deus. Por isso, a sua reinterpretação autorizada dos mandamentos não tem o objectivo de abolir ou revogar nada da Lei, mas manifestar e realizar plenamente as suas intenções originais e profundas.

            Tendo isto em conta, segue-se a recomendação aos cristãos e aos mestres responsáveis em particular, não dum mero cumprimento mecânico e exterior da lei e dos preceitos, mas dum empenho e uma fidelidade e coerência total à vontade de Deus como é reproposta e interpretada por Jesus.

            É nesta perspectiva que se deve entender o confronto entre a «justiça» dos escribas e fariseus e a «justiça» dos discípulos. Esta nova «justiça» está na linha do «cumprimento» profético da lei em Jesus e da sua íntegra e coerente actuação por parte dos discípulos. Mais do que uma execução perfeita, exterior, exige-se a conformidade com a vontade profunda de Deus, ao nível do interior e do coração.

            A segunda parte do texto (vv. 18-37) mostra quatro exemplos concretos desta nova maneira de entender a Lei: homicídio, adultério, divórcio e juramentos.

            Colocando a Lei no interior do coração, o mandamento «não matarás!» adquire uma dimensão mais profunda. O outro não é apenas «outro», mas um irmão. Os três casos que são comparados ao homicídio, ira e palavras injuriosas, representam um novo modo de entender e praticar o mandamento antigo e, por isso, merecem castigo severo. A relação com o irmão tem uma tal seriedade que decide o próprio destino definitivo diante de Deus.

            Esta interpretação religiosa é confirmada pelas duas parábolas da reconciliação. A primeira coloca em relação o dever da reconciliação com o culto. Como pano de fundo, está a frase de Oseias citada duas vezes ao longo do Evangelho (9,13; 12,7): «Eu quero misericórdia e não sacrifício». A misericórdia vale mais que o sacrifício, isto é, o culto como relação com Deus não pode prescindir da justa relação com os homens.

            A segunda parábola exprime de modo eficaz a necessidade de entendimento e de reconciliação no seio da comunidade que, não acontecendo, leva necessariamente à condenação irreversível, aqui expressa pela palavra Geena, o vale de Hinnôm a sul de Jerusalém, cuja recordação está ligada ao uso abominável dos sacrifícios de crianças ao deus Molok e, por isso, transformada em lixeira. Ser lançado na Geena é ser considerado lixo.

            Em relação à segunda lei (vv. 27-30): «Não cometerás adultério» (Ex 20,14; Dt 5,18), a proposta evangélica inspira-se no último mandamento: «Não desejarás a mulher do teu próximo…» (Ex 20,17), mas vai além do plano jurídico para se colocar no plano das relações interpessoais profundas. No olhar do homem exprime-se o desejo de posse, transformando a outra pessoa em objecto ao serviço do seu «eu». Esta concupiscência mobiliza todo a acção a partir das intenções e decisões interiores: «no coração». As duas frases paralelas que se seguem («arranca-a… corta-a e lança-a fora») sublinham a extrema decisão que é pedida ao discípulo diante duma escolha em que está em jogo o seu destino salvífico: ele deve saber sacrificar uma parte de si, mesmo preciosa, para salvar-se.

            A terceira lei (vv. 31-32) analisada é um apêndice à lei anterior. A antiga lei de Moisés que permitia a separação dos esposos, mediante a carta de repúdio, é rejeitada e condenada como adultério. Este assunto será retomado e ampliado mais adiante (cap. 19). A excepção («excepto em caso de fornicação» – porneia, em grego), que só se encontra no evangelho de Mateus, tem a ver com a situação de cristãos que vieram do paganismo, por vezes  casados com consanguíneos, isto é, numa relação incestuosa que devia ser excluída (cf. Lv 18,6-18; Mt 19,3-9).

            A quarta lei antiga (vv. 33-37) recomendava que se mantivesse com fidelidade os juramentos e os votos feitos a Deus (Nm 30,3; Dt 23,22; Sl 50,14), proibindo o juramento falso em nome de Deus (Lv 19,12; Ex 20,7). Porém, com o decorrer dos tempos, tornou-se uma prática habitual entre os judeus o uso do juramento e da imprecação para fundamentar qualquer afirmação. Mas, para não usar directamente o nome de Deus, usavam símbolos (céu, terra, Jerusalém, templo, a própria cabeça). A proposta evangélica exclui qualquer forma de juramento na sua dupla valência religiosa e social. Sob o ponto de vista religioso, o juramento é um abuso da autoridade de Deus, invocado para cobrir a deficiência de veracidade das palavras e dos compromissos humanos. A grande recomendação feita por Jesus é em relação à verdade das palavras e dos comportamentos: «Sim, sim; não, não».

 P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

"Olhares que vão mais longe"

Jesus, 

Numas destas noites, ao chegar a casa, fiquei parada a olhar para dois carros estacionadas à nossa porta. De repente percebi que eram os mesmos há dias… um dos meus filhos, disse tranquilamente que estava enganada, os carros estavam ali há muitas semanas. Senti uma irritação a crescer. “Não é possível, estas atitudes são sinais evidentes de falta de respeito pelo próximo…numa rua com falta de estacionamentos”… interiormente pensei de imediato em recados desagradáveis e públicos, ou até na possibilidade de esvaziar uns pneus. E mastiguei ruidosamente, juízos de opinião.
Dias mais tarde, encontrei um vizinho, a quem fiz a pergunta desejada – “ sabe de quem são estes carros?” a resposta veio lenta: “ sim, são do vizinho do primeiro andar. Está desempregado e precisa de vender os carros.” Lá justifiquei a minha indignação, mas subi em silêncio no elevador. 
Não está em causa a falta de civismo que representa a ocupação abusiva de um espaço público, mas sim como fui capaz de verbalizar um juízo sobre terceiros, sem mesmo me interrogar, se haveria alguma justificação. 

Ajuda-me Jesus, a ser capaz de ter olhares que vão mais longe do que as aparências… a ser capaz de calar palavras desagradáveis … ajuda-me Jesus, a ser mais atenta ao próximo. 

Isabel Figueiredo

 

Festas das Cinco Chagas do Senhor

Do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João:

“Naquele tempo, Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: “Vimos o Senhor”. Mas ele respondeu-lhes: “Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei”. Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. Depois disse a Tomé: “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente”. Tomé respondeu-Lhe: “Meu Senhor e meu Deus!” Disse-lhe Jesus: “Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto”.

 

É Tempo...

 

 

É tempo de ser firme, de ganhar consciência, de ter objectivos e propósitos na vida.

É altura de deixar de viver apenas porque os dias se seguem uns aos outros. 

É tempo de ter ânimo, resolução e cabeça levantada.

É tempo de perceber que sem ti, Senhor, não é possível caminhar, seguro, em frente.


V Domingo do tempo comum – ano A

 

              Breve comentário

            Os quatro versículos do texto deste domingo (5,13-16) fazem a ponte entre as bem-aventuranças e o discurso programático sobre a interpretação da Lei que se segue (5,17-20). Os discípulos são interpelados directamente na segunda pessoa do plural («vós»), como na última bem-aventurança dirigida aos perseguidos. A estrutura do pequeno texto gira à volta da dupla declaração solene tem um valor ao mesmo tempo programático e exortativo: «Vós sois o sal da terra» – «Vós sois a luz do mundo».

            Os destinatários da dupla exortação são os discípulos que se aproximam de Jesus que sentado sobre a montanha (5,2), aos quais se dirige a sua instrução.

            «Vós sois o sal da terra». À partida, a expressão é enigmática porque não se vê imediatamente a relação entre o sal e a terra, aqui entendida como mundo, humanidade. No contexto bíblico e na tradição judaica o sal, que dá sabor aos alimentos, purifica-os e conserva-os, é símbolo de sabedoria (Cl 4,5-6). Em alguns textos é sinal de aliança ou de paz (Nm 18,19; 2Cr 13,5).

            A ideia do sal que perde o sabor não é possível, é um paradoxo, tal como a imagem do camelo a passar pelo fundo duma agulha. Se os discípulos não realizam a sua tarefa em relação ao mundo não servem para nada, mais ainda, arriscam-se a ser lançados fora e ser pisados pelos homens.

            «Vós sois a luz do mundo». Na tradição bíblica e judaica, a imagem da luz é antes de mais referida a Deus, à sua palavra, à lei, à sabedoria e ao povo de Israel, ao templo e à cidade de Jerusalém. Na tradição profética de Isaías, a Jerusalém futura, símbolo da comunidade, é interpelada com estas palavras: «Levanta-te, reveste-te de luz… a glória do Senhor brilha sobre ti… os povos caminharão à tua luz» (Is 60,1-3). A imagem da lâmpada colocada sobre o candelabro exprime a mesma ideia, mesmo se em termos mais familiares.

            É um absurdo pensar em esconder uma cidade, que normalmente era construída sobre um monte, por uma questão de defesa natural. Igualmente é absurdo imaginar acender-se uma lâmpada para a esconder. Acende-se a lâmpada à noite para iluminar os habitantes da «casa», isto é, os membros da «casa de Israel». O evangelista Mateus está aqui a pensar na sua comunidade de judeus convertidos ao cristianismo que vivem no meio dos outros judeus.

            A aplicação final é coerente com as preocupações pastorais práticas de Mateus. A luz, que não pode ser escondida como uma cidade situada sobre um monte ou ser colocada debaixo dum alqueire, são as «boas obras» dos discípulos. Com esta expressão indica-se toda a existência dos discípulos que se torna transparente à vontade de Deus, acolhida e realizada com fidelidade. Trata-se daquelas obras que tornam visível a justiça, a misericórdia, o empenho pela paz dos discípulos por meio das quais eles se revelam autênticos filhos de Deus. De facto, este empenho coerente e prático dos discípulos é uma irradiação da luz que deve conduzir os homens a reconhecer a fonte luminosa, Pai que está nos céus. Neste testemunho límpido e desinteressado a favor do Pai celeste realiza-se o serviço que os discípulos devem fazer à humanidade.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

                              Meditando

Custa perdoar? Custa… e  muito! Mas talvez ganhemos coragem para perdoar, se nos lembrarmos do que diz o Pe. Manuel Morujão:
“O capítulo mais difícil do livro do amor é o do perdão. É fácil amar quem nos ama. Basta fazer de espelho. (…) Mas amar quem nos ofendeu, quem se mostrou inimigo, ingrato, grosseiro, desleal... isso exige algo de grande e mesmo de heróico. É preciso saber saltar o obstáculo da ofensa (…). 
O perdão é um desafio maravilhoso (...) O perdão tem a magia de transformar uma dívida em prémio: uma bofetada em beijo, um espinho em rosa, uma ofensa em misericórdia. Não é preciso possuir dotes especiais para realizar prodígios. Simplesmente, basta amar até ao fim, sem pôr fronteiras e condições. A obra-prima do amor é o perdão” 

 

PARAR

    Estamos a chegar ao final do primeiro mês do novo ano. Parece que já vai longe a noite da passagem de ano e quase nem nos lembramos dos desejos que tínhamos nesse dia. Algumas coisas já as teremos concretizado, outras estarão a caminho. A correria do dia-a-dia pode fazer-nos esquecer as boas promessas, por isso é importante parar de vez em quando para ver como estamos a caminhar. Mas parar não significa apenas um exercício de introspecção. Parar significa estar connosco próprios e com os outros, sem agendas a cumprir e sem estar a olhar constantemente para o relógio. Parar significa dar valor ao que acontece no momento em que decidimos perceber que, à nossa volta, existem mais motivos para agradecer do que ameaças ao nosso bem-estar.  Se não paramos, a vida vai correndo sem nos dizer nada de importante, ou pior, sem que nós possamos dizer algo importante a quem merece ouvir de nós palavras que os poderão fazer mais felizes. 

António Valério, sj

 

Festa da Apresentação do Senhor – Ano A

 

 

 

 

Breve comentário

            Neste domingo, 2 de Fevereiro, a Igreja celebra a Festa da Apresentação do Senhor, meditando um texto do evangelho segundo Lucas. José e Maria são apresentados como dois israelitas observantes da Lei do Senhor, que depois do rito da circuncisão e da imposição do nome, no cumprimento normal da Lei, levam o menino ao templo quarenta dias depois do seu nascimento, a fim de ser resgatado como qualquer primogénito. Ora, esta prática não estava difundida entre os judeus ao tempo de Jesus, e não era necessário levar o menino ao Templo. Esta apresentação no Templo assume um significado teológico: o Senhor entra no seu Templo, purifica-o com a sua presença.

            Jesus veio trazer uma novidade, mas não completamente separada e distante dos costumes e expectativas do seu povo.

            Segundo a lei de Moisés (Lv 12,1-8) a mulher que deu à luz um filho era considerada impura durante 7 dias e ainda devia permanecer em casa durante outros 33 dias (no caso de ter uma menina o período era alargado até aos 80 dias). No fim deste período, a mulher devia apresentar-se no tempo e oferecer um cordeiro em holocausto uma rola ou uma pombinha em sacrifício de expiação. Se não tinha condições para oferecer um cordeiro, bastavam duas rolas ou duas pombinhas.

            A purificação dizia respeito apenas à mãe, mas Lucas fala da «purificação deles», incluindo também José. Qual o motivo? Talvez Lucas seguisse uma convicção de tipo grego, segundo a qual a impureza incluía a mãe, o filho e também todos aqueles que tinham assistido ao arto. Mais provável é que Lucas, não conhecesse bem os costumes hebraicos e se limitasse a recordá-los de modo genérico. De facto o acento está posto na apresentação do menino ao Senhor.

            O primogénito de qualquer família humana (e também dos animais) era consagrado ao Senhor (Ex 13,11ss). Num segundo momento a Lei prevê o seu resgate, através do pagamento de cinco siclos de prata (o salário de 20 dias; Nm 8,14-16). Mas, no tempo de Jesus, já não se fazia a apresentação do primogénito e, por isso, na sua narração Lucas não fala de resgate do primogénito.

            Além disso, para realizar este resgate não era necessário levar o menino ao Templo: o pai podia pagar a importância requerida a um sacerdote da aldeia. Lucas cita Ex 13,12, adaptando-o ao anúncio que o anjo Gabriel tinha feito a Maria: «o menino será chamado santo». Portanto, Jesus pertence a Deus desde o seu nascimento e não somente no momento da sua apresentação.

A purificação seria, portanto, apenas o pretexto para levar Jesus ao Templo. Enquanto descreve esta cena, Lucas está a pensar que Jesus, filho primogénito de Maria, é primogénito de Deus e, por isso sublinha que ele é apresentado ao Pai. O sentido mais profundo só se compreende à luz do Calvário, onde Jesus é a vítima sacrificada que se «entrega» ao Pai.

            Entra em cena Simeão, homem justo e piedoso, obediente à vontade de Deus, fiel ao culto no templo, confiante nas promessas de Yahweh. Também ele é um pobre de Yahweh que espera «a consolação de Israel». Não é sacerdote e aproxima-se mais da categoria dos profetas que falam e agem pela força do Espírito Santo, várias vezes referido no texto. Assim, Lucas sugere que a Lei e os profetas são as referências indispensáveis para acolher Jesus e proclamar a sua messianidade.

A promessa feita pelo Espírito Santo é que Simeão não veria a morte sem ver o Ungido do Senhor. Os pais que vieram ao templo trouxeram o menino Jesus; Simeão tomou-o nos seus braços. E é por este menino de nome Jesus que ele louva o Senhor. A Salvação de Deus que Simeão  é uma pessoa, é Jesus. Aquele que foi anunciado como Salvador é a própria Salvação incarnada.

A salvação prometida a Simeão não é reservada apenas ao seu povo, é destinada a todos os povos, às nações tal como a Israel. Em Jesus, o Deus que se tinha revelado a um povo particular, será manifestado a todos. A glória de Israel estará no facto de ser caminho pelo qual a salvação chegou aos confins da terra, de ter dado ao mundo o Salvador de todos os homens.

As palavras do cântico de Simeão sintetizam a perspectiva que o evangelista expressa em toda a obra: Jesus está no centro da história da salvação, ponto de chegada das promessas do Antigo Testamento e ponto de partida duma salvação destinada a estender-se a todas as nações chamadas a formar o único povo de Deus e que vai ser o tema central do livro dos Actos já antecipado no Evangelho.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

PENSAMENTO SEMANAL

III Domingo do Tempo Comum – Ano A

              Breve comentário,

            O texto do evangelho deste domingo desenvolve-se em duas partes: o início da actividade de Jesus e o chamamento dos primeiros discípulos.

A primeira parte é uma composição literária típica do evangelista Mateus, com uma nota temporal e outra geográfica comentada por uma citação bíblica, terminando com a pregação programática de Jesus.

            A prisão de João é para Jesus um sinal divino para dar início à sua actividade pública. A escolha de Cafarnaum, segundo o evangelista, entra num projecto divino na linha das promessas messiânicas de Isaías. Historicamente, o anúncio do profeta referia-se à libertação das tribos que viviam naquela zona; estavam em trevas, dominadas pelos assírios, mas iriam ver a luz da liberdade. Agora a Luz vem para aqueles galileus que os judeus residentes em Jerusalém desprezavam porque os consideravam pouco instruídos, ignorantes da lei e pouco observantes dos preceitos, além de serem fruto duma mistura de vários povos.

Com a confirmação profética de Isaías que agora se realiza completamente na pessoa e missão de Jesus, está a ser antecipado o tema da salvação dos gentios, além das «ovelhas perdidas da casa de Israel». Esta perspectiva salvífica conjuga-se com o motivo da «luz» que caracteriza a missão universal do servo de Yahweh, chamado a ser a luz dos povos (Is 42,6; 49,6).

Sobre este amplo fundo teológico adquire significado mais profundo a pequena frase que condensa a actividade de pregação de Jesus: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus». Já sabemos que o evangelista Mateus, que escreve para cristãos de origem e mentalidade judaicas, usa várias formas para, de algum modo, «camuflar» o nome de Deus, devido ao respeito que os judeus têm pelo seu Nome. Por isso, devemos considerar a expressão «Reino dos céus» como equivalente a «Reino de Deus».

Literariamente, esta frase é igual à pregação de João Baptista; mas o seu conteúdo é agora muito mais profundo. O convite à conversão implica uma revolução espiritual que abraça a mente e o coração como adesão integral a Deus, empenhando-se em fazer a sua vontade. A urgência e a seriedade deste convite derivam da proclamação: «O reino dos céus está próximo». Esta proximidade não consiste numa questão de tempo mas na concentração cristológica do anúncio: o reino dos céus fez-se próximo na pessoa de Jesus, nas suas palavras e gestos de salvação.

            A narração do chamamento dos primeiros discípulos apresenta-se de modo simétrico, em díptico, compreendendo três momentos: o encontro de Jesus com dois irmãos (designados pelos nomes e apresentados nas suas tarefas quotidianas e no contexto das suas relações familiares); a palavra-convite a seguir Jesus; pronta adesão dos chamados (que deixam a situação anteriormente descrita e seguem Jesus).

            Esta narração de chamamento reproduz, de forma estereotipada e estilizada, um processo histórico mais complexo que levou quatro pescadores a seguir Jesus, abandonando os seus vínculos familiares e a sua actividade. Na origem desta narração está a relação original e irreversível que se estabeleceu entre Jesus e alguns pescadores do «mar da Galileia».

O ponto focal das duas cenas paralelas é a palavra de Jesus. O seu convite soa como proposta duma nova tarefa e como promessa: «farei de vós pescadores de homens». É um convite que comporta uma partilha da sua própria missão e destino messiânico como anunciador do reino de Deus.

             Existe uma semelhança profunda com o chamamento de Deus aos profetas, pois é Jesus que toma a iniciativa, apresentando-se como um mestre diferente dos outros. Este Mestre escolhe os discípulos e não vice-versa; a sua palavra é mais actuada que explicada ou memorizada; o seguimento comporta solidariedade com o seu destino pessoal, mesmo na situação crítica da ameaça de morte. Ao longo da narração do evangelho, torna-se claro que na palavra de Jesus que chama os homens se manifesta a palavra decisiva de Deus.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

Nesta semana de oração pela unidade dos cristãos, sem cessar Te pedimos, Senhor, que nos ensines a ousar todos os gestos de encontro e todos os gestos de paz para podermos ser o sal da terra, neste nosso mundo partido e sofredor.

Reacende em nós a alegria do nosso comum batismo e de juntos confessarmos o Teu nome de Irmão e único Pastor na certeza de que Tu, Cristo Jesus, não estás nunca dividido.

A esta hora em que o dia termina, e em todos as horas dos dias que hão-de vir, guia, Senhor,  os nossos passos, nos caminhos do serviço.

E deixa que com humildade ousemos pedir, que não olhes aos nossos pecados, mas à fé da Tua Igreja e que lhe dês a união e a paz, como é da Tua vontade.

Que esta noite seja de serenidade e encontro, e nos traga o dia novo em que todos seremos um.

Anónimo

Tomada de posse do novo pároco de Ancas

19-01-2013 às 15 Hrs

PARA O SERVIÇO DO POVO DE DEUS

 

1. INTRODUÇÃO

 A morte inesperada do Padre Fernando Manuel Teixeira Pinto e o regresso a Benguela, sua Diocese de origem, do Padre Tiago Kassoma exigem que sejam dados às paróquias, que generosamente serviram, novos párocos que as possam servir pastoralmente.

Agradeço a Deus a dedicação sentida e a generosidade encontrada nos presbíteros e diáconos que asseguraram este tempo de transição e nos que assumem, a partir de agora, este acrescido serviço pastoral, sabendo que o fazem sem em nada aliviar tantos outros múnus pastorais que lhes estão confiados.

Esta permanente disponibilidade para a missão constitui um sentir fraterno de comunhão e corresponsabilidade dos diáconos e presbíteros com o bispo diocesano e revelam que para lá do imperativo duma consistente organização eclesial está presente e actuante em cada um de nós “o sonho missionário de chegar a todos” porque aí “opera a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica”, como nos lembra o Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (EG 30 e 31).

A Missão Jubilar que vivemos e os dinamismos pastorais que em nós despertou veio revelar-nos que há entre nós, na vida da Igreja e na sua acção pastoral, um manancial extraordinário de graça que urge descobrir e de generosidade que importa valorizar e me incumbe agradecer.

 Neste espírito de corresponsabilidade e de gratidão;

 

HEI POR BEM NOMEAR:

1.     P.e Querubim José Pereira da Silva, Pároco de S. Miguel de Soza, no Arciprestado de Vagos.

2.     P.e Manuel António Carvalhais, Pároco de Santo António de Vagos, no Arciprestado de Vagos.

3.     P.e Manuel Martins Simões de Melo, Pároco de S. Tomé de Paredes do Bairro, no Arciprestado de Anadia.

4.     P.e João Carlos de Almeida Carvalho, Pároco de Nossa Senhora da Assunção de Ancas, no Arciprestado de Anadia.

5.     P.e Leonardo António Pawlak, Pároco de Nossa Senhora das Neves de Angeja, no Arciprestado de Albergaria-a-Velha.

6.     Diácono Manuel Benjamim de Oliveira Simões, Colaborador do Pároco de S. Miguel de Soza, no Arciprestado de Vagos.

7.     Diácono Dario da Rocha Martins, Colaborador do Pároco de Santo António de Vagos, no Arciprestado de Vagos.

8.     Diácono Afonso Dinis Dias, Colaborador do Pároco de Nossa Senhora da Assunção de Ancas, no Arciprestado de Anadia.

 

 Aveiro, 3 de Janeiro de 2014.

António Francisco dos Santos, Bispo de Aveiro


 

 

Cada dia uma novidade

 

“…um dia igual a muitos outros. Talvez hoje encontremos em nós alguma resistência a encarar alguém ou alguma situação. Mas experimentemos um olhar diferente. Aquilo que nos vai acontecer hoje tanto nos pode fazer ter medo, ou dar apenas a impressão que não vamos encontrar nenhuma novidade. Mas pode ser também a oportunidade de colocar algo diferente onde habitualmente não está: um sorriso, um bom-dia, uma ajuda… Em cada dia vamos trazer uma novidade diferente, uma surpresa de bondade na vida de alguém. E chegaremos ao fim desta semana a perceber que, afinal, a sensação de rotina é própria de quem se deixa levar pelos acontecimentos e não por quem é capaz de agarrar a vida e faze-la sua.
Senhor Jesus, peço-te que possa trazer a bondade em cada um dos meus gestos e criatividade para a pôr em prática.”

Autor desconhecido

 

 

Festa do Baptismo do Senhor – Ano A

Breve comentário

A cena do baptismo de Jesus segue-se à apresentação da figura e pregação de João que baptizava com água para levar ao arrependimento, porque o Reino dos Céus estava próximo. Já é evidente para o leitor que aquele que é «mais forte» que o Baptista e dará um baptismo «com o Espírito Santo» é Jesus Cristo, Filho de Deus.

Quem se aproximava de João para ser baptizado, descendo às águas do Jordão, «confessava os próprios pecados» em voz alta (Mt 1,6). Desta forma, submeter-se àquele rito equivalia a declarar-se necessitado de conversão e de perdão. É muito normal que um antigo ouvinte ou leitor de Mateus, vindo a saber que Jesus Cristo, o Filho de Deus, foi ter com João a pedir aquele baptismo de conversão, se tenha sentido incomodado. Como é que Jesus se submeteu a um rito «para a remissão dos pecados»? Que pecados podia ele ter? Havia aqui um problema de fé que o evangelista procura resolver no texto.

         Mateus começa por sublinhar que Jesus se dirigiu ao Jordão precisamente para ser baptizado por João: «Então, veio Jesus da Galileia ao Jordão ter com João para ser baptizado por ele» (3,13). Mas o evangelista insere imediatamente o diálogo entre João e Jesus, pormenor ausente nos outros evangelistas. A imensa superioridade de Jesus face a João que, no entanto, Mateus reconhece como «profeta e mais do que profeta» e «o maior entre os filhos de mulher» (Mt 11,9.11), não poderia ser professada mais vigorosamente, posta como está nos lábios de João: ele sabia quem era Jesus. Então, porque é que Jesus vai receber um baptismo de conversão pelas mãos de João? O evangelista apela para a misteriosa vontade de Deus: «Deixa por agora, pois convém que assim nós cumpramos toda a justiça» (3,15). Aceitar a humilhação é «justiça»; trata-se, por outro lado, duma humilhação por breve tempo («por agora»).

Justiça é um termo característico de Mateus (5,6.10.20; 6,1.33; 21,32). Termo tipicamente judeo-palestinense, a justiça significa a fiel submissão à vontade de Deus. Essa vontade que Jesus é chamado a cumprir e que João desconhecia. De momento, é pedida a Jesus a humilhação. É um momento de Cruz. No entanto, Mateus diz: «Uma vez baptizado, Jesus saiu logo da água», talvez para fazer entender ao leitor que Jesus, ao contrário dos outros, não ficou na água a confessar os seus pecados.

E eis que se abriram os céus. Entre as diversas passagens do Antigo Testamento, algo próximo do nosso texto é o texto de Ezequiel: «Abriram-se os céus e vi visões divinas» (Ez 1,1). É a visão que consagra Ezequiel como profeta de Yahweh. Como Ezequiel, e bastante mais do que ele, Jesus é admitido à visão dos segredos de Deus; é-lhe revelada a predilecção que tem por ele o Omnipotente, predilecção do Pai pelo filho único; e recebe uma pessoalíssima comunicação do Espírito. Por esta razão ele é investido do carisma profético de modo extraordinário, que não tem paralelo em nenhum profeta do Antigo Testamento.

E viu o Espírito descendo como uma pomba e vindo sobre ele. É algo visto apenas por Jesus. O autor não sugere a hipótese de outros terem visto, nem sequer João. A atenção de Mateus está fixa apenas sobre Jesus, para o qual é reservada a visão, assim como para ele é enviado o Espírito.

O que entende Mateus acerca da aparição do Espírito em forma de pomba? A resposta é difícil, já que não existem verdadeiros paralelismos no Antigo Testamento. Talvez a primeira ideia que podia surgir, num judeu habituado a escutar a Bíblia, fosse a da familiaridade, da amizade. «Pomba» é o termo que ocorre no Cântico dos Cânticos, como forma carinhosa de tratamento. A conhecida narração do dilúvio falava da pomba como de um animal familiar a Noé (Gn 8,8-12). Provavelmente a cena levava o pensamento também a uma outra recordação bíblica: Gn 1,2: «E o espírito de Deus pairava sobre as águas». O Espírito de Deus pairava sobre as águas primordiais para dar início à criação e à vida: um início novo, uma nova criação se realizava também no Jordão.

Sobre Jesus desce o Espírito de Deus, aquele Espírito que se encontrava junto de Deus no início da criação, que tinha estado nos reis e profetas, prometido ao Servo de Yahweh e ao Messias. Desce sobre Jesus como de maneira familiar, amiga.

Todas estas ideias parecem presentes, embora de modo vago no texto de Mateus. A importância do termo «Espírito de Deus» e o seu uso frequentíssimo no Antigo Testamento, por um lado, e a ausência de coincidências verbais por outro, não parecem permitir uma delimitação demasiado rígida de passos a que fazer referência.

Ao contrário de Marcos, a voz do Pai não se dirige directamente a Jesus mas a terceiras pessoas: «Este é o meu filho amado…». A quem se dirige a voz do céu? Mateus parece ter o pensamento na Igreja, aqueles para quem escreve. Ao recordar o facto passado que ele lia em Marcos, prevalece a preocupação do presente. A narração não é impessoal, é pregação, apelo, convite, pedido de adesão de fé. Na voz do Pai, o crente acolhe uma mensagem dirigida a ele.

Este é o meu filho amado. Na versão grega do Antigo Testamento, o adjectivo «amado» equivale muitas vezes a unigénito, único, traduzindo o hebraico y?hîd. Se Mateus tem no pensamento um texto, este é provavelmente Gn 22, onde o apelativo amado/unigénito é dito repetidamente de Isaac. É evidente que o termo exprime antes de mais a ideia dum amor paterno, terno, sem rival.

Em quem me comprazo. A referência aos cantos do Servo de Yahweh, apenas acenada no adjectivo «amado», torna-se agora explícita. Do Servo sofredor o Deutero Isaías dizia: «Eis o meu servo que eu sustenho, o meu eleito em quem pus as minhas complacências. Eu pus o meu espírito sobre ele» (Is 42,1). Na passagem profética, Deus garantia ao Servo o seu sustento e o dom do Espírito; proclamava-o seu eleito e declarava comprazer-se nele. Descendo nas águas para o rito do perdão, Jesus tomou sobre os ombros a parte do Servo; o Pai confirma-o solenemente.

Mateus é mais teólogo, catequista, do que histórico. O diálogo entre o Baptista e Jesus parece ter significado só num plano de catequese. Sempre faminto e sedento de justiça, Jesus foi o modelo de adesão a Deus; por esta razão ele quis ser baptizado, aceitando a humilhação que o juntava aos pecadores: porque o Pai assim queria. E ele procurava a justiça, a vontade de Deus.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

 

 

Um ano cheio de sonhos pequenos...

Os inícios de um novo ano são tempos entusiasmados, cheios de sonhos e promessas. Queremos começar o novo ano dispostos a novas atitudes, compromissos maiores e queremos, acima de tudo, acertar com aquelas coisas que deixamos por resolver no ano que passou. Um novo ano tem esta extraordinária capacidade de nos fazer sonhar. Mas é importante não esquecer que, ao lado das grandes decisões, existem as pequenas coisas de sempre, que continuam a pedir de nós a mesma atenção. Talvez mais do que uma parte da nossa atenção, possamos antes dar uma parte ainda maior do nosso coração. Porque as coisas grandes ganham a sua consistência nas pequenas. Se não, poderemos estar a construir sobre as nuvens. Comecemos este novo ano cheio de sonhos pequenos, e os grandes, acontecerão certamente.

“Pe. António Valério”

 

Solenidade da Epifania do Senhor – Ano A

 

Breve comentário

A solenidade da Epifania encerra o ciclo da celebração natalícia, na data em que a Igreja Ortodoxa celebra o Natal; o domingo do Baptismo do Senhor abre um novo ciclo dos domingos comuns (domingos de cor verde). O textos da Epifania ajudam-nos a compreender esta celebração como a manifestação (= epifania) de Jesus Messias a todos os povos.

            Todo o capítulo II do evangelho de Mateus é composto por quatro episódios que formam uma unidade: a visita dos magos, a matança das crianças de Belém e consequente fuga para o Egipto de José com Maria e Jesus; o quarto episódio é o seu regresso depois da morte de Herodes, texto que já foi lido este ano na festa da Sagrada Família.

            Trata-se duma pequena recolha de textos bíblicos, com muitas referências a Antigo Testamento, uma narração de tipo «midrashico» que apresenta a catequese primitiva acerca do chamamento à fé dos povos pagãos, em que se misturam história, poesia, teologia, apologética e polémica.

            O Evangelho de Mateus, escrito originariamente para uma comunidade judeo-cristã e em polémica com a sinagoga, põe a claro logo desde o início que o acolhimento de Jesus por parte dos seus não foi nada triunfal, pelo contrário, encontrou hostilidade ou indiferença (S. João escreverá mais tarde: «Veio para o que era seu e os seus não O receberam»). A nota negativa inicial acentua-se no decurso do evangelho, anunciando-se que «os filhos do reino serão lançados fora nas trevas» (Mt 8,12); filhos degenerados, presentes simbolicamente na parábola dos vinhateiros homicidas (cf. Mt 21,33-44) e realisticamente quando «todos eles responderam: seja crucificado» (Mt 27,22).

            Os magos são personagens misteriosos, talvez peritos em astrologia ou uma casta sacerdotal e funcionários reais; vêm do Oriente, indicação demasiado vaga, que poderia indicar a Pérsia ou a Mesopotâmia, ou até a Arábia ou o deserto sírio.

            Admira, à primeira vista, a presença de magos, referidos com toda a naturalidade, quando em toda a Sagrada Escritura eles são condenados. A nossa narração não tem nada de condenação: é sobretudo um delicadíssimo canto à Providência que guia os Magos ao encontro de Cristo. São as primícias da futura profecia de Jesus: «Eu digo-vos que muitos virão do oriente e do ocidente e se sentarão à mesa com Abraão, Isaac e Jacob no reino dos céus» (Mt 8,11) e penhor da futura missão da Igreja: «Ide e ensinai todas as nações, baptizando-as…» (Mt 28,19). A sua viagem, os seus dons, a sua atitude, são expressões daquela prostração-adoração que, como trama unificadora, serve à teologia de Mateus para mostrar como Cristo deve ser procurado e por quem ele se deixa encontrar.

            A estrela que guia os magos é muito peculiar: aparece, desaparece, anda, pára, move-se de norte para sul e não de este para oeste como as outras. É na Sagrada Escritura que vamos encontrar este astro preanunciado pelo profeta Balaão (Nm 24,17.19) referindo-se à «estrela que se ergue de Jacob e ao ceptro que se ergue de Israel». Jesus é a Estrela que conduz até Ele, a verdadeira Luz que ilumina todos e cada um dos homens.

            O texto tem o seu centro ideal e teológico em Cristo. Ele é apresentado como o verdadeiro Rei que merece ser procurado e adorado. A Ele vêm pessoas de longe, guiadas pela luz da estrela e pelas Escrituras. Jesus é uma criança, não diz uma palavra e, no entanto, a sua existência divide os homens. Sinistros indícios atravessam a perícopa, seja na intenção persecutória de Herodes que acabará em tragédia, seja na irresponsável atitude das pessoas de Jerusalém, a começar pelos sumos-sacerdotes e escribas do povo. A morte do Messias, com a qual culminará a rejeição de Jerusalém, lança a sua sombra nesta recusa inicial. Maldade e irresponsabilidade invocam renovação e redenção. O menino está ali para isso. É necessário sabê-lo reconhecer.

            Com este objectivo Mateus ajuda o leitor com a citação bíblica (Mq 5,1) e com a figura dos Magos. Com a citação preanuncia-se a vinda do mais ilustre descendente de David que cuidará do seu povo, fazendo sua a actividade própria de Deus (cf. Ez 34). A adoração dos Magos remete o leitor para a grandeza de Cristo, filho de David, Filho de Deus e Emanuel. Assim o texto serve o interesse cristológico de todo o Mt 1–2.

            A homenagem dos Magos ao rei menino é a correcta resposta humana ao Emanuel, Deus connosco. O c. 1, apresentando a genealogia e o nascimento, ficava no mundo judaico. Com o texto que abre o c. 2, o mundo passa a englobar todos os povos. O episódio dos Magos pode ser lido como uma grande profecia: oferece indícios dum futuro inaugurado, enquanto se declara já iniciada a peregrinação dos povos anunciada por Is 60 e pelo Salmo 72. A nova comunidade é a Igreja sem fronteiras que se deixa guiar pelos sinais e pelas palavras proféticas ao encontro do seu Senhor.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

Oração

Preciso apenas de um carreiro

 

Escreveu São João da Cruz:

“ Pondo todo o cuidado em coisa mais alta
Que é buscar o reino de Deus(…)”

Senhor Deus,
Guia-me por um carreiro de silêncio e de paz,
Um carreiro que me leve a Ti,
Até ao interior do mistério.
Preciso apenas de um carreiro
Iluminado pela serenidade da Eucaristia.
Quero não me cansar de Te amar,
Como Tu jamais paras de me chamar e procurar.
Apodera-te, Senhor, do meu coração, da minha vontade, da minha memória.
Como um rio que entra no mar
Que deixe de ser eu,
Para que Tu em mim
Sejas mais e que a todos
Todo o meu ser fale de Ti.

"Uma Monja Carmelita"

 

Festa da Sagrada Família – Ano A

Breve comentário

Esta página do evangelho segundo Mateus, muito além duma crónica ou fábula, merece ser olhada na sua profundidade. Olhando com atenção o desenrolar do texto, vemos que Mateus, usando o modo dizer e estilo próprio da sua cultura e do povo judeu, está a apresentar a figura e a missão de Jesus, embora em jeito de história. A página do evangelho deste domingo passa à frente o episódio da matança dos inocentes (2,16-18) para se fixar no duplo movimento de Israel-Egipto e Egipto-Israel.

            O Egipto, para o povo judeu, tinha uma dupla valência: por um lado, ao longo dos últimos séculos, tinha sido o refúgio para os perseguidos e, por outro, foi o ponto de partida para o acontecimento do êxodo.

A ordem do anjo dada a José está recalcada na história de todos perseguidos e fugitivos da prepotência política que gera violência e morte. Nesta perspectiva, Herodes é uma figura do faraó perseguidor e de todos os que agem como ele. Mas por detrás da narração podemos vislumbrar a figura de Moisés e a história da libertação do povo de Deus. É no êxodo ? saída do Egipto ? que se realiza a relação de Israel como filho primogénito de Deus. Por isso, no profeta Oseias, Israel é chamado «meu filho».

Ao longo do seu evangelho, Mateus várias vezes estabelece um confronto entre a figura de Moisés e Jesus para apresentar este como superior. Jesus é apresentado como o verdadeiro libertador e aquele que apresenta a sua Lei sobre o monte e estabelece uma Nova Aliança. Mas, no presente texto, toda a atenção está centrada no termo «filho». A relação filial realiza-se de modo eminente em Jesus, já antes apresentado como descendente de David, no qual se cumpre a promessa da aliança messiânica: «Eu serei para ele um ai e ele será para mim um filho» (2Sm 7,14). Com a sua vida Jesus não só percorre as etapas da história de Israel mas reproduz de modo único o estatuto de Filho.

A segunda parte do texto apresenta-se em duas sequências: o regresso do Egipto e a procura dum lugar seguro no território da Galileia. O modo literário como é apresentado o regresso faz lembrar o texto de Ex 4,19b que relata a ordem dada por Deus a Moisés para fugir da ameaça do faraó. Porém, toda a atenção converge para Nazaré, terminando com uma citação-comentário.

Uma série de circunstâncias políticas desaconselha morar no território da Judeia. A isto acrescenta-se a advertência divina que impele José para a zona norte, a Galileia, mais propriamente para a pequena aldeia de Nazaré. A escolha de Nazaré não é casual mas é apresentada como fazendo parte do plano de Deus, o que é confirmado com o título dado a Jesus: «Nazareu». Este título, apresentado como se fosse uma citação do Antigo Testamento ? «o que foi anunciado pelos profetas» ? de facto é um comentário de Mateus ao facto de Jesus ter vivido em Nazaré. O evangelista faz um jogo de palavras entre «nazareno», habitante de Nazaré, e o termo «nazir» que significa «consagrado», isto é, consagrado a Deus. Jesus de Nazaré, não obstante a sua origem histórica irrelevante e a humilde condição social, corresponde ao plano messiânico e salvífico de Deus.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

Natal Jubilar

 

Tem rosto pequenino, olho vivo, cabelo preto e farto, como todas as crianças da sua etnia, aquele menino, que uma funcionária da Instituição aconchegava ternamente ao seu regaço de mãe.

Foi a última criança a chegar nesta noite para a oração inicial que fizemos, antes da ceia de convívio, à volta da mesa recheada e decorada a gosto para a festa antecipada de Natal.

O Abraão, assim se chama este menino lindo, frágil e pequenino, tem 16 dias apenas, tantos quantos este advento. O Abraão é a criança mais nova daquela instituição da Igreja onde, semana a semana ou mês a mês, chegam crianças, que não tiveram lugar em berços de família ou casa em hospedarias da cidade.

 Sabemos que a mãe do Abraão teve de recorrer a uma instituição porque foi abandonada pelo marido e não consegue sozinha cuidar do filho mais velho, que é deficiente, e do mais pequenino, que agora nasceu. Por isso desprendeu-se do mais saudável para cuidar do mais doente. São assim as nossas mães! Sempre mais próximas dos filhos que mais precisam!

Abraão é nome bíblico de pai dos crentes, de homem de amarras soltas, de arameu errante, de peregrino decidido a seguir o sonho de Deus e a fazer caminhada rumo à terra por Deus prometida. Abraão é raiz de um povo escolhido, primeiro habitante de uma terra abençoada e tronco fecundo onde se enxertam muitas gerações de gente feliz.

Num tempo de povos sem pátria, de nações sem paz, de pessoas sem-abrigo, de lares sem amor, de famílias sem trabalho, de bocas famintas, de emigrantes dispersos pelo mundo e tantas vezes rejeitados e excluídos, de suicídios a aumentar, de violência a crescer e de desalento a bater à porta de tanta gente precisamos ainda mais do Natal de Jesus.

Temos necessidade do Natal para que haja, ao jeito de Maria de Nazaré, regaços fecundos de mães onde a vida se receba, famílias onde a ternura, a bondade e a alegria se fortaleçam e comunidades cristãs onde as bem-aventuranças do evangelho se vivam em cada passo do caminho.

O melhor presépio de Jesus será sempre o coração dos pobres em espírito, dos puros, dos misericordiosos, dos pacíficos, dos que fazem das bem-aventuranças critério de vida e se sentem tocados de perto pelo amor do nosso bom Deus.

O advento tem este ano para a Igreja de Aveiro um sentido novo, porque iniciado em tempo de Missão Jubilar e vivido em plena Caminhada das bem-aventuranças. Este advento quer ser caminho iluminado pela luz da fé, pela força da esperança e pela presença do amor de Deus que se faz quotidiano da vida para milhares de pessoas e de famílias das cento e uma paróquias da nossa Diocese que se sentem mais próximas, mais unidas e mais felizes e se decidem a sonhar uma Igreja renovada e a edificar um mundo melhor.

Por isso, este advento do Natal é, para a Igreja, advento do tempo futuro, que desde já queremos antecipar e construir. No culminar da caminhada das bem-aventuranças, o Natal deve fazer-nos sentir, depois deste belo e bom caminho percorrido ao longo da Missão Jubilar, que são felizes os que acreditam que Jesus está connosco para fazer de cada um de nós presente de Deus para os outros.

A Igreja tem na mão essa grande missão: fazer do mundo a sua casa, do amor a sua arma, do tempo a sua hora, do chão da nossa terra a pátria das bem-aventuranças para ser presépio onde Jesus se acolhe e daí partir para anunciar a alegria do evangelho.

E tudo isto só se consegue se fizermos dos presépios humanos berços deste dom divino, que é Jesus, e se no rosto frágil do menino nascido na gruta de Belém descobrirmos o rosto de Deus que nos ama, nos envia o Seu Filho e nos chama a ser discípulos, missionários e mensageiros em Seu nome.

Nesse sentido e com esse espírito partilharei a Ceia de Consoada com os sem-abrigo da Cidade e de junto deles partirei para a Eucaristia de Natal na Sé.

A Igreja aprendeu com Francisco de Assis a fazer presépios para Jesus e reaprende com o Papa Francisco a ser casa de bênção e de ternura para os que sofrem e a abrir a mesa de família e de refeição aos pobres.

Celebrar o Natal é, assim, para cada um de nós, para cada família e para cada comunidade certeza de vida nova recebida de Deus, anúncio da alegria do evangelho e apelo feliz a viver as bem-aventuranças do reino.

Votos de santo Natal e de abençoado Ano de 2014.

Aveiro, 16 de Dezembro de 2013

António Francisco dos Santos, bispo de Aveiro

 

Domingo IV do Advento – Ano A

                         Breve comentário

 

                        A longa lista genealógica com que começa o evangelho segundo Mateus termina com a figura de «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo». A intenção é inserir Jesus, mais do que como um personagem da História da Salvação, como aquele para quem tudo se encaminha. Porém, Jesus, conhecido como «filho de José, esposo de Maria», não é apenas «o Cristo» (Messias), o «filho de David». Um dado de fé tradicional da comunidade primitiva proclama-o como «filho de Deus» e é esta verdade que o texto procura explicar.

                        Muitos judeus não cristãos não aceitavam que Jesus fosse verdadeiramente descendente de David. Por outro lado, o aspecto da «concepção virginal» de Jesus pelo poder do Espírito, algo difícil de aceitar na época e ainda hoje, surge também como um elemento tradicional da comunidade primitiva. O texto de Mateus procura conciliar todos estes dados para fazer uma apresentação da verdadeira identidade de Jesus.

                        O texto começa por apresentar a concepção de Jesus «pelo poder do Espírito Santo» durante o tempo que medeia entre o noivado hebraico (’erûsìn ou qiddushîn), já por si verdadeiro casamento, e a convivência matrimonial inaugurada com a introdução da esposa em casa (nissû’în). Este facto cria o pressuposto para a revelação divina que explica a «origem» verdadeira de Jesus e define o papel de José.

                        A situação de conflito que José experimenta é expressa pelas duas qualificações: esposo de Maria e «justo». Como esposo e justo, isto é, fiel à lei e tradições dos antepassados, não pode conviver com uma mulher suspeita de adultério. Por outro lado, não tendo provas da sua infidelidade, como pessoa justa, não quer expô-la à condenação com uma denúncia pública de adultério. Daqui a decisão de se separar sem processo público, fazendo uso do chamado libelo de divórcio antigo.

                        O antigo libelo de divórcio era o documento com o qual o homem deixava livre para futuro matrimónio a mulher que até esse momento era sua esposa. Era escrito e assinado por duas testemunhas, contendo a fórmula principal: «tu ficas livre para te casares com qualquer homem». Devia estar escrita em hebraico com 12 linhas, além das duas meias linhas onde assinavam as testemunhas. Este escrito devia ser entregue a sós à mulher, sem testemunhas. Deve ser a este libelo que se refere Mateus quando afirma que quis repudiá-la  secretamente, ou seja, sem testemunhas.

            Apesar de esta decisão ter algumas incongruências, toda a atenção de Mateus se volta para o sentido de «justo» que deixa de ser considerado numa dimensão ético-legal para a profunda dimensão de «justo» como aquele que cumpre plenamente a revelação da vontade de Deus.

                        Nesta situação, Deus envia-lhe uma mensagem através dum sonho e dum anjo (que significa precisamente mensageiro, quer no hebraico mala’k quer no grego angelos) do Senhor: no Antigo Testamento era deste modo que Deus falava aos patriarcas e intervinha para dar a conhecer os seus planos de salvação. Assim, tudo o que o mensageiro refere tem o esquema clássico do anúncio do nascimento dum filho, começando pelo termo eis e com a indicação da criança e de algum pormenor sobre a sua identidade (Ismael: Gn 16,11-12, Isaac: Gn 17,19, Salomão: 1Cr 22,9-10, Josias: 1Rs 13,2 e o texto de Is 7,14-17 que Mateus cita no v. 22, proposto neste domingo como primeira leitura, para o jovem príncipe filho de Acaz.

            Segundo as palavras da revelação divina, José tem um papel duplo: acolher Maria como sua esposa e dar a paternidade legal ao filho que nascerá. No primeiro caso, a justificação da ordem-convite é dada pela revelação da origem divina do filho de Maria: «o que nela de gerou é (obra) do Espírito Santo». No caso da paternidade legal – dar o nome ao filho – a motivação vem da revelação do nome «Jesus», em que se resume a sua missão salvífica: «pois ele salvará o povo dos seus pecados». A origem divina de Jesus e a sua missão salvífica são condensados no nome «Jesus», do termo hebraico Yeshûa que significa «Yahweh salva» ou «Yahweh é salvação».

            Agora se compreende porque é que José é interpelado pelo anjo como «filho de David». Acolhendo Maria como sua esposa, que espera um filho de origem divina, ele deve dar-lhe aquela paternidade legal que lhe garante o estatuto histórico de descendência davídica, na linha das esperanças messiânicas de alguns ambientes judaicos. Assim, a revelação divina não é para resolver um drama espiritual dos esposos, mas uma mensagem comunicada aos leitores para que reconheçam a verdadeira identidade de Jesus: o salvador de origem divina que cumpre as esperanças messiânicas.

            Para acentuar o significado cristológico desta revelação divina o autor acrescenta um texto bíblico que tem o valor de reflexão teológica, introduzido por uma fórmula que ocorre mais quinze vezes ao longo do evangelho: «Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta». A citação de Isaías 7,14 vem interpretar o nome «Jesus», o Senhor salvador, mediante o título profético e messiânico de «Emanuel», Deus connosco, ao mesmo tempo que acentua a concepção virginal de Jesus como sinal para a fé cristã que reconhece em Jesus, o filho de Maria, a manifestação definitiva salvífica de Deus, conforme as palavras do Senhor ressuscitado: «Eis que eu estou convosco todos os dias até ao fim dos tempos» (Mt 28,20).

            O texto conclui-se com a fiel execução da ordem divina por parte de José que realiza a sua dupla tarefa no projecto de salvação: acolher Maria como sua esposa e reconhecer o filho por ela gerado, dando-lhe o nome que lhe foi revelado pelo anjo.

   

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

"A falta de amor é a maior de todas as pobrezas."

Madre Teresa de Calcutá

 

"Em muitas sociedades, sentimos uma profunda

pobreza relacional, devido à carência

de sólidas relações familiares  comunitárias.(...) 

Uma tal pobreza só pode ser superada através da

redescoberta e valorização de relações

fraternas no seio das famílias e das comunidades,

através da partilha das alegrias e tristezas,

das dificuldades e sucessos

presentes na vida das pessoas.” 


Papa Francisco

 
 

Tema do 3º Domingo do Advento

 

A liturgia deste domingo lembra a proximidade da intervenção libertadora de Deus e acende a esperança no coração dos crentes. Diz-nos: “não vos inquieteis; alegrai-vos, pois a libertação está a chegar”.
A primeira leitura anuncia a chegada de Deus, para dar vida nova ao seu Povo, para o libertar e para o conduzir – num cenário de alegria e de festa – para a terra da liberdade.
O Evangelho descreve-nos, de forma bem sugestiva, a acção de Jesus, o Messias (esse mesmo que esperamos neste Advento): Ele irá dar vista aos cegos, fazer com que os coxos recuperem o movimento, curar os leprosos, fazer com que os surdos ouçam, ressuscitar os mortos, anunciar aos pobres que o “Reino” da justiça e da paz chegou. É este quadro de vida nova e de esperança que Jesus nos vai oferecer.
A segunda leitura convida-nos a não deixar que o desespero nos envolva enquanto esperamos e aguardarmos a vinda do Senhor com paciência e confiança.


EVANGELHO – Mt 11,2-11

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
João Baptista ouviu falar, na prisão, das obras de Cristo
e mandou-Lhe dizer pelos discípulos:
«És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?»
Jesus respondeu-lhes:
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